A
PAZ DEPENDE DE NÓS... QUEM DISSE?
Hugo Martins
Entro
nas dependências de um restaurante com o fito de tomar alguma bebida gelada,
para amainar o calor atmosférico que tomou conta do mundo por força das
contínuas agressões que o homem vem cometendo contra a natureza. Ao
aproximar-me do balcão, passeio meu olhar pelo ambiente a ver alguns amigos e
levar a eles saudações mecanicamente cotidianas. De repente, dou de cara com um
grande cartaz com fumos de pedagogia cristã. Nele se lê uma mensagem em letras
garrafais “A PAZ DEPENDE DE NÓS”. Na
parte superior da mendaz mensagenzinha, o desenho de uma pomba branca e
estúpida, pronta para alçar vôo como a desejar espalhar os bons augúrios dos
homens de boa vontade. Na parte inferior da hipócrita mensagem, alguns signos
próprios do código comunicativo dos surdos-mudos traduzem a palavra PAZ, tratando preconceituosamente
aqueles como analfabetos. Quanta ironia!!!
Farto
dessas mentirinhas convencionais, pus-me a refletir e a procurar uma razão para
entender a coisa. Faz tanto tempo que o homem procura esta tal PAZ! Convenhamos: ou o tempo é pouco
para a empreitada ou ela foge dele, pregando-lhe peças e inculcando-lhe fiapos
de levianas ilusões.
Por qual
PAZ porfia o homem? A que se
circunscreve na sociedade dos homens ou aquela que só se vislumbra nos
escaninhos da alma de cada um? A universal ou a interior?
Filósofos e místicos; artistas
e loucos; bêbados e outros sonhadores deixam entrever em seus discursos que só
a última é possível de ser encontrada, pois ela está dentro de nós mesmos. Por
evidente, repousa essa PAZ numa
postura egoística e individualista bem própria da espécie humana.
Como afirmar que ela existe se, ao
lançar nosso olhar para além da geografia de nosso próprio umbigo, enxergamos a
maldade que fere; a ignomínia que ofende; a deslealdade que avilta; o
individualismo que humilha? Com efeito, essa PAZ do EU e não do NÓS, essa pazinha bem comportada de
quem diz “viver no melhor dos mundos”,
como apregoava o otimismo balofo de uma personagem de Voltaire, cheira a
covardia coletivizada, pelo grau de envergonhada hipocrisia que ela encerra.
Se,
na instância individual, essa PAZ
vem travestida das mentiras convencionais da civilização ocidental, imagine a
outra, aquela por que suspiram os otimistas empedernidos, cavaleiros de triste
figura dos novos tempos! Não se devia nem mesmo a ela se referir. Como
apregoá-la, se, desde os primórdios da humanidade, o bicho-homem se engalfinha,
numa luta vã, embalado pela sede da glória; narcotizado pela efemeridade do
poder; ludibriado pela fugidia miragem de uma posteridade em que ele teima se
escanchar? Nessa odisséia desvairada, revela-se capaz de cometer ações de que o
mais crédulo dos homens duvida... Assim, as mensagenzinhas desse jaez só
possuem uma utilidade: adormentar e aquietar a consciência dos parvos e dos
toleirões que ensaiam acreditar que, por meio de lugares-comuns, em que
repousam hipócritas boas intenções, é possível convivência, no mesmo aprisco,
de lobos sanguinolentos e cordeiros mansos e bem intencionados.
Deixo o restaurante com
uma frase martelando num tom de advertência: “desconfia dos homens bem-intencionados,
pois deles não está cheio o reino dos céus!!!”
Meu
outro “eu” indaga: afinal, quem disse que A
PAZ DEPENDE DE NÓS? Quedei-me calado.
