sexta-feira, 30 de março de 2012


NAQUELE TEMPO (12)

                                                                     Hugo Martins



          Pedro Ângelo, caboclo de truz e boa cepa, temendo os horrores de nova seca, resolveu se botar para a Amazônia. Já vira muita areia nos grandes formigueiros, o vôo prenunciador das aves de arribação e outros sinais que o persuadiram a partir em busca de melhores dias. A família, queira-Deus, é que não podia ficar ao deus-dará, padecendo os horrores da fome e estirando o pires humilhante à caridade pública. Esperar pelas históricas promessas de políticos pilantras era um desafio a que não mais se submeteria. O negócio era mesmo arrumar as trouxas e arribar... A mãe e os irmãos compreenderiam aquela dolorosa decisão. Depois de algum tempo, estaria de volta. Partiria com a esperança e traria dinheiro no bolso. A providência divina a todos daria o arrimo...

          A cidadezinha ardia sob o nefando rigor dos raios solares. Bois de espinhaço à mostra fuçavam o pasto estorricado em volta da igreja; cães de extrema magreza reviravam os monturos à procura de restolhos de alguma coisa para amainar a fome. Pedro Ângelo beijou a mãe, abraçou os irmãos e, a passo tardo, arrastou-se pela cidadezinha pobre para esperar o caminhão misto, que já buzinava freneticamente chamando os passageiros. Pedro aligeirou o passo e, de súbito, estacou. Não podia partir sem levar a bênção de Tio Estevim, que, esparramado na calçada, curtia a embriaguez diária de anos a fio. Estevim era um tipo popular que, às vezes, surpreendia por tiradas espirituosas. Ante a insistência do sobrinho - era tio de toda a cidade – abriu os olhos e atendeu àquele, desejando-lhe todas as sortes do mundo. Pedro partiu, e Tio Estevim e entregou-se a seu filosófico sono, indiferente à sorte e às dores do mundo.

          A vida continuava, homens se sucediam no poder, a civilização avançava, e a cidadezinha na mesma modorra dos dias vãos. Getúlio Vargas fora apeado do poder provisório em que se instalou por curtos quinze anos.  Dutra assumiu a presidência, redemocratizando o País. Quatro anos depois, Getúlio volta ao poder, amarra seu cavalo no obelisco da Cinelândia e suicida-se. A terrinha tupiniquim passa a viver os anos dourados de Juscelino. Começa o embate pela presidência entre o Marechal Lott, Ademar de Barros e a sinistra figura de Jânio Quadros. Instala-se a ditadura militar de 1964... Até que um dia, Pedro Ângelo, riscou na ponta da rua, sorridente. Parecia alegre - seu semblante não mentia - trazia na valise presentes para toda a família, comprados na Zona Franca de Manaus. Havia a impressão de que o país se tornara um Eldorado, embora os porões da ditadura cheirassem a humilhação, dor e morte. Ainda bem que conquistamos a Copa do Mundo de 1970 sob os auspícios do hino cretinóide “Pra Frente, Brasil”, cujas versificadas baboseiras mais e mais narcotizavam a consciência patrioteira de todos.   Mas Pedro vinha feliz, queria apenas chegar em casa (perdoem os gramáticos, a regência “chegar a” cheira a pedantismo que ofende o português brasileiro).  Pois bem, Pedro Ângelo ia estugar os passos alvissareiros, quando viu, estirado na calçada, o corpo franzino de Tio Estevim. Curtia mais uma homérica bebedeira. O sobrinho aproximou-se, sacudiu o corpo do velho, mas não lhe pediu a bênção. Saiu-se com uma de que se arrependeu para o resto da vida:

          - Tio Estevim, saí daqui faz quase quinze anos. O senhor estava bêbado e hoje, depois de tantos anos, reencontro o senhor na mesma situação, cheio da “água que passarim não bebe”.

          O velho revolveu-se, levantou a cabeça, encarou o sobrinho e sapecou-lhe filosófica estocada, sem “macaquear a sintaxe lusíada”:

          - Pra tu vê, neguim, como eu não bebo às tuas custas... Continuou dormindo a sono solto.

          Não tão bons aqueles tempos.

         

            

         

         

         

         

quinta-feira, 29 de março de 2012


NAQUELE TEMPO (11)

                                                Hugo Martins



            Era possível enxergar o céu recamado de estrelas. A lua ainda não fora desmitificada, continuava sendo dos namorados. Nada se sabia de poluição atmosférica, e o vento frio e sibilante corria livre, vindo da serra. À boca da noite, a meninada sentava-se na calçada, apreensiva, esperando Maria Luísa, espécie de mucama, que, terminada a faina de lavar os pratos e arrumar a cozinha, vinha contar histórias de Trancoso, de almas do outro mundo ou os contos de fadas de Charles Perrault, dos irmãos Grimm e de Hans Christian Andersen. Naquele tempo, essas coisas vinham da boca do povo, pouco importava se as historietas tinham ou não autor definido. Interessavam os encantos de que delas emanavam, instigando a imaginação da criançada.

          O momento e o ambiente eram propícios. Ausência de luz elétrica, o coaxar de sapos, as rasga-mortalhas cortando os ares com seu grasnar lúgubre e soturno. Toda essa atmosfera espicaçava o silêncio dos meninos, que não desgrudavam os olhos da negra. Esta era uma autêntica contadora de histórias: as modulações da voz assumiam tonalidades trágicas ou adocicadas em consonância com a narração. As mãos desenhavam arabescos no ar, emprestando um tom adequado à dramaticidade, que ia num crescendo até atingir o clímax, que tirava o fôlego, e a conclusão, que fazia a todos respirar aliviados.

          Naquele tempo, as crianças não sonhavam com o que há de subliminar nos contos de fadas. Chapeuzinho Vermelho livrara-se realmente das garras do lobo mau graças à intervenção de um caçador; o reino da Bela Adormecida, de fato, dormira cem anos por haver a meninota ferido o dedo na ponta de uma roca; João e Maria foram, deveras, abandonados na floresta pelo pai e aprisionados por um velha dona de uma casa construída com toda espécie de guloseimas.

 Depois dos contos de fadas, vinham as histórias de almas penadas, que deixavam a vida além-túmulo, onde cumpriam duríssimas penas, e vinham meter medo aos mortais. Entre muitas, Maria Luísa era sempre instada a contar a história de uma moça que, tarde da noite, pediu carona na garupa de um vaqueiro, pedindo-lhe que a deixasse num determinado rancho. Ao chegar, apeou-se e disse àquele que passasse no outro dia, e ela lhe daria uma recompensa. No dia seguinte, batendo à porta do rancho, foi o rapaz recebido pela mãe da moça e contou-lhe o ocorrido. A jovem senhora disse-lhe que a tal moça descrita pelo vaqueiro não morava ali. Olhando em direção à porta, o vaqueiro viu um retrato na parede de reboco da sala, para ele apontou e ajuntou dizendo ser aquela a moça a que se referia. A senhora, assustada, disse-lhe fazer mais de vinte anos que a jovem do retrato falecera. Um arrepio subia pelo espinhaço da meninada, mas todos ali permaneciam esperando o relato de mais casos assombrosos...

          Maria Luísa sempre fechava a sessão com a expressão: “entrou no cu do pato, saiu no cu do pinto, senhor rei mandou dizer que alguém contasse mais cinco.” O frio da noite alta e de lua morta enxotava todos para casa. Não se sabe o que ia no espírito da cada um... Agora, era enrolar-se até a cabeça nos lençóis cheirando a baú, rezar uma oração a Nossa Senhora do Rosário para espantar o medo e entregar-se ao sono, ao frufru musical da velha mangueira lá fora, açoitada, em cavo silêncio, pelo vento cantante.

          Naquele tempo, as crianças tinham com que excitar o imaginário, não recebiam nada pronto pela indústria cultural e tinham tempo de sonhar...

          Bons tempos aqueles.

quarta-feira, 28 de março de 2012


NAQUELE TEMPO (10)

                                                                     Hugo Martins

                                               

          Havia dois jornais de grande circulação na cidade: o Povo e o Unitário. As revistas de publicação semanal se reduziam a três: Cruzeiro, Manchete e Fatos&Fotos. Na primeira, liam-se os textos polêmicos do jornalista David Násser, ria-se muito com as páginas do Amigo da onça, de Péricles e com os desenhos Dr. Macarra, de Carlos Estêvão. Na última página, saía uma crônica de Rachel de Queiroz, mais tarde enfeixadas no volume O Brasileiro perplexo. Além disso, a cada ano, a revista trazia AS DEZ MAIS CERTINHAS, de Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo do jornalista Sérgio Porto. As outras valorizavam excessivamente a fotografia em detrimento do texto escrito, salvante os artigos do dramaturgo e jornalista Henrique Pongetti, que também escrevia na revista Manchete.

          Naquele tempo, mulher não vestia calças compridas, a não ser quando montava, de lado, a garupa de um cavalo. Para isso, vestia a calça do marido sob a longa saia. Não ficava bem a uma mulher andar escanchada no lombo de um animal, mesmo numa sela. Ser uma das certinhas do Lalau, posar em trajes menores (maiô), era coisa de gente sem-vergonha. Também não lia outros livros senão os da Biblioteca das moças, em que estas se abeberavam para aprender a cuidar do marido, dos filhos e cuidar da casa. Ler A carne, de Júlio Ribeiro, O primo Basílio, de Eça de Queirós ou Madame Bovary, de Gustave Flaubert era demonstrar inclinação para a luxúria. Por isso, além daqueles, cujo teor as anulava, arriscavam-se a compulsar as páginas de Victor Hugo, Dumas, pai e filho, e as irmãs Charlote e Emile Brontê. A temática tinha de ser romântica: atos heróicos, amores impossíveis, superação de obstáculos, casamento e final feliz. Naquele tempo, Jorge Amado seria um pervertido influenciado pelo demônio. Vade retro, Satanás.

          Naquele tempo, mulher era mulher, menina era menina e Gerardo Bastos já descobrira que um pneu era um pneu. As meninas-moças não conheciam a indústria de cosméticos, vestiam vestidos que iam até meio da perna e brincavam de boneca. Se experimentavam alguma paixonite aguda, refreavam os impulsos, esparramando-os em diários, trancados a quatro chaves, ou no jogo do disparate, brincadeira dialógica de perguntas indiscretas, registrada num caderno em que apunham seus desideratos afetivos mais recônditos. Quando não, desenhavam corações trespassados por uma flecha. De um lado e de outro desta, punham seu nome e o nome do amado, ou escreviam versos como: “O amor é como um pirulito, começa doce e termina num palito”. Outras vezes, inspiradas em fotonovelas, lidas às escondidas, escreviam pequenos textos, polvilhados de um lirismo explicavelmente ingênuo. Neles, drenavam seus anseios, dores e apreensões e deixavam à vista seu coração sofredor.

          Naquele tempo, menino pedia a bênção aos pais, dormia cedo e tinha medo de almas do outro mundo. Caçava passarinhos usando como arma a baladeira, preparava arapucas para aqueles e lia revistas, cujos protagonistas eram valorosos, leais e francos. Não chegara ainda a vez do cafajestismo veiculado em desenhos animados, em cujos episódios campeiam a matrerice, a desfaçatez, a deslealdade e a falta de respeito ao outro.

          Bons tempos aqueles.

terça-feira, 27 de março de 2012


NAQUELE TEMPO (9)

                                      Hugo Martins



            Chegadas as férias, o bairro era tomado de meninos. Não havia catedrais de consumo para se refugiar da violência urbana, tampouco computadores para o solitário matraquear de teclas no frio diálogo de interlocutores ausentes. Não se apoquentava o espírito da moçada com miríades de atividades. Os pais viam os filhos, com quem conversavam durante as refeições, momentos em que todos estavam reunidos. Ali se resolviam os problemas comuns. Ninguém se isolava nos quartos para, prestando vassalagem a imagens burrificantes, narcotizar-se com o supra-sumo de programações idiotizantes, ou render-se ao canto de sereia de perversas publicidades. Havia um quê de cândida despreocupação em que se exercitava a política da boa vizinhança sem o temor da competição, que neurotiza e desumaniza. Naquele tempo, parecia que a vida corria sem muita pressa. Navegava-se em mar de almirante ou voava-se em céu de brigadeiro.

          As ruas transformavam-se na casa dos meninos. Uns soltavam arraias, que requebravam no ar em torneios homéricos, no afã de cortar a linha umas das outras por meio do cerol (mistura de cola com vidro moído) previamente preparado e cuidadosamente untado na linha. Enquanto o embate transcorria, a emoção presa na garganta só explodia em gritos e apupos quando uma das arraias competidoras “papocava com linha e tudo”. Outros jogavam bilas (bolas de gude), que consistia em percorrer, sem errar, o caminho de três pequenos buracos para onde as bolinhas de vidro eram jogadas até a “matança”, desfecho do jogo em que o perdedor se obrigava a entregar ao outro certo número de bilas, à moda pagamento de aposta. Havia também o jogo do triângulo. Cada jogador portava um filete de ferro, cuja ponta aguda era cravada no chão por um forte impulso do braço. A cada jogada, fazia-se uma linha, que partia do triângulo desenhado na areia, de modo a dificultar a passagem da linha do oponente. Aquele que conseguisse impedir a saída do adversário do emaranhado de linhas era o vencedor. Sol a pino, acabava a brincadeira, e cada um ia para casa sem medo de ser feliz.

          À tarde, enquanto os meninos brincavam de gol-a-gol ou “tiravam um racha”, as meninas pulavam corda, saltavam a amarelinha (macaca) ou requebravam o corpinho ao ritmo do bambolê. As mais hábeis não giravam o arco de plástico só na cintura. Conduziam-no, febricitantes, do calcanhar à cintura, e desta ao pescoço, num frenético vaivém... Vez por outra, alguém sugeria a brincadeira dos sete pecados. Uma bola era jogada para o alto, todos corriam e aquele cujo nome fosse proferido, ao ter a bola nas mãos, gritava: “parem!” Ficando todos estáticos, o que detinha a bola tentava acertar com esta um dos participantes. Também se brincava de bandeira. Traçava-se uma linha e, de cada lado, ficavam os competidores. No território de cada grupo (cinco ou seis), fincava-se um pedaço de madeira que fazia as vezes de “bandeira”. A competição consistia em conquistar aquele troféu, ingressando-se no campo do adversário sem ser tocado por qualquer oponente. Valia a agilidade e a capacidade de arrepiar carreira e voltar a salvo à sua grei.

          Depois do jantar, a meninada saía para as ruas e brincava de “passarinho no ninho, cobra no buraco”, brincadeira conhecida por “chicote queimado”. Quando não, entregava-se ao esconde-esconde e outros folguedos. Exaurida, voltava para casa... Banho?  Nem pensar! Bastava lavar os pés, ensaiar rápida oração e esparramar-se na cama ou na rede, receber bênção e beijo da mãe e sonhar com o dia seguinte...

          Naquele tempo, as ruas eram lugar propício à criatividade e à queima de calorias. Não se impunha às crianças o medo nosso de cada dia, enclausurando-as.  Deambulava-se sem preocupação, não se afeava o corpo com a ingestão de alimentos industrializados e propiciadores de mórbida obesidade... Vivia-se sem medo de ser feliz...

          Bons tempos aqueles.

         

         


segunda-feira, 26 de março de 2012


NAQUELE TEMPO (8)

                                             Hugo Martins



          Boquinha da noite... Os últimos raios do sol salpicavam de tons fulvos a vegetação estorricada, estertorando por trás dos serrotes que circundavam a cidade. Os sinos bimbalhavam, bois mugiam, pessoas caminhavam cabisbaixas e sem pressa em consonância com o final da tarde pachorrenta e melancólica. Nas calçadas, apareciam as primeiras cadeiras, prenunciando conversas, entrecortadas, vez ou outra, por uma rodada de fumegante café, cujo olor anunciava ter sido torrado e pilado em casa.

          Logo, o ritmo das cadeiras de balanço animava a roda, espécie de parlamento interiorano, cujos membros eram sobejamente versados na arte de falar da vida alheia. Naquele tempo, não havia televisão, apenas um rádio, coisa rara e privilégio de alguns, levava às gentes o que ia pelo mundo. O bom mesmo, depois da novela, era conversar na calçada sob a frescura do vento frio que soprava da serra e o entrecortar das badaladas do sino da igreja matriz, anunciando as horas.

          Naquele tempo, Dona Amélia, senhora apreciadora de conversas, costumava receber os amigos para a prosa, cujo teor ia do suicídio de Vargas aos mais comezinhos episódios do cotidiano.

          Certa feita, em meio à algaravia, Seu Urbano, que se pronunciava Urubano, no evolver da conversa, pôs as mãos em concha, soltou um largo bocejo, deu boa-noite e, quando se levantava para ir embora, ouviu da dona da casa: “tá cedo, seu Urbano”. O velho sentou-se. Eram vinte horas. O sino badalou anunciando a hora seguinte. Seu Urbano, agora decidido, soergueu-se e, quando ensaiava mais um boa-noite, ouviu novamente um “tá cedo, Seu Urbano!” O velho sentou-se, recebeu a xícara de café, sorveu-o vagarosamente e, pegando o fio do assunto, animou-se e não mais deu bolas aos sucessivos e compassados toques do sino. Algumas pessoas começaram a se retirar, davam seu boa-noite e se embrenhavam na escuridão. Naquele tempo, as lâmpadas da cidade se apagavam às vinte e duas horas. Eram alimentadas pelo motor da prefeitura, pois a energia de Paulo Afonso ainda não existia para aquela gente. Uma a uma as pessoas se iam retirando. Dona Amélia já olhava, desconfiada, de um lado para o outro. Seu Urbano continuou puxando assunto e já não mais esperava, pedia, vez e outra, mais uma xicarazinha do bom moca, agora já morno, enquanto se embrenhava numa fieira de assuntos para espanto de Dona Amélia. Esta conhecia de cátedra a impertinência daquele senhor sisudo e encanecido, cujos atos insólitos faziam rir a todos. A boa senhora recorreu ao último apelo: abriu largamente a boca, enfileirou três longos bocejos. O relógio anunciou a primeira hora da madrugada. Seu Urbano, estoicamente, acomodado na cadeira, balançava-se pra lá e pra cá sob o olhar incrédulo daquela senhora. Esta, não mais suportando, criou coragem e, recorrendo ao último argumento, disse: “Seu Urbano, vá “s´imbora!!” Boca, para que falaste? Seu Urbano, ainda sentado, disse sonoramente:

          _ “TÁ CEDO, MÉLIA” – e por lá ficou...

          Bons tempos aqueles.


domingo, 25 de março de 2012


NAQUELE TEMPO (7)

                             Hugo Martins



          Ingressar num curso superior era incumbência para poucos, pois só existiam a UFC e alguns cursos independentes da futura UECE, desdobramento da FAFICE (Faculdade de Filosofia do Ceará), que, embora possuísse um quadro docente do mais fino trato, funcionava precariamente nas dependências do então Colégio Cearense. Naquele tempo, o discurso sofístico da democratização do ensino ainda não se estabelecera, só entrava quem ostentasse competência e disposição para as elucubrações que o ensino universitário exigia.

          Naquele tempo, os exames vestibulares exigiam do candidato infindos sacrifícios, noites indormidas e ansiedade tantálica. Não havia ir à praia, tampouco ao cinema, afinal a concorrência impunha dedicação exclusiva aos estudos e distância da mediocridade intelectual.

          Aquele que concluísse o antigo Curso Científico escolhia o ingresso em carreiras concernentes às ciências físicas e biológicas.  Quem houvesse   concluído o Curso Clássico estava optando pelas humanidades. As provas eram aplicadas por matéria. Constituíam núcleo obrigatório as provas de língua portuguesa, língua estrangeira e matemática. Química, física e biologia para os primeiros; filosofia, sociologia e história para os últimos. Assim, a angústia dos exames se estendia por seis torturantes dias. Se os economicamente  mais bem aquinhoados matriculavam-se nos famigerados cursinhos, espécie de câncer da educação, em que eram amestrados a fazer provas, aos mais desprovidos restava o esforço sobre-humano para com aqueles concorrer.

          Naquele tempo, os medíocres e os intelectualóides enrustidos não tinham vez. Haveriam de esperar a mentira pedagógica das bodegas escolares em que se finge ensinar, pensar e aprender.

          Naquele tempo, a teleologia educacional centrava-se na preocupação não só de formar o bacharel mas também de formar o homem global que, no exercício da profissão, tinha em vista a preocupação humanística de bem servir. A figura sombria do “bacharégua”, misto de zumbi com descerebrado, só servia mesmo para deambular em corredores do fórum, ostentando fumos doutorais ou travestida por indumentária de marca famosa, portando no dedo o indefectível anelão de onde reverberava sua lastimável incompetência. Quando não, azafamavam-se nos corredores de assembléias estaduais e câmaras municipais à procura das sinecuras de alguns cargos públicos, que, à época, ainda não exigiam o concurso público de provas e títulos. Esteavam-se nas costas largas de políticos inescrupulosos e patifes.

          Naquele tempo, ser professor do Liceu do Ceará não era para qualquer um. Havia de ser professor, pois os “dadores de aulas” vomitavam suas pseudo-aulinhas em escolas cujo lema era o “pagou passou”.  Para ser professor naquele tempo não bastava conhecer a matéria. Fazia-se necessária uma sólida formação pedagógica, haurida em demorados estudos, calcados em filósofos e pensadores da problemática do homem no mundo. Conhecer só a matéria e cobrá-la em sensaboronas provículas bancárias não era suficiente. Por isso, naquele tempo, o professor, por mais limitado que fosse, era senhor de conhecimento eclético, além de ser portador do que se convencionou chamar apurado senso crítico. Não se conhecia o mundo apenas pela leitura de jornais e revistas, instrumentos pelos quais se veiculavam as ideologias de então. Ia-se além, e a “máquina de fazer doido” ainda não era a rainha do lar. Havia mais tempo à dedicação da leitura de obras de cunho literário, filosófico e conteúdos afins. A indústria cultural ainda não banalizara o conhecimento.

          Naquele tempo, havia menos pose, mais estudo e, sobretudo, um autodidatismo gratuito e sincero...

          Bons tempos aqueles.

         

           

         

quinta-feira, 22 de março de 2012


NAQUELE TEMPO (6)

                                                                                Hugo Martins



          Escreviam-se cartas de amor, que, envoltas por laços de fitas, eram guardadas em pequenos baús de madeira como, fugindo ao fenecimento irretorquível do efêmero, que tudo extingue. Algumas guardavam ainda o perfume, de cujos eflúvios olorosos muito diziam do coração do apaixonado, de suas saudades, dores e anseios.  

          Naquele tempo, ainda não se conjugava a aspereza trágica do verbo “ficar”, tradução aproximada do verbo “eu te uso” tu me usas”, escandido por almas imediatistas, solitárias e incapazes da entrega afetiva gratuita. Flertava-se com o broto e, ocorrida a aproximação, iniciava-se a fase efetiva da conquista. Muito tempo se gastava para chegar ao coração da pretendida. O coração trotava em passo tardio, presa de um explicável temor  reverencial. Ocorriam, em primeiro lugar, os olhares de esguelha, depois, caso o brotinho desse sinal com um sorriso arredio e maroto, acontecia a aproximação tímida e, por fim, dava-se o conúbio. O imediatismo dos tempos hodiernos era moeda que ainda não se conhecia. Concretizado o acordo de se iniciar o namoro, significava que o marmanjo deveria freqüentar a casa da jovem e conhecer os pais desta. Pegar na mão era uma tortura que se prolongava por alguns dias. O primeiro beijo nos lábios era conquista que se dava depois de longas insistências, freadas por uma espécie de um não-querer-querendo, afinal a libido não marca hora, mas é filha da Psicologia e da História. Havia recomendações para que um dos garotos da casa se postasse pelas proximidades a fim de que se evitassem maiores excessos. O fechar os olhos para os furtivos impulsos dos pombinhos ficava na  dependência da arte com que o namorado  conquistava a confiança do cunhadinho.

          Se, porventura, a menininha cedesse às investidas do namorado e engravidasse,  pecado gravíssimo, vez que o tabu da virgindade ainda estava muito presente na cultura de então, ou “fazia uma viagem” para outro Estado ou ia ser freira para “tirar o diabo do corpo” e servir ao Senhor. Naquele tempo, embora existisse a camisa de Vênus, o que se convencionou chamar hoje camisinha, os rapazes, quando buscavam comprá-la numa farmácia, aproximavam-se, a medo, do balconista, levavam-no para um canto e perguntavam, intimidados, se existia o produto. Em seguida, saíam cabisbaixos do estabelecimento comercial como se houvessem cometido um pecado mortal. A bendita moral judaico-cristã!!!!!

          Naquele tempo, mulher desquitada (separada judicialmente) era vista como mercadoria disponível à lascívia de outrem. Se namorasse, estaria desafiando a moral vigente e, por sua frivolidade, consideravam-na desfrutável.

 Naquele tempo, o senador Nélson Carneiro apresentou projeto de lei, visando a instituir, no Brasil, o divórcio. Era o prenúncio da redenção da mulher brasileira. Promulgada, a Lei do Divórcio (6.515) passou a viger a partir de 26 de dezembro de 1977. Nossas mulheres libertaram-se do jugo do preconceito e passaram a vivenciar sua sexualidade sem os fumos da insana hipocrisia pequeno-burguesa.

          Naquele tempo, embora oprimida, a mulher brasileira desejava apenas não ser a prometida e escolher o parceiro que bem quisesse para desenvolver sua capacidade de amar livre, leve e solta, sem outras atribulações e peias que não o desenvolver-se afetivamente.

          Naquele tempo, apesar dos pesares, a História determinava o que era ser mulher num mundo governado por machos.

          Ainda assim, bons tempos aqueles!!

         

         



         

         


quarta-feira, 21 de março de 2012


NAQUELE TEMPO (5)

                                                          Hugo Martins



          Reverenciavam-se as professoras pelo maior ou menor rigor de seu trato com os alunos. Quanto mais severa fosse a mestra em seu mister, mais cedo o educando desasnava. Um dos remédios pedagógicos mais eficazes era a férula ou palmatória. De madeira, forma arredondada com um comprido cabo, lembrando uma lupa, ficava pendurada na parede ou sobre a mesa da professora, como eloqüente advertência aos relapsos. Não era instrumento de tortura, mas fazia arder a palma da mão se a lição não era dita com presteza. Quando a professora, que não era tia de ninguém a não ser dos filhos de seus irmãos, resolvia tornar-se boazinha, deixava que dois alunos se digladiassem num jogo de perguntas e respostas em que aquele que saísse vencedor no embate aplicava um bolo (palmatoada) ao perdedor.

          Naquele tempo, alfabetizar não exigia a entrega de material escolar, bastava ao aluno uma carta de ABC, uma tabuada, um caderninho Avante, um lápis com borracha nele escanchada à moda capacete e uma gilete. Não havia necessidade de cartolinas, colas, massas e outros recursos pedagógicos impostos pela indústria escolar. A professora e os alunos possuíam a intuição histórica de que a aprendizagem dispensava aqueles penduricalhos metidos a modernizantes, recorrendo à santa criatividade, ao borrão, e ao impulso do aprender.

          Naquele tempo, findo o ano letivo, os livros eram passados de irmão para irmão. As gerações construíam o alicerce de sua formação lingüístico- intelectual primeiro no exemplar do Curso de Admissão ao Ginásio, depois na Seleta, no A Flor do Lácio ou na Crestomatia. Para estudar Geografia, História ou Ciências Físicas e Biológicas uns poucos nomes eram o suficiente. Antônio José Borges Hermida, Victor Mussumeci, Carlos Galante, Jairo Bezerra e José Cretella Júnior serviram de esteio para o crescimento de várias gerações. Quer dizer: aos pais não se impunha, torpemente, a aquisição de toneladas de livros, obrigação criada pelo jogo comercial, perverso e cretino de bodegas pedagógicas e editoras. Naquele tempo, os livros não traziam gravuras inúteis, fomentadoras da antológica e corrente preguiça mental. Também não havia, em suas páginas, espaço para resolução de exercícios e tarefas, cujo fim maior parece ser inutilizar o livro.

Naquele tempo, estudar era obrigação que todos cumpriam sem a intervenção de promessas de prêmios ou recompensas vindas de pais e avós, cujos efeitos imperceptíveis, mas deletérios, corrompem, mancham o caráter e inscrevem o indivíduo no rol dos que vão optar pelo cafajestismo nacional ou dos que vão alimentar a falsa idéia de que “ganhar” a vida é sinônimo de passar a perna no próximo ou enganar-se a si mesmo com a fugidia ilusão de exercer seu ofício ao sabor de improvisações malsãs.

Naquele tempo, antes da entrada na sala de aula, entoava-se o Hino Nacional ou qualquer outro alusivo a essa ou àquela data histórica. Ministrava-se a disciplina Canto Orfeônico. Durante as aulas, cantavam-se hinos e canções do folclore nacional ou mesmo cantigas de roda. Sob a batuta do professor, cantava-se em coro e desenvolvia-se o gosto musical...

Bons tempos aqueles...

terça-feira, 20 de março de 2012


NAQUELE TEMPO (4)

                                                                               Hugo Martins

          Fazer a primeira comunhão era um suplício. À tardinha, sentava-se a meninada na calçada da igreja. De saia longa e blusa de mangas compridas, por sobre a qual se viam toda sorte de medalhas e um agnus Dei, a beata, de carantonha fechada, chegava sobraçando o missal. Ante o olhar medroso dos meninos, lembrava a importância da confissão e da comunhão, acentuando que os pecadores iriam pretinho (sic) para o inferno caso não contassem direitinho seus pecados ao padre. Todos os dias, àquela hora, a mesma cantilena: onde está Deus? Deus está no céu, na terra e em toda a parte. Quantas são as pessoas da Santíssima Trindade? Três. Quais são as pessoas da Santíssima Trindade? Pai, Filho e Espírito Santo. Tudo era respondido em uníssono embora ninguém soubesse o que respondia, por quê e para quê. Depois se rezava o Ato de Contrição. Somavam-se a este, para se tornar mais infenso às influências do capiroto, as orações “Chagas Abertas” e o “Meu Anjo da Guarda”. A primeira dizia: “Chagas abertas, coração ferido, sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo entre mim e o perigo”. A segunda era assim: “Meu anjo da guarda, meu fiel protetor, guardai minha alma para Nosso Senhor”.

          Hora do ocaso. Finda a tortura, todos voltavam para casa pensando não só nas orações aprendidas mas também no fogo ardente do inferno e no pontiagudo tridente do capeta. A melancolia da tarde, o silêncio reinante, cortado pelo aboio de vaqueiro e pelo bimbalhar de chocalhos, além dos sinos anunciando a hora do ângelus, era momento propício a que aquelas alminhas mergulhassem ainda mais num misto de medo e profunda contrição.

          Antes do dia da comunhão, todos atentos às admoestações da beata, cuidavam de, pelo menos até chegar aquele dia, não escorregar nas esparrelas de pecados e tentações. Proferir “nome feio”, brigar com os irmãos, desobedecer aos pais, alimentar pensamentos ruins e ceder aos apelos da concupiscência era cair duas vezes no pecado. Vigilância e oração, pois, constituíam santo remédio para manter a alma limpa e “ser digno das promessas do Cristo”.

          Chegava o grande dia. De roupa domingueira lá ia o pequeno e indefeso pecador, coração aos pulos, postar-se aos pés do padre a fim de contar-lhe os pecadilhos e faltas. A aplicação da penitência era proporcional à intensidade do conteúdo da confissão. Paga a dívida, restava esperar o dia da comunhão.

          Na manhã de domingo, os sinos repicavam, chamando os fiéis à missa. Calça curta de suspensórios e camisa enfiada no cós, lá ia o penitente, célere, ao som do clap, clap das alpargatas de couro, receber a hóstia consagrada. Havia a dúvida: mastigava a hóstia ou esperava-se sua diluição, grudando-a entre o céu da boca e a língua? Seria pecado optar pela primeira alternativa? Mais correto escolher a outra... Nada de ofender o Senhor com incômodas mordidas, Ele já sofrera muito nas mãos dos soldados romanos conforme os ensinamentos da beata.

          Finda a cerimônia, abraços, vivas, parabéns e retratos com a velinha na mão, olharzinho santificado e o estereotipado arzinho de santarrão.

          Naquele tempo, depois do teatro familiar, de sofrimentos e medos, de comunhões e confissões, o Senhor, lá de seus altiplanos, abria Seu largo e bondoso sorriso ao ver que aquelas alminhas ingênuas voltavam a ser crianças outra vez.

          Bons tempos aqueles...  

         

segunda-feira, 19 de março de 2012


NAQUELE TEMPO (3)

                                                                        Hugo Martins

            Ir ao “cinema ainda era”, nas palavras de Severiano Ribeiro, “a melhor diversão”. Havia na cidade os cines do centro: São Luiz, Diogo, Samburá, Jangada, Toaçu, Majestic, Moderno, Rex e Art Palácio. No Otávio Bonfim, existia o Cine Familiar; na esquina da Av. Pontes Vieira com Visconde do Rio Branco, o cine Atapu.

            Aos domingos, as sessões do cine São Luiz, de 08h30min e 10h30min, enchiam a sala, onde só era permitido o ingresso vestindo paletó. Inaugurado em 1958, desde então, o São Luiz deixou sua marca na população com a projeção de filmes como Marcelino, Pão e Vinho, O Manto Sagrado, Demetrius e os Gladiadores, Anastácia, Sayonara, Suplício de uma Saudade, afora os filmes em que figurava como ídolo o menino cantor-ator espanhol de nome Joselito. Havia choro incontido, explosão de paixões represadas nas almas sonhadoras, e muitas canções líricas deixavam indeléveis tatuagens no espírito das moçoilas de então. Mal se sabia que, por trás daquelas letras, havia a sublimidade das músicas de Thaykovsky, Chopin e Franz Schubert.

            Nos cinemas mais populares, as tiradas picantes do ator Zé Trindade faziam escola e eram repetidas em bares, esquinas e reuniões familiares. Enquanto Oscarito e Grande Otelo divertiam a platéia com seus pastichos e plágios, Mazaropi se travestia de caipira paulista, encarnando um tipo de ar ingênuo, por trás de quem se vislumbrava, no decorrer da projeção, um matuto que nada tinha de bobo, pois se safava de toda e qualquer enrascada. Eram as chanchadas da Atlântida, cujo objetivo maior visava a lançar as músicas do Carnaval na voz de cantores célebres do porte de Caubi Peixoto, Ângela Maria, Jorge Goulart, Nélson Gonçalves, Marlene e Emilinha Borba. Não podia faltar uma pitada de romantismo nas cenas mais líricas em que se sobressaía o par amoroso, sempre representado pelos atores Cil Farney e Eliana. Outras vezes, a diversão ficava por conta de Cantinflas, o ator mexicano Mário Moreno, espécie de pícaro de fino bigodinho, emoldurando lábios finos e sorriso mordaz, que arrancava boas gargalhadas da platéia pela retórica de sua gestualidade chapliniana.

            As sessões matinais, aos domingos, no cine Majestic e no cine Moderno, além de um seriado, que obrigava o espectador a voltar a cada domingo, projetavam-se dois filmes: um por que não se interessava a meninada, normalmente historietas de amor; e, outro, dito de Cowboy, em que vaqueiros varavam as planícies enfrentando índios; ou heróis como Rocky Lane, Roy Rogers, Tom Mix, Kit Carson, Búfalo Bill e outros do mesmo feitio perseguiam bandoleiros e quem quer que estivesse agindo contra a lei. Eram os heróis do Far-West, mantendo a ordem do mundo. A meninada gritava e se esgoelava, torcendo para que o mocinho, em seu fogoso corcel, dele saltasse sobre o vilão em fuga e o capturasse a fim de que a lei e a ordem fossem mantidas. Naquele tempo não se entreviam ideologias em tais narrativas fílmicas.

Viviam-se os anos dourados de Juscelino; o selecionado brasileiro de futebol fora bicampeão, em 1962, no Chile; e os russos haviam lançado o Sputnik, o primeiro satélite artificial da terra. Tudo era noticiado no Jornal da Atlântida... Naquele tempo, depois do cinema, tomava-se o pega-pinto do Mundico, à época, encostado na Farmácia Pasteur, ou comia-se pastel acompanhado de caldo-de-cana no Leão do Sul ou ia-se saborear o sorvete do Top´s. Naquele tempo, a violência urbana ainda não dera sua cara. Podia-se voltar para casa depois da soirée (sessão de 9 às 11h) no cine São Luiz, cantando Menino de Braçanã, de Luiz Vieira... Não se tinha medo de assombração...  

Bons tempos aqueles!!!



           

quinta-feira, 15 de março de 2012


NAQUELE TEMPO (II)

                                        Hugo Martins



            Naquele tempo, a brisa corria mansa e fagueira, não existiam arranha-céus, a não ser um edifício de treze pavimentos, que fica na esquina da Rua Barão do Rio Branco com Rua Pedro Pereira. Era o IAPC, cuja sigla a meninada, em tom de blague, traduzia por Isto Ainda Pode Cair. O vento maroto fazia a alegria da moçada, que, com ar e trejeitos de James Dean, postava-se nas Lojas Rouvani Modas (esquina da Rua Major Facundo com Rua Guilherme Rocha) a atiçá-lo com assovios para soerguer as saias das meninas sapecas da Escola Normal.  Havia o coió, espécie de silvo produzido com os lábios arredondados, forma brejeira de enviar às mocinhas algum elogio às suas graça e faceirice.

            Naquele tempo, as mulheres usavam anágua, combinação e califon. A cintura era apertada por um largo cinto, e a saia, longa e derramada, tomava a configuração de abajur, graças às várias anáguas, antes colocadas no grude, mistura de goma e água, que as enrijeciam. Quanto mais anáguas, maior a parecença com as atrizes da época: a italiana Gina Lolobrígida, a norte-americana Marylin Monroe, a alemã Elke Sommer e a francesa Milene Demongeot. Os cabelos, quando não soltos, esparramados nas costas e ombros, eram penteados, assumindo a forma de uma casa de cupim, e enfeitados com uma tiara de pano que ia de orelha a orelha. As faces eram avermelhadas com rouge, uma espécie de pó carmesim, acondicionado numa caixinha redonda e minúscula, trazida nas bolsas. Se os homens usavam o perfume Lancaster, as mulheres, o 1010 da Bozzano.

            Naquele tempo, a moçada não saía para as baladas, ia às tertúlias, não lítero-musicais do século XIX, mas àquelas em que, ao som de radiolas e vitrolas, dançavam de rosto colado, entregues à malemolência rítmica do Besame Mucho ou rendiam-se às letras românticas de Carlos Gonzaga, Cely Campelo e Sérgio Murilo. Mastigava-se chiclets de bola, tomava-se Coca-Cola ou Cuba libre, mistura de rum Montilla ou rum Baccardi com Coca-Cola. Ali aconteciam namoros e paixonites agudas. Não se apodavam, grosseiramente, as meninas de gatas, mas, carinhosamente, de brotos. Não havia a paquera, mas o flerte. Surdiam abraços e afagos, não amassos. As meninas evitavam a dança colada, embora, algumas mais assanhadas permitissem, às escondidas no meio da dança, uma ou outra encostadinha. Quando o sujeito se afoitava, era delicadamente empurrado por mãos escrupulosas e cuidadosas.

            Naquele tempo, menino não se metia em conversa de adultos. Não. “Sentava-se no chão e conversava com o cão”. Se, porventura, algum mal-educado, fosse quem fosse, deixasse, sorrateiramente, escapar algum flato, logo, atribuía-se o pecadilho a algum menino ou a algum cão nas adjacências. O bom menino não fazia xixi na cama, como aconselhava o palhaço Carequinha nas suas músicas de cunho pedagógico. O menino mijão era ameaçado de, caso cometesse aquela falta, sair à rua com uma rede de dormir na cabeça, bater à porta de alguém e recitar os versos: “Uma esmolinha, por amor de São Vicente, para um pobre que mija na rede e não se sente.”

Naquele tempo, os meninos não se rendiam à sabujice dos brinquedos eletrônicos ou automáticos. Quando algum adulto desavisado presenteava o guri com aqueles artefatos intrincados, o diabinho logo o quebrava. Exercia o direito infantil de saber como funcionava. A menina enchia-se de orgulho quando ganhava de presente a boneca Amiguinha. Os mais criativos faziam seus carrinhos e suas arraias, se meninos; se meninas, iam brincar no quintal, onde faziam guisados de tripas de galinhas em panelinhas de barro compradas na feira. Era proibido aos meninos usar calças compridas. Quando iam ao barbeiro voltavam parecidos com o personagem Cascão, do desenhista e pedagogo Maurício de Sousa. Dava-se àquele corte de cabelos o nome de Príncipe de Gales. Só se lhe permitiam usar meia-cabeleira quando completassem pelo menos doze anos, pois cabeleira era coisa de rabo-de-burro, isto é, rapazes que se entregavam a fazer estripulias contrárias à moral e aos bons costumes.

Naquele tempo, a educação familiar era rígida, e todo mundo devia “dar-se a respeito”.

            Bons tempos aqueles!!!

             

             

quarta-feira, 14 de março de 2012


NAQUELE TEMPO

                                                                         Hugo Martins



               Rezava-se o terço e, após o jantar, as cadeiras se esparramavam nas calçadas. A brisa era pródiga, e as conversas corriam às horas soltas. Ouvia-se o dobre dos sinos anunciando a ave-maria, coadjuvados pela música melíflua de Franz Schubert ou Charles Gonod. Também era comum a saudação com graves boas noites. Vez por outra, crianças brincavam pelas calçadas, meninas politonavam cantigas de roda ou saltavam a amarelinha. Quando a conversa enfarava os espíritos, os meninos iam ouvir a novela Jerônimo, o herói do sertão, escrita por Moisés Weltmam. Depois, era a vez de os adultos se reunirem em torno do rádio para ouvir as novelas melodramáticas produzidas pelas Rádios Tupi ou Nacional. Se os meninos se encantavam com as proezas daquele herói nordestino, que, com honradez e denodo, defendia os injustiçados, os adultos se envolviam na trama chorosa das novelas de Ivani Ribeiro, em cujo enredo moçoilas e mancebos se enfronhavam em intrincados casos amorosos. Se Jerônimo enfrentava o mal, que estava encarnado na figura do vilão Caveira, coadjuvado por seu ajudante Chumbinho, os dramas sentimentais retratavam as dores e dissabores de paixões imorredouras, frenadas pelas antíteses rapazinho rico, mocinha pobre ou pelas dificuldades enfrentadas pelo rapazito para chegar ao coração da amada. Era algo semelhante ao paradigma Romeu e Julieta... Ao fim, depois de medos e choros, tudo terminava bem, não tanto quanto os dramas reais, mas as famílias dormiam em paz.

            Naquele tempo, o uso da farda era obrigatório. As meninas ficavam graciosíssimas com as longas saias plissadas que lhe iam abaixo do joelho. A blusa, enfiada no cós era de mangas compridas e não se dispensava a indefectível gravatinha ou a boina, cuidadosamente encimada sobre a copa de gentis cabelos. A indumentária era, por fim, complementada por sapatinhos cara-de-bebê afivelados por sobre o peito do pé, que se tornavam mais gráceis com as meias brancas que lhes iam até  a metade das pernas Os meninos, pelo menos os liceístas, mais pareciam pequenos soldados, portando calças cáqui com duas grossas listas azuis, do cós à bainha, dólmãs da mesma cor, apertados, por botões de metal. Sobre os ombros, listas ou estrelas, espécie de patente, denunciava o grau em que se encontrava o estudante. Havia um orgulho silente e grave em se estudar neste ou naquele colégio E no desfile do dia Sete de Setembro, quando era obrigatória a participação das escolas, a moçada desfilava com garbo e elegância, com suas bicicletas enfeitadas de fitas verdes e amarelas, pisando forte o chão com os sapatos fanabôs, que recebiam, na noite anterior à solenidade, camadas mais cuidadosas de alvaiade.

            Naquele tempo, o ingresso no curso ginasial, era precedido de um Exame de Admissão. Muito estudo e grande medo do fracasso, afinal o candidato gastara cinco anos de curso primário e punha-se à prova numa superlativa concorrência.

Depois de quatro anos, findo o Curso Ginasial, o candidato escolhia cursar o Científico ou o Clássico. Neste, o candidato preparava-se para cursos universitários respeitantes às ditas ciências humanas, pois ia dedicar-se às letras ou às filosofias; naquele, às ciências químico-biológicas ou físico-matemáticas; às meninas, ficava reservado o Curso Normal, em que se preparavam professoras voltadas para o ensino primário do primeiro ao quinto ano.

Naquele tempo, findos os estudos universitários, era visível o preparo dos bacharéis, que tinham ciência e consciência e não se rendiam ao aceno comercial e cômodo de bodegas pedagógicas, aliás, à época, inexistentes. Era tempo em que o estudar era, sobretudo, um ato prazeroso, de que podia resultar angariar bons salários, mas, antes de tudo, propiciava o pensar que rejeita a subserviência e foge à rendição covarde ao tilintar de cifrões de pós-graduações feitas de afogadilho e sem nenhuma sinceridade intelectual.

Bons tempos aqueles...


terça-feira, 13 de março de 2012


SORVETE E OUTROS BICHOS

                                                                                    Hugo Martins



         Na catedral de consumo, senhor bem apessoado, roupa limpa, unhas feitas, olhar matreiro saboreia o sorvete de um real, comprado num dos quiosques comuns ao shoping center.

           Dá sucessivas mordidas e lambidelas no cone da guloseima e diz, como se pretendesse que a jovem vendedora ouvisse; “ eu avisei; ninguém me engana”. Dizia isso e olhava marotamente para a jovem do outro lado do balcão. Esta, como orientada, nada dizia, continuava sua faina. Discutir com o cliente pode motivar ação judicial e demissão. Há clientes que confiam nisso. O receptáculo do sorvete ia chegando ao fim e aquele senhor com ares de peralvilho experimentado repetia a cantilena de que ele avisara e de que ninguém o enganaria. Parece que havia ele pedido sorvete com sabor baunilha e, a seu aviso, a vendedora não havia colocado o suficiente da essência. O senhor parecia ter razão, afinal nas relações de consumo o respeito entre o que vende e o que compra deve ser mútuo. Sim, desde que tivesse demonstrado seu direito antes de roer sorvete e casca quase até o fim. Agiu com alguém que, num restaurante, pede um prato, come a se fartar e, dolosamente, coloca nele um fio de cabelo. Isso cheira a canalhismo, tanto de um como de outro dos pilantras. Tão reprovável quanto o pai que mente ao filho, quando o filho que se gaba de haver conquistado boas notas na escola à custa de “pescas” e “colas.” Tão lamentável quanto os que se enganam a si mesmo, pois, sem o querer, traem também os outros.

            Não interessa a dimensão do pecadilho ou do pecadão, pois, conforme a sabedoria popular, quem furta um tostão furta um milhão. Quem age inescrupulosamente nas pequenas coisas fá-lo também nas grandes.

          Talvez aquele senhor avaliasse o quanto era ele ladino o bastante para passar a perna nos outros. É provável que pensasse como o político pelintra, que não regateia talento para engabelar a boa-fé de eleitores, ou semelhante ao legislador inescrupuloso que não mede esforços para aprovar, em conluio com os da mesma laia, leis iníquas e contrárias aos interesses populares.

         Afinal o senhor conquistou o segundo sorvete. Que deu o que falar. Uma senhora, testemunha daquela façanha, comentou que aquele acontecimento lhe mexera na consciência e lhe causara náuseas. Outro apreciador de sorvete ali postado disse estar faltando no País capacidade de nausear-se. Aduziu ser necessário que mais pessoas se nauseiem para que as consciências passem por um processo de assepsia pedagógica e tomem seus sorvetes sem a necessidade de causar náuseas nos outros.

segunda-feira, 12 de março de 2012


Philosophum non facit barba (A barba não faz o filósofo)

                                                                          Hugo Martins

O delicioso livrinho de Eduardo Prado de Mendonça, O Mundo Precisa de Filosofia, longe de ser um tratado pretensioso do assunto, convence, mesmo os mais pedantes e posudos, de que o assunto é indispensável, sobretudo num mundo em crise, cuja nota dominante é o pragmatismo estéril, o vazio existencial e a desesperança vã.

Passados os ventos negros da ditadura e instalado o Estado de Direito, até mesmo as crianças já ensaiam alguma simpatia pela matéria. Diz uma mãe testemunhar o entusiasmo da filha, de pouco mais de onze anos, pelo assunto. Talvez isso signifique que o estudo da Filosofia não deva ser apanágio apenas de homens graves, de olhar perscrutador e escondidos nas grossas lentes dos óculos professorais... Não é suficiente no ato de filosofar tão-só a pose doutoral, tampouco a indumentária bizarra, ou mesmo o vocabulário esotérico, ou a mise em scène do alheamento de poeta ultra-romântico. Necessárias a sinceridade e simplicidade das crianças, que podem filosofar sem o fardo do narcisismo intelectualóide...

Se filosofar é, como quer Epicuro, com um pedaço de pão e um pouco d´água, rivalizar com o próprio Zeus; é ser afortunado como Diógenes tendo como vestimenta um lençol e como moradia um barril; ninguém melhor que as crianças para compreender a inutilidade das pequenas vaidades, encontradiças nos valores mercadejados pela publicidade enganosa dos discursos utilitarista. Nem por isso se há de fazer a apologia da pobreza franciscana ou mesmo de que não se deva “pensar no futuro”. Ainda assim, o projeto da felicidade deve estar amparado numa visão de mundo em que o indivíduo não enxergue no viver apenas o hedonismo grosseiro dos insensatos, que vagueiam como cadáveres ambulantes, destituídos do que se convencionou chamar de senso crítico.

O professor daquela jovem encantada pelo mundo da Filosofia, é presumível, pode ser visto como um benfeitor da humanidade, que passa despercebido do olhar dos homens, que não espera foguetes nem refletores ou almeje ter a foto estampada em jornais... Não é um herói de papelão ou papelões. Também é provável que não pretenda conquistar cargos públicos, com as promessas mentirosas, penduradas no sorriso maroto de político pilantra. Certamente recebe seu galardão na satisfação gratuita de forjar consciência e soprar entusiasmo no espírito desarmado das crianças. Isso basta... Isso muda... Isso é Filosofia. De parabéns seus alunos...

domingo, 11 de março de 2012


O MENINO NÃO MORRE



                                                                                      Hugo Martins



          Sol a pino. Nem um pé de vento. Folhas paradas. Modorra em tudo e em torno. O portãozinho de madeira range. Na calçada quente, o matraquear de tamancos. Lá ia ele. Calças curtas de suspensório, camisinha de riscado enfiada no cós frouxo. Cabelo cortado a príncipe de Gales: cabeça raspada nos lados e sobre a parte superior do crânio a gaforina entrunfada tal uma mancha informe. Um dos braços balançava ao ritmo das passadas curtas e lentas. Na mão, um caderninho Bandeirantes, a Carta do ABC ou a Cartilha do Povo, uma tabuada e um lápis, em cuja ponta escanchava-se uma borracha à moda capacete. Encartada na tabuada, a indefectível banda de gilete para apontar o lápis.

            Caminhava sem pressa. Ainda tinha tempo para rememorar o dever de casa. Dobrou a esquina de onde se avistava a casa de Dona Ângela, uma senhora simpática, mas muito severa com os alunos. Virtudes pedagógicas de então. Quanto mais exigente fosse a mestra, mais era de agrado dos pais. A boa senhora, apesar da austeridade, nunca usava a palmatória, instrumento que aterrorizava alunos relapsos. Era naquela casa simples, sempre cheirando a flor, que funcionava a escolinha.

            Sentou-se. A professora, óculos a cavaleiro na metade do nariz, tricotava na mesa em que repousavam livros e férula. Uma dúzia de meninos procurava se acomodar em seus cantos. As carteiras, de tampos desgastados, exibiam na pátina deixada pelo tempo, arabescos e garatujas sem nexo algum. Os alunos se sentavam dois a dois. Súbito, a exortação a que se mantivessem em pé. Sob a batuta de Dona Ângela, entoavam o Hino Nacional. Havia datas em que, também cantando, saudavam a Bandeira, lembravam o dia da Independência ou recordavam o descobrimento do Brasil. Depois, vinham os argumentos, argüições e leituras. Vez por outra, cicios de conversas entrecortadas, silenciados pelo olhar admoestador e os “psius”  sibilantes da professora.

            Se a terna bonomia de Dona Ângela impedia a velha mestra do extremo recurso à palmatória, chamava dois alunos e fazia perguntas a uma deles. Se este errasse e o outro acertasse, a este se abria o ensejo de bater com a palmatória na palma da mão aberta do colega descuidoso com os estudos. Sentimentos de amizade ou rancor vinham à tona. Olhares cúmplices ou promessas de “te pego lá fora” se repetiam de conformidade com a intensidade do “bolo.” Terminadas as tarefas, ditas as lições, saía a meninada rumo à casa. No caminho de volta, encontravam pessoas que iam à igreja, homens conversando na ponta de calçadas, bois que mugiam numa tristeza imensa e o pipilar estridente do passaredo. E a tarde morria lenta e melancólica sobre a cidade.

            Antes do jantar, rezava-se o terço. O menino sabia de antemão que, aberto com o Credo o momento da oração, iniciava-se um desfilar monocórdio de Pais Nossos, entremeados com ave-marias. Era um suplício que só findava quando a voz materna saudava a mãe de Deus com a salve-rainha. Depois das brincadeiras na calçada, era dormir, dormir e sonhar ao embalo de passadas ave-marias, com um mundo cheio de mães amorosas e de Donas Ângelas generosas.

            O menino hoje é homem feito. A mãe e Dona Ângela não morreram. Vivem ainda nos escaninhos esconsos das recordações do menino, que ainda teima em não morrer.