sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

QUESTÕES VERNÁCULAS DO DIA A DIA

Hugo Martins

1- O aluno pergunta por que antes das letras P e B só se pode grafar a letra M. Assim responde o professor: embora  a ortografia do português assente-se em convenção fundada em fatores etimológicos ou simplificações, a questão colocada tem razão de ser. As letras N e M podem representar um fonema ou, muita vez, fazer as vezes de elemento indicador de nasalização de um fonema vocálico. Assim temos como ilustração: nas palavras Nero e Marcos, N e M representam um fonema; em tento e campo, representam elemento nasalisador do fonema vocálico com que formam a sílaba. Colocar a letra M e não N antes das letras P e B se dá pelo fato de que P, B e M (pê, bê, mê) são fonemas que se realizam no mesmo ponto de articulação, ou seja, são bilabiais, ocorrem com o contato dos dois lábios... Simples.
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2- Conta-se que um professor de língua portuguesa era muito coerente e, por isso, supinamente severo nos usos da língua, sobretudo no que dizia respeito aos preceitos da gramática tradicional... Um purista aferrado aos cânones clássicos. Não perdoava deslizes...
Certo dia, dava sua aula quando um grupo de alunos lhe pede licença para dar um aviso à turma. O mestre consentiu e se pôs ao lado do grupo. Um dos componentes  iniciou o aviso: "turma, muito bom dia...Nós viemos aqui  dar um aviso..." Não completou o aviso. O professor colocou todos para fora... Lá do fundo da sala, um garoto levanta o dedo e indaga do mestre o porquê daquela atitude indelicada. O mestre respondeu que estava apenas sendo coerente. Afinal, o aluno do aviso disse "nós viemos". Isso é ação passada, já realizada, portanto. Ele deveria ter dito "nós vimos" (primeira pessoa do presente do indicativo do verbo vir e não do verbo ver), forma que assinala ação ocorrendo no presente. Simples. Para o professor, o aluno não sabia conjugar verbos em sua língua materna...
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3- Já se ouviu muita gente letrada escorregando no emprego do VERBO INTERVIR, sobretudo na terceira pessoa do singular do pretérito do indicativo, empregando : "interviu" no lugar de "interveio". O deslize ocorre porque o falante julga tratar-se de forma verbal  derivada de VER. Na verdade o verbo INTERVIR deriva-se de VIR, precisamente do pretérito perfeito do indicativo. Conjuguemo-lo: eu VIM, tu VIESTE, ele VEIO, nós VIEMOS, vós VISTES, eles VIERAM. Agora é só prepor o sufixo INTER. Simples, não? Assim, na terceira pessoa do singular do modo e tempo em foco, teremos: Fulano interveio na questão, e não "interviu".

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4- Revisar um texto não é tarefa fácil, não se reduz a, tão só, colocar assentos gráficos e sinais de pontuação. Isso faz parte do trabalho do revisor, também... Porém o mais trabalhoso é o que costumo chamar "desentortar pensamentos", que consiste na tarefa de observar a falta de coesão e coerência presentes no texto e eliminá-las, coisa que não se faz por intermédio de regrinhas da gramática normativa, mas por profunda vivência com textos de todo jaez temático. Enfim, a revisão eficiente é fruto do trabalho de um revisor "viciado" em leitura e não de um garimpador de regrinhas e exceções...
Simples, não?

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