segunda-feira, 30 de julho de 2012


O GURU   IV

                                           Hugo Martins



            Ridendo Sic saiu em viagem. Não se sabe em busca de quê. Talvez, enfarado pela idiotice reinante, ou, quem sabe, para fugir, por uns tempos, da onda de violência que campeia nas mais próximas e mais longínquas regiões deste Brasil velho sem porteiras. Por conta de sua ausência e para não faltar ao compromisso de trazê-lo à tona com suas observações estonteantes sobre o mundo, recolhi alguns escritos seus, colhidos do baú de nossas infindáveis conversas. Li comentários seus acerca do Bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro, celeiro de intelectuais, compsitores, cantores e mulheres bonitas, os quais fizeram bonito no tempo dos chamados anos dourados, celebrizados em música de Antônio Carlos Brasileiro Jobim. Comovi-me com os relatos sobre Mané Garrincha, “o anjo das pernas tortas”, em quem Drummond, num longo poema, vislumbrou uma espécie de Carlitos, devido à irreverência peculiar àquele infernal ponteiro do Botafogo e da Seleção brasileira de futebol. Parêntese: quem desejar conhecer melhor a vida deste fenômeno - estou falando de Garrincha, não confundam - há uma biografia sua, escrita pelo carioca flamenguista Ruy Castro. Também não me interessei, pelo menos agora, por alguns aspectos interessantes, envolvendo a família Rodrigues, sobremaneira Mário Filho e seu irmão, o teatrólogo e cronista Nélson Rodrigues, intelectual refinado, que pôs às claras a hipocrisia burguesa,  que se via retratada em nas páginas do “Anjo Pornográfico”. Parêntese: Ruy Castro também biografou Nélson, sapecando-lhe esta inventiva e irônica metáfora supra-aspeada. Não, não, nada disso vem ao caso. Pelo menos agora. O que mais me chamou a atenção, coisa que li com um misto de alegria festiva e funda decepção, foram os comentários, que tive o cuidado de garatujar com maior precisão, acerca da música popular brasileira, que muitos confundem com o movimento bossanovista dos anos 50 e 60... Aqui, Ridendo refere-se à música que se fez e se faz no Brasil, não importa a faceta. Ridendo Sic, nesse passo, se, num primeiro momento, mostrou-se benigno, num outro, revelou-se ferinamente zombeteiro. Não lhe tiro a razão, pois sempre demonstrou conhecer com razoável profundidade, a riqueza comprovada e a miséria lamentável de nosso cancioneiro popular.

            Diz ele que a música genuinamente brasileira é o choro e não o samba conforme muitos pensam. Pixinguinha e seus seguidores, foram evocados. Não faltaram os nomes de Waldir Azevedo, Jacó do Bandolim, Altamiro Carrilho, Ademilde Fonseca, Adelaide Chiozzo e outros, cuja perfomance instrumental deram força e vida ao nosso cancioneiro. Acrescentou que o samba, iniciado por Donga, com a letra Pelo Telefone, serviu de pontapé inicial para que surdissem à época compositores do porte de Noel Rosa, Wilson Batista e Ismael Silva, em cujo talento se abeberaram, depois, João Nogueira, Martinho da Vila e Paulo Sérgio Pinheiro. Exaltou a inigualável e insuperável qualidade vocal de Orlando Silva, grande influência de Nélson Gonçalves e influenciador de João Gilberto e Roberto Carlos no início da carreira. Ressaltou os frequentadores do Café Nice, lembrando o nome de Orestes Barbosa, letrista que teve o nome indicado para concorrer a uma vaga na Academia Brasileira de Letras; não esqueceu as figuras de Custódio Mesquita, de Cândido das Neves, Mário Lago e Ataulfo Alves. Trouxe à tona a excelência musical de Tom Jobim, Dolores Duran, Vinicius de Moraes, Carlinhos Lira, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal e, claro de Francisco Buarque de Holanda. A propósito, comparou este a Noel Rosa e julgou: Chico é grande, mas Noel é um gigante. Argumentou: Noel, que viveu apenas minguados vinte e sete anos e experimentou apenas cinco anos de vida artística profissional (se é que para ele fazer versos, que “nascem do coração” e que “ninguém aprende no colégio” constitui profissão, trazia na alma inesgotável caudal de versos, às vezes, surgidos num átimo. Era um lírico sincero, apaixonado pela vida e cronista de bares, cabarés, putas e bairros boêmios da cidade, que ele tanto amou. Chico, também é compositor de várias faces. O crítico musical Tárik de Souza enxergou em sua criação aspectos de um lirismo doentio, uma crítica social lancinante e um pensamento político, de cujas entranhas se extraem dores universais, misturadas com a ironia anavalhante de Gregório de Matos Guerra. Era, neste aspecto, um Boca do Inferno redivivo. Mas, se me pedirem um placar, direi que estão empatados, lembrando que Chico teve mais tempo que Noel. Se este tivesse vivido mais alguns anos, mais dez, por exemplo, aquele placar teria que ser revisto. É bom relevar que Chico é fã reconhecido do Poeta da Vila.

            Observou: fique registrado que Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, Zé Dantas, Sivuca, Abdias, Zé Calixto, Dominguinhos e Nando Cordel não podem deixar de figurar entre os que dignificam, com suas letras e canções, a chamada música nordestina. Verdadeira sociologia musical da terra tostada pela inclemência do Sol, esquecida dos projetos políticos, heroificada pelo vaqueiro indômito, atormentada pela pregação desesperada dos beatos e pela ação, a um tempo,  agressiva e justiceira, de bandos de cangaceiros. Bastava, para isso, a sensibilidade do compositor, a voz dorida do intérprete, o acordeão, um triângulo e um zabumba.  Tudo muito arraigado na profundeza da simplicidade

            Hoje, meu amigo, os que “criam” a música nordestina, aqui na terra de Alencar, deveriam ser reconhecidos como medíocres alquimistas do mau gosto, pois conseguem, nas suas misturas e aviamentos, transformar música em cocô... Quando surgem no palco, são recebidos pelo delírio inexplicável e ensurdecedor de um magote de pessoas que fingem dançar, quando na verdade parecem estar empenhados em renhida luta; o “intérprete”, não passa de um histrião de alto coturno, que se requebra como um fantoche, coadjuvado por uma tropa de dançarinas de cabelos “louro-de farmácia”, que gesticulam como frinéias e messalinas modernas, esforçando-se para pôr em evidência suas partes pudendas. As letras não passam de onomatopéias latidas, perpassadas por   antológica secular pobreza... Mas essa lúgubre cantilena tem uma serventia: desvirtuar a genuína música nordestina, mitificar as figuras ridículas de dançarinas e cantores e encher as burras de algum vivaldino, que bem conhece o “gosto refinado” de uma boa parcela de otários úteis.  

            Aduziu, ainda: quanto à música sertaneja, deixemos de lado a figura de João Pacífico, de Tião Carreiro e outros próceres e rezemos, com o máximo fervor, pelas duplazinhas que se celebrizaram assassinando e prostituindo as letras de alguns compositores do porte de Ary Barroso e Lamartine Babo, sem falar no desvirginamento de nossos tímpanos, com vozes de cigarra estridente, que fazem a estátua do Cristo Redentor, na cidade do Rio de Janeiro, dobrar os braços e tamponar as oiças para se livrar do cruciante sofrimento provindo daquelas indisciplinadas gargantas...

            Na nota, há uma observação: poderemos voltar ao assunto, pois alguns nomes ficaram esquecidos e, fazem-se necessárias, ainda, algumas vergalhadas nas ancas do time de enganadores.

            Aguardemos.

             

           

domingo, 29 de julho de 2012


O GURU III

                                                     Hugo Martins

Hoje me encontrei com Ridendo Sic. Estava ele sentado a uma mesa de uma barraca de praia, olhando o vaivém ritmado das ondas, que bordavam em níveos frocos a areia suja da praia. Sobre a toalha encardida, enfileiravam-se garrafas de cerveja. Convidou-se a sentar e, sem mais nem menos, encheu-me um copo com o néctar espumoso e gelado. Banhistas se deixavam fritar aos raios quentes do Sol. Mulheres, em biquínis sumaríssimos, desfilavam, provocando a libido sequiosa dos homens. Das mesas circundantes, o matraquear de ávidos comedores de caranguejo. Crianças corriam, bombeiros, encarapitados no alto de observatórios de madeira, esticavam a vista nas adjacências, e marmanjos jogavam futebol. Na manhã pródiga de sol as pessoas aproveitavam para quebrar as tensões do cotidiano. Súbito, juntou-se ao burburinho um magote de zoadentos, distribuindo santinhos, com o retrato risonho de candidatos às eleições municipais...

À procura de um mote, a fim de provocar o diálogo, perguntei a Ridendo que ele pensava sobre a política. Deixou escapar seu sardônico sorriso, cuspinhou, sorveu um largo gole, depôs o copo, encheu-o de novo e, olhando-me fixamente, disse:

- Meu prezado, a política, desculpe-me o chavão, é a arte de gerir a pólis. É uma imposição. Sem ela a comunidade não existe, devido à condição gregária homem. Isso está em Aristóteles. Mas creio que sua pergunta direciona-se à questão partidária. Você já pensou na hipótese de não ser necessário pagar vultosas quantias do erário àqueles que demonstram tanto afã em fazer parte do grupo diretivo do Estado? Quer dizer, o sujeito disputaria eleições para prestar um múnus público. Nessas condições, existiriam pessoas movidas pelo ideal em ocupar cargos políticos?

Aduzi:

- Acho difícil. Até mesmo para prestar serviço no dia das eleições – Presidentes de Mesa, mesários, suplentes etc. – só o fazem porque a coisa tem caráter de obrigatoriedade. Quando o agente é servidor público, “aceita” o encargo porque, passadas as eleições, será brindado com alguns dias de licença, o que constitui alguma vantagem... Por isso, respondendo a sua pergunta, sou persuadido a afirmar que, por trás do “idealismo” da política partidária, esconde-se um mar risonho de perversa hipocrisia.

Ridendo Sic desenhou um ríctus, apertando os lábios. Em seguida, bateu as mãos uma à outra, como se estivesse me aplaudindo, e continuou:

- Pronto. Você parece haver intuído como se monta o teatro. Com efeito, é de se estranhar alguém gastar tanto dinheiro (não se sabe tirado de que fonte), tanta saliva; ensaiar tanto sorriso e tantos salamaleques para conseguir ser alçado a um cargo qualquer. Afora as promessas que nunca haverão de cumprir, há os gestos mominos nos comícios eletrônicos, o colocar a mão no ombro do trabalhador humilde e o alçar nos braços criancinhas catarrentas e famintas... Ensaia-se, assim, a ópera-bufa, cujo desfecho desembocará, fatalmente, no banquete de permitidas roubalheiras, de enriquecimentos ilícitos e de atos de improbidade administrativa, entretecidos por mentes ladinas, tão ladinas, num jogo cretino em que o próprio Satanás não ousaria concorrer...

- Então, meu cético homem, não existiria nesse jogo trágico, alguma exceção?

- Não, não creio. A não ser que alguém tenha a coragem de apontar um só exemplar dessa súcia de desavergonhados que tenha cumprido algum mandato sem  que, ao fim dele, não tenha auferido algum expressivo lucro pecuniário. Desculpe-me a franqueza: o sujeito que ingressa na política partidária, por mais bem intencionado que seja, traz nos escaninhos da alma, alguma vocação para locupletar-se ilicitamente. Deles há que fazem verdadeiras fortunas para si e para os familiares. A coisa é tão atraente, que os mandatos, por manobras inimagináveis, são passados para os descendentes, numa espécie de sucessão hereditária com ares de legalidade...

Depois do “enxugamento” de uma dúzia de cervejas, arrisquei a pergunta:

- Nem nas esquerdas você põe fé?

- Vou ilustrar um episódio atribuído a um economista brasileiro da chamada ala direita, extremamente culto e bastante assemelhado a uma raposa. Perguntado sobre a esquerda, disse: “No Brasil, na há esquerda, existe canhota”. Continuando o discurso, ironizou: “Aqui, na terra tupiniquim, a melhor maneira de se chegar à direito é pela esquerda.” Mais comicamente, ajuntou; “ A esquerda no Brasil só se une na cadeia”. Minha nossa!!!  Realmente, existem exemplos, a mancheia, de figuras políticas que bem ilustram as palavras daquele economista. A questão não se reduz a ideologias. Qualquer homem pode assumir postura política sem se bandear para essa ou aquela tendência. Ambas, direita e esquerda, se resumem a uma questão de posição geográfica numa assembleia. Aliás, foi durante a Revolução Francês que as expressões foram cunhadas.

            Arrisquei:

            - Aqui em Fortaleza, que candidato estaria mais próximo de sua preferência nas eleições que se aproximam:

            - Nenhum. São todos farinha do mesmo saco. Troco um pelo outro sem esperar troco. Você diria que, de algum modo, eu estaria votando. E não se engana... Não tenho nada a escolher. Os vivaldinos são todos iguais... Seria um contrassenso efetuar escolha no elenco de artistas, cujos talentos se ombreiam.

            O Sol já ia alto. Quinze cervejas jaziam sobre a mesa, indiferentes à propaganda daquela malta dos andarilhos aduladores. Pedimos a “saideira”, pois não somos chegados a contas ímpares. Paga a despesa, despedimo-nos num demorado aperto de mãos, cada um à procura do seu caminho.








quinta-feira, 26 de julho de 2012


O GURU II

                                                                                   Hugo Martins



            A hora não era propícia. Chovia torrencialmente em Fortaleza. Sob a marquise do Cine São Luiz, encontrei-o. Porte garboso, cabelos revoltos, sobrecenho arqueado, um permanente riso nos lábios finos, emoldurados por um basto bigode, que lembrava Pancho Vila. A blusa quadriculada de mangas compridas, enfiadas no cós de uma calça de mescla azul, dava-lhe o ar de quem saíra de algum filme de faroeste de John Ford. Cumprimentou-me maquinalmente e fez a clássica pergunta de como iam as coisas... Falei-lhe de que me encontrava meio decepcionado com a aplicação da justiça no país, Fiz a observação apenas para provocá-lo. A coisa funcionou... Em poucos minutos, uma avalanche de diatribes e indignações jorrou como cachoeira... Não havia em sua fala nenhum laivo de ódio. Falava com calma como se assunto tivesse sido previamente preparado por um professor que ia ministrar sua aula. Fazia no ar arabescos com as mãos, num jogo não estudado, como se cada gesto fosse o movimento de uma batuta a acompanhar ritmicamente o discurso-sinfonia. Quedei-me a ouvi-lo...

            Cofiando o bigode, observou:

            - Meu caro, a injustiça neste país começa quando o indivíduo escolhe cursar Direito sem demonstrar nenhuma vocação para tal. O candidato sequer desconfia do que trata aquela ciência. Antes da Constituição de 1988, quem quisesse ingressar no curso de Direito bastava passar em frente do prédio da faculdade e dar bom dia ao porteiro. Pronto... Estava matriculado. Hoje, a concorrência homérica explica-se pela democratização por que passou o país.

            Acrescentou:

            - O pior é que nas salamancas estuda-se muito direito e jurisprudência, mas pouco caso se faz de outras ciências afins. O candidato sai um medíocre “bacharégua”, vomitando a linguagem barroca de doutrinadores e  tribunais  , mas, de regra, ignorando os mais comezinhos conceitos de Filosofia ou Sociologia. Isso sem falar na indigência redacional... Deslizes linguísticos crassos, raciocínios tortuosos e torturantes, bem como  verborragia desgraciosa e sem verniz temperam a tônica dos trabalhos escritos, produzidos a muque e a duras penas. Literatura nem pensar... É coisa de mulher ociosa e sonhadora ou de quem não tem o que fazer. É trágico... Às sucessivas fornadas de “bacharéguas” não interessa o direito pelo direito. Todos estão teleguiados para concursos públicos. Em muito se assemelham ao professor “dador de aula” que, vende a própria alma para ocupar cargo de importância na instituição. A sala de aula, para aqueles senhores, está inscrita entre os nove círculos do inferno de Dante.  

            Perguntei:

            - Se isso constitui invisível e ingente injustiça, o que daí advém?

Foi lacônico:

            - A tragédia viva, que todos fingem não enxergar.

Fez-se meditativo e, num átimo, disparou:

            - Veja você que os tribunais sempre se caracterizaram pela enxurrada de papéis que abarrotam prateleiras e birôs, em meio à poeira e ao bafio. Passam-se anos e anos pra se obter um comando sentencial... Falta de julgadores? Excesso de trabalho? Prefiro silenciar sobre o assunto. Ora, companheiro, criaram um tal de Juizado Especial Cível e Criminal, que o povo continua denominando Juizado das Pequenas Causas, a fim de acelerar o trabalho do Judiciário. Não rio para não chorar. Intencionavam dar maior celeridade ao processo, sobretudo pela maior recorrência à oralidade... Imagine você que há pessoas que esperam por mais de dois anos por uma resposta a uma questiúncula envolvendo briga de vizinhos... Isso é injustiça clamorosa... Aliás, advogados há que repetem aquele velho e bolorento argumento de Ruy Barbosa de que a resposta atrasada do Poder Judiciário aos pleitos já é, por si mesma, gritante injustiça... Nada de original... Verbosidade inútil.

            Com uma pontinha de maldade, fiz uma pergunta nada diabólica, mas muito presente nos meios de comunicação de massa em que juristas, enforcados em suas gravatas de seda pura e arrotando erudição, costumam encontrar, teoricamente, a resposta definitiva:

            - Ridendo Sic, o amigo concorda com reduzir a idade para responsabilizar criminalmente menores que tenham atingido os dezesseis anos?

            Olhou-me de esguelha, apertou os lábios, balançou a cabeça e fuzilou:

            - Meu caro, criança em tal idade deveria estar na escola e não cheirando cola e fumando craque... E, aduza-se, não sendo espancado pela polícia e execrada por uma sociedade que se diz tão cristã. Podem considerar imputável a criança em qualquer idade que a criminalidade não arrefecerá enquanto o Estado brasileiro não tomar vergonha na cara e olhar com maior seriedade para a Educação. De que adianta construir metrôs, aquários e outras obras faraônicas se nossas escolas públicas estão entregues às baratas, com professores mal remunerados, insatisfeitos e imotivados? A redução por que tanto clama a sociedade não passa de hipocrisia das mais ferrenhas. Se fôssemos condenar todo menor infrator, que, na realidade, necessita de cama, comida e educação, nosso falido sistema presidencial não teria capacidade para abarcar tal população. Talvez uma solução fosse enviar a criançada para o Congresso Nacional, Assembléias Legislativas e Câmaras Municipais, onde se come à farta, gasta-se, de roldão, o dinheiro público e mete-se, impunemente, a mão no tesouro nacional, urdindo-se  manobras de que o próprio Satanás duvida... Os menores infratores só seriam prejudicados num aspecto: cursariam, sem muito esforço, pós-graduação na arte de furtar, de extorquir e de embair a boa-fé...

            Bem sei que o Guru poderia puxar de seu baú sucessivas e lancinantes diatribes  contra o que o povo chama justiça. Preferi não dar mais cavaco à conversa. Eu ficaria ali o dia todo e as catilinárias não se esgotariam. Além disso, a chuva cessara por completo e o Sol espraiava-se prodigamente sobre a cidade de Nossa Senhora da Assunção. Apertamo-nos as mãos, e cada um tomou seu rumo em busca de seus afazeres. Senti que valeu a pena encontrar mais uma vez aquela alma despretensiosa e tão sintonizada com seu tempo.

           

           

           

             

           

           




quarta-feira, 25 de julho de 2012


O GURU         (25-7-2012)

                                       Hugo Martins 



            Juro de mãos postas que nunca precisei de guias espirituais... De regra, os problemas do cotidiano, as pequenas cretinices, as mentiras convencionais e outras baixezas espirituais, escamoteadas na pequenez de nossa alma, cuido de remediá-las com o fluido invencível que dimana da Arte, sobremaneira da Música e da Literatura.

            A primeira, bálsamo divino, encanta, enternece, conduz a alma para regiões etéreas como se fosse um estupefaciente instaurador de indefinível paz... A Serenata de Schubert, a Quinta Bachiana, a Serenata ao Luar, Tristesse, qualquer suíte de Bach, o Adágio de Albinoni e outras que tais debelam quaisquer transtornos do espírito, sobretudo se “curtidas” num cantinho solitário da sala, permanecendo o sujeito ungido da firme intenção de não perder um só acorde. Instaura-se a quietude, o embevecimento, a ternura, o silêncio interior...

            A segunda também é uma viagem. Diferente, porém, da primeira. Se aquela vem para despertar o inconsciente e balançar o consciente, neles imprimindo o sortilégio de embriagante misticismo vivificador, a última instaura a reflexão desacelerada, controla a marcha lenta da mensagem para, ao final, povoar o espírito de toda sorte de bons pensamentos...

            A propósito, o escritor francês André Gide, indagado acerca do que faria se não fosse romancista, respondeu fleumaticamente: “Me mataria”. Quer dizer, para o criador de La Sinphonie Pastorale, o escrever é indispensável para se alimentar a consciência de que viver a vida é não passar por ela como um cadáver ambulante... Mutatis mutandis (mudando o que se tem de mudar), viva a Música, viva a Literatura... Vivificam, dão alento, embelezam o mundo, levam a doces e amargas reflexões, sem contar que e atenuam a sordidez da existência... Talvez os famosos versos do escritor romântico Francisco Otaviano traduzam, inteiramente, o que se esconde no âmago da questão... Transcrevo-os.

                        Quem passou pela vida em branca nuvem,

                        E em plácido repouso adormeceu

                        Quem não sofreu o frio da desgraça,

                        Quem passou pela vida e não sofreu;

                        Foi espectro de homem, não foi homem,

                        Só passou pela vida, não viveu.



            É esse sofrimento existencial, essa dor pungente do viver que pede um lenimento, algo suavizador das dores do mundo, que só se encontra na Arte...

            Nesses tempos de vazio existencial, de pregações farisaicas, provindas dos meios de comunicação de massa, ou de pretensiosos acendedores de lampiões; nessa quadra da História, em que violências de toda sorte terrificam o homem e são untadas pelo verniz perigoso do discurso banalizador daqueles meios, encontramos, às vezes, alguém que pode nos ajudar a suportar o peso drummondiano do mundo nos ombros...  Bastam as estripulias do acaso ou uma boa dose de sorte.

            Pois não é que se deu isso comigo. Ocorreram, simultaneamente, as artes do acaso e o tropeço na sorte. Encontrei um guru num dia em que “enxugava” eu algumas  “marditas” louras geladas num botequim de subúrbio. Naquele dia, saíra para preencher a melancolia dos domingos amarelos. Sentei-me à mesa e uma garçonete de avental branco, cabelos pintados de amarelo bandeira brasileira e lábios pintados que lembravam uma biquara, atendeu-me. Enquanto na radiola de fichas rodavam a música que os intelectualóides chamam de brega, espraiei o olhar pelo ambiente. Dois sujeitos discutiam futebol. Encostado na parede encardida do boteco, um sujeito, mais “bêbado que uma cabra vadia e abandonada num terreno baldio”, bela metáfora de Nélson Rodrigues, tentava, na voz engrolada por dezenas de doses de cachaça, solfejar a música que tocava impune e indiferente à sua presença. De vez em quando, ouvia-se o dono do bar gritar à garçonete que atendesse essa ou aquela mesa. Num canto solitário, um sujeito de aparência simples sorria e pendurava na ponta dos lábios um sorriso de deboche como se estivesse se divertindo com as tolices do mundo. Depois de algum tempo, a radiola começou a tocar uma musiquinha, não a de romantismo ardido, traduzida na voz sofrida do intérprete, com cuja estética muitos se identificam. Na verdade, a vozinha esganiçada e desgraciosa proferiu alguns versos do mais fino mau gosto. Dizia a letra mais ou menos assim: “Oh! my Love, oh, my Love, se você colocar seu amor na vitrine ele não vai valer mais que um e noventa e nove”. Da minha parte, senti nos versos o suprassumo da mediocridade. Comecei a rir sozinho. Verifiquei, então, que o sujeito metido a gozador fez o mesmo, só que soltou estrondosa gargalhada. Só eu entendi o gesto do homem. E, não sei por que cargas d´água, intuí, naquele momento, haver esbarrado em alguém que segurasse, por algum tempo, uma boa conversa.  

            Com efeito, entabulamos um longo papo e pude, desde então, sentir haver encontrado um sábio, um homem de larga visão de mundo ( demonstrarei nos próximos encontros), o qual filtra as acontecências por uma ótica bem distante do mesmismo pescado dos meios de comunicação de massa e das falas oraculares, massificadas e cansativamente repetidas pelos robôs da era do “cibervício.”

            É um guru, sem dúvidas... Não porta longas barbas. Não usa turbantes, não ensaia voz de brasileiro aflautada com falso sotaque estrangeiro, tampouco escreve livros de autoajuda... Também lhe passa longe a idéia de mudar os atos e cenas do grande teatro da vida. Apenas, conforme pude entender, espreita o mundo e, rendido à indiferença dos céticos, observa o fluir do tempo, as mudanças heraclitianas e sobre elas não constrói esplendorosos juízos para impressionar os rudes. Apenas filosofa, alheio a modismos estereotipados...

            Para concluir: diz chamar-se Ridendo Sic... Nome sugestivo, pois, pois... Daqui por diante, não fugirei à obrigação de, por intermédio desta rede social e de um blog em que garatujo textos, transcrever os ricos diálogos ou as historietas tragicômicas que resultarem de nossas conversas... Por enquanto, só este simulacro de apresentação...