NAQUELE
TEMPO (18)
Hugo Martins
Instalara-se no país uma tal
Revolução... Derrubou-se o governo legitimado pelo voto do povo e, desde então,
passou-se a respirar o arbítrio, outorgando-se uma Carta Política, com que,
cheirando a farda de milícias, tangia-se a vida pública pelo autoritarismo do
tacão de borzeguins e pelo argumento irrespondível de cassetetes e patas de
cavalos.
Naquele tempo, quem ousasse pensar estaria cometendo pecado
imperdoável. Aniquilaram o cogito de
Decartes... Fazer literatura, cinema,
teatro e outras Artes era ser arteiro, desobediente e presunçoso... Para
evitar que uma diminuta casta de artistas de então contaminasse a consciência
do povo, criou-se uma espécie de tribunal, formado por censores que, em sua
sempiterna sabujice, não titubeavam: metiam a tesoura naquilo que julgassem
ofensivo ou perigoso à chamada segurança nacional.
Nos colégios e universidades, ministravam disciplinas, cujo
conteúdo exalçava as grandezas do país,
coadjuvado pelo tom, a um tempo, patrioteiro e ufanista. Estudava-se
Organização Social e Política do Brasil nas escolas secundaristas e Estudos de
Problemas Brasileiros nos cursos universitários. Intentava-se inocular a falsa
idéia de que tudo ia bem na terra do futebol. Aliás, este servia de veículo
para que “noventa milhões em ação”, politicamente narcotizados, não tomassem
conhecimento de que, nos porões da repressão, uns poucos brasileiros sofressem
enxovalhos, fossem torturados e morressem por entoarem um canto diferente e
dissonante do rebanho bem doutrinado e comportado...
Criou-se, naquele tempo, um Index librorum prohibitorum (Índice de livros proibidos). Qualquer
obra que cheirasse à doutrina do materialismo histórico era confiscada, e seu
leitor, apodado de comunista, era sumariamente preso sem direito a qualquer
defesa. O grande argumento dos donos do poder a quem se atrevesse a dar
qualquer explicação era essa preciosidade lógica: “explica, mas não justifica”
(?). Há quem diga que um certo estudante foi preso porque se encontrava lendo O
Vermelho e o Negro, obra-prima do grande Sthendal, figura proeminente das
letras francesas... Aqueles senhores de baraço e cutelo não toleravam a cor
vermelha...
Naquele tempo, criaram-se lemas. Dois deles,
nefastos e cretinóides por seu tom agressivo, eram grudados em vidros de
automóveis, como hoje hipócritas e fariseus de nossa sociedade violenta fazem
quando pretendem pôr às claras seu duvidoso fervor, colocando à vista de todos
nos seus automóveis: Deus é Fiel.
Ora, existirá coisa mais sem graça?
Pois bem, eis os leminhas disparatados: “Brasil; ame-o ou
deixe-o” e “O Brasil é feito por nós”. Um apreciado humorista de pena arguta e
sábia teve que se explicar nas barras de
tribunais apenas porque demonstrando saber ler, promoveu leitura crítica
daqueles preceitos hipócritas. Ao primeiro acrescentou uma vírgula e arrematou:
“o último a sair deve desligar as luzes do aeroporto”. Apôs outra virgulazinha marota
no segundo e sapecou o complemento: “resta saber quem vai desatá-los”. É dizer:
proibia-se até mesmo o ato de ler...
Naquele tempo, havia as jovens tardes de domingo, promovidas
por rapazolas de “cabelos longos e idéias curtas” (ver Schopenhauer), que
dedilhavam guitarras, sacudiam a cabeça infrenemente como quem está sofrendo
ataque de epilepsia e entoavam canções barulhentas à moda rock elvispreslyano.
Outras vezes, choramingavam cançonetas, em devaneios amorosos e sofridos... De
outro lado, o compositor ou cantor que se metesse a besta e compusesse a
chamada canção de protesto, em que se denunciassem desmandos e arbitrariedades,
vindos de quem quer que seja, era amordaçado e seu grito ficava como que parado
no ar ou preso na garganta, como diz um compositor da época.
Aliás, naquele tempo, a arte brasileira ficou órfã de
muitos dos seus filhos. Atarantados com a atmosfera de terror e de desrespeito
ao exercício do livre direito de pensar, debandaram para outras terras enquanto
não se dissipassem os ventos negros e sórdidos da ditadura, que não era nada
mole...
Maus tempos aqueles!
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