Em que estou pensando? Na visita
que fizemos à Casa de José de Alencar no Sítio Alagadiço Novo. Quando entramos
no primeiro compartimento, percebi um vulto de grande barba grisalha, cabelos
bem penteados para trás e rosto grave, lábios finos, testa larga, acentuada por
um par de óculos de aros redondos. Vestia calça e paletó escuros, que emprestavam à figura daquele senhor de
estatura meã ares de aristocrata de antanho. Enquanto minha mulher e Isabela
liam os textos estampados nas paredes brancas, aproximei-me daquela figura, que
me olhava com silenciosa gravidade. Fez ela menção para que saíssemos daquele
cômodo em que, dizia ele, costumava rabiscar folhas soltas de papel na sua
longa solidão de menino imaginativo. Afastamo-nos da casa e fomos em direção ao
que parecia ter sido outrora uma construção faraônica. Tratava-se das ruínas de
um grande engenho, que fazia parte do conjunto arquitetônico do Brasil Colônia,
próximo à Casa Grande. Ali, naquele
terreno amplo e arborizado, entabulamos conversa. Súbito, aproximam-se de nós
três belas mulheres. Não pude atinar de onde surgiram. Bem sei que suas
indumentárias revelavam não pertencerem elas à nossa época histórica. As saias
eram longas, as blusas rendadas, cujas mangas frouxas iam-lhes até o pulso, e lembravam os trajes de Vivien Leigh no filme
E O Vento Levou. Portavam, também, pequenos leques de madrepérola com que se
abanavam constantemente naquela manhã ensolarada de Fortaleza. Quando as olhei
mais demoradamente, vi-me frente a frente com Ceci, Aurélia Camargo, e Lucíola.
Fiquei um pouco passado. Em pouco tempo, trocaram algumas palavras com seu
criador e foram se esgueirando até as construções modernas ali edificadas e
desapareceram. Não podia haver dúvidas, a descrição que sobre elas já havia eu
lido mais de uma vez refletia aquelas figuras tal um molde que nunca se
quebrará. Disse-me ele tratar-se de três perfis da mulher brasileira do século
XIX. No momento, lembrei-me de que a crítica especializada costuma dividir a
obra alencarina em quatro compartimentos... O romancista ajuntou que não lhe
falece razão. Com efeito, continuou, “pretendi pintar um grande painel do
Brasil, voltando-me para sua História, suas regiões, traçando alguns perfis
femininos, sobretudo das mulheres da Corte e a formação de nossa gente.”
Aproximou-se mais de mim e sussurrou-me: “aquilo que a crítica chama romance
indianista, malgrado tenha eu procurado exaltar as virtudes dos silvícolas,
minha intenção maior foi mostrar a união de duas etnias: o branco português e o
índio. Desse conúbio, surgiria o povo brasileiro. Atente para O Guarani e para
a lenda Iracema.” Deu-me vontade de juntar o polegar ao indicador. Bater este
várias vezes no outro e dizer, à moda Chaves: “Isso, isso, isso...!”
Contive-me. Disse-lhe eu preferir não falar sobre sua criação literária, pois
não queria perder o gosto e o encanto que ela me provocou à época em que a li
tomado de grande entusiasmo. Preparei-lhe duas indagações de verdadeira
importância para mim. A primeira, porque desejava saber o que motiva o homem a
escrever; a segunda, por mera curiosidade, pois envolve o nome de um
contemporâneo e admirador seu. Formulei-as assim: por que o senhor tornou-se
romancista? ; em sua opinião qual o grande escritor de sua época? Não sei se
havia algum laivo de ingenuidade em minhas perguntas, mas fiquei surpreso
quando aquele senhor sério, mas simpático, respondeu a ambas sem nenhum pejo,
sem nenhum constrangimento. Assim respondeu. Vou aspeá-las.
“No primeiro caso, meu caro
conterrâneo, leia minha obra Como e Porque sou Romancista. Embora ali você
possa encontrar toda a gênese de minha vocação, aduzo que escrever para mim é
uma necessidade gritante, obsessiva, sem a qual a vida não tem nenhuma razão de
ser. Com a escritura, leio e interpreto o mundo. Busco e encontro a beleza e
mais me irmano com meus semelhantes, pois, com a criação literária, apanágio de
poucos, traduzo as apreensões, as dores, as alegrias, enfim, aquilo que vai na
alma e faz o ser humano se sentir vivo e útil. É evidente que, também não deixa
de ser um jogo por meio do qual nós, artistas, reinventamos a vida, como fazem
os loucos e as crianças...”
“Quanto à segunda, nenhuma dúvida
paira: o senhor Joaquim Maria Machado de Assis. Este senhor, além de ser um
alquimista da linguagem, brinca com esta e dela retira toda força expressiva, arquitetando, com suas
construções metaforizantes, verdadeiras teorias psicológicas que só no futuro
os estudiosos da ciência da alma iriam ousar trazer à tona. Veja o caso da
loucura: antes de os homens de sua época, meu jovem, colocarem em xeque a linha
divisória entre a loucura e a lucidez, meu dileto amigo Machado já fez isso.
Leia O Alquimista... Assim, meu caro, nem antes, tampouco depois, aparecerá na
literatura brasileira escritor do porte de Machado de Assis.”
No momento em que tentava manter
acesa a conversa com o senhor de barbas longas e elegância inatacável, ouvi
alguém gritar meu nome. Virei-me e vi minha mulher de mim se aproximar. Quando
ensaiei apresentá-la ao meu interlocutor, ela perguntou-me se eu estava ficando
louco, pois fazia algum tempo que da casa me observava e eu a fazer gestos de
quem conversava com alguém. Quando procurei o senhor de prosa rica e vicejante
de natureza e de brasilidade, não mais estava ali. Só então percebi que o
“diálogo” que mantive com aquele senhor se dera num átimo, num lapso
imperceptível de tempo. Afastei-me um pouco...
Grossas e tépidas lágrimas escorreram-me face abaixo. Enxuguei-as com a
palma da mão... Aproximei-me de minha mulher, pus meu braço sobre seus ombros e
saímos em silêncio. Valeu a pena o passeio turístico daquele domingo de Sol
pródigo em Fortaleza. Valeu a pena, também, por alguns minutos, percorrer as
vias pouco visitadas da imaginação.