segunda-feira, 9 de abril de 2012


NAQUELE TEMPO (16)

                                                                           Hugo Martins

          Dava-se o prazer de deambular por ruas e praças da cidade sem temer a presença de assaltantes. Naquele tempo, os jornais não veiculavam insistentemente notícias em que a violência urbana era banalizada por toda sorte de tragédias. Qualquer delito mais aterrador causava grande indignação, e ninguém ficava indiferente ao sofrimento das vítimas. Tampouco as vítimas viravam atrativo a fim de que aumentassem a venda de jornais e revistas. Naquele tempo, jornalistas não envidavam esforços dramáticos nem mise en scène de defensor de fracos e oprimidos na veiculação da notícia, visando ao mero afã de angariar votos de humilhados e ofendidos. Ninguém chegava às assembléias e câmaras legislativas por esse expediente cínico e perverso. O homem era o mesmo, mas a História era outra. A pressa era pouca, e sobrava tempo para se prosear. Era um tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça, diferente dos tempos hodiernos em que se faz lingüiça com carne de cachorro...

          Naquele tempo, reconhecia-se que as políticas dos direitos humanos abeberavam-se nas Declarações Universais de Direitos e em subliminares lições hauridas da filosofia cristã e, por isso, seriam sempre favoráveis aos homens em quaisquer circunstâncias em que sua dignidade estivesse em jogo. Naquele tempo, as grandes metrópoles ainda não haviam cumprido a profecia de Orwell: as cidades ainda não ostentavam grandes telas por meio das quais um olho mágico nos adverte de que não estamos sozinhos. Naquele tempo, o enfeitiçante torneio da Copa do Mundo de Futebol ainda não mostrava as aduncas garras de gavião vendedor de ilusões. Não havia avatares, cujas proezas se resumiam na habilidade de conduzir uma pelota e marcar um tento, que os tornavam mágicos, gênios, fenômenos ou heróis fabulosos. É bem certo que poderiam ter sido usados como mercadoria viva. Como também é verdade que, depois de seis ou sete certames, em que milhões de olhos os espreitariam, em que milhares de corações os amariam ou odiariam, serviriam de objeto para, até mesmo, vender aquecedor no Saara ou geladeira na Antártida. Mas isso seria outro tempo...

          Naquele tempo, o poder persuasivo do rádio era insignificante... Naquele tempo, jogar futebol era divertir-se, era ser bicampeão do mundo e morar na sede do clube sem o assédio de criadores de mito. Era ser convocado para o selecionado canarinho sem necessariamente ter que jogar na Espanha de Cervantes ou na Itália de Torquato Tasso. Naquele tempo, aprendia-se a jogar futebol nos campos de várzeas ou mesmos em calçadas e ruas. Havia um talento natural na molecada, que praticava o esporte sem ter de pagar uma “escolinha” em que se “aprende” a ficar preso a esquemas castradores da alegre criatividade mágica de jogadas improvisadas. Jogadores como Canhoteiro, Julinho, Garrincha, Pelé, Nílton Santos e Didi quebravam qualquer esquema contrário sem a permissão do tecnicismo de treinadores com suas ridículas pranchetas nas mãos. Naquele tempo, não se ia ver apenas esse ou aquele time, ia-se ver o craque, divertir-se com os dribles de Canhoteiro e Garrincha, com a desconcertante “folha seca” de Didi ao bater uma falta ou com naturalidade felina de Pelé, driblando sete jogadores do Fluminense para fazer o gol, cuja beleza está gravada na eternidade do bronze no Estádio Mário Filho... Naquele tempo, ia-se experimentar a contraditória emoção de ver Julinho Botelho ser vaiado furiosamente pela torcida brasileira quando anunciaram que o palmeirense substituiria Mané Garrincha num jogo contra a Inglaterra e, ao fim do jogo, o mesmo Julinho ser homenageado pelo estrugir histérico da mesma torcida, agora bestificada pelas jogadas mirabolantes daquele ponteiro direito... Era assim o futebol daquele tempo: metáforas costuradas com os pés num texto simples, bonito sem a presença de Nikes ou Adidas e sua corte de empresários, que, de tanto teimar, destruíram a singeleza gratuita do jogar futebol.

          Naquele tempo, as escolas tinham bedel. Vigilantes repressores das traquinagens de alunos, contribuíam para a manutenção da ordeira disciplina em corredores e pátios... Não se ousava ainda aventar a hipótese de instalar câmaras em sala de aula com o cínico aviso, encimado pela advertência silenciosa de um desenho em que se estampa um sorriso tão evidente quão cretinóide... 

          Bons tempos aqueles...     























NAQUELE TEMPO (16)

                                                                           Hugo Martins

          Dava-se o prazer de deambular por ruas e praças da cidade sem temer a presença de assaltantes. Naquele tempo, os jornais não veiculavam insistentemente notícias em que a violência urbana era banalizada por toda sorte de tragédias. Qualquer delito mais aterrador causava grande indignação, e ninguém ficava indiferente ao sofrimento das vítimas. Tampouco as vítimas viravam atrativo a fim de que aumentassem a venda de jornais e revistas. Naquele tempo, jornalistas não envidavam esforços dramáticos nem mise en scène de defensor de fracos e oprimidos na veiculação da notícia, visando ao mero afã de angariar votos de humilhados e ofendidos. Ninguém chegava às assembléias e câmaras legislativas por esse expediente cínico e perverso. O homem era o mesmo, mas a História era outra. A pressa era pouca, e sobrava tempo para se prosear. Era um tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça, diferente dos tempos hodiernos em que se faz lingüiça com carne de cachorro...

          Naquele tempo, reconhecia-se que as políticas dos direitos humanos abeberavam-se nas Declarações Universais de Direitos e em subliminares lições hauridas da filosofia cristã e, por isso, seriam sempre favoráveis aos homens em quaisquer circunstâncias em que sua dignidade estivesse em jogo. Naquele tempo, as grandes metrópoles ainda não haviam cumprido a profecia de Orwell: as cidades ainda não ostentavam grandes telas por meio das quais um olho mágico nos adverte de que não estamos sozinhos. Naquele tempo, o enfeitiçante torneio da Copa do Mundo de Futebol ainda não mostrava as aduncas garras de gavião vendedor de ilusões. Não havia avatares, cujas proezas se resumiam na habilidade de conduzir uma pelota e marcar um tento, que os tornavam mágicos, gênios, fenômenos ou heróis fabulosos. É bem certo que poderiam ter sido usados como mercadoria viva. Como também é verdade que, depois de seis ou sete certames, em que milhões de olhos os espreitariam, em que milhares de corações os amariam ou odiariam, serviriam de objeto para, até mesmo, vender aquecedor no Saara ou geladeira na Antártida. Mas isso seria outro tempo...

          Naquele tempo, o poder persuasivo do rádio era insignificante... Naquele tempo, jogar futebol era divertir-se, era ser bicampeão do mundo e morar na sede do clube sem o assédio de criadores de mito. Era ser convocado para o selecionado canarinho sem necessariamente ter que jogar na Espanha de Cervantes ou na Itália de Torquato Tasso. Naquele tempo, aprendia-se a jogar futebol nos campos de várzeas ou mesmos em calçadas e ruas. Havia um talento natural na molecada, que praticava o esporte sem ter de pagar uma “escolinha” em que se “aprende” a ficar preso a esquemas castradores da alegre criatividade mágica de jogadas improvisadas. Jogadores como Canhoteiro, Julinho, Garrincha, Pelé, Nílton Santos e Didi quebravam qualquer esquema contrário sem a permissão do tecnicismo de treinadores com suas ridículas pranchetas nas mãos. Naquele tempo, não se ia ver apenas esse ou aquele time, ia-se ver o craque, divertir-se com os dribles de Canhoteiro e Garrincha, com a desconcertante “folha seca” de Didi ao bater uma falta ou com naturalidade felina de Pelé, driblando sete jogadores do Fluminense para fazer o gol, cuja beleza está gravada na eternidade do bronze no Estádio Mário Filho... Naquele tempo, ia-se experimentar a contraditória emoção de ver Julinho Botelho ser vaiado furiosamente pela torcida brasileira quando anunciaram que o palmeirense substituiria Mané Garrincha num jogo contra a Inglaterra e, ao fim do jogo, o mesmo Julinho ser homenageado pelo estrugir histérico da mesma torcida, agora bestificada pelas jogadas mirabolantes daquele ponteiro direito... Era assim o futebol daquele tempo: metáforas costuradas com os pés num texto simples, bonito sem a presença de Nikes ou Adidas e sua corte de empresários, que, de tanto teimar, destruíram a singeleza gratuita do jogar futebol.

          Naquele tempo, as escolas tinham bedel. Vigilantes repressores das traquinagens de alunos, contribuíam para a manutenção da ordeira disciplina em corredores e pátios... Não se ousava ainda aventar a hipótese de instalar câmaras em sala de aula com o cínico aviso, encimado pela advertência silenciosa de um desenho em que se estampa um sorriso tão evidente quão cretinóide... 

          Bons tempos aqueles...     






















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