segunda-feira, 26 de agosto de 2013


CRIANÇA ESPERANÇA.

                                               Hugo Martins

 

Em todas as películas fílmicas com que brindou a humanidade, Charles Chaplin sempre esboça um sorriso sensaborido, mais um ricto que um sorriso, como que exprimindo sua decepção e sua rascante ironia com a “bondade” humana. De regra, ao fim do filme, Carlitos, incompreendido feito o Albatroz de Baudelaire, vê-se entregue a uma lancinante solidão e a irremediável abandono.

Os que tentaram imitá-lo não conseguiram repassar ao espectador aquele misto de ironia e velada melancolia que só o criador de Luzes da Cidade e Luzes da Ribalta conseguia imprimir no gesto tímido de levar as mãos à boca, soerguer e retorcer os ombros e rasgar, a medo, os lábios. Numa interpretação, em que se pode ler toda a dor, todo o desencanto, toda a tristeza vã, que só pintores com suas telas, que só poetas e romancistas com sua pena, que só filósofos com suas fundas reflexões ousam exprimir.

Aqui no Brasil, o teleator Renato Aragão faz muito esforço para repetir o que Charles Chaplin fazia. Só que em vão. Quando tenta mexer na sensibilidade do público com aquele risinho mentiroso, sempre abre espaço a um ranço interpretativo em que se desencava falsidade e reles sinceridade no que tenta repassar. Nada de persuasivo chega ao telespectador quando ele abre a bocarra, com o risinho pseudochapliniano, tentando convencer o populacho a aderir ao tal “criança esperança”, forma cretina de embair os tolos.

 Dizem que os grandes atores, quando dão luz a seus personagens, estes só convencerão os apreciadores de cinema se estiverem imbuídos de aura interpretativa de que sobressai a convicção de que estão encarnados vivamente neste ou naquele personagem. Ora, Renato Aragão não se inscreve no rol dos grandes intérpretes, seja no cinema, seja na televisão. Está mais próximo do palhaço de circo que do grande ator (com todo o respeito aos palhaços de circo). Os tropeções, esgares e indumentária destes sempre foram motivo do riso das crianças e nunca serviram a manobras malandras para ir ao bolso da população com propostas pilantroides.

Por trás do riso desengraçado de Renato Aragão, esconde-se um sofisma, um raciocínio enganoso global: o de que somos otários desinformados. A esperança a que ele se refere não alcança grande parte de nossas crianças, jogadas ao deus-dará, abandonadas à própria sorte, vítimas do egoísmo reinante de uma sociedade doente, perversa e mal-educada.

A esperança em foco, em outras palavras, o direito a ser gente, o direito a ter direitos encontra-se nos cofres públicos, onde dormitam os tributos que todos pagamos e são desviados por invisíveis mãos despudoradas. Nada mais evidente.

Por trás dessa história de que devemos retirar um naco cristão de nossa bolsa para alimentar programas cretinos e melosos, encondem-se intenções malignas e mentirosas. Nossa sensibilidade não pode ser enganada pelo espetáculo engalanado de uma tropa televisiva bem domesticada sob a batuta de um trágicômico maestro de ópera-bufa.

Se, no riso melancólico de Chaplin, há forte esperança de um mundo em que a sinceridade deva ser o grande sinete; no de Renato Aragão sobressaem a desfaçatez, a ignomínia e a insinceridade das sociedades em que a preocupação com o outro não passa de um grande teatro.

Não, pois, ao criança esperança global. Não sejamos mais um fantoche teleguiado pelo cordel perverso de grandes vivaldinos.

sábado, 24 de agosto de 2013


                                       Impressões de leitura

                                                               Hugo Martins

 

Findei a leitura de uma obra deliciosa: A Cura de Schopenhauer. Embora o entrecho do livro cheire a burguesismo filisteu, flagram-se, aqui e ali, alusões ao filósofo alemão, incompreendido no seu tempo, mas eterno para as gerações que se sucederam.

Com efeito, Arthur Schopenhauer, influenciou diversas categorias de pensadores e literatos. Entre os primeiros, o austríaco Sigmund Freud, o dinamarquês Soren Kierkegard e o alemão Nietzsche; entre os últimos, aqui no Brasil, Machado de Assis “Memórias Póstuma de Brás Cubas) e Augusto dos Anjos ( Eu e outras poesias).

Além do pensamento navalhante do filósofo, lemos, na obra aludida, historietas que bem demonstram a irritação do pensador com a estupidez humana.

Certa feita, uma senhora dirigiu-se a Schopenhauer, vomitando toda sorte de impropérios contra a instituição do casamento. Depois de “soltar os cachorros”, acrescentou: “entendeu?” Ao que o pensador acrescentou; “não, mas entendo muito bem seu marido”. Outra vez, um sujeitinho fez uma pergunta ao filósofo. Como este dissesse que não conhecia o assunto, o néscio ficou indignado, dizendo: “não aceito um filósofo do seu porte não desconhecer tal assunto?” Schopenhauer olhou-o e disse: “Meu caro, a sabedoria tem limites. O que não tem nenhum limite é a ignorância”. Conta-se também que toda vez que ia fazer refeições numa casa de pasto, antes de sentar-se, retirava uma moeda de ouro do bolso, punha-a sobre a mesa. Ao fim da refeição, levantava-se, repunha a moeda na algibeira e se ia. Um dia, um curioso abordou o filósofo e perguntou-lhe por que sempre fazia aquilo. Schopenhauer respondeu: “No dia em que eu aqui entrar, e alguns homens não estiverem conversando sobre mulheres e cavalos (futebol, hoje), ganharão essa moeda.”

Sua decepção com o gênero humano se traduzia pelo afeto que ele dedicava a seu cachorro Atma. A este dava o título de Sir. No entanto se o animal demonstrasse algum comportamento que o irritasse, dizia: “Fica quieto, Humano”.

Embora a obra referida no primeiro parágrafo não aprofunde o pensamento do filósofo(é esperável num best seller), o leitor deve  procurar se inteirar de obras famosas daquele pensador,  que dão bem a medida da visão trágica da existência. Dentre elas, O Mundo como Vontade e como Representação e Parerga e Paralipomena. Se, porém, não desejar encarar o pensamento do filósofo por tais obras, afunde-se num sofá e assista às novelas globais. Ou, se preferir, sente-se numa cadeira à frente do computador, ligue-se ao Facebook e pesque dos sites de terceiros as frases carameladas e ocas dos paulo coelho, augusto curi à frente, e outros idiotas da mesma cepa.

Nestas, temos a venda do otimismo barato que encanta as almas ingênuas. Na filosofia, o realismo contundente das coisas da vida, da tragicidade da existência e “outras questões prenhes de outras questões”... Amor, morte, o tempo que passa, os engodos de determinados discursos certinhos e direcionados pela influência maligna das ideologias, e tudo o mais que o tempo destrói: a fama, a beleza, a vaidade, a ânsia pelo poder e pela riqueza, a juventude e outra questões aterradoras... O menu é suficiente para despertar reflexões e banir o indiferentismo intelectual acerca dos variegados sentidos da vida.