leituras

por Francisco Hugo Barroso Martins Junior, sexta, 20 de Janeiro de 2012 às 04:21
O escritor fluminense Machado de Assis, certa feita, folheando o caderno de um jovem com ele aparentado, ficou estarrecido com o rol de regras gramaticais ali encontradas e, ioronicamente, disse, de si para si, não conhecer aquele idioma. Com efeito, o ensino de língua portuguesa reduz-se ao saber de cor e salteado regras ínsipidas de gramática normativa, cujo efeito é levar ao aluno a falsa convicção de que "português é difícil". Difícil mesmo é o professor convencer-se de que tal gramática o usuário do idioma já conhece e, por isso, inútil é esforço de se empurrar a muque um cabedal de regras e exceções por si mesmas enfadonhas , pois a nada levam. Ora, não consta que escritores do porte de Machado, Monteiro Lobato, Eça de Queirós e outros homens de letras de nomeada conhecessem a tal gramática por método tão insípido. Conheciam-na de outra forma: por meio da leitura diuturna. Da mesma forma, qualquer falante dado ao hábito da leitura de textos vazados em linguagem bem posta, seja no conteúdo, seja na forma, de pronto acabará por familiarizar-se com a feição do idioma , seu modo de ser e suas idiossincrasias. Os bons escritores são, antes de tudo, grandes leitores. Assim não fosse, não empreenderiam lutas insanas em busca da melhor expressar as acontecências do mundo. Diz-se que Eça, Machado e tantos outros reescreviam o seu texto com tal ardor, que, por vezes, só resultava uma página por dia. Basta lembrar que Eça gastou cinco anos para resolver publicar um de seus romances. Trata-se daquilo que Flaubert chamou de "angústia da forma", ou é a "luta vã com as palavras" a que se refere Carlos Drummond. Não precisa ser senhor de inspiração para bem se exprimir no idioma, com precisão, clareza e propriedade. É suficiente que haja o convencimento de que a leitura, como vício dos mais prazerosos, é indispensável para que se alcance tal desiderato. É uma droga lícita, que provoca uma lombra interminável. Da minha parte, não tenho escrúpulo em dizer que faço uso dessa droga e dela promovo tráfico sem nenhum temor. Afinal, ela abre, realmente, as portas da percepção e propicia-nos momentos de raro encantamento. Sem falar que é instrumento político, formador de opinião, não aquela atrelada à persuasão cínica e perversa dos meios de comunicação de massa, formadores de opinião míope e caolha, fruto dos insondáveis sofismas provenientes de quem está com os cordéis nas mãos, brincando com a consciência de fantoches descerebrados. Quem lê com afinco, perseverança e gosto acaba por promover leituras do mundo mais consentâneas de sua condição de animal pensante... Voilá...