segunda-feira, 30 de julho de 2012


O GURU   IV

                                           Hugo Martins



            Ridendo Sic saiu em viagem. Não se sabe em busca de quê. Talvez, enfarado pela idiotice reinante, ou, quem sabe, para fugir, por uns tempos, da onda de violência que campeia nas mais próximas e mais longínquas regiões deste Brasil velho sem porteiras. Por conta de sua ausência e para não faltar ao compromisso de trazê-lo à tona com suas observações estonteantes sobre o mundo, recolhi alguns escritos seus, colhidos do baú de nossas infindáveis conversas. Li comentários seus acerca do Bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro, celeiro de intelectuais, compsitores, cantores e mulheres bonitas, os quais fizeram bonito no tempo dos chamados anos dourados, celebrizados em música de Antônio Carlos Brasileiro Jobim. Comovi-me com os relatos sobre Mané Garrincha, “o anjo das pernas tortas”, em quem Drummond, num longo poema, vislumbrou uma espécie de Carlitos, devido à irreverência peculiar àquele infernal ponteiro do Botafogo e da Seleção brasileira de futebol. Parêntese: quem desejar conhecer melhor a vida deste fenômeno - estou falando de Garrincha, não confundam - há uma biografia sua, escrita pelo carioca flamenguista Ruy Castro. Também não me interessei, pelo menos agora, por alguns aspectos interessantes, envolvendo a família Rodrigues, sobremaneira Mário Filho e seu irmão, o teatrólogo e cronista Nélson Rodrigues, intelectual refinado, que pôs às claras a hipocrisia burguesa,  que se via retratada em nas páginas do “Anjo Pornográfico”. Parêntese: Ruy Castro também biografou Nélson, sapecando-lhe esta inventiva e irônica metáfora supra-aspeada. Não, não, nada disso vem ao caso. Pelo menos agora. O que mais me chamou a atenção, coisa que li com um misto de alegria festiva e funda decepção, foram os comentários, que tive o cuidado de garatujar com maior precisão, acerca da música popular brasileira, que muitos confundem com o movimento bossanovista dos anos 50 e 60... Aqui, Ridendo refere-se à música que se fez e se faz no Brasil, não importa a faceta. Ridendo Sic, nesse passo, se, num primeiro momento, mostrou-se benigno, num outro, revelou-se ferinamente zombeteiro. Não lhe tiro a razão, pois sempre demonstrou conhecer com razoável profundidade, a riqueza comprovada e a miséria lamentável de nosso cancioneiro popular.

            Diz ele que a música genuinamente brasileira é o choro e não o samba conforme muitos pensam. Pixinguinha e seus seguidores, foram evocados. Não faltaram os nomes de Waldir Azevedo, Jacó do Bandolim, Altamiro Carrilho, Ademilde Fonseca, Adelaide Chiozzo e outros, cuja perfomance instrumental deram força e vida ao nosso cancioneiro. Acrescentou que o samba, iniciado por Donga, com a letra Pelo Telefone, serviu de pontapé inicial para que surdissem à época compositores do porte de Noel Rosa, Wilson Batista e Ismael Silva, em cujo talento se abeberaram, depois, João Nogueira, Martinho da Vila e Paulo Sérgio Pinheiro. Exaltou a inigualável e insuperável qualidade vocal de Orlando Silva, grande influência de Nélson Gonçalves e influenciador de João Gilberto e Roberto Carlos no início da carreira. Ressaltou os frequentadores do Café Nice, lembrando o nome de Orestes Barbosa, letrista que teve o nome indicado para concorrer a uma vaga na Academia Brasileira de Letras; não esqueceu as figuras de Custódio Mesquita, de Cândido das Neves, Mário Lago e Ataulfo Alves. Trouxe à tona a excelência musical de Tom Jobim, Dolores Duran, Vinicius de Moraes, Carlinhos Lira, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal e, claro de Francisco Buarque de Holanda. A propósito, comparou este a Noel Rosa e julgou: Chico é grande, mas Noel é um gigante. Argumentou: Noel, que viveu apenas minguados vinte e sete anos e experimentou apenas cinco anos de vida artística profissional (se é que para ele fazer versos, que “nascem do coração” e que “ninguém aprende no colégio” constitui profissão, trazia na alma inesgotável caudal de versos, às vezes, surgidos num átimo. Era um lírico sincero, apaixonado pela vida e cronista de bares, cabarés, putas e bairros boêmios da cidade, que ele tanto amou. Chico, também é compositor de várias faces. O crítico musical Tárik de Souza enxergou em sua criação aspectos de um lirismo doentio, uma crítica social lancinante e um pensamento político, de cujas entranhas se extraem dores universais, misturadas com a ironia anavalhante de Gregório de Matos Guerra. Era, neste aspecto, um Boca do Inferno redivivo. Mas, se me pedirem um placar, direi que estão empatados, lembrando que Chico teve mais tempo que Noel. Se este tivesse vivido mais alguns anos, mais dez, por exemplo, aquele placar teria que ser revisto. É bom relevar que Chico é fã reconhecido do Poeta da Vila.

            Observou: fique registrado que Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, Zé Dantas, Sivuca, Abdias, Zé Calixto, Dominguinhos e Nando Cordel não podem deixar de figurar entre os que dignificam, com suas letras e canções, a chamada música nordestina. Verdadeira sociologia musical da terra tostada pela inclemência do Sol, esquecida dos projetos políticos, heroificada pelo vaqueiro indômito, atormentada pela pregação desesperada dos beatos e pela ação, a um tempo,  agressiva e justiceira, de bandos de cangaceiros. Bastava, para isso, a sensibilidade do compositor, a voz dorida do intérprete, o acordeão, um triângulo e um zabumba.  Tudo muito arraigado na profundeza da simplicidade

            Hoje, meu amigo, os que “criam” a música nordestina, aqui na terra de Alencar, deveriam ser reconhecidos como medíocres alquimistas do mau gosto, pois conseguem, nas suas misturas e aviamentos, transformar música em cocô... Quando surgem no palco, são recebidos pelo delírio inexplicável e ensurdecedor de um magote de pessoas que fingem dançar, quando na verdade parecem estar empenhados em renhida luta; o “intérprete”, não passa de um histrião de alto coturno, que se requebra como um fantoche, coadjuvado por uma tropa de dançarinas de cabelos “louro-de farmácia”, que gesticulam como frinéias e messalinas modernas, esforçando-se para pôr em evidência suas partes pudendas. As letras não passam de onomatopéias latidas, perpassadas por   antológica secular pobreza... Mas essa lúgubre cantilena tem uma serventia: desvirtuar a genuína música nordestina, mitificar as figuras ridículas de dançarinas e cantores e encher as burras de algum vivaldino, que bem conhece o “gosto refinado” de uma boa parcela de otários úteis.  

            Aduziu, ainda: quanto à música sertaneja, deixemos de lado a figura de João Pacífico, de Tião Carreiro e outros próceres e rezemos, com o máximo fervor, pelas duplazinhas que se celebrizaram assassinando e prostituindo as letras de alguns compositores do porte de Ary Barroso e Lamartine Babo, sem falar no desvirginamento de nossos tímpanos, com vozes de cigarra estridente, que fazem a estátua do Cristo Redentor, na cidade do Rio de Janeiro, dobrar os braços e tamponar as oiças para se livrar do cruciante sofrimento provindo daquelas indisciplinadas gargantas...

            Na nota, há uma observação: poderemos voltar ao assunto, pois alguns nomes ficaram esquecidos e, fazem-se necessárias, ainda, algumas vergalhadas nas ancas do time de enganadores.

            Aguardemos.

             

           

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