CRIANÇA ESPERANÇA.
Hugo
Martins
Em todas as películas fílmicas
com que brindou a humanidade, Charles Chaplin sempre esboça um sorriso
sensaborido, mais um ricto que um sorriso, como que exprimindo sua decepção e
sua rascante ironia com a “bondade” humana. De regra, ao fim do filme,
Carlitos, incompreendido feito o Albatroz de Baudelaire, vê-se entregue a uma
lancinante solidão e a irremediável abandono.
Os que tentaram imitá-lo não
conseguiram repassar ao espectador aquele misto de ironia e velada melancolia
que só o criador de Luzes da Cidade e Luzes da Ribalta conseguia imprimir no
gesto tímido de levar as mãos à boca, soerguer e retorcer os ombros e rasgar, a
medo, os lábios. Numa interpretação, em que se pode ler toda a dor, todo o desencanto,
toda a tristeza vã, que só pintores com suas telas, que só poetas e romancistas
com sua pena, que só filósofos com suas fundas reflexões ousam exprimir.
Aqui no Brasil, o teleator Renato
Aragão faz muito esforço para repetir o que Charles Chaplin fazia. Só que em
vão. Quando tenta mexer na sensibilidade do público com aquele risinho mentiroso,
sempre abre espaço a um ranço interpretativo em que se desencava falsidade e
reles sinceridade no que tenta repassar. Nada de persuasivo chega ao
telespectador quando ele abre a bocarra, com o risinho pseudochapliniano, tentando
convencer o populacho a aderir ao tal “criança esperança”, forma cretina de embair
os tolos.
Dizem que os grandes atores, quando dão luz a seus
personagens, estes só convencerão os apreciadores de cinema se estiverem
imbuídos de aura interpretativa de que sobressai a convicção de que estão
encarnados vivamente neste ou naquele personagem. Ora, Renato Aragão não se
inscreve no rol dos grandes intérpretes, seja no cinema, seja na televisão.
Está mais próximo do palhaço de circo que do grande ator (com todo o respeito
aos palhaços de circo). Os tropeções, esgares e indumentária destes sempre foram
motivo do riso das crianças e nunca serviram a manobras malandras para ir ao
bolso da população com propostas pilantroides.
Por trás do riso desengraçado de
Renato Aragão, esconde-se um sofisma, um raciocínio enganoso global: o de que
somos otários desinformados. A esperança a que ele se refere não alcança grande
parte de nossas crianças, jogadas ao deus-dará, abandonadas à própria sorte,
vítimas do egoísmo reinante de uma sociedade doente, perversa e mal-educada.
A esperança em foco, em outras
palavras, o direito a ser gente, o direito a ter direitos encontra-se nos
cofres públicos, onde dormitam os tributos que todos pagamos e são desviados
por invisíveis mãos despudoradas. Nada mais evidente.
Por trás dessa história de que
devemos retirar um naco cristão de nossa bolsa para alimentar programas
cretinos e melosos, encondem-se intenções malignas e mentirosas. Nossa
sensibilidade não pode ser enganada pelo espetáculo engalanado de uma tropa
televisiva bem domesticada sob a batuta de um trágicômico maestro de ópera-bufa.
Se, no riso melancólico de
Chaplin, há forte esperança de um mundo em que a sinceridade deva ser o grande
sinete; no de Renato Aragão sobressaem a desfaçatez, a ignomínia e a insinceridade
das sociedades em que a preocupação com o outro não passa de um grande teatro.
Não, pois, ao criança esperança
global. Não sejamos mais um fantoche teleguiado pelo cordel perverso de grandes
vivaldinos.