quarta-feira, 11 de abril de 2012


NAQUELE TEMPO (18)

                                                                    Hugo Martins



               Instalara-se no país uma tal Revolução... Derrubou-se o governo legitimado pelo voto do povo e, desde então, passou-se a respirar o arbítrio, outorgando-se uma Carta Política, com que, cheirando a farda de milícias, tangia-se a vida pública pelo autoritarismo do tacão de borzeguins e pelo argumento irrespondível de cassetetes e patas de cavalos.

          Naquele tempo, quem ousasse pensar estaria cometendo pecado imperdoável. Aniquilaram o cogito de Decartes...  Fazer literatura, cinema, teatro e outras Artes era ser arteiro, desobediente e presunçoso... Para evitar  que uma diminuta casta de  artistas de então contaminasse a consciência do povo, criou-se uma espécie de tribunal, formado por censores que, em sua sempiterna sabujice, não titubeavam: metiam a tesoura naquilo que julgassem ofensivo ou perigoso à chamada segurança nacional.

          Nos colégios e universidades, ministravam disciplinas, cujo conteúdo  exalçava as grandezas do país, coadjuvado pelo tom, a um tempo, patrioteiro e ufanista. Estudava-se Organização Social e Política do Brasil nas escolas secundaristas e Estudos de Problemas Brasileiros nos cursos universitários. Intentava-se inocular a falsa idéia de que tudo ia bem na terra do futebol. Aliás, este servia de veículo para que “noventa milhões em ação”, politicamente narcotizados, não tomassem conhecimento de que, nos porões da repressão, uns poucos brasileiros sofressem enxovalhos, fossem torturados e morressem por entoarem um canto diferente e dissonante do rebanho bem doutrinado e comportado...

          Criou-se, naquele tempo, um Index librorum prohibitorum (Índice de livros proibidos). Qualquer obra que cheirasse à doutrina do materialismo histórico era confiscada, e seu leitor, apodado de comunista, era sumariamente preso sem direito a qualquer defesa. O grande argumento dos donos do poder a quem se atrevesse a dar qualquer explicação era essa preciosidade lógica: “explica, mas não justifica” (?). Há quem diga que um certo estudante foi preso porque se encontrava lendo O Vermelho e o Negro, obra-prima do grande Sthendal, figura proeminente das letras francesas... Aqueles senhores de baraço e cutelo não toleravam a cor vermelha...

                    Naquele tempo, criaram-se lemas. Dois deles, nefastos e cretinóides por seu tom agressivo, eram grudados em vidros de automóveis, como hoje hipócritas e fariseus de nossa sociedade violenta fazem quando pretendem pôr às claras seu duvidoso fervor, colocando à vista de todos nos seus automóveis: Deus é Fiel. Ora, existirá coisa mais sem graça?

          Pois bem, eis os leminhas disparatados: “Brasil; ame-o ou deixe-o” e “O Brasil é feito por nós”. Um apreciado humorista de pena arguta e sábia  teve que se explicar nas barras de tribunais apenas porque demonstrando saber ler, promoveu leitura crítica daqueles preceitos hipócritas. Ao primeiro acrescentou uma vírgula e arrematou: “o último a sair deve desligar as luzes do aeroporto”. Apôs outra virgulazinha marota no segundo e sapecou o complemento: “resta saber quem vai desatá-los”. É dizer: proibia-se até mesmo o ato de ler...

          Naquele tempo, havia as jovens tardes de domingo, promovidas por rapazolas de “cabelos longos e idéias curtas” (ver Schopenhauer), que dedilhavam guitarras, sacudiam a cabeça infrenemente como quem está sofrendo ataque de epilepsia e entoavam canções barulhentas à moda rock elvispreslyano. Outras vezes, choramingavam cançonetas, em devaneios amorosos e sofridos... De outro lado, o compositor ou cantor que se metesse a besta e compusesse a chamada canção de protesto, em que se denunciassem desmandos e arbitrariedades, vindos de quem quer que seja, era amordaçado e seu grito ficava como que parado no ar ou preso na garganta, como diz um compositor da época.

          Aliás, naquele tempo, a arte brasileira ficou órfã de muitos dos seus filhos. Atarantados com a atmosfera de terror e de desrespeito ao exercício do livre direito de pensar, debandaram para outras terras enquanto não se dissipassem os ventos negros e sórdidos da ditadura, que não era nada mole...

          Maus tempos aqueles!

            

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