segunda-feira, 2 de abril de 2012


            Em que estou pensando? Na facilidade que demonstram as pessoas em ser hipócritas, na exata acepção desta palavra que, em grego clássico, significa ator. Aqui no facebook, por exemplo, vejo miríades de mensagens bafejadas de amor, ternura, compaixão e condescendência para com o próximo. E, emparelhando com tais manifestações, mensagens em que o emissor parece estar impado de ódio pela humanidade ou por alguns de seus membros. De um lado, a solidariedade, que engrandece; de outro, a ira, que ofende, fere e apequena. Ora, isto cheira a farisaísmo grosseiro. Aliás, quem deseja mostrar estar do lado dos que viveram ou vivem em função de seus semelhantes não precisa tocar a trombeta. Curtir Cristo, Gândi e outros personagens que fizeram algo de prodigioso pela humanidade ou escreveram frases célebres e disseminadas aos quatro ventos não significa ser amoroso, terno ou compreensivo com os outros, se, paradoxalmente, destilam-se o ódio e o ressentimento, que carcomem a alma e enchem o peito do travo ardoso da amargura.

            Estou pensando num amigo, com quem costumava trocar idéias acerca do fenômeno religioso. Dizia ele, numa metáfora aparentemente grosseira, que o indivíduo que desejasse seguir o Cristo tinha que ter os culhões de ferro. A metáfora é duplamente pesada. Com efeito, o discurso bonito, as orações feitas nas praças públicas como faziam os fariseus nas sinagogas, os cartõezinhos recheados de mensagens grávidas de otimismo e outros artifícios farisaicos não apontam para um compromisso cristão. Aliás, não é fácil tentar conceituar a coisa, sobretudo se falta ao crente leituras mais aprofundadas, enfocando Filosofia e assuntos afins. Sem esta base, essencial como fundamento, a lugar nenhum se chega quando a questão é a busca da compreensão do fenômeno religioso... Na maioria das vezes, as largas e gritadas manifestações de religiosidade não passam do medo metafísico, do temor do além-morte, ou da própria ingenuidade dos tolos. Ou, se se preferir, aqueles arroubos, grávidos de amor pela humanidade representam uma cortina por trás da qual se escondem ódios, fragilidade espiritual ou, o que é pior, as contradições existentes entre o agir e o fazer

             O mais é fazer como Voltaire ao fechar seu romance Cândido, ou do Otimismo, que o fecha com uma frasezinha singela mas bem profundazinha: “Il faut que chacun cultive son jardin” (É necessário que cada um cultive seu jardim). Uauauauauauauaua!!! Pode traduzir a manifestação interjetiva por um latido compassado de um cão ou a manifestação tristonha de um cão pensandor por se sentir, em silêncio, incomodado com o farisaísmo dos novos tempos.

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