quarta-feira, 25 de abril de 2012


ESTUDAR LATIM



                                                                                              Hugo Martins



                        Com o pragmatismo marcante dos tempos modernos, deixamos de sonhar, temos vergonha do idealismo gratuito do fazer por gostar, tememos rechaçar determinadas verdades que pululam por aí. Estudar inglês é a grande verdade. Estudar português é maçante. Estudar latim é anacrônico.

                        Nenhuma reserva em relação ao idioma de Shakespeare. Teme-se apenas o render-se à subserviência lingüística alienígena quando dispomos de um idioma tão belo e tão doce quanto a língua portuguesa, cujos predicados Olavo Bilac decantou no poema Língua Portuguesa: a velha “Última flor do Lácio inculta e bela...” Sobreestimar a necessidade de o povo brasileiro cultuar com mais amor o idioma de que é usuário é  dever de todos os que têm consciência de que o estrangeiro inicia a imposição de seus valores a outro povo pelo cultural, pelo lingüístico.

           Pode não ser dever daqueles desejar que todo brasileiro estude a língua latina. Com efeito, o estudo do idioma de Cícero e Virgílio, pelos encantos a ele imanentes, pela precisão de suas frases enxutas, pela presteza com que abre o raciocínio para alçar vôos mais altos, todos esses benefícios que dimanam do estudo da língua latina ficam para alguns, apenas para os que não alimentam preguiça mental e descobriram cedo que a racionalidade ainda é o de mais demasiadamente humano.

                             Nosso país se dá o luxo de retirar o latim do currículo escolar. Nos países europeus, o ensino de latim é obrigatório. Na Alemanha, estuda-se latim tanto quanto o alemão. O professor Napoleão Mendes de Almeida, exaltando as vantagens de se estudar latim diz, no prefácio de sua Gramática Latina, que na Áustria estuda-se latim no curso superior enquanto este durar; por outro lado, o estudante alemão é obrigado a estudar latim por nove anos.

                        Uma das maiores vantagens do estudar latim é o desenvolvimento da inteligência. O indivíduo fica mais arguto, mais observador, mais analítico. O professor Giacomo Albanese, eminente professor de Geometria costumava dizer: “Dêem-me um bom aluno de latim, que farei dele um grande matemático”. No Brasil, Giacomo Albanese e dois outros colegas italianos, aqui chegados para lecionar na condição de professores visitantes, percebendo a pobreza de raciocínio de alguns alunos, dirigiram-se ao ministro da educação e fizeram a seguinte solicitação: “Pedimos a Vossa Excelência que na reforma que se projeta se dê menos matemática e MAIS LATIM no curso secundário, para que possamos ensinar matemática no curso superior.”

            Vamos transpor para cá algumas opiniões de homens eminentes acerca da importância do ensino do latim. Seguem aspeadas e com o nome do autor.

                        Duas disciplinas são absolutamente necessárias para quem quiser possuir espírito claro e penetrante: a geometria e o latim.”(Giacomo Albanese, matemático italiano, professor nas Universidade de Pisa e S. Paulo) .

                        “O estudo do latim é uma preparação utilíssima para o estudo das matemáticas.” ( H. Poincaré, matemático francês) .

                        “ Não pergunte o que o seu filho vai fazer do latim, mas sim, o que o latim vai fazer de seus filho.” ( Prof. Harold, senador inglês).

                        “O idioma latino, um dos mais formosos, com o grego, que se falaram jamais sobre a terra.” (  Alberto  Magne, filólogo brasileiro).

                        “Antes de mais nada é preciso aprender a pensar; e para pensar certo, eu creio no poder das humanidades: latim e grego.  (General Eisenhower).

                        Este discurso tem por escopo concitar a nova direção do CEFETCE a lançar olhos para a importância de ensinar-se latim na nossa instituição. Em primeiro lugar, porque há professor preparado e disponível a enfrentar a empreitada. Em segundo lugar, a depender do divulgar a idéia, este escriba a isso se prontifica; e, por fim, porque estamos convencidos de que a maioria dos que fazem a nossa instituição está preocupada com ocupar seu intelecto com coisas nobres. Aí está! Resta a nós impulsionar a idéia.

                        Por evidente, tudo isso foi jogado na vala comum do indiferentismo...









 


                       



                       

                       








segunda-feira, 23 de abril de 2012


NAQUELE TEMPO (23)

                                                                       Hugo Martins



          O circo sempre encantou as populações interioranas. Sobretudo os mais modestos, que, às duras penas, sobreviviam, no seu nomadismo sacrificado, graças ao elenco criativo de seus artistas mambembes, formado por toda sorte de corajosos saltimbancos. Não havia luxo ou ostentação. Valiam a criatividade e a coragem de surpreender pelo inesperado e pelo insólito. A programação se reduzia à apresentação de peças teatrais de cunho sentimentalóide, alguns números no trapézio ou na corda bamba, sempre entremeados pela presença de palhaços de roupa e cara engraçadas, que só arrancavam as risadas do público por meio de ações que lembravam o cinema pastelão ou pela anedota picante, que cheirava à obscenidade moderada.

          Muitas vezes, anunciavam-se atrações, estampadas em letras grandes em frente à empanada do circo. A redação era ambígua. Numa delas, lia-se: VENHA ASSISTIR AO GRANDE NÚMERO: HOMEM ATIRA UM TIJOLO DO ALTO DO TRAPÉZIO E O OUTRO  SEGURA NO DENTE. O público, seduzido pelo inusitado ou movido pela sádica esperança de ver o destroço que podia resultar da façanha, comparecia em grande escala. Na última apresentação do dia, surgia, no picadeiro, um sujeito de cartola que, num megafone, narrava a peripécia. Enquanto rufavam os tambores, dois homens de dirigiam ao centro da arena. Um subia numa escada de corda enquanto o outro permanecia embaixo, de olhar erguido para o companheiro que, do trapézio, soltaria o tijolo. De repente, os tambores apressavam o toque a fim de criar um clima de suspense. Subitamente, o homem do alto soltava o pesado tijolo, que se espatifava no chão, e o que ficara no chão, segurava, com o polegar e o indicador, o dente incisivo (!). A platéia, entre bestificada e atônita, ao compreender a palhaçada urrava ou ria e tudo terminava a contento. Naquele tempo, parecia existir mais complacência. Afinal, o número fora fiel ao anúncio...

          Um dia, porém, um dos tais circos, recorreu ao mesmo expediente e anunciou, para o gáudio de curiosos e crédulos: NÃO PERCAM! HOJE: A MULHER QUE VIRA PEIXE. Arquibancadas e cadeiras ficaram abarrotadas para assistir à proeza. Os tambores aumentaram o clima de tensão quando uma mulher de porte alto, cabelos louros e longos, ingressou no centro do picadeiro. As luzes se apagaram. A expectativa silenciosa da assistência se exacerbava. De repente, aquela figura misteriosa, enfocada pela luz mortiça de um refletor, ergueu uma das mãos em que se via uma grande caçarola. Ela jogava para cima, em impulsos sucessivos, a caçarola, de onde saltava um pequeno peixe. Dessa forma, a mulher realmente virava, de um lado para o outro, o peixe. O número também era fiel ao anúncio, mas o circo só não foi depredado graças á intervenção da força pública local...

          O mais hilário ocorreu no dia em que um certo circo anunciou a presença do radialista cearense João Inácio Júnior. Eis a redação: NÃO PERCAM! HOJE NOSSO CIRCO RECEBE JOÃO INÁCIO JÚNIOR. Muita gente acorreu ao circo, sobretudo os amantes de rádio e as empregadas de cozinha, que nada trocavam pela oportunidade ímpar de ver seu ídolo. Como o número demorasse a ocorrer, estrugiram da platéia, em coro, gritos de toda sorte, exigindo a presença do radialista. As cortinas se abrem, surge um homem vestido de calças e casaca de azul acetinado e tendo a cabeça encimada por uma cartola desgastada. O homem anunciou: senhoras e senhores, é com alegria que este circo apresenta... Saíram de trás da empanada três anões, para quem o apresentador apontava, um a um, com a mão espalmada e bradava: o JOÃO, o INÁCIO e o JÚNIOR... Embora existisse fidelidade entre o anunciado e o apresentado, o desconsolo não conteve a ira da platéia feminina, que não titubeou em pular os limites do picadeiro para açoitar apresentador e anões...

          Não tão bons aqueles tempos, em que os jogos de linguagem embaíam a boa-fé dos homens...

         

domingo, 22 de abril de 2012


NAQUELE TEMPO (22)

                                                       Hugo Martins



            Falava-se pouco em comportamento ético, mas havia nas intenções propósitos nobres e atitudes honestas. Se hoje parece ser natural o ato de embolsar o troco a mais que alguém, inadvertidamente, repassa para o outro, naquele tempo, viam-se exemplos edificantes que robusteciam a alma e atestavam a certeza de que o agir com honestidade e lealdade é sempre muito bom.

            Existia um advogado, cujo comportamento, em qualquer situação, era modelar e dignificante. Trata-se do doutor Heráclito Fontoura Sobral Pinto. Dele contam-se histórias comoventes pelo teor humanizante que delas trescalavam. Diz-se que, mesmo sendo, no plano político-ideológico, inimigo de Luís Carlos Prestes, dispôs-se a patrocinar-lhe a defesa em tribunais corruptos, que ninguém ousava enfrentar. Ao ver o estado desonroso em que se encontrava na prisão o Cavaleiro da Esperança, dirigiu-se ao Estado brasileiro, pedindo-lhe que, se não existia uma lei para proteger aquele homem, se lhe aplicasse, pelo menos, a Lei de Proteção aos Animais... Isso é bondade gratuita.

            Conta-se que, certa feita, fora contratado por uma grande empresa para resolver uma pendenga de natureza civil. Os honorários advocatícios ficaram acertados: oitenta contos de réis. Findo o certame, o causídico saíra vencedor. Quando se dirigiu ao banco a fim de sacar seus honorários, estava depositada em sua conta a quantia de quatrocentos contos de réis. O velho advogado indagou do gerente que dinheiro era aquele que excedia os oitenta contos de réis. O gerente respondeu tratar-se de verba honorária depositada pela empresa. Sobral Pinto, então, disse que aquele dinheiro não lhe pertencia uma vez que o contrato não falava em quatrocentos de réis e mandou o gerente devolver os trezentos e vinte contos de réis ao empresário... A historieta lembra o filósofo existencialista francês que, agraciado com o Prêmio Nobel, dirigiu-se à Academia Sueca, manifestando sua recusa em receber tal comenda. Lá não pisou, tampouco recebeu o dinheiro. Isso é honra, coragem, desprendimento e liberdade... Não deve estarrecer.

            Nos estados autoritários, a primeira coisa que os ditadores cuidam de promover é a cassa (por que não caça, também?) aos direitos, entre eles o de ser ouvido... Certa ocasião, Sobral Pinto foi defender um preso político, a quem o Estado brasileiro negava aquele sublime direito. Homem corajoso, fiel ao princípio jurídico do respeito à dignidade humana, além de fortemente guindado para os princípios basilares da filosofia cristã, em defesa de seu constituinte, saiu-se com essa pérola de raciocínio, não aspeado por não se tratar de transcrição literal:

            Meus senhores, Deus, em sua onipotência, onipresença e suma bondade, mesmo sabendo da hediondez do crime que Caim cometera contra seu irmão Abel, a ele concedeu o direito de ser ouvido, quando àquele perguntou: “Caim, que fizeste a teu irmão? Se Deus assim fez, por que meu constituinte tem cerceado o mesmo direito que o próprio Deus reconheceu?” Isso é beleza, é paixão, é conhecimento, é destemor, é amor ao próximo.

            Naquele tempo, os corações se alegravam com os homens de boa vontade, estudava-se, pensava-se e havia no ar uma forte propensão para a sinceridade e lealdade, valores que dignificam e engrandecem. Naquele tempo, doutor era o que pensava e colocava seu conhecimento a serviço do próximo. Não consta fosse Sobral Pinto doutor nisso ou naquilo, a não ser bacharel em Direito. O jogo das titulações ainda não dera sua cara. Parece que a ele o autodidatismo era suficiente. Não podia se render aos apelos cerebrinos da política educacional, vendedora da ilusão de que esse ou aquele título legitimasse a competência de fulanos e beltranos...  Afinal, não era ele servidor público...  

            Bons tempos seriam aqueles, hoje...

           

terça-feira, 17 de abril de 2012


NAQUELE TEMPO (21)

                                                                     Hugo Martins

           O apelido vinha do mau odor que seu corpo exalava. Chamava-se Saruê. Cabelos ralos e em desalinho, olhar cansado por noites indormidas, seu rosto parecia padecer de eterno inchamento, provocado, certamente, pelo vício de virar copos e copos de cachaça todo dia e o dia todo. As calças compridas eram amarradas nas virilhas por um cinturão velho e largo, que acentuava a pança abaulada. Pés descalços, tropegava e só caía quando bem queria.

          Quando não se esparramava nas esquinas de calçadas, curtindo a embriaguez, cambaleava pelas ruas a dizer pilhérias e gracejos, sem nunca escorregar na indelicadeza dos palavrões e de expressões que recendessem à pornografia grosseira e deselegante. Notava-se no semblante certa aura de homem experimentado nas filosofias da vida... Desencantado com esta, parecia fazer-lhe blague. Se algumas pessoas o temiam pela língua viperina, que espalhava o açoite às almas pequenas; outras, mais sensatas, respeitavam-no pelo largo tirocínio, que enxergava de longe a desfaçatez e o fingimento próprio de alguns exemplares humanos.

          Naquele tempo, o voto dos cidadãos não tinha valor algum. Escolhiam-se administradores e legisladores pela força, poder e batuta de políticos, que ganhavam eleições pela intervenção autoritária dos coronéis da Guarda Nacional, espécies de sátrapas dos tempos de então. Embora nos tempos hodiernos a História tenha mudado de roupa, naquele tempo, a falta de vergonha era indumentária que cobria com mais eficácia a alma suja dos versados na arte de furtar e de enganar.

          Certa ocasião, deitado no alpendre da casa de um coronelão, Saruê, ferrado em sono solto, foi despertado pelo converseiro de vários políticos de língua solta e retórica oca. Aqui e ali, ouvia a voz de reformadores, homens que demonstravam (que coisa repetida!!), na pujança de suas falas, o desejo patriótico de reformar o país, acrescentando ser chegada a hora de encontrar opções de melhoria para o povo e outras baboseiras, que se repetem ao longo da triste História do país.

          Saruê, admirado e atento, pôde bem distinguir quando um daqueles senhores enveredou por um discurso moralista que, para o inveterado ébrio, não passava de conversa fiada para boi dormir, não para ele, que não era boi, já dormira o suficiente e estava bem acordado.

          Súbito, ouviu alguém dissertar sobre a vocação dos homens públicos para a secular prática de, por expedientes escusos, subtrair os recursos do erário, provindos do trabalho e, via de conseqüência, do pagamento pelo povo de escorchantes tributos. Até ali, Saruê ainda não discernira que o verbo “subtrair” não passava de jogo eufemístico para encobrir significados mais profundos entranhados no ventre da palavra. De repente, o orador, como num ato falho, recheou seu discurso com a palavra certa, a “palavramundo” a que se refere Drummond e para cuja leitura o educador Paulo Freira adverte. Dizia aquele orador “que todo político era ladrão!!!”.

          Saruê, acordou totalmente de seu transe e, com voz engrolada, ergueu a cabeça e, filosoficamente, aduziu:

          Doutor, doutor, “tá cuipando a si propi!!!”

          Um silêncio repentino caiu no meio da assembléia, e os olhos de lince e a alma sagaz do velho bêbado se fecharam indiferentes às tricas e futricas daquele sinistro parlatório.

          Bons tempos aqueles.

         

segunda-feira, 16 de abril de 2012


NAQUELE TEMPO (20)

                                                           Hugo Martins



               Não se recebia ainda o humor pronto e veiculado pela indústria cultural com bordões, que, de tão repetitivos, perdem a graça e caem no lugar comum. Se o anedotário perdeu seu encanto e frescor por força da mesmice psitacista de melancólicos e-mails, naquele tempo, as piadas e historietas de cunho humorístico surgiam em mesas de bar e em praças públicas, nascidas da sabedoria popular, arrancadas dessa natural vocação do homem do povo para fazer blague com a condição humana. Eram repassadas pela boca do povo, que, a cada conto, colocava um ponto.

          Havia um juiz numa cidadezinha do interior cearense, que provocava risos aos outros não por ser detentor de veia humorística, mas pela presença de espírito observador e pela seriedade que imprimia às palavras que proferia em dadas situações em que alguém permitia uma deixa.

          Certa ocasião, hospedado numa pensão, à hora do jantar, pediu à dona casa de pasto dois ovos fritos. A cozinheira, depois de prepará-los, perguntou ao magistrado: “Doutor, o senhor usa sal nos seus ovos?” Ao que aquele respondeu: “Não, minha senhora, uso Talco Ross.”  

            Doutra feita, sentados em um banco de madeira na antiga Praça do Ferreira, vários homens de abauladas barrigas e largas ancas conversavam sobre bancos e finanças. Em pé, ouvia a conversa o advogado Quintinho Cunha, cuja verve é bem conhecida do povo cearense. De repente, o velho banco se parte ao meio, levando ao chão todos os seus ocupantes. Dizem que o velho causídico olhou-os e disse: “A vida é mesmo cheia de contradições. É a primeira vez que vejo um banco quebrar por excessos de fundos”.

          Corriam à boca pequena muitos episódios cotidianos sobre aquele advogado. Criminalista, homem de tribuna e de raciocínio zombeteiro, não perdoava quem se metesse a besta, tentando atingir-lhe o zelo profissional. Um dia, por força da calosidade que o atormentava, foi ao Tribunal do Júri com os indefectíveis terno e gravata e trazendo nos pés largos chinelos. No calor do debate, o promotor de justiça encurralado na tese sustentada por Quintino, tentando encontrar uma saída, pensou haver dado uma tacada no experiente advogado, ajuntando: “Doutor Quintinho, o senhor insulta a lei com os pés.” Impassível, o causídico cearense rebateu: “E Vossa Excelência, com a cabeça.” O juiz vibrou várias vezes o martelo para conter a risadaria vinda da assistência.

          Existem muitas histórias no folclore do futebol cearense em que o humor exsurge da ingenuidade atribuída ao jogador daquele tempo. Conta-se que um deles, ao final da partida, indagado pelo repórter o que ele tinha achado do jogo, teria respondido: “Olhe, eu não achei nada, mas um colega meu, quando foi bater um escanteio, achou um cordão de ouro próximo à bandeirinha...” Esse mesmo jogador participava de um embate envolvendo o time do Fortaleza e a seleção da cidade de Juazeiro do Norte, por ocasião da festa dos cinquenta anos dessa cidade. Ao fim do jogo, um repórter perguntou-lhe o que tinha a dizer sobre a partida. Assim respondeu: “Achei legal mesmo e espero, no próximo cinquentenário, estar aqui de novo com nosso time, jogando e participando dessa data tão bonita...” Não se sabe se na resposta do jogador havia um quê de inocência ou fingimento poético...

          Naquele tempo o humor era assim: espirituosidade, rapidez de raciocínio e falsa singeleza. Todos gratuitos.

          Bons tempos aqueles.  

         

quinta-feira, 12 de abril de 2012


NAQUELE TEMPO (19)

                                            Hugo Martins



            Quando se viajava pelas maltratadas rodovias brasileiras, era comum avistarem-se, em pára-choques de velhos caminhões ronceiros e roncadores, frases de todo jaez, cujo conteúdo portava uma filosofia de vida. Daí a variedade de tonalidades temáticas, que, se não levavam à reflexão, provocavam laivos de risos. Havia os de feição poética, que ostentavam jogo metafórico e metonímico: “Nas curvas do teu corpo, capotei meu coração”. Outros traziam à baila advertências filosóficas: “O sol nasce para todos; a sombra, para quem merece.” Muitas vezes, a desconfiança do amor mundano e a inquestionabilidade do amor materno traduziam-se por uma certeza inabalável: “Amor só de mãe.” Alguns caminhões traziam estampados nos pára-lamas desenhos maliciosos, sob os quais se liam palavras de gosto maroto e galhofeiro.  Num deles, uma mulher retém a cauda retesa de um touro raivoso, enquanto um homem sustenta os chifres pontiagudos do quadrúpede. Completando o desenho, a legenda: “Se ela soltar o rabo, ele leva chifre.” Alguns jogavam com as possibilidades poéticas da linguagem: “Olhe para a mulher dos outros, mas mantenha a sua direita.”

            Naquele tempo, as bodegas e mercearias também punham à vista dos fregueses sentenças que visavam afugentar a velhacaria dos maus pagadores. Encimando as velhas prateleiras em que se enfileiravam garrafas de cachaça Bagageira, Pé de Tonel ou Vovó Extra, podia-se ler: “Fiado só a maiores de oitenta anos, acompanhados dos pais”, ou, então: “Fiado só no dia 31 de fevereiro.” Alguns pequenos comerciantes mais criativos mandavam desenhar um quadro em que se via, no primeiro plano, um homem de ar tristonho e desencantado, segurando um chapéu de palha surrado, a barba por fazer, olhando as prateleiras vazias do estabelecimento. Sob sua figura, a frase “Eu vendia fiado.” No segundo plano, um burguês gordo, careca e risonho, com ar de prosperidade e em meio ao rebuliço de empregados arrumando mercadorias, contava dinheiro. Por sob o desenho, a sentença “Eu nunca vendo fiado.” Para o velhaco mais bem intencionado, não bastavam meias palavras...

            Por vezes, ao invés de repelir fregueses mal pagadores, o bodegueiro recorria a uma advertência. Tal um estóico redivivo, pendurava na parede o desenho de uma caveira, trespassada por duas tíbias em forma de xis, com a frase; “Eu fui o que tu eras e tu serás o que eu sou”. Alguns donos de bar preferiam brincar com o idioma e mantinham no estabelecimento frases como estas: “È proibido entrar bêbado; sair pode.”

            Era assim que transpirava a sabedoria do povo, derramada em chistes e galhofas que dão bem a medida do espírito brincalhão dos homens daquele tempo.

            Bons tempos aquele.


quarta-feira, 11 de abril de 2012


NAQUELE TEMPO (18)

                                                                    Hugo Martins



               Instalara-se no país uma tal Revolução... Derrubou-se o governo legitimado pelo voto do povo e, desde então, passou-se a respirar o arbítrio, outorgando-se uma Carta Política, com que, cheirando a farda de milícias, tangia-se a vida pública pelo autoritarismo do tacão de borzeguins e pelo argumento irrespondível de cassetetes e patas de cavalos.

          Naquele tempo, quem ousasse pensar estaria cometendo pecado imperdoável. Aniquilaram o cogito de Decartes...  Fazer literatura, cinema, teatro e outras Artes era ser arteiro, desobediente e presunçoso... Para evitar  que uma diminuta casta de  artistas de então contaminasse a consciência do povo, criou-se uma espécie de tribunal, formado por censores que, em sua sempiterna sabujice, não titubeavam: metiam a tesoura naquilo que julgassem ofensivo ou perigoso à chamada segurança nacional.

          Nos colégios e universidades, ministravam disciplinas, cujo conteúdo  exalçava as grandezas do país, coadjuvado pelo tom, a um tempo, patrioteiro e ufanista. Estudava-se Organização Social e Política do Brasil nas escolas secundaristas e Estudos de Problemas Brasileiros nos cursos universitários. Intentava-se inocular a falsa idéia de que tudo ia bem na terra do futebol. Aliás, este servia de veículo para que “noventa milhões em ação”, politicamente narcotizados, não tomassem conhecimento de que, nos porões da repressão, uns poucos brasileiros sofressem enxovalhos, fossem torturados e morressem por entoarem um canto diferente e dissonante do rebanho bem doutrinado e comportado...

          Criou-se, naquele tempo, um Index librorum prohibitorum (Índice de livros proibidos). Qualquer obra que cheirasse à doutrina do materialismo histórico era confiscada, e seu leitor, apodado de comunista, era sumariamente preso sem direito a qualquer defesa. O grande argumento dos donos do poder a quem se atrevesse a dar qualquer explicação era essa preciosidade lógica: “explica, mas não justifica” (?). Há quem diga que um certo estudante foi preso porque se encontrava lendo O Vermelho e o Negro, obra-prima do grande Sthendal, figura proeminente das letras francesas... Aqueles senhores de baraço e cutelo não toleravam a cor vermelha...

                    Naquele tempo, criaram-se lemas. Dois deles, nefastos e cretinóides por seu tom agressivo, eram grudados em vidros de automóveis, como hoje hipócritas e fariseus de nossa sociedade violenta fazem quando pretendem pôr às claras seu duvidoso fervor, colocando à vista de todos nos seus automóveis: Deus é Fiel. Ora, existirá coisa mais sem graça?

          Pois bem, eis os leminhas disparatados: “Brasil; ame-o ou deixe-o” e “O Brasil é feito por nós”. Um apreciado humorista de pena arguta e sábia  teve que se explicar nas barras de tribunais apenas porque demonstrando saber ler, promoveu leitura crítica daqueles preceitos hipócritas. Ao primeiro acrescentou uma vírgula e arrematou: “o último a sair deve desligar as luzes do aeroporto”. Apôs outra virgulazinha marota no segundo e sapecou o complemento: “resta saber quem vai desatá-los”. É dizer: proibia-se até mesmo o ato de ler...

          Naquele tempo, havia as jovens tardes de domingo, promovidas por rapazolas de “cabelos longos e idéias curtas” (ver Schopenhauer), que dedilhavam guitarras, sacudiam a cabeça infrenemente como quem está sofrendo ataque de epilepsia e entoavam canções barulhentas à moda rock elvispreslyano. Outras vezes, choramingavam cançonetas, em devaneios amorosos e sofridos... De outro lado, o compositor ou cantor que se metesse a besta e compusesse a chamada canção de protesto, em que se denunciassem desmandos e arbitrariedades, vindos de quem quer que seja, era amordaçado e seu grito ficava como que parado no ar ou preso na garganta, como diz um compositor da época.

          Aliás, naquele tempo, a arte brasileira ficou órfã de muitos dos seus filhos. Atarantados com a atmosfera de terror e de desrespeito ao exercício do livre direito de pensar, debandaram para outras terras enquanto não se dissipassem os ventos negros e sórdidos da ditadura, que não era nada mole...

          Maus tempos aqueles!

            

terça-feira, 10 de abril de 2012


NAQUELE TEMPO (17)

                                                           Hugo Martins

          Aos domingos, as partidas de futebol no velho estádio Presidente Vargas levavam o povo a ver os times locais sem temer a violência das torcidas ou, após o certame, os atos predatórios ao patrimônio público. Os atletas eram da própria terra e, se tinham algum talento, eram admirados e não heroificados. No máximo, suas jogadas e malabarismos serviam de pasto para as conversas no Abrigo Central, ali na Praça do Ferreira, na lanchonete do Pedão da Bananada. Aqui também se tomava conhecimento das lutas de vale-tudo na Fênix Caixeiral, cujos maiores astros eram Teógenes, halterofilista que lembrava o Tarzan de Edgar Rice Burroughs; Tamiarana, negro alto, de musculatura exageradamente proeminente; e Pinheirão, um militar da Aeronáutica, que mais parecia uma das caixas d´água da antiga Praça da Bandeira, tal era sua figura alta e larga.

          Naquele tempo, havia jogadores que, descompromissados, praticavam seu futebol limpo, cheio de gingas, meneios e volteios... Não esperavam nenhum pódio ou louros transitórios. Tinham como juiz a torcida, não davam cartaz a cartolas e empresários parasitas e sugadores de talentos. Um deles, pela elegância da cabeça erguida e pela lealdade com que marcava o oponente, recebia o apodo de Príncipe. Era Damasceno, um centro-médio que passou pelos grandes times locais, homenageado por Pelé, quando, tomando a bola deste, enfiou a redonda por meio das canetas e saiu indiferente à fama de que gozava aquele outro infernal jogador. Havia no time do Ferroviário um baixinho, pouco mais de um metro e meio, cuja habilidade com a perna esquerda e visão de jogo, nunca perdeu uma convocação para a seleção local. Era Aldo, um trabalhador da estrada de ferro, que dedicou fidelidade por longos anos à torcida do Ferrim. Havia também um ponta-esquerda do Fortaleza, vindo de Limoeiro do Norte. Impressionava pela potência do chute. Era comum, após a batida do centro, entregar-se a ele a bola que, do meio do campo soltava sua patada em direção ao gol adversário. Raras eram as vezes que bola tomava caminho diferente das traves, para o alívio dos goleiros, que, de regra, vendo a pelota em sua direção, “batiam roupa” como se aquela esfera fosse uma bola de fogo semelhante a um cometa incandescente. Ninguém tinha a potência no chute como BCC. No time do Ceará, a agilidade do goleiro Aluísio Linhares valeu-lhe o apelido Caravele pelos vôos em direção à bola que ia em busca do ângulo da trave. Era uma analogia, pois, no time do América do Rio de Janeiro, o goleiro Pompéia recebera o apodo de Constelation quando alçava seus vôos para agarrar bolas altas e impossíveis. Constelation e Caravele eram aeronaves da época.

          Naquele tempo, jogava-se o bom futebol pelo futebol, com a mesma gratuidade a-útil de quem ama fazer e contemplar as Belas-Artes. Como ocorria com Harry Carey, goleiro do time do Ceará Sporting, que, para os entendidos, jogaria em qualquer time do mundo sem nada dever a ninguém.

          Também, aos domingos, quem não gostasse de futebol, buscava divertimento nos programas de rádio, patrocinados pelos produtos da fábrica Siqueira Gurgel. Calouros que cantassem ou respondessem questões variadas de vocabulário ou fatos históricos eram agraciados com barras de sabão Pavão, sabonete Singel ou latas de óleo Pajeú ou Paturi. A animação ficava por conta de José Lisboa e Peixoto de Alencar...

          Na manhã de domingo, acompanhava-se a Parada dos Maiorais, sob a batuta do locutor Wilson Machado, na Rádio Dragão do Mar. Antes de cada “página musical”, o vozeirão de Wilson Machado declarava seu amor à “loira desposada do sol, que dorme á sombra dos palmares”, chamando-a, nasalizando cada vogal, de Fortaleza do meu “cheineinein”. Ouvia-se Orlando Silva, Nélson Gonçalves, Cauby Peixoto, Ângela Maria, Emilinha Borba, Altemar Dutra, Nat King Cole e toda uma casta de cantores que “tinham voz” e embalavam o coração das gentes com letras em que a poesia legítima se derramava em inventividade e metaforizações de luz e encantamento. A vulgarização era moeda que não se contava. Depois, era ir nadar na piscininha da praia de Iracema...

          Bons tempos aqueles.



           

         



         


segunda-feira, 9 de abril de 2012


Em que estou pensando? No chamado princípio da presunção da inocência, inscrito no inciso LVII, do art. 5º, da Constituição da República Federativa do Brasil. Reza ele que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Em outras palavras: alguém comete um delito qualquer e vai a julgamento. Enquanto as leis do País a ele permitir lançar mão dos recursos existentes, aquele alguém não pode receber a tarja de criminoso enquanto o ordenamento jurídico não declarar, em sentença penal transitada em julgado, ser ele culpado. Sentença transitada em julgado é o documento da lavra do julgador, que não mais permite ao condenado recorrer a outro tribunal. Todas as oportunidades a ele abertas, enquanto porfiava por sua inocência, se esgotaram. Não há mais saída senão cumprir a pena determinada pela norma.

Estive pensando hoje naquele princípio tão científico, tão belo, tão humano, porque vislumbrei nele a mão do Cristo... Com efeito, a passagem do Evangelho que adverte o homem, o que tem uma trave no olho, de que não deve ensaiar retirar o argueiro do olho de seu semelhante, traduz o mesmo espírito daquele princípio constitucional. Da mesma maneira, quando as Declarações Universais de Direitos, bem como os tratados universais que tratam dos direitos humanos insistem na universalidade daquele princípio humanista, na verdade conclamam ao homem, ao jurista, ao pensador, ao estudioso e aos homens em geral prender-se ao preceito cristão tão comentado em missas e cultos e profusamente proferidos em babosas orações, mas tão esquecido na realidade cura da existência.

Não se trata de perdoar a criminosos, tampouco fazer a apologia da impunidade. Não. É, antes de tudo, ter o cuidado de proceder a julgamentos em que inocentes possam ser molestados. A propósito, traz-se à baila uma frase atribuída ao jurista Roberto Lira, um dos redatores do Código Penal Brasileiro: “é preferível absolverem-se mil culpados a condenar um inocente”. Mais uma vez, a propósito, lembra-se o caso dos irmãos Naves, que assombrou e envergonhou a nação brasileira, pois todo o Brasil, inclusive aquele jurista, se irmanou para condenar pessoas inocentes, que só encontraram amparo no advogado João Alamy Filho, que, relatando o caso rumoroso, lembra uma frase de Roberto Lira, indignado com a aplicação do direito numa época de negra e reles ditadura, bem como indignado consigo mesmo, proferiu esta frase lapidar; “o que mais me dói é ver a inocência ultrajada.”

Aliás, quem tiver a pachorra de percorrer o art. 5º da Constituição e seus setenta e oito incisos e quatro parágrafos não encontrará dificuldade em pescar na maioria deles a força cristã, que revitaliza e humaniza as relações humanas. O jovem Galileu, que, em suas andanças, apregoava, por vales, rios, montanhas e mares, a linguagem do amor e do respeito ao próximo, logo conheceu do amor que habita no coração do homem, pois logo, logo, também, foi julgado, apenado, sem nenhum direito de defesa, embora sua inocência não fosse presumida, mas clara, certa, indiscutível, incontestável...

Quem discorda do princípio da presunção da inocência está a discordar do próprio Deus dos cristãos, pois, mesmo sabedor de que Caim matara o irmão, aquele Deus, onipotente e onisciente, perguntou ao fratricida: “Caim, que fizeste a teu irmão?” Ora, esse episódio bíblico põe às claras não só o direito de todos à defesa, enquanto a luta por esta for possível, como também a ser considerado inocente enquanto não lhe for provada a culpa pela autoridade estatal.

Por isso, diz baboseiras e mergulha em contradição quem pugna pela existência dos direitos humanos, tratando estes como se fossem a personificação de um ente que aplaude todas as iniquidades cometidas contra os seres humanos. Ainda bem que existe o argumento de que a ignorância deve ser perdoada...

Ai de daquele que pugna pelas ditaduras, as quais arrostam e arrasam os direitos humanos, prendem, arrebentam e esgorjam todo aquele que imaginar imprimir nas relações humanas o mínimo de respeito ao próximo.

Era nisso em que estava pensando quando, no fim de semana, trouxe à lembrança as figuras de Millôr Fernandes, Henfil, Paulo Francis, Ziraldo, Jaguar, Ivan Lessa, intelectuais de escol e redatores do jornal O Pasquim, que fizeram frente, com a arma das ideias e do pensamento, à prepotência de fuzis, cassetetes e borzeguins... Estes últimos passaram na voragem do tempo e da História; os primeiros se eternizaram não só pela coragem e destemor, mas, antes de tudo, por insuflarem nas almas a semente imorredoura do idealismo e do culto à liberdade...

À guisa de fecho, eles também, responderam a processos judiciais sem fundamento, senão a do autoritarismo grosseiro, e amargaram o antidireito: eram sumariamente julgados ou, ver caso Vladimir Herzog, covardemente assassinados...

Aos donos do poder, o princípio da presunção da inocência não era coisa que devesse ser levada a sério. Era coisa de quem não tinha o que fazer e vivia a ler filósofos e pensadores, raça de gente inútil...

A juventude de hoje, na sua reconhecida riqueza vocabular, diria; kikikikikikikikikikiki!

           

NAQUELE TEMPO (16)

                                                                           Hugo Martins

          Dava-se o prazer de deambular por ruas e praças da cidade sem temer a presença de assaltantes. Naquele tempo, os jornais não veiculavam insistentemente notícias em que a violência urbana era banalizada por toda sorte de tragédias. Qualquer delito mais aterrador causava grande indignação, e ninguém ficava indiferente ao sofrimento das vítimas. Tampouco as vítimas viravam atrativo a fim de que aumentassem a venda de jornais e revistas. Naquele tempo, jornalistas não envidavam esforços dramáticos nem mise en scène de defensor de fracos e oprimidos na veiculação da notícia, visando ao mero afã de angariar votos de humilhados e ofendidos. Ninguém chegava às assembléias e câmaras legislativas por esse expediente cínico e perverso. O homem era o mesmo, mas a História era outra. A pressa era pouca, e sobrava tempo para se prosear. Era um tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça, diferente dos tempos hodiernos em que se faz lingüiça com carne de cachorro...

          Naquele tempo, reconhecia-se que as políticas dos direitos humanos abeberavam-se nas Declarações Universais de Direitos e em subliminares lições hauridas da filosofia cristã e, por isso, seriam sempre favoráveis aos homens em quaisquer circunstâncias em que sua dignidade estivesse em jogo. Naquele tempo, as grandes metrópoles ainda não haviam cumprido a profecia de Orwell: as cidades ainda não ostentavam grandes telas por meio das quais um olho mágico nos adverte de que não estamos sozinhos. Naquele tempo, o enfeitiçante torneio da Copa do Mundo de Futebol ainda não mostrava as aduncas garras de gavião vendedor de ilusões. Não havia avatares, cujas proezas se resumiam na habilidade de conduzir uma pelota e marcar um tento, que os tornavam mágicos, gênios, fenômenos ou heróis fabulosos. É bem certo que poderiam ter sido usados como mercadoria viva. Como também é verdade que, depois de seis ou sete certames, em que milhões de olhos os espreitariam, em que milhares de corações os amariam ou odiariam, serviriam de objeto para, até mesmo, vender aquecedor no Saara ou geladeira na Antártida. Mas isso seria outro tempo...

          Naquele tempo, o poder persuasivo do rádio era insignificante... Naquele tempo, jogar futebol era divertir-se, era ser bicampeão do mundo e morar na sede do clube sem o assédio de criadores de mito. Era ser convocado para o selecionado canarinho sem necessariamente ter que jogar na Espanha de Cervantes ou na Itália de Torquato Tasso. Naquele tempo, aprendia-se a jogar futebol nos campos de várzeas ou mesmos em calçadas e ruas. Havia um talento natural na molecada, que praticava o esporte sem ter de pagar uma “escolinha” em que se “aprende” a ficar preso a esquemas castradores da alegre criatividade mágica de jogadas improvisadas. Jogadores como Canhoteiro, Julinho, Garrincha, Pelé, Nílton Santos e Didi quebravam qualquer esquema contrário sem a permissão do tecnicismo de treinadores com suas ridículas pranchetas nas mãos. Naquele tempo, não se ia ver apenas esse ou aquele time, ia-se ver o craque, divertir-se com os dribles de Canhoteiro e Garrincha, com a desconcertante “folha seca” de Didi ao bater uma falta ou com naturalidade felina de Pelé, driblando sete jogadores do Fluminense para fazer o gol, cuja beleza está gravada na eternidade do bronze no Estádio Mário Filho... Naquele tempo, ia-se experimentar a contraditória emoção de ver Julinho Botelho ser vaiado furiosamente pela torcida brasileira quando anunciaram que o palmeirense substituiria Mané Garrincha num jogo contra a Inglaterra e, ao fim do jogo, o mesmo Julinho ser homenageado pelo estrugir histérico da mesma torcida, agora bestificada pelas jogadas mirabolantes daquele ponteiro direito... Era assim o futebol daquele tempo: metáforas costuradas com os pés num texto simples, bonito sem a presença de Nikes ou Adidas e sua corte de empresários, que, de tanto teimar, destruíram a singeleza gratuita do jogar futebol.

          Naquele tempo, as escolas tinham bedel. Vigilantes repressores das traquinagens de alunos, contribuíam para a manutenção da ordeira disciplina em corredores e pátios... Não se ousava ainda aventar a hipótese de instalar câmaras em sala de aula com o cínico aviso, encimado pela advertência silenciosa de um desenho em que se estampa um sorriso tão evidente quão cretinóide... 

          Bons tempos aqueles...     























NAQUELE TEMPO (16)

                                                                           Hugo Martins

          Dava-se o prazer de deambular por ruas e praças da cidade sem temer a presença de assaltantes. Naquele tempo, os jornais não veiculavam insistentemente notícias em que a violência urbana era banalizada por toda sorte de tragédias. Qualquer delito mais aterrador causava grande indignação, e ninguém ficava indiferente ao sofrimento das vítimas. Tampouco as vítimas viravam atrativo a fim de que aumentassem a venda de jornais e revistas. Naquele tempo, jornalistas não envidavam esforços dramáticos nem mise en scène de defensor de fracos e oprimidos na veiculação da notícia, visando ao mero afã de angariar votos de humilhados e ofendidos. Ninguém chegava às assembléias e câmaras legislativas por esse expediente cínico e perverso. O homem era o mesmo, mas a História era outra. A pressa era pouca, e sobrava tempo para se prosear. Era um tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça, diferente dos tempos hodiernos em que se faz lingüiça com carne de cachorro...

          Naquele tempo, reconhecia-se que as políticas dos direitos humanos abeberavam-se nas Declarações Universais de Direitos e em subliminares lições hauridas da filosofia cristã e, por isso, seriam sempre favoráveis aos homens em quaisquer circunstâncias em que sua dignidade estivesse em jogo. Naquele tempo, as grandes metrópoles ainda não haviam cumprido a profecia de Orwell: as cidades ainda não ostentavam grandes telas por meio das quais um olho mágico nos adverte de que não estamos sozinhos. Naquele tempo, o enfeitiçante torneio da Copa do Mundo de Futebol ainda não mostrava as aduncas garras de gavião vendedor de ilusões. Não havia avatares, cujas proezas se resumiam na habilidade de conduzir uma pelota e marcar um tento, que os tornavam mágicos, gênios, fenômenos ou heróis fabulosos. É bem certo que poderiam ter sido usados como mercadoria viva. Como também é verdade que, depois de seis ou sete certames, em que milhões de olhos os espreitariam, em que milhares de corações os amariam ou odiariam, serviriam de objeto para, até mesmo, vender aquecedor no Saara ou geladeira na Antártida. Mas isso seria outro tempo...

          Naquele tempo, o poder persuasivo do rádio era insignificante... Naquele tempo, jogar futebol era divertir-se, era ser bicampeão do mundo e morar na sede do clube sem o assédio de criadores de mito. Era ser convocado para o selecionado canarinho sem necessariamente ter que jogar na Espanha de Cervantes ou na Itália de Torquato Tasso. Naquele tempo, aprendia-se a jogar futebol nos campos de várzeas ou mesmos em calçadas e ruas. Havia um talento natural na molecada, que praticava o esporte sem ter de pagar uma “escolinha” em que se “aprende” a ficar preso a esquemas castradores da alegre criatividade mágica de jogadas improvisadas. Jogadores como Canhoteiro, Julinho, Garrincha, Pelé, Nílton Santos e Didi quebravam qualquer esquema contrário sem a permissão do tecnicismo de treinadores com suas ridículas pranchetas nas mãos. Naquele tempo, não se ia ver apenas esse ou aquele time, ia-se ver o craque, divertir-se com os dribles de Canhoteiro e Garrincha, com a desconcertante “folha seca” de Didi ao bater uma falta ou com naturalidade felina de Pelé, driblando sete jogadores do Fluminense para fazer o gol, cuja beleza está gravada na eternidade do bronze no Estádio Mário Filho... Naquele tempo, ia-se experimentar a contraditória emoção de ver Julinho Botelho ser vaiado furiosamente pela torcida brasileira quando anunciaram que o palmeirense substituiria Mané Garrincha num jogo contra a Inglaterra e, ao fim do jogo, o mesmo Julinho ser homenageado pelo estrugir histérico da mesma torcida, agora bestificada pelas jogadas mirabolantes daquele ponteiro direito... Era assim o futebol daquele tempo: metáforas costuradas com os pés num texto simples, bonito sem a presença de Nikes ou Adidas e sua corte de empresários, que, de tanto teimar, destruíram a singeleza gratuita do jogar futebol.

          Naquele tempo, as escolas tinham bedel. Vigilantes repressores das traquinagens de alunos, contribuíam para a manutenção da ordeira disciplina em corredores e pátios... Não se ousava ainda aventar a hipótese de instalar câmaras em sala de aula com o cínico aviso, encimado pela advertência silenciosa de um desenho em que se estampa um sorriso tão evidente quão cretinóide... 

          Bons tempos aqueles...     






















quarta-feira, 4 de abril de 2012


NAQUELE TEMPO (15)

                                                                        Hugo Martins

          Nas cidades e vilas do interior, quando não havia um doido oficial para servir de bode expiatório às neuroses de todos, o povo alegrava seu sadismo com a figura do contador de histórias escabrosas, cujo conteúdo fazia rir até mesmo um frade de pedra.

          Numa dessas cidadezinhas, muito se ouviam histórias de um senhor de nome Pedro Faz Tudo. De porte esgrouvinhado, sempre vestido com largas calças e camisas de manga longa de mescla, Seu Pedro trazia o ar fechado, acentuado pela boca, de lábios finos e tensos, emoldurada por largos bigodes brancos. Olhos encimados por espessas sobrancelhas, cabelos ralos e grisalhos, que um chapéu amolgado e manchado por muitos anos de suor cobria, o homem ostentava o semblante, a um tempo,  tristonho e engraçado do Quixote de Cervantes. 

          Costumava pontificar no meio da pracinha. As pessoas se achegavam, davam um boa-noite respeitoso e ficavam à espera de que o rapsodo matuto abrisse o baú de “causos”. Em todas as narrativas, seu Pedro figurava como uma espécie de Malazarte, saindo-se heroicamente das situações as mais desafiadoras. Enquanto desfilava as odisséias, a assistência mantinha-se calada e atenta, embora alguns, às escondidas, pusessem na boca as mãos enconchadas para impedir a explosão da gargalhada, ante as incorrigíveis mistificações do mitômano.

          De repente, alguém sugeriu que Seu Pedro contasse aquele caso da chuva. O velho não se arreliou, temperou a garganta, deu um longo trago no cigarro pé-duro, não se fez de rogado e abriu as comportas da imaginação.

          “Em certa ocasião, longe de minha casa coisa de sete quilômetros, o baiozinho trotando, trazia eu na garupa meu filho Esaú. De repente, o céu começou a escurecer. Olhei para trás e vi que o diabo da chuva nos ia deixar ensopados. Esporeei o castanho, meti-lhe o chicote sem dó e nem piedade, e o cavalo saiu em alta disparada. Esauzinho segurou-me a cintura, cingiu-se mais ao meu corpo e disse: “arrocha, pai, que a chuva vem com todos os seiscentos diabos, ela vai nos pegar”. Achei aquilo um desaforo e mandei o aço nos lombos do cavalinho, que empinava as orelhas e parecia nem tocar no chão. Naquele pega-não-pega, pega-não-pega, esbarrei embaixo do alpendre lá de casa, quando o chuveirão passou.”

          Alguém, para verificar a veracidade da história, indagou:

          - Seu Pedro, e o senhor não se molhou?

          O velho olhou para o incrédulo e disse.

          - Só lamentei ver Esauzinho e a garupa do bicho encharcados pela maldita chuva... Mas é isso mesmo...

          Em seguida, pediram que Pedro Faz Tudo contasse aquela história da caçada. Ele não titubeou. Acabou de enrolar o pé-duro e, entre uma tragada e outra, desfiou o novelo da aventura.

          “Certa feita, saímos a caçar marrecos eu e meu Esauzinho. Não atirava nas aves. Preferia fazer fogo por sobre a cabeça delas, que, ante o susto, desmaiavam, e Esaú amarrava-lhes as pernas e pendurava-as numa embira de carnaúba que trazia amarrada à cintura. Depois que meu filho metera na embira mais de cinqüenta marrecos, dei o último tiro e, quando me virei para Esaú, qual o que, gritava lá do alto, pois as aves, quando despertaram do desmaio, alçaram todas em vôo. Meu filho não se desesperou e ouviu meu conselho que quebrasse paulatinamente o pescoço de cada um dos pássaros. Assim ele fez... Quando cheguei em casa, meu filho ia aterrissando no quintal” (!).

          Embora grande fosse a insistência, o velho Pedro achou melhor ir para casa. A noite já ia alta... Noutro dia ele contaria a história da agulha que ele enxergara na estrada de rodagem quando, a bordo de um automóvel em alta velocidade, olhou para o asfalto. Só não desceu porque outro filho seu dissera-lhe que a agulha era sem fundo...

          Eita, que bons tempos aqueles!!

         

         

         

     

PÁSCOA (uma questão semântica)



                                                                                                     Hugo Martins                                 

                                                                           









               Nunca entendi o real sentido da palavra Páscoa. Desde os tempos de menino, ouço falar que tem algo a ver com a Semana Santa, esta que assinala os últimos dias de Jesus Cristo na terra, ou lembra sua Paixão.  À época, fora o Galileu sacrificado pelo povo romano por haver cometido o delito da perturbação da ordem pública. Esse assunto vem, de longo tempo, sendo tratado pelo cinema, e hoje alguém já tira proveito econômico disso tudo, seja com encenações ao ar livre, seja vendendo peixe, seja barateando, promocionalmente, o preço da carne bovina. Quer dizer, pretende-se ver a Páscoa como uma festa santa e, no entanto, o que se nos apresenta aos olhos é a sordidez e a ignomínia. Por isso, teimo em não entender a Páscoa.

Lá fora, pululam o ódio, o medo e a intranqüilidade. As estradas estão apinhadas de carros que buscam praias e serras. No mercado de notícias, as manchetes de jornais sangram fatos escabrosos, estampam crimes hediondos e a torpeza de homens sem escrúpulos, que vendem a alma por menos de trinta moedas. Nas igrejas, fiéis oram, implorando o perdão divino. Outros, entoando uma cantilena monocórdia, caminham horas e horas a pedir, de casa em casa, esmolas para o desjejum. Logo após, dirigem-se aos cemitérios, onde se autoflagelam, lanhando as costas com chicotes, em cujas pontas atam-se objetos cortantes. No movimento rítmico do braço, chagam as costas numa atitude de quem pede perdão a Deus pelos erros e pecados cometidos na vida terrena.

            Continuo não entendendo a Páscoa.

            Enquanto isso, o Cristo se apresenta diariamente aos olhos de todos, que o olham com indiferença e desdém. Sua presença não agrada. Querem vê-lo de vestes longas, lavadas com sabão Omo; com os cabelos sedosos pela ação protetora de novo “shampoo” (xampu é melhor, é bom vernáculo, mas não é chique) chegado ao mercado da cosmética; com a barba aparada na chiqueza de algum salão de beleza de renome na região palestina. Ele insiste em aparecer, mas é crucificado. Momentos há em que se encontra em semáforos, com uma flanela na mão, enxugando, tal qual Verônica, o pára-brisas de automóveis em que seus fiéis se protegem. Outras vezes, em becos escuros e fétidos, nas praças públicas e portas de igreja, cheira cola para amenizar o sofrimento e suportar a dor e a crueza do indiferentismo em volta. Pode estar até mesmo encarnado em meninas, mal saídas da infância, que, por razões nada cristãs, vendem o corpo por mais ou por menos de trinta moedas. Ele insiste em aparecer, mas é sempre crucificado.               

Agora, começo a entender mais um pouco a Páscoa!

            Em torno a mesas fartas, em que se compartilha a ceia pascal, homens pios comem a não mais se fartar, palitam os dentes e ruminam orações para que suas consciências nunca enxerguem o Cristo que a eles se revela toda vez que abrem suas janelas para a vida lá fora.

É. Entender a Páscoa é coisa meio complicada.