QUESTÃO VERNÁCULA.
Hugo Martins
Nunca me esqueci dela. Tinha, talvez, não mais que vinte anos. Era bonita, risonha e simpática. Delicada e envoltente até dizer chega. O bom humor era sua faceta marcante. Nunca deixou de responder a qualquer pergunta que se lhe fizesse. Com ela muito aprendemos, sobretudo conjugação de verbos da língua portuguesa. Lembro-me saudosamente das sabatinas, em que ela promovia enfrentamentos entre os alunos. Não se tratava de pôr algum deles em evidência, posando de sabido. Não. Na verdade, era um jogo didático em que procurava deixar claro que conhecimentos também se cotizam.
Trago à baila uma lição dela, que repousa tranquila nos meus escaninhos mentais. Tratava-se de uma questão relativa aos tempos primitivos e tempos derivados dos verbos em língua portuguesa. Está lá nas minhas instâncias mentais na eternidade das placas de bronze.
Dessa questão, aprendi, com Dona Conceição, que me preparou para os Exames de Admissão ao Ginásio, que o modo imperativo afirmativo assim se forma: as duas segundas pessoas advêm do presente do indicativo, com a supressão da letra S; as demais pessoas derivam diretamente do presente do subjuntivo. Nunca esqueci também que o imperativo negativo deriva totalmente do presente do subjuntivo...
Ontem, ouvindo a fala de um ministro do Supremo Tribunal Federal, lembrei minha amada professora. Ora, fazendo pronunciamento sobre questão a que firmara parecer, o ministro Fulano de Tal disse mais ou menos assim: " caso eu não mantesse a decisão..." Ai, ai, ai...
Dona Conceição me convenceu, em sua lições claras, que o ministro deveria ter dito assim: "caso eu não MANTIVESSE a devisão... Aprendi com ela que os tempos verbais pretérito imperfeito do subjuntivo, futuro do subjuntivo e pretérito-mais-perfeito do indicatvo derivam-se todos do pretérito perfeito do indicativo, precisamente, da terceira pessoa do plural. Assim, por ordem: MANTIVERAM (terceira pessoa do pretérito perfeito do indicativo), seguem-se os tempos derivados, seguindo a ordem: MANTIVESSE, MANTIVER, MANTIVERA. Nunca MANTESSSE, MANTER, MANTERA. Abortos de conjugação verbal...
Logo: pusera e não pora; contivesse e não contesse; opusesse e não opora; transpusesse e não transpora...
O cometimento de deslizes linguísticos, nos meios de comunicação de massa e, ainda mais, no ambiente grave de retórica estentórea, pode ser perdoado, mas não de ser observado. Admitem-se entre o povaréu, que pouco conhece as leis do uso da norma padrão. Quem bem conhece as leis, seu espírito e redação, deve também conhecer alguns caminhos ínvios e intrincados, envolvendo as leis idiomáticas. Aqueles que tropeçam em seus mandamentos também devem se submeter a julgamentos, dependendo do "réu" cometedor do pecadilho...
Dona Conceição está no rol dos meus "tipos inesquecíveis", tal como aqueles que, por algum motivo nobre, desfilavam numa das seções da revista SELEÇÕES, que ostentava o sintagma aspeado à guisa de título.
Voilà...
Nenhum comentário:
Postar um comentário