Reedito o presente textículo porque considero-o "butinim" e pressinto nele a contemporaneidade dos hojes e dos amanhãs. Foi concebido e escrito faz exatos três anos.
O título está calcado numa frase de Machado de Assis, que serve, também, de título a um soneto do excepcional escritor, que trata da mesma temática. Ele se apoia na primeira pessoa do singular; o texto aqui apresentado, na primeira pessoa do plural.
O substantivo MUDANÇA parece bastante sugestivo se se considerar a natureza do homem e a imperdoável corrida do tempo. Aliás, quando penso nisso, fico a me perguntar se o tempo corre mesmo ou está parado, indiferente à corrida do homem, que busca ninguém sabe mesmo o quê. Coisa de somenos importância...
Vamos ao nosso textículo.
NEM MUDOU O NATAL NEM MUDAMOS NÓS
Hugo Martins
Não é que está se aproximando mais um Natal! Todos se programarão para experimentar as mesmas emoções de outros já idos natais. Luzes, pisca-piscando, ornarão ruas e praças. As lojas elegerão os mais feéricos motivos natalinos para atrair compradores de bolsos risonhos com o minguado décimo terceiro. Nas casas, portas e janelas ostentarão a caraça de um Papai Noel, encimada pelo indefectível “Feliz Natal e Próspero Ano Novo”. Na sala, a árvore de Natal, com ar de inverno europeu, também acenará, com seu antipático e monocórdio pisca-pisca, para um Natal de mais exuberante luz. Supriria esta a carência da interior de muitos, já narcotizados pela indisfarçável e insopitável insensibilidade, então travestida de sorrisos e salamaleques de polichinelo desencantado? Enquanto isso...
Dia a dia, as lojas se apinharão do vazio das gentes, cacarejando como galináceos desorientados, no afã de encontrar o presente adequado à pessoa que, de sua parte, também retribuirá com o presente adequado, acompanhado de cartão com discurso pré-fabricado, a fim de que reinem entre os homens a paz e a harmonia. Enquanto isso...
Sobre grandes e largas mesas, espalhar-se-ão acepipes e iguarias do mais fino gosto para o agrado de todos os paladares. Homens e mulheres, enfatiotados, pavonearão sua vaidade sob os auspícios de “griffes” as mais distintas para, sob efeitos etílicos, esperar que à meia-noite, o espírito natalino, personificado na figura balofa e idiotizada de um Papai Noel de riso fácil, baixe, ao som do “Jingle Bell”, e traga conforto à consciência de cada um. Tudo bonitinho e de acordo com os paradigmas ditados pela indústria cultural, na sua sempiterna faina de institucionalizar a imbecilidade e a mentira convencional. Enquanto isso...
No dia seguinte, as coisas voltarão ao seu devir natural. Virá o novo ano. Chegará o Carnaval. O espetáculo da vida retomará a deixa do ano que passou. Nossa sensibilidade readormecerá na longa hibernação da indiferença. Calçaremos as sandálias aladas de Mercúrio. Desafiaremos a Lei da Gravidade. Sobranceiros, adejantes e impávidos de pérfida soberba, aguardaremos o próximo Natal para desejar, no mesmo diapasão monocórdio de antanho, Feliz Natal e Próspero Ano Novo. Enquanto isso...
Arre, não é à toa que o pançudo velhote de brancas barbaças e avantajados borzeguins milicianos traz às costas UM SACO. Quem sabe abarrotado de maçantes mesmices...
Terei construído um discurso cínico do Natal?!
Enquanto isso, aí está o mundo, tal um grande cartão, a merecer de nós uma leitura, através da qual nos revelemos mais homens e menos discurso.
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