O GURU IV
Hugo
Martins
Ridendo
Sic saiu em viagem. Não se sabe em busca de quê. Talvez, enfarado pela idiotice
reinante, ou, quem sabe, para fugir, por uns tempos, da onda de violência que
campeia nas mais próximas e mais longínquas regiões deste Brasil velho sem
porteiras. Por conta de sua ausência e para não faltar ao compromisso de
trazê-lo à tona com suas observações estonteantes sobre o mundo, recolhi alguns
escritos seus, colhidos do baú de nossas infindáveis conversas. Li comentários
seus acerca do Bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro, celeiro de intelectuais,
compsitores, cantores e mulheres bonitas, os quais fizeram bonito no tempo dos
chamados anos dourados, celebrizados em música de Antônio Carlos Brasileiro Jobim.
Comovi-me com os relatos sobre Mané Garrincha, “o anjo das pernas tortas”, em
quem Drummond, num longo poema, vislumbrou uma espécie de Carlitos, devido à
irreverência peculiar àquele infernal ponteiro do Botafogo e da Seleção brasileira
de futebol. Parêntese: quem desejar conhecer melhor a vida deste fenômeno - estou
falando de Garrincha, não confundam - há uma biografia sua, escrita pelo
carioca flamenguista Ruy Castro. Também não me interessei, pelo menos agora,
por alguns aspectos interessantes, envolvendo a família Rodrigues, sobremaneira
Mário Filho e seu irmão, o teatrólogo e cronista Nélson Rodrigues, intelectual
refinado, que pôs às claras a hipocrisia burguesa, que se via retratada em nas páginas do “Anjo
Pornográfico”. Parêntese: Ruy Castro também biografou Nélson, sapecando-lhe
esta inventiva e irônica metáfora supra-aspeada. Não, não, nada disso vem ao
caso. Pelo menos agora. O que mais me chamou a atenção, coisa que li com um misto
de alegria festiva e funda decepção, foram os comentários, que tive o cuidado
de garatujar com maior precisão, acerca da música popular brasileira, que
muitos confundem com o movimento bossanovista dos anos 50 e 60... Aqui, Ridendo
refere-se à música que se fez e se faz no Brasil, não importa a faceta. Ridendo
Sic, nesse passo, se, num primeiro momento, mostrou-se benigno, num outro, revelou-se
ferinamente zombeteiro. Não lhe tiro a razão, pois sempre demonstrou conhecer
com razoável profundidade, a riqueza comprovada e a miséria lamentável de nosso
cancioneiro popular.
Diz
ele que a música genuinamente brasileira é o choro e não o samba conforme
muitos pensam. Pixinguinha e seus seguidores, foram evocados. Não faltaram os
nomes de Waldir Azevedo, Jacó do Bandolim, Altamiro Carrilho, Ademilde Fonseca,
Adelaide Chiozzo e outros, cuja perfomance instrumental deram força e vida ao
nosso cancioneiro. Acrescentou que o samba, iniciado por Donga, com a letra
Pelo Telefone, serviu de pontapé inicial para que surdissem à época
compositores do porte de Noel Rosa, Wilson Batista e Ismael Silva, em cujo
talento se abeberaram, depois, João Nogueira, Martinho da Vila e Paulo Sérgio
Pinheiro. Exaltou a inigualável e insuperável qualidade vocal de Orlando Silva,
grande influência de Nélson Gonçalves e influenciador de João Gilberto e Roberto
Carlos no início da carreira. Ressaltou os frequentadores do Café Nice,
lembrando o nome de Orestes Barbosa, letrista que teve o nome indicado para concorrer
a uma vaga na Academia Brasileira de Letras; não esqueceu as figuras de
Custódio Mesquita, de Cândido das Neves, Mário Lago e Ataulfo Alves. Trouxe à tona
a excelência musical de Tom Jobim, Dolores Duran, Vinicius de Moraes, Carlinhos
Lira, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal e, claro de Francisco Buarque de
Holanda. A propósito, comparou este a Noel Rosa e julgou: Chico é grande, mas
Noel é um gigante. Argumentou: Noel, que viveu apenas minguados vinte e sete
anos e experimentou apenas cinco anos de vida artística profissional (se é que
para ele fazer versos, que “nascem do coração” e que “ninguém aprende no
colégio” constitui profissão, trazia na alma inesgotável caudal de versos, às
vezes, surgidos num átimo. Era um lírico sincero, apaixonado pela vida e
cronista de bares, cabarés, putas e bairros boêmios da cidade, que ele tanto
amou. Chico, também é compositor de várias faces. O crítico musical Tárik de
Souza enxergou em sua criação aspectos de um lirismo doentio, uma crítica
social lancinante e um pensamento político, de cujas entranhas se extraem dores
universais, misturadas com a ironia anavalhante de Gregório de Matos Guerra. Era,
neste aspecto, um Boca do Inferno redivivo. Mas, se me pedirem um placar, direi
que estão empatados, lembrando que Chico teve mais tempo que Noel. Se este
tivesse vivido mais alguns anos, mais dez, por exemplo, aquele placar teria que
ser revisto. É bom relevar que Chico é fã reconhecido do Poeta da Vila.
Observou:
fique registrado que Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, Zé Dantas, Sivuca,
Abdias, Zé Calixto, Dominguinhos e Nando Cordel não podem deixar de figurar
entre os que dignificam, com suas letras e canções, a chamada música nordestina.
Verdadeira sociologia musical da terra tostada pela inclemência do Sol,
esquecida dos projetos políticos, heroificada pelo vaqueiro indômito, atormentada
pela pregação desesperada dos beatos e pela ação, a um tempo, agressiva e justiceira, de bandos de
cangaceiros. Bastava, para isso, a sensibilidade do compositor, a voz dorida do
intérprete, o acordeão, um triângulo e um zabumba. Tudo muito arraigado na profundeza da
simplicidade
Hoje,
meu amigo, os que “criam” a música nordestina, aqui na terra de Alencar,
deveriam ser reconhecidos como medíocres alquimistas do mau gosto, pois
conseguem, nas suas misturas e aviamentos, transformar música em cocô... Quando
surgem no palco, são recebidos pelo delírio inexplicável e ensurdecedor de um
magote de pessoas que fingem dançar, quando na verdade parecem estar empenhados
em renhida luta; o “intérprete”, não passa de um histrião de alto coturno, que
se requebra como um fantoche, coadjuvado por uma tropa de dançarinas de cabelos
“louro-de farmácia”, que gesticulam como frinéias e messalinas modernas,
esforçando-se para pôr em evidência suas partes pudendas. As letras não passam
de onomatopéias latidas, perpassadas por antológica secular pobreza... Mas essa lúgubre
cantilena tem uma serventia: desvirtuar a genuína música nordestina, mitificar
as figuras ridículas de dançarinas e cantores e encher as burras de algum
vivaldino, que bem conhece o “gosto refinado” de uma boa parcela de otários
úteis.
Aduziu,
ainda: quanto à música sertaneja, deixemos de lado a figura de João Pacífico,
de Tião Carreiro e outros próceres e rezemos, com o máximo fervor, pelas
duplazinhas que se celebrizaram assassinando e prostituindo as letras de alguns
compositores do porte de Ary Barroso e Lamartine Babo, sem falar no
desvirginamento de nossos tímpanos, com vozes de cigarra estridente, que fazem
a estátua do Cristo Redentor, na cidade do Rio de Janeiro, dobrar os braços e
tamponar as oiças para se livrar do cruciante sofrimento provindo daquelas indisciplinadas
gargantas...
Na
nota, há uma observação: poderemos voltar ao assunto, pois alguns nomes ficaram
esquecidos e, fazem-se necessárias, ainda, algumas vergalhadas nas ancas do
time de enganadores.
Aguardemos.
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