Escrituras Livres

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

PERSONA, PERSONAGENS E DIVAGAÇÕES
                                       Hugo Martins

 Procedendo à leitura de várias obras que abordam a Mitologia Clássica, mais e mais me estarreço com a sabedoria daqueles povos antigos, que sedimentaram os alicerces de toda a cultura ocidental que aí está disseminada em costumes e nas formas de pensar o mundo. Há tempos venho colhendo traços biográficos marcantes de alguns deuses do Olimpo e alguns esparsos heróis. Embora variem os estilos, às vezes graves e solenes; outras vezes, descontraídos e histriônicos, ao fim e ao cabo, importa mesmo a fixação da personalidade de cada deus e de cada herói, que com o primeiro se mistura, a qual mantém uma certa constância no que diz respeito, sobretudo, à psicologia de cada um, o comportamento social e a forma como se relacionam com homens. A grande maioria, seja os doze do Olimpo, seja os habitantes dos Campos Elísios (região não infernal dos bem-aventurados), do Érebo ou do Tártaro, duas instâncias das regiões infernais (onde são punidos os ímpios e os celerados), ou ainda alguns mortais que participam vivamente da parafernália mitológica, inscreve-se entre os chamados personagens planos ou rasos na visão do crítico inglês E.M.Forster. Lembrar que Forster alinha, em contraponto a estes, os densos ou redondos. Critério da previsibilidade e da imprevisibilidade. Definem-se, assim, pelo maior ou menor grau de complexidade psicológica, esboçados no vir-a-ser da obra.
 Assim, qualquer personagem do romance romântico tende a ser plano, previsível, legível. Não importa a cultura em que essa estética idealista se desenvolveu. Peri, de Alencar, não é senão o espadachim de Dumas, aliás, representantes maiores dos heróis medievais; Jean Valjean e Javert correspondem, mutatis mutandis (mudando o que deve ser mudado), ao menino Leonardo e ao Major Vidigal do romance brasileiro Memórias de um Sargento de Milícias. Fantine, de Víctor Hugo é a nossa Lucíola alencarina... E aí vai. De outra parte, o personagem da obra realista surpreende. Sua personalidade é obscura e nunca se revela de todo, mostrando-se, na dinâmica narrativa, aos poucos, paulatinamente, e, mesmo finda a narrativa, continua não definida nos seus quadrantes psicológicos. Os russos dão preferência à criação do personagem complexo. Seguem-lhes a trilha, na França, Stendhal; no Brasil, Machado de Assis; em Portugal, Eça de Queirós. Do mesmo modo, a chamada literatura do pós-guerra, como regra geral, dá preferência ao personagem redondo. As circunstâncias históricas obligent...
 Quando dissemos que os personagens da Mitologia Clássica, em maioria, são planos é porque conviver com eles é pisar no terreno de estereotipia. A persona, a máscara, a forma de revelar-se ao mundo é a mesma. Argumento maior para isso é o fato de que as narrativas mitológicas fazem as vezes da psicologia e retratam o modo como foi organizado o cosmos... E cada deus, e cada herói vai desempenhar papel de relevância na organização do cosmos. Vamos ter, assim, um desfile de comportamentos e relatos em que a persona do homem se mostrará em toda a sua plenitude, com suas baixezas, suas dissimulações e falsidades, mas também com suas grandezas e beatitudes.
 Zeus, Hera, Poseidon, Ares, Hermes, Apolo, Hefesto, Afrodite, Atena, Artemis, Demeter, Hades, bem como todos os que os precederam ou sucederam, cada um assenta sua personalidade na linearidade a toda prova. Por isso, que cada um representa um dado aspecto da personalidade do homem. Não é à toa que a Psicanálise em muito se fundamenta na simbologia representativa de alguns personagens da mitologia. A propósito, o professor Junito de Souza Brandão fecha a introdução do primeiro volume de sua obra Mitologia Grega desse modo aí aspeado: “Esperamos que os três volumes de Mitologia Grega cumpram as duas finalidades únicas que tivemos em mira ao redigi-los: cooperar para que as humanidades clássicas voltem urgentemente ao lugar que lhes compete e servir não só aos que lidam com a ciência da psiquê, mas também a quantos acreditam na perenidade do MITO, que não é grego nem latino (acresço: são mais presentes na cultura), mas um farol que ilumina todas as culturas.”
 Ler o texto mitológico é, de certo modo, analisar e enxergar com maior clarividência o homem, desvendando-lhe os mistérios, escutando o eco que provém de sob sua persona (máscara de ator no teatro). Não só com o intuito de desvendar almas como fazem analistas em suas fainas terapêuticas, mas, sobremaneira, para se dar conta de com quem se convive...  Portam-se máscaras de todas as sortes. Depende da ocasião... Depende do teatro e da encenação.
 Voltaremos com a narração de historietas envolvendo os deuses e heróis da mitologia, procurando nelas desencavar significações mais subterrâneas e até mesmo mais à superfície da aventura interpretativa
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FESTA DA CRISTANDADE ou LIBAÇÕES A DIONISO?

Hugo Martins

Ontem, não resisti e, prazerosamente, sentei-me à mesa repleta de acepipes para todos os gostos, regados por inebriante vinho tinto. A visão e gosto dos primeiros, a que se somaram aroma e sabor do último, fizeram crer aos em volta à mesa estar se deliciando com o manjar e a bebida dos deuses do Olimpo. Talvez porque esteja eu comprometido com profusa leitura da mitologia clássica, a comparação me pareceu pertinente e adequada. Dentro em pouco, essa ideia mais se robustecerá.
Naquele banquete, que as pessoas e a indústria cultural chamam de ceia de Natal, numa espécie de evocação daquela retratada num quadro de Da Vinci, encontrei mais uma vez uma ex-colega do Curso de Letras, a quem há muito não via e com quem encetei longo papo, direcionando o assunto para matérias em que se vislumbrasse um mínimo de reflexão. Sendo ela professora de literatura, ficávamos mais à vontade, pois bem sabia ela, desde os anos 70, do meu acendrado amor pelas belas-letras.
Chamei ceia de banquete porque lembrei de uma observação que fizera minha amiga, evocando o banquete platônico pelo aspecto da bebedeira e da orgia e não a questão colocada e discutida por seus participantes naquele festim pagão.
A mulher "tava ca gota" como sugere a linguagem matuta. Pois não é que levantou uma ideia insólita, meio malucóide... Para os padrões do bom burguês comportado, que se alinha à ideia do homem unidimensional de Marcuse. Sim, porque, da minha parte, aplaudi o achado. Que havia de novo no discurso. Dizia ela: "Hugo velho de guerra, não se iluda, a comemoração do Natal, aqui em terras tupiniquins, é uma festa pagã, que transcorre sob a influência do deus Dioniso, em que tudo é orgia, desfile de vaidades e hedonismo. Essa história de congraçamento, confraternização e outras balelas afins não passa de uma deslavada farsa. O povo quer mesmo é comer, beber, mostrar a roupa nova, de preferência "de marca". Não há porríssima nenhuma de sentimento fraterno ou coisa que o valha.
Cuidado, disse eu, você pode estar profanando as nobres intenções de homens de boa vontade, que veem no Natal momento oportuno para apregoar o amor... Ela riu, deu um gole e replicou. Bons artistas versados no jogo do "me engana que eu gosto". Continuou: por que esse amor desabrido não continua depois das festas? Abra os jornais do dia seguinte, meu caro, que você verá que tudo que ocorreu antes é desmentido !
Estão perguntei: "isso é universal? Respondeu: "claro que não, pois entre uma ou outra família ainda é possivel se enxergarem fortes laços de amor e ternura. Ainda assim, vêm à tona jogos de interesse e partilha de amor a quem der mais. Cinicamente discorreu:" olhe, companheiro, filhos há que, pertencentes a famílias cujos pais são separados, no banquete natalino, sempre se guindam para aquele de bolsa e mesa mais generosas... Não resisti e dei uma gaitada... Ela se limitou a ficar me olhando e jogou a proposta cruel: "e você, Hugo, o que pensa disso"? Eu disse: "minha cara, eu não tenho opinião solidamente formada sobre a questão e lembrei-lhe aquela famosa frase do escritor latino Terêncio" sou homem e nada que diga respeito ao homem me é estranho". E acrescentei: juro-lhe que adoro os banquetes natalinos pelo que eles ostentam de paganismo. A eles compareço sempre com três propósitos: beber a locé, comer como um abade e jogar conversa fora como sói acontecer com quem gosta de encontrar pessoas de sua estatura, minha cara.
Desde há tempos, sempre vi nessa amiga a virtude dos grandes bavardeurs: donos da arte de conversar e de colorir o mundo com outras tintas que não o psitacismo monótono dos néscios e tolos.
Não concordo nem discordo de suas ideias, "antes pelo contrário", como diria Antônio Maria...
Depois de mais conversas sobre literatura e assuntos afins, Despedimo-nos com  a mesma efusão dos tempos dos bancos escolares quando conversávamos sob as frondosas árvores do hoje Bosque Moreira Campos.
Chegado a casa, deitei-me na redinha de corda, garatujei o texto. Vez por outra, Morfeu fazia sinais para mim... Resisti aos apelos, sustentei o peso das pálpebras por mais algum tempo a fim de fechar a leitura do capítulo sobre o deus Ares, iniciada no começo da noita antes de sair de casa para participar do banquete tão gozoso.
Valeu a pena  ter desistido de ficar em casa nessa noite natalina do ano de 2016.
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REFLEXÃO DESLOCADA EM DATA NATALINA
Hugo Martins
Até que ponto o futebol e o discurso midiático se irmanam para levar a efeito um processo de descerebração das massas, por meio do qual o real é obnubilado por apelos encantatórios da indústria cultural, a qual visa a vender não só perverso furor consumista de bens econômicos, mas, sobretudo, a repassar ideologias de todo jaez, sobremaneira aquelas em que o jogo do poder se esconde no manto diáfano dos jogos da linguagem?
 Ora, embora haja notícias de que a prática do futebol é coisa antiga, praticado, mutatis mutandis, já mesmo na antiguidade romana, já entre as populações indígenas, só assumiu, porém, as feições com que é conhecido e praticado nos tempos modernos quando da eclosão da Revolução Industrial. À época, os operários das fábricas na Inglaterra se reuniam, depois da faina diária, para praticar o soccer em terrenos baldios das indústrias e fábricas.
 Só no final do século XIX, foi trazido para o Brasil por Charles Miller, filho de pai escocês e mãe brasileira, que, vindo da Inglaterra onde fora estudar, trazia na bagagem bolas, chuteira e regras sobre o futebol.
 Desde então, o futebol, traduzido pelo chavão “esporte bretão”, logo caiu no gosto do povo brasileiro, malgrado sua prática ser permitida apenas às pessoas pertencentes às chamadas elites. As pessoas frequentavam os estádios vestidas no extremo rigor das modas de então: homens de paletó, gravata e chapéu; mulheres de vestidos longos à guisa belle époque, leque e sombrinhas. Negros e pobres eram alijados sumariamente do lazer traduzido em assistir aos embates e a deles tomar parte. Quando se permitiu a presença de negros posando de jogador, caía-se na ridicularia de macaquear estes em branco, pelo processo de recamar as partes visíveis do corpo com tinta branca ou com pó- de- arroz...
 Pela ordem natural das coisas que impõe o devir histórico, a popularidade do futebol se foi espalhando pelo país, com o improviso das bolas de meia e o aproveitamento dos espaços urbanos dos chamados campos de várzeas, em que o populacho iniciou um processo de inserção naquele esporte.
 Desde então, aqui e ali, apesar do desagrado da classe dominante, começavam a figurar timidamente nas equipes os alijados pelo preconceito. Já se viam brilhando em alguns times jogadores negros, cujo trato malabarístico com a pelota permitia-lhes jogar na equipe, embora se lhe vedassem a entrada nas dependências do clube. Isso só era possível pelas portas do fundo.
 Não foi longo o tempo para que o futebol aqui se adaptasse, pois, aqui chegado em 1894, já, em 1930, a seleção brasileira já participava da primeira Copa do Mundo, que foi sediada no Uruguai. Com a conquista do primeiro campeonato mundial de futebol pelo Brasil em 1958, instala-se no país uma febre patrioteira, de ufanismo ingênuo, em que as pessoas, como que narcotizadas, ausentam-se do real e “abrem a guarda” para internalizar as ideologias e a se render a toda sorte de apelo publicitário.
 Época, pois, propícia a que se instaurassem os “anos dourados” do governo de Juscelino, exalçados pelos meios de comunicação de massa, sobremaneira pela televisão, aqui implantada por Assis Chateaubriand, espécie de cidadão Kane, dono dos Diários Associados, complexo de jornais, revistas e canais de televisão, que levavam aos quatro cantos do país não só o que ia pelo mundo mas também a leitura otimista dos problemas brasileiros, sempre minimizados ou decantados pelo discurso maroto e edulcorado, de quem está por trás das câmeras e cordéis.
  É intuível que a força ilusória dos meios de comunicação de massa no Brasil assumiu maior proporção com a instalação da ditadura militarista que, apesar de gerir o país com o argumento irrespondível de cassetetes e borzeguins, daqueles fez uso para levar às massas o sofisma de que “este é um país que vai pra frente” ou “O Brasil é um país feito por nós” e que, portanto, quem não o amasse que o deixasse. Assim, enquanto se ouvia o canto ufanista de “noventa milhões em ação”, música de sabor épico saudando os êxitos do selecionado brasileiro na Copa do Mundo de 1970, trazida aos “televidiotas” já por meio de televisores, quem ousasse discordar de alguma forma da política engendrada por Brasília sofreria torturas, humilhações e outras formas de vilipendiar a dignidade humana. Afora isso, sufocava-se qualquer manifestação artística destoante dos ideais da Escola Superior de Guerra, que, “nas escolas, nas ruas, campos, construções”, propalava os perigos que representavam, para a segurança do país, compositores, teatrólogos, literatos e quem quer que fosse visto acenando bandeira sem as cores dos objetivos daquela sinistra Escola. Muitos desses agentes, quando não eram mortos, deveriam ser presos, arrebentados ou, em última instância, autoexilar-se. O furor contra as “forças estranhas” era tão intenso, que, certa feita, alguém fora preso para explicar por que sobraçava o romance O Vermelho e o Negro, do romancista francês Stendhal... Mas o país ia de vento em popa...
 Sim. Também mergulhado num tal “milagre brasileiro”, o povo acreditava piamente nos progressos que o país experimentava: o comércio era pródigo, e as vantagens que oferecia, fartamente propaladas pelos meios de comunicação, constituíam uma espécie de canto de sereia a que todos se rendiam. Mal se sabia que, por trás dessa festa consumista, existiam problemas estruturais, enevoados pelo manto diáfano e ilusório da publicidade e de outros meios subliminares de embair e narcotizar consciências.
 Não é só no plano da propaganda política, porém, que meios de comunicação de massa e futebol se dão as mãos para exercer o poder de criar ilusões. Atrelando-se aos objetivos da indústria cultural, criam malabarismos argumentativos capazes de vender até mesmo aquecedores no Saara e geladeiras no Polo Norte. Um estádio de futebol, entrevisto pelas câmaras de televisão, mais parece uma grande montra, cujos manequins móveis também ostentam em seus uniformes reclamos, chamarizes ao consumo desenfreado. Em torno do campo, afixam-se fileiras de placas, que parecem estar ali apenas para anunciar... Por elas, se vendem toda espécie de produtos: remédios, xampus, roupas, carros, telefones, planos de saúde e toda sorte de mercadorias... E o jogo continua...
 Os jogadores não são apenas atletas, mas vitrinas vivas, pois é mais fácil distinguir as propagandas que as cores do uniforme. Quando uma câmara mostra um jogador caído no gramado, não se pretende focalizar uma perna ou coxa machucadas, mas a marca que se encontra no calção, no meião ou na chuteira. Além desses jogos subliminares, inventa-se um ainda mais perverso: o mito do vencer na vida sem fazer força. Ser jogador de futebol é a grande meta de boa parte da juventude, com especialidade daquela parcela desprovida das necessidades primárias: os humilhados e ofendidos, aqueles cuja dignidade já é lesada antes mesmo do nascimento...
 Outro aspecto a ressaltar é o processo de heroificação desse ou daquele jogador em quem se sapecam apodos que evocam a grandiosidade do discurso épico. Se este é divino, aquele é maravilhoso, outro é fabuloso. Toda essa legião enfileira semideuses travestidos de garotos-propaganda. Levam eles a todos os rincões o convencimento para a aquisição de produtos, sobretudo industrializados, cujas eficácia ou eficiência ignoram. Importa vender alguma coisa seja a fim de pôr em evidência, subliminarmente, que os objetivos políticos do país estão sendo alcançados pela intervenção deste ou daquele político, seja para conduzir a grande massa despolitizada a consumir aquilo de que realmente precisa, aquilo de que, às vezes necessita, ou mesmo aquilo de que jamais precisará.
 Eis, pois, o problema: o futebol perdeu seu caráter de prática esportiva gratuita para servir de pasto para o engendramento pelos meios de comunicação de massa de um discurso ilusório, em cujos meandros se escamoteia o poder, que engana, humilha e, sobretudo desvirtua o real.
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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

NO MÍNIMO INTERESSANTE

Hugo Martins

Chegado de uma dessas  famigeradas confraternizações que antecedem o dia de Natal, ainda com a cabeça meio anuviada dos efeitos do vinho, deito-me na minha redinha de corda e começo a rabiscar o texto, lembrando tão só da presença de uma pessoa que lá estava e com quem não me avistava desde o tempo em que fôramos colegas no Curso de Letras.
Continua a mesma. Corpo esbelto, ainda bem torneado. Cabelos lisos escorrendo pelos ombros estreitos, olhos grandes,  interrogativos, boca bem desenhada e carnuda. Não lhe reparei as rugas. A maquiagem era discreta e equilibrada. Apenas os olhos saltados e coruscantes movimentavam-se com muita vivacidade, marca de sua personalidade inquieta e perscrutadora. Sempre foi muito inteligente e lida.
Ficamos a um canto da mesa a conversar, meio alheados da presença dos demais ex-colegas. Desintegrados do grupo, mas profundamente sintonizados pelo papo e pelo vinho, entregamo-nos a assuntos respeitantes a literatura, matéria que leciona, e assuntos afins. A propósito da discussão sobre personagens complicados e tendentes a cultivar aceitável misantropia, veio à tona assunto respeitante à busca da paz, porque lhe disse ser eu afeito a fugir para penínsulas interiores. Ela disse que sempre enxergou essa faceta no meu modo de ser e acrescentou não ver nada de anormal nisso, sobremaneira porque sempre andei muito bem acompanhado de livros. Ri e continuei a explorá-la. Lancei-lhe um problema e dela quedei-me a escutar  uma explanação. Vi nesta uma boa dosagem de lógica. Problema lançado: as propaladas terapias de natureza psicológica. Algum fundamento? Ela disse que sim, tão válidas quanto qualquer desabafo catártico ou discurso confessional. Mas há um porém, aduziu. Fiquei à espera do argumento. Se se for considerar, disse ela, toda e qualquer manifestação para o afastamento das chatices do mundo, do vazio das pessoas e suas superficialidades, muita gente da melhor qualidade teria que se submeter a terapias sem delas necessitar. Indaguei: Como assim? Ora, meu caro, disse ela rindo... Então lembrou os frades trapistas, ordem religiosa, cujos seguidores são obrigados a se submeter, além dos votos de castidade, pobreza e obediência, ao voto de silêncio. Há um escritor de nome Thomas Merton que pertenceu a tal ordem e lançou um livro sobre o assunto. Trata-se da obra A Montanha dos Sete Patamares.
Que dizer de ordens religiosas do Ocidente, cujos filiados abandonam a "vida como ela é" e se refugiam em mosteiros, entregues a uma vida de renúncia mundana? E os monges orientais? E os anacoretas?
Aquela batida história do posicionamento filosófico de Sarte de que "o inferno são os outros", presente na peça teatral A Portas Fechadas, como tem fundamento! Com efeito, nossas neuroses, nossas dores e demais doenças da alma se fundam no outro, na expectativa que construímos a ver o que o outro diz ou pensa acerca de nós mesmos. A muié tava cá gota, como diz o zé povão. Por isso, perguntei: e aí, aqueles do povo, que não têm dinheiro para pagar terapeutas? Ela assim respondeu: a estes basta o respeito que lhes devem as sociedades perversas, indiferentes ao outro, inclusive pondo em prática uma distribuição da renda por todos produzida de modo que alguns compram vinte pães para um, e um compra um pão para vinte... Continuei: e os céticos, indiferentes e cínicos que fazem pouco das terapias, colocando-as como refúgio de burguês? Ela lembrou alguns depoimentos do falecido Millôr Fernandes, que via nisso tudo uma farsa, e acrescentou fazer parte do grupo que não cria na coisa. O que há mesmo é muita dependência de almas frágeis a almas aparentemente mais fortes, que leram toda casta de psicanalistas da moda, os quais se revestem de uma carapaça de conhecedores da alma de seu semelhante. Eu cá comigo: "égua, eu não via a coisa por esse ângulo..."
E aí, essa turma de cínicos e gozadores, que deve fazer para se livrar de angústias, medos, neuroses, ansiedades e outros males do mesmo jaez? Ela riu e fechou a conversa: "deve continuar enraizada em sua opinião, sem se preocupar com que seu fulano pense. Assim, diante de situações aparentemente aflitivas, pode encostar-se a uma pessoa de confiança, se é que existe, e fazer,  como diz o vulgo,  largos desabafos. Ou então, estear-se na apreciação da obra de arte, de preferência literatura e música. Em último caso, fazer respirações completas, rir da estultície humana e levar a vida sem se preocupar com o que o que seu fulano pode pensar acerca do que você faz e pensa do mundo.
Todos fizemos as despedidas, vim para casa, dizendo para mim mesmo : ganhei o dia. Quanto a aplaudir ou discordar de minha querida e iluminada colega, é coisa que deixo para depois...
Morfeu cochicha no meu ouvido já ser hora de aninhar-se às suas amplas e acolhedoras asas. Vou fazer isso.
Postado por Hugo Martins às 20:57 Nenhum comentário:
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Reedito o presente textículo porque considero-o "butinim" e pressinto nele a contemporaneidade dos hojes e dos amanhãs. Foi concebido e escrito faz exatos três anos.
O título está calcado numa frase de Machado de Assis, que serve, também, de título a um soneto do excepcional escritor, que trata da  mesma temática. Ele se apoia na primeira pessoa do singular; o texto aqui apresentado, na primeira pessoa do plural.
O substantivo MUDANÇA parece bastante sugestivo se se considerar a natureza do homem e a imperdoável corrida do tempo. Aliás, quando penso nisso, fico a me perguntar se o tempo corre mesmo ou está parado, indiferente à corrida do homem, que busca ninguém sabe mesmo o quê. Coisa de somenos importância...
Vamos ao nosso textículo.

NEM MUDOU O NATAL NEM MUDAMOS NÓS

                                                                                          Hugo Martins

 Não é que está se aproximando mais um Natal! Todos se programarão para experimentar as mesmas emoções de outros já idos natais. Luzes, pisca-piscando, ornarão ruas e praças. As lojas elegerão os mais feéricos motivos natalinos para atrair compradores de bolsos risonhos com o minguado décimo terceiro. Nas casas, portas e janelas ostentarão a caraça de um Papai Noel, encimada pelo indefectível “Feliz Natal e Próspero Ano Novo”. Na sala, a árvore de Natal, com ar de inverno europeu, também acenará, com seu antipático e monocórdio pisca-pisca, para um Natal de mais exuberante luz. Supriria esta a carência da interior de muitos, já narcotizados pela indisfarçável e insopitável insensibilidade, então travestida de sorrisos e salamaleques de polichinelo desencantado? Enquanto isso...

 Dia a dia, as lojas se apinharão do vazio das gentes, cacarejando como galináceos desorientados, no afã de encontrar o presente adequado à pessoa que, de sua parte, também retribuirá com o presente adequado, acompanhado de cartão com discurso pré-fabricado, a fim de que reinem entre os homens a paz e a harmonia. Enquanto isso...

 Sobre grandes e largas mesas, espalhar-se-ão acepipes e iguarias do mais fino gosto para o agrado de todos os paladares. Homens e mulheres, enfatiotados, pavonearão sua vaidade sob os auspícios de “griffes” as mais distintas para, sob efeitos etílicos, esperar que à meia-noite, o espírito natalino, personificado na figura balofa e idiotizada de um Papai Noel de riso fácil, baixe, ao som do “Jingle Bell”, e traga conforto à consciência de cada um. Tudo bonitinho e de acordo com os paradigmas ditados pela indústria cultural, na sua sempiterna faina de institucionalizar a imbecilidade e a mentira convencional. Enquanto isso...

 No dia seguinte, as coisas voltarão ao seu devir natural. Virá o novo ano. Chegará o Carnaval. O espetáculo da vida retomará a deixa do ano que passou. Nossa sensibilidade readormecerá na longa hibernação da indiferença. Calçaremos as sandálias aladas de Mercúrio. Desafiaremos a Lei da Gravidade. Sobranceiros, adejantes e impávidos de pérfida soberba, aguardaremos o próximo Natal para desejar, no mesmo diapasão monocórdio de antanho, Feliz Natal e Próspero Ano Novo. Enquanto isso...

 Arre, não é à toa que o pançudo velhote de brancas barbaças e avantajados borzeguins milicianos traz às costas UM SACO. Quem sabe abarrotado de maçantes mesmices...

 Terei construído um discurso cínico do Natal?!

 Enquanto isso, aí está o mundo, tal um grande cartão, a merecer de nós uma leitura, através da qual nos revelemos mais homens e menos discurso.
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REFLEXÃO NADA NATALINA

Hugo Martins

Cumprindo dever escolar, demos início, hoje, à leitura da obra A TRADUÇÃO e a LETRA ou O ALBERGUE DO LONGÍNQUO, do francês Antoine Berman.
Lidas as notas de tradutores e outras explicações, deixamos de lado qualquer comentário sobre o teor da obra e acerca do que ela problematiza. Ao findar a leitura dela em sua totalidade, voltaremos para expor algumas questões tocantes  à teoria da tradução, assunto que vimos discutindo na disciplina Latim VI, que cursamos com grande alegria na UFC.
Interessa-nos, no momento, tecer considerações de natureza etimológica da primeira palavra do título da obra e verificar sua fortuna léxica na língua portuguesa. Mero ludus, mero play, mero jogo, mera brincadeira para recrear intelectualmente o espírito, que teima em não aderir ao que está por aí no mundo da indústria cultural. Epa! lá venho eu com a mania de fazer filosofices... Vamos voltar ao etimológico, à "palavramundo", às rutilâncias semânticas e históricas, de que vêm grávidas as palavras. Vamos a elas.
A palavra tradução deriva do verbo latino DUCERE, que encerra o significado de CONDUZIR, COMANDAR, LEVAR.. Seu radical é DUC, com a variante DUZ. Quem gosta de ler História sabe que o ditador Benito Mussolini era conhecido como o GRANDE DUCE, o comandante maior das atrocidades provindas do fascismo. Um OLEODUTO transporta, conduz óleo. Já um AQUEDUTO serve de canal para levar água. Por aqui, é mais fácil chegar à acepção mais funda de algumas palavras portuguesas em cuja estrutura mórfica (forma, corpo) se encontram aqueles radicais DUC/DUZ. Vamos lá, lembrando que as partículas que o antecedem são prefixos latinas. Assim, temos:PRODUZIR é levar para adiante; REDUZIR é trazer para trás; INDUZIR é levar para dentro; CONDUZIR é levar consigo; TRADUZIR é levar à frente. Observar  que, com a substantivação de qualquer dos verbos em caixa alta, o radical assume  forma variante DUÇ, como em tradução, produção e indução...
A palavra tradução equivale a translation, em inglês. Aqui, suprimido o prefixo TRANS (forma variante de TRAS), temos LATION, elemento provindo do latim LATUM, que corresponde aqui ao DUZ. Assim, traduzir supõe o sujeito levar de uma cultura para outra um conteúdo, recorrendo a um duplo meio de transporte: a língua de origem e a língua de chegada. Por isso, muito cuidado? A tarefa requer seriedade. O condutor não deve ater-se apenas ao trocar uma grafia por outra, observando a correspondência semântica. Não. Deve estar de olho aberto. As língua têm suas peculiaridades e sofrem profundas influências da cultura a que servem. Desse modo, o tradutor deve investir-se de todos os aspectos culturais (históricos, linguísticos, antropológicos), além da visão de mundo do autor da obra.
Embora existam várias teorias acerca da tradução, cremos que a encontrada na obra acima intitulada guarda a preocupação de o autor fazer como que um novo texto, uma reescritura da obra, levando em conta aqueles aspectos culturais referidos aqui, procurando encontrar correspondência com os mesmos, que devem estar presentes na língua de chegada. Não se trata de disvirtuar o que o autor da língua de origem disse, mas delicada e inteligentemente ajustá-lo ao modo de ser da língua de chegada... Abaixo, pois, o IPSIS LITTERIS (com as mesmas letras).
A propósito, para não mais estender o texto, voltaremos com considerações similares respeitantes à palavra LETRA, também presente no título da obra...
A leitura efetiva da obra poderá esclarecer nossa preleitura aqui calcada, pobremente,  no título.
Questão de tempo...
Postado por Hugo Martins às 17:03 Nenhum comentário:
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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

REGALO LITERÁRIO

Hugo Martins

O romance referido no texto é, para mim, um dos chamados livros de cabeceira, aquele que o leitor sempre revisita a ver se encontra outras nuanças e novas luzes reveladoras de "outras coisas" nem sempre reveladas nos primeiros contatos. Ler um romance desse porte é sempre se regalar, é sempre mergulhar com alegria na orgia que a grande arte proporciona. Aqui encontramos o ceticismo cortante; aqui vivenciamos o estripamento de almas com o bisturi amolado por cruel e explicável ironia; aqui o cor de rosa da vida cede lugar à negra e crua amargura, faceta inseparável do homem; aqui não se fazem concessões ao jogo persuasivo dos substantivos confeitados por adjetivos melífluos e vazios por si mesmos. Não. Aqui está "a vida como  ela é", desprovida dos "véus" de mentirosas e enganosas alegorias. Tudo perpassado pela linguagem rica de fulgurações semânticas, límpida e reflexiva, porque é espelho e pensamento.
Vamos lá.

                                             
Livros também comemos. Deles há que devoramos. Os ingredientes neles contidos são o ponto de partida para definir o bom ou o mau gosto da obra. Sim, há obras gostosas, que provocam tesão estético, tiram seu sono, viram a noite com você e promovem aquela bacanal estonteante, plena de prazer. Também há a obra insípida, destituída de qualquer atrativo ou visgo para pegar o leitor. Quando você pensa que pode desfrutá-la, arrancar dela um momento de prazer, mesmo com meros arroubos burocráticos, ainda que por breves instantes, ela joga em seus olhos a poeira do sono, obriga você a sair do leito e fecha-se no seu sono de cinderela. O jeito é dormir. Aliás, há leitores que adoram obras artísticas dessa natureza, as que servem de sonífero, tão só.
O primeiro passo são as preliminares. Tomemos para a explicação a obra Memórias Póstumas de Brás Cubas e fiquemos com ela só nas preliminares, nada de penetrações mais profundas. Primeiro passo: exploração física. Virar para um lado e para outro as folhas, tocá-las, repassá-las a ver como se organizam as partes, capítulos, prefácio, explicações necessárias e outros elementos que tais. Segundo passo: saber o nome dela. Um dos momentos mais decisivos para que seu desejo de gozo atinja o clímax está aí. Se pular essa parte, vai perder, de muito, deslumbramentos e êxtases. Assim, a palavra “póstuma”, adjetivando a palavra “memória” é de suma importância para que você mantenha vivas as expectativas insertas na obra. Póstumo é adjetivo de origem latina que diz de tudo que vem depois da morte. Ora, o título da obra assevera que alguém escreveu suas memórias, só que ele não as escreveu e morreu; não, ele morreu e depois as escreveu. Releia o título da obra. Para atestar isso, você já leu, abaixo do título a dedicatória assim vertida em bom português “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como lembrança estas MEMÓRIAS PÓSTUMAS”. Ói, o estigma da morte! Ao iniciar a leitura da obra, que abre com AO LEITOR, que antecede o capítulo primeiro, o autor adverte que seu livro não é pra qualquer leitor e diz ser “obra de finado” e, mais à frente, depois de outras considerações, acrescenta “...evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro lado do mundo.”
Pronto fica entendido que estamos nos limites da verossimilhança própria do fazer artístico e não na seara da verdade que a ciência persegue. Muitas vezes, a beleza da obra de arte está em suas absurdidades, na criação de situações impossíveis para o atingimento máximo do êxtase estético.
Dados os primeiros passos, amigo, vá fundo nas “Memórias” e procure desencavar as significações mais profundas, embuçadas “pela pena galhofeira e a tinta da melancolia”, instrumentos com que Brás Cubas põe às claras toda a grande desilusão, todo o máximo desencanto, todo o ceticismo e niilismo em relação ao homem, este ser que, em essência, atemporal e inespacialmente, nunca muda. É mau, é egoísta, é mentiroso, é dissimulado e desleal. Eis a visão de Machado de Assis nesta e em outras obras de sua fase chamada realista.
Dados os primeiros ingredientes, resta ao leitor ir misturando os demais, sem pressa, sem açodamento e, de vez em quando, dando uma provadela a fim de verificar se a mão pesou no acréscimo de algum dos elementos do bolo literário. Bom proveito...
Postado por Hugo Martins às 12:29 Nenhum comentário:
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Leio em Carlos Drummond de Andradre: AO DEUS KOM UNIK ASSÃO. "Eis-me prostrado a vossos peses/ Que sendo tantos todo plural é pouco". Em seguida, colho de Clarice Lispector: "Eu estou apaixonada pelo teu eu. Então nós é." Ainda da mesma autora: "Eu sou tua e tu és meu, e nós é um." Há nos textos violações ás normas vigentes na Gramática Normativa e atentados contra o sistema ortográfico em vigor. Tais deslizes seriam propositais? Ou havemos de pensar que aqueles escritores desconheciam as normas preceptivas do idioma? E viva a comunicacão, e viva a gramática normativa... Faço como os antigos cronistas sociais: "depois eu conto".
Na verdade, são desvios da norma. O escritor os comete com o fito de alcançar maior expressividade, matéria de interesse da Estilística. Assim, no passo de Drummond, temos o plural peses, a sugerir as variadas possibilidades de interpretação do signo na matéria comunicação, sobretudo os meios de massa, que constroem as significações ao seu bel-prazer para submeter e alinear o homem. Veja, no contexto, o emprego do "vosso" e do adjetivo "prostrado", atitude daqueles que adoram deuses de todo jaez, numa submissão canina, com todas as ausências do senso crítico. Quanto aos "erros" de concordância de Clarice apontam para um desejo de unidade, recorrendo a silepses ou concordâncias ideais e não de palavras, como a demonstrar que o amor, entre um homem e uma mulher, não pode ser díspar, nem distante, nem bifacial, há de ser uno, fechado, inseparável, eterno no "instante em que dura." Tais desvios e outras peraltices no texto literário é que provocam o encantamento mágico no leitor, que não precisa saber o porquê. A explicação está no texto mesmo. Além disso, qualquer texto é passível de inumeráveis leituras. Tudo está no leitor, no seu conhecimento prévio e nas suas expectativas de leitura de mundo por esse instrumento mágico, que só a linguagem da arte propicia. Segredo para desenvolver habilidades na leitura? Resposta simples: muita leitura.
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PSICODELISMO PEDAGÓGICO

Hugo Martins

Lembra-me, ainda menino de calças curtas e suspensórios, que o aluno, antes de ingressar na universidade, enfrentava, depois de alfabetizado, cinco anos no curso primário, quatro no curso ginasial e três no curso científico ou no curso clássico. Para ingressar no curso ginasial, submetia-se a provas do famigerado Curso de Admissão ao Ginásio. Findo o ginasial, podia optar pelo Curso Científico, se pretendesse seguir curso universitário voltado para as áreas de ciências químicas, biológicas ou físico-matemáticas. Se optasse pelo Curso Clássico, seguiria carreira nas chamadas humanidades. Ainda havia o Curso Normal, que preparava as meninas que desejassem dar  aulas no curso primário. Na época, a língua latina, as línguas francesa e inglesa, bem como a sociologia e a filosofia eram matérias de ensino obrigatório.
Com a Redentora de 1964, aquela estrutura sofreu reformulação: aboliu-se um ano do antigo primário, passando o quinto ano a fazer parte do ginásio, que ia até a oitava série. Aboliu-se o Curso Clássico, retiraram-se as disciplina filosofia e sociologia e criou-se o chamado ensino profissionalizante, calcado no ideário da educação norte-americana, saído de um aborto pedagógico bem brasileiro. Além de Educação Artística, o aluno devia seguir carreiras como técnico em contabilidade ou analista de laboratório... Uma gracinha. Criou-se a disciplina OSPB (Organização Social  e Política do Brasil) com a viva pretensão de repassar a doutrina do "eu te amo  meu Brasil" , nos colégios, e o repasse cínico da doutrina da Escola Superior de Guerra, nas universidades, nas aulas chamadas Estudos de Problemas Brasileiros. Que não se esqueçam das aulas de Moral e Cívica, num país de imoralidades e amoralidades. Uma gracinha. Tudo. Menos isso era levado às aulas, de regra, ministradas por militares ou simpatizantes desse teatro  patrioteiro.
Depois criaram  o Curso Fundamental e o Curso Médio, sem novidade alguma. Apenas criaram mais um ano no fundamental como para compensar o ano suprimido antes. Tanto é que hoje existe a nona série.
Confesso minha crassa ignorância em relação ao que vem por aí em matéria de mais um arroubo reformista. Ouve-se falar na criação da figura do professor de "reconhecido saber"... Só o que me calou mais fundo na alma. Que diabos vem a ser essa coisa numa época de febris especializações e raros enciclopedismos? Será mais uma peça que se vai pregar nos educandos? É difícil encontrar professores merecedores daquela tarja tão pesada. Houve um tempo aqui no Brasil em que  isso era factível, sobretudo porque ser professor não era para qualquer um, sem preconceito. Estudar no Colégio Pedro Segundo, no Rio de Janeiro, era estudar língua portuguesa com Tasso da Silveira, literatura com Manuel Bandeira, história com  Capistrano de Abreu, Filosofia com Raimundo Farias Brito ou Sílvio Romero. Havia, de fato, um "reconhecido saber". A remuneração do professor era outra coisa bem diferente. Ser professor não era "mero sacerdócio" como defendia um político de visão tacanha, que muito lembra as posturas de um irmão boquirroto, indelicado e fanfarrão. Ser professor hoje é render-se à escravidão, é ministrar um sem número de aulas que lhe tiram o tempo para estudar e pensar as aulas. Os governantes, no Brasil, de todos os tempos e lugares olham para o professor como  mão de obra de grande reserva, há-os em excesso, afinal qualquer um pode ser professor no cabaré nacional.
Com a criação da figura do "reconhecido saber" vem o estímulo: se alguém não sabe fazer nada, que vá ser professor, meu caro... Estamos no Brasil... Mais alguma coisa a acrescentar? Sim. Que se convoquem logo os exércitos de doutos portadores do tal "reconhecido saber"! A juventude, penhorada, agradece.
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NADA DISSO QUE SE PENSA
                                                         Hugo Martins

A frase “navegar é preciso, viver não é preciso”, tradução da frase latina “Navigare necesse est, vivere non est necesse” chegou até nós pelo cancioneiro popular. Interpretava a letra da canção, em que aquela frase estava inserida, a cantora baiana Maria Bethânia. Por isso, o vulgo logo atribuiu a Caetano Veloso a autoria. Depois, aventou-se a hipótese de a frase pertencer ao poeta português Fernando Pessoa, vate muito declamado por Bethânia. Dom Henrique de Coimbra utilizou-a como lema da Escola de Sagres. Depois, foi atribuída ao poeta romano Virgílio...
Meras suposições. E pior: surgiram interpretações de toda sorte. Transcrevo de um dicionário de máximas e expressões latinas a verdadeira história de onde surgiu a parêmia. Vai aspeada.
“No ano 56 a.C, o historiador grego Plutarco relata que os cereais se tornaram escassos em Roma. Violentas tempestades tornam arriscadas travessias para a África do Norte, para onde normalmente podiam ser organizadas. Nessa situação, o general Pompeu organizou pessoalmente uma viagem, e proferindo as palavras “Navigare necesse est, vivere non est necesse”, foi o primeiro a embarcar no navio. Pompeu partiu, portanto, para uma verdadeira viagem e não por um compromisso apaixonado pela navegação, como suas palavras mais tarde foram interpretadas” As miríades de interpretações abortadas para a frase se perdem em filosofices vãs, arrancadas a muque de cabecinhas intelectualoides. Da conversa frívola de mesa de bar...
Lembra-me um cineasta que fizera um filme e o intitulara AMENIC. Certo dia, numa entrevista, uma repórter enfilerou uma vasta gama de interpretações para o AMENIC. Dentre as interpretações, pariu-se o existencialismo de Sartre, o absurdo da existência em Albert Camus e o desconstrucionismo em Jacques Derrida. Todas elas, fundamentadas no pensamento daqueles três, provinham de gente metida a  entendida na sétima arte. Deixo de listar outros nomes, pois aqueles, por si sós, são o bastante para entender o porquê de tanta parvoíce.  A repórter indagou do cineasta se as interpretações tinham uma razão de ser,
O cineasta alisou a barba, cofiou os largos bigodes, pendurou um riso grávido de mais cruel sarcasmo na comissura dos lábios e disse descansadamente:
- Nada disso, minha filha! Como eu não tinha um título para o filme, lancei mão da palavra CINEMA e escrevi-a ao contrário... Pura gozação.
 Antes de se retirar de cabeça baixa e ar pensativo, espichou o olhar para a mocinha e deixou escapar mais um riso escarninho.
Conheço muita gente metida a douta que se compraz em pescar inexistentes significados absurdos e impossíveis nas mais comezinhas cenas da arte do cinema, Pra quê mesmo, não se sabe. Talvez por mero furor interpretativo sem nenhum fundamento.
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NATAL É OSSO.
                                        Hugo Martins
Não me afeiçoo a nenhum credo religioso. Não me perco em vãs discussões acerca da existência ou não-existência de Deus. Leio a Bíblia Sagrada sem tomá-la como esteio para covardes e medrosos, que só buscam alento nela quando se veem emaranhados em problemas existenciais que não devem ser da alçada daquela ou daquel´outra  divindade. Meu porto seguro se encontra nas páginas da grande literatura ou da filosofia, que se ocupam das inquietações humanas e matérias afins. Tendo em minha volta livros a mancheia, silêncio necessário e ausência de inoportunos, encontro-me num paraíso em que respiro paz, reflito, leio, escrevo, penso, ouço musica e mantenho-me no justo grau de distância e proximidade  necessárias ao convívio humano. Se nenhum homem pode ser uma ilha, sou, com muito gosto, uma península.  Alguns psicólogos pretensiosos, citando autores que nunca leram, a não ser as orelhas dos livros, ou os leram de afogadilho, dirão: isso não é estilo de vida, é fuga. Mando-os às favas e permaneço na minha bolha imaginária, assistindo ao espetáculo da vida...
Um dos livros bíblicos que frequento com certa assiduidade é O Eclesiastes, cuja autoria é atribuída a Salomão. Trata de temas eternos como a busca da felicidade, a fugacidade de tudo e o tempo que passa (nada de novo sob o Sol). Acresçam-se: a preocupação humana com o acúmulo de riquezas, a sabedoria e o discernimento, a insensatez e a prudência. É livro que vale a pena ser lido seja pelo valor literário, seja pelas largas lições de filosofia disseminadas em suas páginas. Suas lições terão, para muitos homens, o gosto amargo do pessimismo bem próximo dos cínicos gregos Antístenes e Diógenes, cujo pensamento se encontra em pequenos fragmentos de textos ou em citações dos historiadores da filosofia.
Na filosofia ocidental não há um só filósofo que não tenha se voltado para a questão do fenômeno religioso. Afinal, é ele ínsito ao homem.  Mesmo que não tenham tangenciado o assunto, como o fizeram Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino e Chardin, pra exemplificar, tomaram-no como tema, colocando o homem no centro de todas as atenções metafísicas e transcendentais.  Nos textos da grande literatura, existem mais análises sérias do problema religioso que determinadas obras de pastores e padres televisivos, espécies de novéis pregadores voltados para a salvação do homem  (não se sabe de quê), sempre de olho no sofrimento dos ingênuos e simples para deles angariar algum lucro imoral, resultante  do sermão bem entretecido em que se pescam ainda ameaças de castigo eterno no fogo do inferno.
O Natal não tem nada de religioso. Não precisa lembrar e enumerar os porquês. Estes já se tornaram lugar-comum repetidos por ceca e meca. As árvores com ar de inverno europeu, as lapinhas, as luzes pisca-piscando, os presente ao pé da árvore, a generosidade de São Nicolau, encarnada no velho pançudo com um saco nas costas, riscando os céus num carro puxado por renas estúpidas, tudo isso é o antinatal, constitui sucessivas crucificações do Cristo, pois, daquele cordeiro manso e amoroso, nada se pesca na suntuosidade dessa festa nada cristã.
Rabindranath Tagore (1861/1941), poeta indiano, prêmio Nobel de literatura em 1913, atinge com sublimidade, nos versos a seguir transcritos, a essência nua do que deveria ser o Natal. Não são necessárias muitas palavras... Basta sentir.
“Aqui é o estrado para os teus pés, que repousam aqui, onde vivem os mais pobres, mais humildes e perdidos”
“Quando tento inclinar-me diante de ti, a minha reverência não consegue alcançar a profundidade onde os teus pés repousam, entre os mais pobres, os mais humildes e perdidos.”
“O orgulho nunca pode se aproximar desse lugar onde caminhas com as roupas do miserável, entre os mais pobres, mais humildes e perdidos.”
O meu coração jamais pode encontrar o caminho onde fazes companhia ao que não tem companheiro, entre os mais pobres, mais humildes e perdidos.”

É osso.
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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

LITERATURA (QUE DIABEISSO?)

Hugo Martins

O "ensino" de tal matéria reduzia-se ao biografismo estéril quando não se voltava para questões que mais pareciam seções de fofocas e disse-que-me-disse tão ao gosto de leitores de almanaques,  senhoritas desocupadas e senhoras entregues à  doce ociosidade bovarista. Certa ocasião, foi colocada numa prova a seguinte pergunta: "qual o olho cego de Camões, o esquerdo ou o direito? Profundo, não?
Desenvolveu-se uma pedagogia machadiana. Não se lia a obra do autor de Dom Casmurro. O professor se limitava a ressaltar: "Machado de Assis era mulato, gago e sofria de epilepsia. Daí vinha a marca de seu pessimismo." Pergunta-se qual?
Para que ler Os Sertões? O importante era pôr às claras o fato de que Euclides da Cinha fora traído por sua mulher, a senhora Ana de Assis, cujo amante, o senhor Dilermando de Assis,  irá assassinar o criador de À Margem da História. Não importava o estudo da obra, nem  mesmo uma só observação de que se trata de obra de cunho sociológico, nascida dos artigos que Euclides escrevia para o jornal Estado de São Paulo, denunciando as mazelas em que vivia o homem entregue à sua própria sorte, totalmente ilhado da História.
Em  Vidas Secas, não interessava a linguagem ressequida como o ambiente e a vida dos personagens; a arquitetura do romance era algo de somenos importância;  a animalização do homem e a hominização do animal eram fatores irrelevantes. Por que saber quem era aquele personagem nomeado Soldado Amarelo? Bom mesmo era se ficar sabendo que Graciliano Ramos era simpatizante de ideias esquerdizantes e que fora preso pela ditadura Vargas, que o jogou nos porões da Ilha Grande.
O indianismo alencarino, que surge com mais pujança nos romances Iracema e O Guarani e ressalta a formação étnica do povo brasileiro, bem como o modelo de herói representado por Peri nào assumia qualquer relevo. O importante era pôr em destaque que Iracema uniu-se ao guerreiro branco (Martim Soares Moreno), morreu de parto e deixou um filho, Moacir...
É o fim da picada, tudo se dizia da obra. Proceder à sua leitura não tinha nenhuma importância. Do caralho, não?
Literatura é forma de conhecimento, que se assenta nos primados da intuição criativa do artista e instaura, na sua verossimilhança, indagações acerca do viver e do morrer. Enfim, volta-se para a interpretação de tudo aquilo que um pensador alemão chamou de "humano, demasiadamente humano". Não é passatempo barato, tampouco matéria para preencher a estreiteza mental de um sem número de idiotas que não suportam o peso da leitura de dois ou três parágrafos de uma página de obra que deles exijam o mínimo pensar.
Que não se confunda a obra literária com livrecos da moda, colocados em seções de mais vendidos em revistas semanais,  ou arrumados e postos à vista do leitor ingênuo em balcões estilizados.
Como distinguir uma coisa de outra? Aí é outra conversa, geradora de mais e mais conversas...
Literatura não se ensina... Aprende-se com ela se embriagando em perpétua orgia...
Postado por Hugo Martins às 18:05 Nenhum comentário:
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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

ORTOGRAFIA

Hugo Martins

Gosto por demais da imagem que diz: aprender a ortografia de uma língua supõe ser o sujeito bem versado na arte de fotografar e revelar. Não entra aqui nenhum instrumento como máquinas fotográficas ou celulares ou, ainda, técnicas de revelação, aprendidas com fotógrafos profissionais. À guisa de lembrete, qualquer pessoa, hoje, fotografa, a parafernália técnica tornou isso um ato banal, corriqueiro e pouco inventivo.
O fotografar e o revelar que se pretende salientar, agora, dão-se, em primeiro lugar, numa simples apreensão visual;  e, em segundo, pelo desenho mecânico de caracteres gráficos numa dada superfície: papel, areia, bronze, parede, gesso, lápides tumulares, muros, tudo à livre escolha da ocasião.
Quanto mais vezes ocorre o ato da fotografia ocular, maiores as possibilidades de se proceder a revelações de conformidade com normas fixadas previamente, as quais se fundam em critérios técnicos traçados por homens doutos (palavrinha antipaticazinha do caralho). Assim, a partir daí, não é difícil concluir que aprender a desenhar as letras e demais notações gráficas de uma palavra de não importa que língua está na dependência das visitas feitas a texto de cunho escrito. Não há regras, mas aproximação e familiaridade. Por exemplo, se já me passou ante os olhos, por mais de cinquenta vezes, a palavra ASSESSOR, por exemplo, poucas são as probabilidades de eu grafá-la ACESSOR por associação com ACESSO... Aliás,  a grafia "acessor" não existe como forma de conformidade com o Sistema Ortográfico em vigência.
Trocando em miúdos, a ortografia de um idioma "aprende-se" por meio de uma prática simples, fácil e segura: LEITURA.
A propósito, um grupo de trinta jovens, no Brasil, concorrendo a vagas de estagiário numa empresa, submeteu-se a exames, cujo conteúdo levava em conta conhecimentos de língua inglesa, computação e "língua portuguesa". Nas duas primeiras, todos se saíram muito bem, mas num ditado de palavras soltas do léxico português, mais da metade do grupo, resvalou em mais de vinte palavras das quarenta ditadas.
Os escorregos: eicessão por exceção; procimo por próximo; pretencioso por pretensioso; ância por ânsia; normau por nomal; umou por humor... Afora outros abortos gráficos.
Coloquei, acima, o sintagma língua portuguesa entre aspas porque o assunto ortografia não é língua portuguesa, mas mera convenção.
De tudo isso, restam duas conclusões: o estudante brasileiro, em sua grande maioria, é pouco dado á prática da leitura (aliás, há estatística demonstrando que, no ano de 2015, setenta e cinco por cento de pessoas habilitadas a ler no Brasil não leram sequer um livro) ; a outra conclusão mais alvissareira é que nóis num é muito chegado a purtugueis purqué noço negossio é cum ingreis.
Postado por Hugo Martins às 18:47 Nenhum comentário:
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PURISMOS e COISAS TAIS.

Hugo Martins

Aluno indaga de seu professor o significado da palavra ludopédio, desejando saber de onde essa palavra com cheiro pedantesco provém. Antes de o mestre explicar, o aluno aduz que lera num livro que a palavra origina-se da língua inglesa. O professor achou graça da última observação. E com razão. Vamos à questão.
A coisa começa com os chamados gramáticos puristas, que, assentados na ojeriza a palavras que não cheirem ao étimo grego ou latino e no nosso léxico entram por razões culturais, tratam de, por meio de ginásticas filológicas, criar termos, a seu aviso, mais consentâneos com o genuinamente português.
Pois bem, a palavra LUDOPÉDIO foi criada pelo gramático Castro Lopes para substituir FUTEBOL. Este substantivo provém do inglês FOOTBALL, que, numa tradução pelas mesmas letras, significa pé na bola. O gramático preferiu LUDOPÉDIO, que provém de dois termos latinos: (ludus, i), que significa jogo, distração, e (pes, pedis), que significa pé. Comparando o nome inglês e o nome português criado por Castro Lopes, vê-se que ambos remetem para a mesma significação.
Os puristas brigavam consigo mesmos na luta vã de criar nomes para fazer frente ao que eles chamavam estrangeirismo. Alguns pegaram, como é o caso de ESCANTEIO para subsituir corner ou, ainda no futebol, IMPEDIMENTO para sibstituir off side, e TENTO no lugar de goal. Outros nem mesmo estão dicionarizados, como é o caso de LUDOPÉDIO e outros de grande estranheza mórfica. Vejamos alguns: CONVESCOTE para piquenique; LUDÂMBULO para turista; LUCIVELO para abajur; FESTIMANA para matinée. Dá pra aguentar???
Trabalho vão o afã purista, que lembra preconceito, xenofobia (aversão a coisas estrangeiras) e falta de bom senso por se insurgir contra a ordem natural das coisas. O intercâmbio cultural entre os povos não se submete a restrições tão tacanhas quanto cômicas.
A risada do professor se deveu à informação que o aluno lera acerca da origem de LUDOPÉDIO, aliás já mostrada ser francamente latina...
Postado por Hugo Martins às 08:41 Nenhum comentário:
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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

QUESTÕES VERNÁCULAS DO DIA A DIA -  II

Hugo Martins

1- O termo empregado no sintagma acima em posição adjetiva provém do latim VERNACULUS - A- UM, assim apresentado no dicionário em três formas: a primeira para o gênero masculino; a segunda para o gênero feminino; e a terceira para o gênero neutro. Embora encerre várias acepções, como, por exemplo, "nascido em casa", "doméstico", a mais usual aponta para " que nasceu no país, indígena, nacional". Desse modo, a questão vernácula é aquela atinente a um dado idioma.  Para nós brasileiros, a língua portuguesa é o nosso vernáculo; a língua francesa é o vernáculo para as comunidades que adotam aquele idioma; do mesmo modo que a língua alemã é o vernáculo para o povo alemão. Legal...
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2- Há tempos não a via. Hoje cedo, ao compulsar as páginas de Les Mots, espécie de autobiografia do filósofo francês Jean Paul Sartre, em que o pensador reflete sobre o binômio mundo/palavra, dei de cara com ela. Malgrado quando com ela me encontro, pressintir-lhe a alma, elas também possuem alma, fui  estudar  com mais demora seu Ser. Resulta ela, muito interessante, do conúbio entre um radical da língua inglesa e um sufixo de nosso vernáculo: trata-se do nome TRUÍSMO. Segmentando este, temos o sufixo vernacular ISMO, agregado ao termo inglês TRUE (certo, verdadeiro). Quando empregamos esse nome substantivo, estamos a nos referir a "uma verdade trivial, tão evidente, que não é necessário ser enunciado." É um truísmo lembrar ser o homem o único animal a ter consciência de sua própria finitude... Tornou-se, entre nós, um truísmo reconhecer a verdade insofismável: historicamente,  é o povo brasileiro vocacionado para a corrupção... E aí vai...
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3- Aprendi a coisa cedo. Achava estranho, mas a paciência, a bondade e a vocação para o magistério entranhada em sua bela alma, virtudes de minha professora do quinto ano primário, que nos preparou para o Exame de Admissão ao Ginásio, Dona Conceição, levaram todos nós a empregar, corretamente,  o verbo VER no futuro do subjuntivo. Para o caso, dizia a mestra, não era suficiente só antepor o QUANDO às formas verbais, como, por exemplo, "quando nós lermos a lição" ; "quando tu escreveres o trabalho..." Antes deve existir, dizia ela, a consciência de que a formação do futuro do subjuntivo se dá a partir da terceira pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo do verbo a ser conjugado, eliminando-se as desinências.
Ora,  muita gente estranha, com razão, assim conjugar-se o verbo VER no futuro do subjuntivo: VIR, VIRES, VIR, VIRMOS, VIRDES, VIREM. Nada a ver com o verbo VIR, que se conjuga no tempo em questão desse modo: VIER, VIERES, VIER, VIERMOS, VIERDES, VIEREM. O primeiro provém de VIRAM, terceira pessoal do plural do pretérito perfeito do Indicativo  de VER; o segundo, de VIERAM do verbo VIR.
Vejamos exemplos. "Quando ele VIER do trabalho, ele trará o livro". "Quando eles VIREM que o conteúdo do livro é superficial, cedo desistirão da leitura.
Simples, fácil, embora estranho...
Voilà...
Postado por Hugo Martins às 06:07 Nenhum comentário:
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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

QUESTÕES VERNÁCULAS DO DIA A DIA

Hugo Martins

1- O aluno pergunta por que antes das letras P e B só se pode grafar a letra M. Assim responde o professor: embora  a ortografia do português assente-se em convenção fundada em fatores etimológicos ou simplificações, a questão colocada tem razão de ser. As letras N e M podem representar um fonema ou, muita vez, fazer as vezes de elemento indicador de nasalização de um fonema vocálico. Assim temos como ilustração: nas palavras Nero e Marcos, N e M representam um fonema; em tento e campo, representam elemento nasalisador do fonema vocálico com que formam a sílaba. Colocar a letra M e não N antes das letras P e B se dá pelo fato de que P, B e M (pê, bê, mê) são fonemas que se realizam no mesmo ponto de articulação, ou seja, são bilabiais, ocorrem com o contato dos dois lábios... Simples.
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2- Conta-se que um professor de língua portuguesa era muito coerente e, por isso, supinamente severo nos usos da língua, sobretudo no que dizia respeito aos preceitos da gramática tradicional... Um purista aferrado aos cânones clássicos. Não perdoava deslizes...
Certo dia, dava sua aula quando um grupo de alunos lhe pede licença para dar um aviso à turma. O mestre consentiu e se pôs ao lado do grupo. Um dos componentes  iniciou o aviso: "turma, muito bom dia...Nós viemos aqui  dar um aviso..." Não completou o aviso. O professor colocou todos para fora... Lá do fundo da sala, um garoto levanta o dedo e indaga do mestre o porquê daquela atitude indelicada. O mestre respondeu que estava apenas sendo coerente. Afinal, o aluno do aviso disse "nós viemos". Isso é ação passada, já realizada, portanto. Ele deveria ter dito "nós vimos" (primeira pessoa do presente do indicativo do verbo vir e não do verbo ver), forma que assinala ação ocorrendo no presente. Simples. Para o professor, o aluno não sabia conjugar verbos em sua língua materna...
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3- Já se ouviu muita gente letrada escorregando no emprego do VERBO INTERVIR, sobretudo na terceira pessoa do singular do pretérito do indicativo, empregando : "interviu" no lugar de "interveio". O deslize ocorre porque o falante julga tratar-se de forma verbal  derivada de VER. Na verdade o verbo INTERVIR deriva-se de VIR, precisamente do pretérito perfeito do indicativo. Conjuguemo-lo: eu VIM, tu VIESTE, ele VEIO, nós VIEMOS, vós VISTES, eles VIERAM. Agora é só prepor o sufixo INTER. Simples, não? Assim, na terceira pessoa do singular do modo e tempo em foco, teremos: Fulano interveio na questão, e não "interviu".

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4- Revisar um texto não é tarefa fácil, não se reduz a, tão só, colocar assentos gráficos e sinais de pontuação. Isso faz parte do trabalho do revisor, também... Porém o mais trabalhoso é o que costumo chamar "desentortar pensamentos", que consiste na tarefa de observar a falta de coesão e coerência presentes no texto e eliminá-las, coisa que não se faz por intermédio de regrinhas da gramática normativa, mas por profunda vivência com textos de todo jaez temático. Enfim, a revisão eficiente é fruto do trabalho de um revisor "viciado" em leitura e não de um garimpador de regrinhas e exceções...
Simples, não?
Postado por Hugo Martins às 20:59 Nenhum comentário:
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QUESTÃO VERNÁCULA.

Hugo Martins

Nunca me esqueci dela. Tinha, talvez, não mais que vinte anos. Era bonita, risonha e simpática. Delicada e envoltente até dizer chega. O bom humor era sua faceta marcante. Nunca deixou de responder a qualquer pergunta que se lhe fizesse. Com ela muito aprendemos, sobretudo conjugação de verbos da língua portuguesa. Lembro-me saudosamente das sabatinas, em que ela promovia enfrentamentos entre os alunos. Não se tratava de pôr algum deles em evidência, posando de sabido. Não. Na verdade, era um jogo didático em que procurava deixar claro que conhecimentos também se cotizam.
Trago à baila uma lição dela, que repousa tranquila nos meus escaninhos mentais. Tratava-se de uma questão relativa aos tempos primitivos e tempos derivados dos verbos em língua portuguesa. Está lá nas minhas instâncias mentais na eternidade das placas de bronze.
Dessa questão, aprendi, com Dona Conceição, que me preparou para os Exames  de Admissão  ao Ginásio, que o modo imperativo afirmativo assim se forma: as duas segundas pessoas advêm do presente do indicativo, com a supressão da letra S; as demais pessoas derivam diretamente do presente do subjuntivo. Nunca esqueci também que o imperativo negativo deriva totalmente do presente do subjuntivo...
Ontem, ouvindo a fala de um ministro do Supremo Tribunal Federal, lembrei minha amada professora. Ora, fazendo pronunciamento sobre questão a que firmara parecer, o ministro Fulano de Tal disse mais ou menos assim: " caso eu não mantesse a decisão..." Ai, ai, ai...
Dona Conceição me convenceu, em sua lições claras, que o ministro deveria ter dito assim: "caso eu não MANTIVESSE a devisão... Aprendi com ela que os tempos verbais pretérito imperfeito do subjuntivo, futuro do subjuntivo e pretérito-mais-perfeito do indicatvo derivam-se todos do pretérito perfeito do indicativo, precisamente, da terceira pessoa do plural. Assim, por ordem: MANTIVERAM (terceira pessoa do pretérito perfeito do indicativo), seguem-se os tempos derivados, seguindo a ordem: MANTIVESSE, MANTIVER, MANTIVERA. Nunca MANTESSSE, MANTER, MANTERA. Abortos de conjugação verbal...
Logo: pusera e não pora; contivesse e não contesse; opusesse e não opora; transpusesse e não transpora...
O cometimento de deslizes linguísticos, nos meios de comunicação de massa e, ainda mais, no ambiente grave de retórica estentórea, pode ser perdoado, mas não de ser observado. Admitem-se entre o povaréu, que pouco conhece as leis do uso da norma padrão. Quem bem conhece as leis, seu espírito e redação, deve também conhecer alguns caminhos ínvios e intrincados, envolvendo as leis idiomáticas. Aqueles que tropeçam em seus mandamentos também devem se submeter a julgamentos, dependendo do "réu" cometedor do pecadilho...
Dona Conceição está no rol dos meus "tipos inesquecíveis", tal como aqueles que, por algum motivo nobre, desfilavam numa das seções da revista SELEÇÕES, que ostentava o sintagma aspeado à guisa de título.
Voilà...
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

LATIM, PRA QUE TE QUERO.
Hugo Martins

Vez por outra, lê-se, aqui e ali, que alguém impetrou um HABEAS CORPUS. "Diabeisso", pergunta um cearense. Na linguagem jurídica, é uma providência  de que alguém se socorre por estar sofrendo ou  por se sentir ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder. Os doutos chamam-no de remédio. Está previsto      
como garantia constitucional na Constituição Federal de 5 de outubro de 1988, art. 5, inciso LXVIII, como também também no art. 647 e seguintes do Código de Processo Penal.
A tradução livre e literal do sintagma latino é "tenhas o corpo" Habeas é a segunda pessoa do singular do presente do subjuntivo, com tonalidade semântica imperativa,  do verbo HABERE (em português, TER, com pronúncia paroxítona). CORPUS (corpo) é palavra de gênero neutro, em latim, e exerce, sintaticamente, a função de objeto direto.
De modo simples um um pedido de "habeas corpus" deferido significa mais ou menos: "homem, teu corpo está retido ilegamente. Toma-o. Vai aonde bem quiseres. Vem de onde bem quiseres", profere o Estado.

LATIM, PRA QUE TE QUERO?
Hugo Martins

"Nemo propheta in patria sua" ("ninguém é profeta em sua terra). É um fato. Por mais que o sujeito reúna talento para exercer dado ofício ou acupação e o faça com reconhecida e eficaz competência, jamais será reconhecido como tal. Lembra  o " santo de casa não obra milagres". Contextos em que se pode ler complexo de inferioridade cultural. Advogado do interior nunca supera o da capital. Medicina boa está nos grandes centros. A propósito, nesse diapasão, deixo indicado aos que cursam medicina um romance de Cronin, A Cidadela, que, embora cheire a idealismo puro, põe às claras essa história de famas e reputações construídas por sofismas. Muita vez, o "profeta" está a seu lado, mas seus olhos e sua alma estão enevoados por dados preconceitos advindos da ingenuidade e da parvoíce.

LATIM, PRA QUE TE QUERO.
Hugo Martins

Quando alguém chega tarde a qualquer compromisso (almoço, banquete ou algo de que não pôde fruir), diz o ditado latino " dormientibus ossa" (aos que chegam tarde o resto). Quem perde prazo e, por consequência, perde o direito, diz o ditado latino " dormientibus non succurrit jus" ( o direito não socorre aos que dormem). Horácio, poeta romano, dizia que a literatura é o "utile dulci" (o útil ao agradável). Queria dizer o poeta que com a literatura aprendemos nos divertindo e divertimo-nos aprendendo. Outra ditado latino curioso " qui bene olet, male olet" (quem usa perfume é porque não cheira bem). Por fim, temos "philosophum non facit barba". Transpondo para a ordem direta " barba non facit philosophum". De fato, " o hábito não faz o monge", assim como a barba, o ar professoral, o suspensório e o cachimbo, o ar de quem está ausente do mundo, nada disso faz o filósofo. Este já nasce feito ou se faz...

LATIM, PRA QUE TE QUERO?
Hugo Martins

" Mortuo leone et lepores insultant" (ao leão morto até as lebres insultam). Corresponde, aqui no Nordeste a " quando o touro está morto, todos querem pegar no chifre (não levar chifres).  Parêmia bem aplicada aos pusilânimes, aos falastrões, a todo aquele que só dá as caras ou arrota grandeza depois que  a situação ameaçadora estiver apaziguada.
Postado por Hugo Martins às 19:29 Nenhum comentário:
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PENSAR, PROFESSOR, PENSAR...
Hugo Martins

Certa ocasião, em conversa com um amigo, o professor José Nascimento Braga, surgiu um assunto de larga importância para quem lida com a língua, qualquer que seja ela, no que tange à sintaxe, parte dos estudos linguísticos que trata da estruturação do pensamento. Em língua portuguesa, por exemplo, quando se constrói a frase ou procede-se a uma espécie de anatomia a ver como se apresenta o esqueleto do pensamento, há de se levar em consideração os aspectos atinentes a concordância, a regência e a colocação dos termos, de modo que o ideia se revele límpida, enxuta, cristalina.
Há um poema de Vinícius de Moraes, por todos decantado como “lindo”, mas limitadamente compreendido devido estar vazado num cipoal sintático que impede a maioria dos leitores  alcançar-lhe o sentido. O ser lindo pode estar fundado no ritmo e na musicalidade de cada verso, mas, se transpirado da construção do pensamento (sua estrutura sintática), ficaria mais lindo ainda.  Transcrevamos apenas o primeiro quarteto e procedamos à análise sintático-semântica dele.
“De tudo ao meu amor serei atento,
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto,
Que, mesmo em face do maior encanto,
Dele se encante mais meu pensamento.”
Primeiro passo: definir o número de frases; em seguida, o número de orações em cada uma das frases; e, por fim, definir cada termo estruturador de cada oração. Assim, procede-se a uma operação lógica por dedução, ou seja, partindo-se do geral para o particular como se faz com um axioma matemático.
Os limites da frase, pelo menos em língua portuguesa, de regra, são definidos por pontuação fonética, na fala; por pontuação gráfica, na escrita. Assim, fica fácil ver que o quarteto supra está assentado em uma só frase. Pronto. E agora?  É olhar para o quarteto supra e ver que ele está se referindo a alguém que diz que será atento a alguma coisa; será atento com muito zelo, será atento sempre, e será excessivamente atento. Desse advérbio exprimindo fortíssima intensidade, resultará uma consequência. E aí, salta aos olhos um paradoxo belíssimo expresso por aquele que se declara, em forma de compromisso, alguma coisa a alguém.
Vamos lá, vamos arrumar o pensamento para fruir a beleza que dele dimana? Pois bem.
Primeira ideia: EU SEREI ATENTO AO MEU AMOR ANTES DE TUDO;
Segunda ideia: EU SEREI ATENDT AO MEU AMOR SEMPRE;
Terceira ideia: EU SEREI ATENTO AO MEU AMOR COM TAMANHO ZELO;
Quarta ideia: EU SEREI ATENTO AO MEU AMOR DE TAL FORMA;

E tome a consequência: QUE, AINDA QUE EU ME ENCONTRE EM FACE DE UM ENCANTO INDEFINÍVEL, MEU PENSAMENTO MAIS SE ENCANTARÁ DO MEU AMOR...  Ufa! Daí para a frente o tom do soneto assume a mesma pontuação lírico-confessional como sói acontecer no discurso de menestréis, trovadores e boêmios...
Continuamos a conversa. De repente, Nascimento olha para mim e diz: “companheiro Hugo, a língua é fácil; a munheca do povo é que é dura”. E dizendo isso, puxou do bolso um prospecto e pediu-me que lesse. Lá estava: COLAÇÃO DE GRAU ESPECIAL. Com efeito, a construção peca por resvalar na sintaxe de colocação. Aqueles alunos que perdem a data da Colação de Grau aprazada pela instituição devem fazê-lo depois, em data específica, junto ao reitor. Trata-se de solenidade de COLAÇÃO ESPECIAL DE GRAU. Fácil, não? Não é o grau que é especial, mas a solenidade da colação...
Voltaremos com o Ministro Celso de Melo, do Supremo Tribunal Federal...











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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O Facebook pergunta-me em que estou pensando. Em muita coisa, cujo amontoado não me impede de organizar as ideia e amarrar sintagmas, coser orações, burilar as frases de tal modo que, dessa operação, exsurja um texto que diga alguma coisa.
Quando vou redigir o que quer que seja, muitas vezes, levo já o a ser dito numa espécie de forma mental, igual àquela de se fazer bolos. Outras vezes, abandono-me ao ato de pôr no papel ou na tela do computador aquilo que me vem surgindo na cachola. Claro que, ao fim e ao cabo, sai alguma coisa com alguma ordem. Afinal, o texto, pelo próprio étimo latino, nada mais é que um tecer, um coser, como fazia Penélope com seu tapete. Importa que, nessa faina, sem que menos se espere, avulta algo semelhante ao enigma da Esfinge: "decifra-me ou te devoro."
O mundo pode ser, para alguns, um moinho, como disse o sambista Cartola. Para mim, embora a imagem seja por demais batida a ponto de tornar-se corriqueiro lugar comum, o mundo continua a ser um enigma nas situações mais comezinhas do nosso dia a dia. Tanto é que existe um instrumento, de potencial eficiência,  para que se promovam indagações aos porquês que pululam ante nossos olhos: a camada simbólica apanágio da linguagem, que pode, paradoxalmente, explicar ou confundir. Estarei eu plagiando o velho guerreiro Chacrinha? Embora pareça uma reflexão trivial, vem ela carregando em seu bojo algum laivo de verdade.
Com efeito, as notícias de mundo hoje nos chegam com uma máscara trágica ou mentirosa. Cheguem pelos meios de comunicação de massa ou pela boca do povo, nenhuma delas, sem exceção, noticia algo agradável em que a solidariedade humana esteja presente, transpirando amor ou bondade, palavras tão barateadas pelo utilitarismo que ronda o homem desses tempos de muito discurso vão...
Por óbvio, aparecem, aqui e ali pálidas exceções, que fazem o jogo humanitário sem que soem trombetas, explodam fogos de artifício e refuljam flashs de máquinas fotográficas. Dizem que, no Brasil, ser honesto é uma virtude, não uma obrigação derivada da lógica e da natureza das coisas. Devolver o que pertence aos outros transforma-se em ato de heroísmo. Cumprir o dever, dentro do espírito do imperativo kantiano, é ato de bravura e de grandeza de alma. As escolas estão mais voltadas para ações pedagógicas que estimulam a competição doentia entre pseudogeniozinhos, que, sem nenhuma culpa, veem-se, gratuitamente, desprovidos de formação humanística. Há deles, até mesmo, que desdenham das chamadas ciências humanas como se estas fossem coisa de segunda categoria. É doloroso...
O mundo está apinhado de semideuses... Aqui cabe a pergunta do poeta na poesia que ele intitulou de Poema em Linha Reta:"arre, onde há gente no mundo?"
Sei não...
Escrever, e escrever,e escrever, e escrever... Mesmo que não se tenha nada a dizer, palavra puxa palavra,
e o texto se faz. Não importa o que ele veicula. Se ingênuo, se polêmico, se profundo, se raso, importa criar ainda que tudo resulte num aborto intelectual. Não é crime...
Eis aí um texto escrito ao sabor de reflexões que acorrem ao redator à medida que vai matraqueando o teclado, sem nenhuma preocupação de tropeçar no enleio da frase ou na construção da ideia. É como ler uma obra literária supinamente encantadora. É  viagem. E das boas, sem medo de avião...
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DELÍCIAS DO LATIM.
Hugo Martins
Uma coisa interessante: quando se fala em aborígines, pensa-se logo naqueles "selvagens" da Austrália. Quando vi a palavra na Eneida, de Virgílio, e passando os olhos sobre o comentário do trecho que se lia, é que vim perceber, pela etimologia, que significa "primeiros habitantes". Ora a palavra aborígine significa, ao pé da letra, originário de. Forma-se do substantivo latino ORIGO, ORIGINIS (de terceira declinação), que significa origem. Legal... Aborígine, pois, pela raiz apresentada mais a preposição AB, significa originário de... Massa, galera...
Quando nos referimos a cadeira de espaldar, cadeira de braços, cadeira de professor, cadeira episcopal, o termo latino mais apropriado é cathedra, cathedrae (palavra da primeira declinação). Em outros tempos mais gentis, o professor titular das universidades era chamado catedrático. Na igreja católica, existe um termo, catedral, que não designa estilo arquitetônico, mas o lugar da cadeira episcopal ou cátedra. Designa a igreja principal de um bispado ou arcebispado.
A palavra cadeira, em latim, assim se grafa (sedes, sedis). Na língua italiana, grafa-se sedia. É da raiz latina que provém o termo sedentário, literalmente, aquele que está sentado. Ainda em sede de etimologia, assuntinho gostosinho, a palavra sessão, muito mal explicada por aí, provém da forma sessum, do verbo latino sedeo, e significa momento em que algumas pessoas se encontram sentadas para cumprir dada finalidade. Não tem nada da ideia de estar presente conforme se ouve por aí. Mais fundamentamente, pode-se dizer que sedentário, provém mais diretamente do adjetivo sedentarius, sedentaria, sedentarium, aquele que trabalha sentado. Massa...
Uma amiga, que experimenta, nesses dias, crise depressiva, recorreu à medicina chinesa a ver se encontrava um paliativo que não a recorrência à química e rendeu-se à acupuntura. Perguntou que “diabos vinha ser aquela palavra chinesa”. Disseram-lhe que a palavra é latina. Ela exclamou; “ ai, vai”! A pessoa então deu-lhe uma rápida explicação. Agulha, em latim assim se grafa ACU, ACUS, e o verbo latino PUNGO, PUNGIS, PUNGUERE, PUPUGI, PUNCTUM significa picar. Assim, grosso modo, acupuntura significa, literalmente, picar com a agulha. Pungir, pungente, pungência são palavras que têm tudo a ver com picar. O emprego metafórico de tais palavras é assunto que não interessa à etimologia. Depois da explicação, minha amiga disse; “achei massa”...
Dia desses, um cronista social da terra transcreveu uma frase em português, confessando desconhecer a autoria. Trata-se da frase “Dá duas vezes quem dá depressa”, tradução da frase latina “Bis dat, qui cito dat.” A frase é uma das sentenças de Publílio Siro, escritor contemporâneo de Júlio César. Nasceu em Antioquia donde foi levado a Roma como escravo. Libertado por causa de seu talento, dedicou-se à composição de peças teatrais chamadas “mimos”, dos quais se coligiu uma série de setecentas sentenças muito argutas e de notável elevação moral. Os dados acima transcritos estão insertos na obra Programa de Latim, volume I, do padre Júlio Comba.
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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

“AVE, PALAVRA!
Hugo Martins


Em latim clássico, os substantivos são averbados nos dicionários por meio do nominativo (sujeito), ladeado do genitivo (adjunto adnominal). Desse modo, a palavra boca, de terceira declinação, assim se apresenta: OS, ORIS (a boca; da boca). Quando alguém oscula outro alguém, há de se observar que o significado “beija”, na realidade provém de um substantivo latino no diminutivo, cuja significação é boquinha. Numa tradução grosseira, a tal boca pequena se dá pelo arredondamento dos lábios, imagem que lembra o ato de beijar. Isso resulta da raiz do nominativo OS mais o diminutivo CULO, elemento mórfico presente em muitas palavras de língua portuguesa: homúnculo, régulo, aranícula, radícula, ridículo...
Do radical OR(is), tem-se: oral, orador, oração, inexorável (in+ex+OR+á+vel), esta palavra significa “aquilo que não se move a rogos” Observe que a eliminação gradativa de elementos mórficos secundários leva o analista ao significado primário de boca... Uau!
Havia na Grécia antiga os famosos ORÁCULOS, onde se encontravam as pítias, sacerdotisas ou sibilas, profetisas reveladoras, de regra, do destino dos homens, como ocorreu com Laios, pai de Édipo, e com este, quando, descobrindo não ser filho de Políbio, rei de Corinto, também foi ao oráculo destrinçar a questão que deu no que deu... É ler Sófocles...
A sibila do Oráculo de Delfos, templo dedicado a Apolo, e o mais citado na mitologia, indagada sobre quem seria o homem mais sábio do mundo, respondeu ser Sócrates. E justificou: o filósofo diz que a maior virtude do homem é o conhecimento, mas não pode ele nunca alcançá-lo. Eis a concepção que se tem, desde então, do que vem a ser filosofia: busca constante e amorosa de respostas ás perplexidades do mundo pelo estudo... aí está o amor, a palavra, o homem, o mundo e seus deuses.
Nem sempre as sibilas respondiam ás consultas com segura certeza. Por isso, muitas vezes, o consulente levava no espírito a dúvida, a incerteza e a dubiedade. Como ocorreu com aquele comandante. Este ia participar parte  de uma guerra. Antes, para tomar conhecimento prévio do que lhe podia acontecer, foi, com sua ordenança na condição de testemunha, ao oráculo e, lá, fez a pergunta. Eis a resposta, curta, grossa, sem gordura, objetiva e enxuta da profetisa: “IRÁS. VENCERÁS. NÃO MORRERÁS. Tendo dado tudo errado, a ordenança foi cobrar á sibila. Esta disse que houve má interpretação do que dissera. Na realidade havia dito: IRÁS. VENCERÁS? NÃO. MORRERÁS. Uau!
Assim, temos, no léxico português, o adjetivo SIBILINO, quase sempre escanchado no substantivo ARGUMENTO. Ouvir políticos brasileiros, ir aos meios de comunicação, ler petições jurídicas fundadas em inverdades. Há mesmo algumas verdades cotidianas que, em muito se assemelham ao argumento dos ideólogos do nazismo, que diziam: “uma mentira repetida vezes sem conta termina por se tornar verdade. ” É só abrir a janela, olhar o mundo. Sobretudo nessas épocas natalinas, o sibilino está muito atual: bolso vazio, endividamento; “Papai Noel deixou meu presente de Natal”; barateamento do amor; “compre aqui e só pague em janeiro”; renegociação de dívidas antigas para deixar livre o consumidor para se entregar com mais ardor às febris compras; muita luz exterior; escuridão interior... É fácil perceber o sibilino nas relações humanas. Repetimos: é ter olhos para ver. O amor está no ar.




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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

MAIS UMA REFLEXÃO PRA ENCHER LINGUIÇA.

Hugo Martins

Pergunta cretina: qual o curso mais difícil na área acadêmica? Resposta adequada: aquele para o qual o sujeito não tem nenhum amor ou o elege por outras razões que não o chamado interior, a vocação. Há de haver sinceridade, pois, pois... sob pena de o indivíduo cair na esparrela das hipocrisias. Vejamos um caso de franca e flagrante hipocrisia.
Nos anos setenta, mergulhado o Brasil nos negros véus de estúpida ditadura, corria uma anedota de que aquele que desejasse ou não cursar Direito bastava passar em frente à porta principal da salamanca e dar bom dia ao porteiro. Diz a ferina maldade humana que este, no lugar de responder ao cumprimento, dizia as palavras sacramentais: "coisíssima  nenhuma, você já está matriculado". Bom lembrar que naquele tempo só a UFC oferecia tal curso, diferentemente dos dias de então em que a cada esquina se dá de cara com "cursos de direito".
Democratizado o país com a promulgação de uma Constituição  de feitio democrático em 5 de outubro de 1988, os operadores do direito passaram a ser mais valorizados, sobretudo com a percepção de salários mais polpudos e honorários menos humilhantes. Ora, logo, logo, as "vocações" despertaram de sua hibernação histórica. Resultado: os exames da OAB, por meio dos quais o bacharégua em direito pode obter a licença para advogar, provocaram o vertiginoso aparecimento da indústria de cursinhos e de feira editorial. Ambos produzem e mercadejam os famigerados e ridículos "bizus". Quer dizer: o sujeito gasta cinco anos nos bancos universitários, submete-se aos exames e neles é reprovado. Depois, matricula-se, por alguns meses, num desses  bem arrumados cursinhos e logra feliz aprovação... Que que há? Hipóteses: nossas faculdades não preparam seus alunos para enfrentamentos de lides forenses; os cursinhos "adestram", como o cão de Pavlov, os infelizes candidatos, ou estes não passam de paspalhões mentirosos, frívolos e hipócritas.
A formação em direito ou em qualquer curso de cunho superior exige, além de sinceridade de propósitos, formação eclética, que se dá no silêncio de autodidatismo sincero, posto em prática por quem guia seu comportamento também por mais franca honestidade. Não basta a frequência aos bancos escolares. Suficiente por si mesmo o amor aos livros, aos estudos e as dedicação e aplicação a não importa o curso escolhido.
Não há cursos difíceis, mas traição de propósitos. Trata-se das essência do caos e do cosmos; da diké e da hybris; do comedimento ou dos excessos. Que o digam os gregos em sua universal sabedoria, dispersa nas páginas de sua literatura, de sua filosofia, no seu teatro e na sua incompreendida ou mal-digerida mitologia.

Voilà!
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terça-feira, 29 de novembro de 2016

MUNDO VASTO.

Hugo Martins

Escritores há de órgãos sensoriais e atenção tão apurados e atentos, que traduzem o que vai pelo mundo com precisão de régua e compasso como a não deixar dúvida em relação à realidade que retratam e o  resultante desse esforço de recriar o impalpável diluído na imprecisão do ser.
Armado com palavras, perseguindo e caçando formas de dizer,  numa luta sem trégua, para encontrar a melhor tintura expressiva, lança mão do imaginário e, por consequência, das potencialidades criativas entranhadas na língua, nem sempre visíveis a todo redator, mas tão só àquele que ousa encontrar e dizer o aparentemente imponderável. Daí a questão da palavra e da coisa ou, com mais poeticidade, da "palavramundo", belo achado de Drummond tantas vezes por nós lembrado aqui e acolá.
Embora a retórica costume classificar como metáfora apenas situações em que se compara algo com algo, com o nexo apenas sugerido, chamo aqui metaforização, e em obediência ao étimo grego, toda situação em que o significado é levado além do seu sentido original. Assim, quando, o poeta diz que, "o nosso peito desafia a própria morte" se está em jogo o valor liberdade, a palavra "peito", semanticamente, (metonímia é um mero nome da retórica) é transportada para além, significando: nosso amor, nosso denodo, nossa coragem arrostarão qualquer situação, por mais temerária, para fazer valer a liberdade como valor maior de um povo.
É a partir desse postulado, que faremos um apanhado, de algumas metáforas célebres e belas, saídas de penas originais em sua inventividade única.
O jogador Mané Garrincha era famoso pela habilidade de driblar o adversário em qualquer dimensão espacial do campo. Nélson Rodrigues dizia que, "para Garrincha, um guardanapo era um latifúndio". Coisa linda se levarmos em conta que a palavra "latifúndio, constituída de dois radicais latinos, significa, ao pé da letra, terreno ou campo (fundus), largo (latus). O escritor Ruy Castro chamava Nelson Rodrigues de "Anjo Pornográfico". Ao biografar o teatrólogo pernambucano, intitulou a obra com esse sintagma. Ora, "anjo" seja em grego ou em latim, significa mensageiro. Desse modo, Nelson seria um veiculador de pornografia? Falso, pois Ruy Castro aplicou o substantivo não no seu sentido originário, mas recorrendo à acepção que deu a igreja católica àquela palavrinha dissilábica, afastando aquela pecha ao criador de Beijo no Asfalto. Afinal, os anjos da igreja católica são a medida maior da candura e da pureza... Constituem, por si sós, uma metáfora de larga semanticidade.
Com efeito, Nelson não era um pornógrafo como é visto pelo burguês filisteu, era um conservador, que pintava com tintas vivas a postura hipócrita do homem em sua mais verdadeira essência. Só isso.
Há palavras que já trazem de berço personificação metafórica: madrasta e sogra são exemplos de nós bem conhecidos. Muitas vezes, o escritor retira proveito do próprio corpo da palavra. Lembro aqui Rubem Braga pondo às claras a insignificância de alguém dentro dos esquemas mentais de sociedades insensíveis e perversas. Que fez ele? Ao nomear o personagem chamou-o de "joão da silva". Com minúsculas doídas, com o apelo a um nome próprio retirado da palavra latina "silva" (selva, mata) lugar em que eram concebidos os filhos do cruzamento do senhor com índias ou escravas. Como não "queriam dar seu nome" àquela prole, recorriam ao sugestivo nome. Aliás, em Machado de Assis, no Memórias Póstuma de Brás Cubas, há um capítulo intitulado "A Filha da Moita", alusão à bastadia de uma tal Eugênia, em cujo nome encontra-se o prefixo grego "EU" que significa  bom, excelente. Atente-se para o fato de que o resto da estrutura do nome da personagem significa, em grego, origem. Irônica e cortante metáfora em apenas um sintagma nominal.
Jorge Amado tem um romance,  cujo título é Pastores da Noite. Dá para desconfiar a quem alude o escritor baiano? Dá para pensar: boêmios e outros seres afins...
"São muitas as emoções". São muitas as metáforas. Necessário tão só captar as essências... E o mundo se tornará mais belo. "Mundo, mundo, vasto mundo, Se eu me chamasse Raimundo, /Seria uma rima/ Não seria uma solução..."
Voilà!
Postado por Hugo Martins às 19:20 Nenhum comentário:
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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

METÁFORAS.
Hugo Martins
Metáfora é palavra grega, formada por dois radicais, que, somados, resultam no significado aquilo que vai além. Corresponde, semanticamente, em latim, ao que Cícero chamou de TRANSLATIO, que, por sua vez, em inglês, significa TRANSLATION (tradução), literalmente, levar além. Assim, quando o produtor de um texto deseja ir além do significado dicionarizado de uma palavra ou expressão, recorre ao processo da metaforização para alcançar maior expressividade ao que pretende dizer. Vai além da acepção primária. Quando Jesus Cristo chama os fariseus de "sepulcros caiados", "raça de víboras" ou "geração adúltera", por ordem, tais sintagmas travestem as expressões aproximadas de hipócritas, traiçoeiros e perigosos e, por fim, cambada de filhos de puta.
Recorre-se de regra à metaforização para suprir a impotência da linguagem em traduzir o que vai na alma do escritor, que se esbate na "angústia da forma".
Quando Caetano Veloso, na letra da canção Sampa, que, por si mesma, já é uma metáfora (intimidade, carinho), refere-se às Avenidas Ipiranga e, sobretudo, à São João, e diz, antes, "alguma coisa acontece no meu coração", presta sibilina homenagem ao compositor da música Ronda, que conta a história de uma mulher que, sentindo-se rejeitada pelo amante, projeta o cometimento de um homicídio, "numa cena de sangue num bar da Avenida São João". Na mesma canção, o compositor baiano cria uma graciosa metáfora para traduzir o ar cosmopolita da cidade, que congrega etnias e transpira o caos das grandes metrópoles. Faz isso num mero jogo de repetição do mesmo termo sintático: "Porque tu és o avesso do avesso do avesso do avesso." Grande achado.
Aquele "meu guri", do Chico, cuja mãe o enxerga deitado na grama a contemplar o céu, não olha o céu. Na verdade, está morto, lembrando o extermínio, real ou desejado, de nossas crianças, cometido por uma sociedade hipócrita, insensível e perversa.
A Pata da Gazela, de Alencar, nada mais é que a releitura do conto A Gata Borralheira, aquela do sapatinho de cristal que, metaforizado, pode ser uma alusão à genitália feminina. São tantas as emoções... Os romances Esaú e Jacó, de Machado de Assis, e A Leste do Éden, de Stainbeck, colocam, no plano familiar, conflitos entre irmãos, motivados pelo mais detestável sentimento humano, o ciúme. A história dos filhos de Isaac e Rebeca, e os de Adão e Eva está implícita no enredo das duas obras referidas. O próprio título já sugere a temática...
Quando Murilo Mendes escreve o verso:"As horas passam, os homens caem, a poesia fica" (coisa linda), diz, de maneira originalíssima, da passagem do tempo, que tudo destrói e joga o homem no esquecimento, mas não impede que a arte seja eterna e eterna e eterna...
São tantas as emoções...
Quando os militares da ditadura de 1964 criaram o slogan "O Brasil é um país feito por nós", o humorista Millôr Fernandes não leu a última palavra como um pronome, mas como um substantivo, no que resultou na lancinante metáfora, inserta na frase "Resta saber quem vai desatá-los". Ui!
A leitura da obra literária é tanto mais encantadora quanto mais estiver polvilhada a obra de tiradas metafóricas. Brás Cubas só escreveu o romance Memórias Póstuma de Brás Cubas por causa da metáfora. Afinal, diz ele:"Leitor, eu não sou um autor defunto, mas um defunto autor para quem a campa foi o último berço."
São muitas as emoções. Não aspeio, muito pobre
Aspearia se "Assum preto o meu cantar é tão triste quanto o teu, também roubaram o meu amor que era a luz dos olhos meus". Sobretudo se se souber que se furam os olhos do pássaro para "ele assim cantá mió", na letra de Humberto Teixeira.
E aquele cangaceiro de Lampião que disse:"Se eu soubesse que chorando, empato a tua viagem, meus olhos eram dois rios que não te davam passagem." Aí é Freud.
Que diria a genialidade dum tal ximbinha, referida por um jornalista? Que o diga Suassuna na sua bela metáfora, lembrando Beethoven. E os safadões e outros idiotas da mesma fauna, que diriam dessas metáforas? Umas porcarias, certamente.
Compreensível. São muitas as emoções.
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