Em
que estou pensando? Na facilidade que demonstram as pessoas em ser hipócritas,
na exata acepção desta palavra que, em grego clássico, significa ator. Aqui no
facebook, por exemplo, vejo miríades de mensagens bafejadas de amor, ternura,
compaixão e condescendência para com o próximo. E, emparelhando com tais
manifestações, mensagens em que o emissor parece estar impado de ódio pela
humanidade ou por alguns de seus membros. De um lado, a solidariedade, que
engrandece; de outro, a ira, que ofende, fere e apequena. Ora, isto cheira a
farisaísmo grosseiro. Aliás, quem deseja mostrar estar do lado dos que viveram
ou vivem em função de seus semelhantes não precisa tocar a trombeta. Curtir
Cristo, Gândi e outros personagens que fizeram algo de prodigioso pela
humanidade ou escreveram frases célebres e disseminadas aos quatro ventos não
significa ser amoroso, terno ou compreensivo com os outros, se, paradoxalmente,
destilam-se o ódio e o ressentimento, que carcomem a alma e enchem o peito do
travo ardoso da amargura.
Estou
pensando num amigo, com quem costumava trocar idéias acerca do fenômeno
religioso. Dizia ele, numa metáfora aparentemente grosseira, que o indivíduo
que desejasse seguir o Cristo tinha que ter os culhões de ferro. A metáfora é
duplamente pesada. Com efeito, o discurso bonito, as orações feitas nas praças
públicas como faziam os fariseus nas sinagogas, os cartõezinhos recheados de
mensagens grávidas de otimismo e outros artifícios farisaicos não apontam para
um compromisso cristão. Aliás, não é fácil tentar conceituar a coisa, sobretudo
se falta ao crente leituras mais aprofundadas, enfocando Filosofia e assuntos
afins. Sem esta base, essencial como fundamento, a lugar nenhum se chega quando
a questão é a busca da compreensão do fenômeno religioso... Na maioria das
vezes, as largas e gritadas manifestações de religiosidade não passam do medo
metafísico, do temor do além-morte, ou da própria ingenuidade dos tolos. Ou, se
se preferir, aqueles arroubos, grávidos de amor pela humanidade representam uma
cortina por trás da qual se escondem ódios, fragilidade espiritual ou, o que é
pior, as contradições existentes entre o agir e o fazer
O mais é fazer como Voltaire ao fechar seu
romance Cândido, ou do Otimismo, que
o fecha com uma frasezinha singela mas bem profundazinha: “Il faut que chacun cultive son jardin” (É necessário que cada um
cultive seu jardim). Uauauauauauauaua!!! Pode traduzir a manifestação
interjetiva por um latido compassado de um cão ou a manifestação tristonha de
um cão pensandor por se sentir, em silêncio, incomodado com o farisaísmo dos
novos tempos.
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