NAQUELE
TEMPO (16)
Hugo Martins
Dava-se o prazer
de deambular por ruas e praças da cidade sem temer a presença de assaltantes.
Naquele tempo, os jornais não veiculavam insistentemente notícias em que a
violência urbana era banalizada por toda sorte de tragédias. Qualquer delito
mais aterrador causava grande indignação, e ninguém ficava indiferente ao
sofrimento das vítimas. Tampouco as vítimas viravam atrativo a fim de que
aumentassem a venda de jornais e revistas. Naquele tempo, jornalistas não
envidavam esforços dramáticos nem mise en
scène de defensor de fracos e oprimidos na veiculação da notícia, visando
ao mero afã de angariar votos de humilhados e ofendidos. Ninguém chegava às
assembléias e câmaras legislativas por esse expediente cínico e perverso. O
homem era o mesmo, mas a História era outra. A pressa era pouca, e sobrava
tempo para se prosear. Era um tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça,
diferente dos tempos hodiernos em que se faz lingüiça com carne de cachorro...
Naquele tempo, reconhecia-se que as políticas dos direitos
humanos abeberavam-se nas Declarações Universais de Direitos e em subliminares
lições hauridas da filosofia cristã e, por isso, seriam sempre favoráveis aos
homens em quaisquer circunstâncias em que sua dignidade estivesse em jogo. Naquele
tempo, as grandes metrópoles ainda não haviam cumprido a profecia de Orwell: as
cidades ainda não ostentavam grandes telas por meio das quais um olho mágico
nos adverte de que não estamos sozinhos. Naquele tempo, o enfeitiçante torneio
da Copa do Mundo de Futebol ainda não mostrava as aduncas garras de gavião
vendedor de ilusões. Não havia avatares, cujas proezas se resumiam na
habilidade de conduzir uma pelota e marcar um tento, que os tornavam mágicos,
gênios, fenômenos ou heróis fabulosos. É bem certo que poderiam ter sido usados
como mercadoria viva. Como também é verdade que, depois de seis ou sete
certames, em que milhões de olhos os espreitariam, em que milhares de corações
os amariam ou odiariam, serviriam de objeto para, até mesmo, vender aquecedor
no Saara ou geladeira na Antártida. Mas isso seria outro tempo...
Naquele tempo, o poder persuasivo do rádio era
insignificante... Naquele tempo, jogar futebol era divertir-se, era ser
bicampeão do mundo e morar na sede do clube sem o assédio de criadores de mito.
Era ser convocado para o selecionado canarinho sem necessariamente ter que
jogar na Espanha de Cervantes ou na Itália de Torquato Tasso. Naquele tempo,
aprendia-se a jogar futebol nos campos de várzeas ou mesmos em calçadas e ruas.
Havia um talento natural na molecada, que praticava o esporte sem ter de pagar
uma “escolinha” em que se “aprende” a ficar preso a esquemas castradores da
alegre criatividade mágica de jogadas improvisadas. Jogadores como Canhoteiro,
Julinho, Garrincha, Pelé, Nílton Santos e Didi quebravam qualquer esquema
contrário sem a permissão do tecnicismo de treinadores com suas ridículas
pranchetas nas mãos. Naquele tempo, não se ia ver apenas esse ou aquele time,
ia-se ver o craque, divertir-se com os dribles de Canhoteiro e Garrincha, com a
desconcertante “folha seca” de Didi ao bater uma falta ou com naturalidade
felina de Pelé, driblando sete jogadores do Fluminense para fazer o gol, cuja beleza
está gravada na eternidade do bronze no Estádio Mário Filho... Naquele tempo,
ia-se experimentar a contraditória emoção de ver Julinho Botelho ser vaiado
furiosamente pela torcida brasileira quando anunciaram que o palmeirense
substituiria Mané Garrincha num jogo contra a Inglaterra e, ao fim do jogo, o
mesmo Julinho ser homenageado pelo estrugir histérico da mesma torcida, agora
bestificada pelas jogadas mirabolantes daquele ponteiro direito... Era assim o
futebol daquele tempo: metáforas costuradas com os pés num texto simples,
bonito sem a presença de Nikes ou Adidas e sua corte de empresários, que, de
tanto teimar, destruíram a singeleza gratuita do jogar futebol.
Naquele tempo, as escolas tinham bedel. Vigilantes
repressores das traquinagens de alunos, contribuíam para a manutenção da
ordeira disciplina em corredores e pátios... Não se ousava ainda aventar a
hipótese de instalar câmaras em sala de aula com o cínico aviso, encimado pela
advertência silenciosa de um desenho em que se estampa um sorriso tão evidente
quão cretinóide...
Bons tempos aqueles...
NAQUELE
TEMPO (16)
Hugo Martins
Dava-se o prazer
de deambular por ruas e praças da cidade sem temer a presença de assaltantes.
Naquele tempo, os jornais não veiculavam insistentemente notícias em que a
violência urbana era banalizada por toda sorte de tragédias. Qualquer delito
mais aterrador causava grande indignação, e ninguém ficava indiferente ao
sofrimento das vítimas. Tampouco as vítimas viravam atrativo a fim de que
aumentassem a venda de jornais e revistas. Naquele tempo, jornalistas não
envidavam esforços dramáticos nem mise en
scène de defensor de fracos e oprimidos na veiculação da notícia, visando
ao mero afã de angariar votos de humilhados e ofendidos. Ninguém chegava às
assembléias e câmaras legislativas por esse expediente cínico e perverso. O
homem era o mesmo, mas a História era outra. A pressa era pouca, e sobrava
tempo para se prosear. Era um tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça,
diferente dos tempos hodiernos em que se faz lingüiça com carne de cachorro...
Naquele tempo, reconhecia-se que as políticas dos direitos
humanos abeberavam-se nas Declarações Universais de Direitos e em subliminares
lições hauridas da filosofia cristã e, por isso, seriam sempre favoráveis aos
homens em quaisquer circunstâncias em que sua dignidade estivesse em jogo. Naquele
tempo, as grandes metrópoles ainda não haviam cumprido a profecia de Orwell: as
cidades ainda não ostentavam grandes telas por meio das quais um olho mágico
nos adverte de que não estamos sozinhos. Naquele tempo, o enfeitiçante torneio
da Copa do Mundo de Futebol ainda não mostrava as aduncas garras de gavião
vendedor de ilusões. Não havia avatares, cujas proezas se resumiam na
habilidade de conduzir uma pelota e marcar um tento, que os tornavam mágicos,
gênios, fenômenos ou heróis fabulosos. É bem certo que poderiam ter sido usados
como mercadoria viva. Como também é verdade que, depois de seis ou sete
certames, em que milhões de olhos os espreitariam, em que milhares de corações
os amariam ou odiariam, serviriam de objeto para, até mesmo, vender aquecedor
no Saara ou geladeira na Antártida. Mas isso seria outro tempo...
Naquele tempo, o poder persuasivo do rádio era
insignificante... Naquele tempo, jogar futebol era divertir-se, era ser
bicampeão do mundo e morar na sede do clube sem o assédio de criadores de mito.
Era ser convocado para o selecionado canarinho sem necessariamente ter que
jogar na Espanha de Cervantes ou na Itália de Torquato Tasso. Naquele tempo,
aprendia-se a jogar futebol nos campos de várzeas ou mesmos em calçadas e ruas.
Havia um talento natural na molecada, que praticava o esporte sem ter de pagar
uma “escolinha” em que se “aprende” a ficar preso a esquemas castradores da
alegre criatividade mágica de jogadas improvisadas. Jogadores como Canhoteiro,
Julinho, Garrincha, Pelé, Nílton Santos e Didi quebravam qualquer esquema
contrário sem a permissão do tecnicismo de treinadores com suas ridículas
pranchetas nas mãos. Naquele tempo, não se ia ver apenas esse ou aquele time,
ia-se ver o craque, divertir-se com os dribles de Canhoteiro e Garrincha, com a
desconcertante “folha seca” de Didi ao bater uma falta ou com naturalidade
felina de Pelé, driblando sete jogadores do Fluminense para fazer o gol, cuja beleza
está gravada na eternidade do bronze no Estádio Mário Filho... Naquele tempo,
ia-se experimentar a contraditória emoção de ver Julinho Botelho ser vaiado
furiosamente pela torcida brasileira quando anunciaram que o palmeirense
substituiria Mané Garrincha num jogo contra a Inglaterra e, ao fim do jogo, o
mesmo Julinho ser homenageado pelo estrugir histérico da mesma torcida, agora
bestificada pelas jogadas mirabolantes daquele ponteiro direito... Era assim o
futebol daquele tempo: metáforas costuradas com os pés num texto simples,
bonito sem a presença de Nikes ou Adidas e sua corte de empresários, que, de
tanto teimar, destruíram a singeleza gratuita do jogar futebol.
Naquele tempo, as escolas tinham bedel. Vigilantes
repressores das traquinagens de alunos, contribuíam para a manutenção da
ordeira disciplina em corredores e pátios... Não se ousava ainda aventar a
hipótese de instalar câmaras em sala de aula com o cínico aviso, encimado pela
advertência silenciosa de um desenho em que se estampa um sorriso tão evidente
quão cretinóide...
Bons tempos aqueles...
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