quarta-feira, 29 de junho de 2016

“BIG BROTHER”
                                          Hugo Martins
            A locução “big brother” foi usada literariamente, pela primeira vez, pelo escritor George Orwell no romance 1984, obra escrita em 1948, que denunciava a ingerência do Estado na sua sempiterna tarefa de monitorar a vida do cidadão, sobretudo após o pós-guerra, com o vertiginoso desenvolvimento dos aparatos tecnológicos. Por certo, o romance é marcado por um tom político, denunciando a vigilância sob a qual submerge o homem - quer queira, quer não - nas teias trágicas de manobras, engendradas pelo “grande irmão”.
            Não é à toa que todos, indistintamente, têm seus dados de identificação retidos em arquivos e em outras misteriosas instâncias de que nem o diabo desconfia... E o pior: muitos nem mesmo têm consciência desse drama.  Quando o cidadão esposa uma opinião, assume um gosto, elege comportamento, aplaude atitudes e mitifica pessoas, não desconfia de que foi, silenciosamente, influenciado pelas tramas diabólicas das teias engendradas pelo “big brother.” Até aí nada demais. Alguém diria tratar-se de ciência política adotada pelo Estado em benefício (?) de todos. Por que não aventar a hipótese de que a coisa possa significar lucro para poucos, advindo da indiferença de muitos?
            Hoje, por exemplo, edita-se um novo “Big Brother”. De pouco adiantam protestos, abaixo-assinados e outros protestinhos, pois o programa alcança audiências inimagináveis. Quer dizer: a onda de protesto, entretecida por alguma mente superior, conhecedora da ingenuidade das massas, nada mais é que uma forma de induzir os ingênuos, que, por terem os olhos fechados, não enxergam a trapaça e se colocam, pontualmente, à frente da “máquina de fazer doido” a fim de acompanhar tudo que se passa num ambiente previamente preparado como uma espécie de teatro de tablado.
            Em que consiste a pantomima? Amontoa-se, nesse teatro um grupo de cretinóides, todos exercendo um papel mal interpretado e previamente definido num “script”, acompanhados por um mentor global, que entremeia comportamentos e atitudes a fim de mais e mais espicaçar a curiosidade doentia do “televidiota”. Passadas algumas semanas, sairá um “vencedor”, que abocanha um prêmio retirado dos milhares de telefonemas, que fazem as vezes de zona eleitoral. O maior ganhador, porém, é a emissora televisiva e patrocinadores, bem ciente de que nesta vida tem bobo pra tudo.
            Os episódios ali encenados, de regra, retratam conversas e sussurros, em que se apregoam, subliminarmente, a tramóia, a deslealdade, a falta de decoro e o desrespeito à pessoa humana. Para apimentar as relações entre os “artistas”, põem-se às claras cenas de nudez, sensualismo barato e jogos amorosos em que predomina a mais vã patifaria, concorrente dos episódios de Sodoma e Gomorra e das cenas picantes de filmes pornográficos.
            Não resta dúvida: o programa é pedagógico, informa, forma e serve de lazer a todos que demonstram algum pendor para o desenvolvimento moral, político e intelectual.
            Da minha parte, deixarei ao léu os textos latinos em que venho ultimamente mergulhando. Não me esquecerei, também, de deixar de lado a grande literatura e, até mesmo, o hábito de escrevinhar textos. Para quê? A que leva essa bobagem? Só traz alienação. Ninguém me impedirá da doce apreciação estética que me proporcionará o “big brother”. No dia 20 de janeiro de 2015, estarei a postos...
Você, que finge indiferença ao programa, está convidado a engrossar o cordão daqueles que, com ar de idiota, não desgrudarão o olho da tela... Vale a pena. Afinal, sua alma não é pequena...

               
 ... DO BRASIL SEM EDUCAÇÃO
                                                               Hugo Martins

Causou-me grave estarrecimento o motivo que levou um juiz do estado do Maranhão a ordenar a prisão de funcionários de uma companhia aérea. O magistrado agiu como os ditadores, os insensatos ou adotou o comportamento daqueles que calçam as sandálias e o capacete alados do deus Mercúrio, pois só pisam a terra, que lhes há de tragar, por causa de uma lei contra a qual eles não podem se insurgir: a Lei da Gravidade.
De outra parte, o juiz demonstrou desconhecer o ordenamento jurídico brasileiro em vigor, pois parece não ter olhos para o teor do inciso LXI do art. 5º da Constituição da República Federativa do Brasil. Com efeito, o dispositivo, claro como a luz da Aurora, assim reza, e eu aspeio: “ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente, salvo nos casos de transgressão militar ou crime propriamente militar, definidos em lei.”
Vejamos cada uma das hipóteses a fim de que cheguemos à conclusão de que o juiz é autoritário mesmo (”sabe com quem está falando?”): primeira: os funcionários não são militares, portanto, caso seu comportamento tivesse cunho de infração criminal, pelo óbvio, não poderiam responder pelo disposto no Código Penal Militar; segunda: se os funcionários tivessem praticado algum delito tipificado no Código Penal, a prisão deles só seria justificada caso tivessem sido surpreendidos cometendo a infração; acabando de cometê-la; ou fossem perseguidos pela autoridade, ou por qualquer pessoa em situação que fizesse presumir ser autor da infração. Eis as hipóteses do chamado estado de flagrância, situações que justificam a decretação de prisão. E, por fim, a terceira hipótese: quando o juiz de direito determinar a prisão de alguém, tem ele de fundamentar sua decisão, sob pena de estar ela nula de pleno direito (art. 93, IX da CF/88). Não se encontravam aqueles trabalhadores acobertados por nenhuma das hipóteses apresentadas. Logo, a prisão foi ilegal.
Trocando em miúdos, e deixando todo esse arrazoado de lado, não é difícil chegar às seguintes conclusões; o juiz herdou o complexo coronelístico da cultura patriarcal brasileira; faz de conta que desconhece as leis; ou logrou aprovação em concurso de provas e títulos, cuja aplicação está a carecer de exames, não psicotécnicos, mas de sopesamento do equilíbrio e sanidade mental do candidato...
A Associação de Magistrados do Estado do Maranhão irá, com certeza, apurar responsabilidades que, via de regra, podem acabar em samba ou numa rodada de pizzas de todos os sabores. Há muitos desmandos, muita conversa fiada, muito discurso bonito e... Fica a pergunta: quem pode apresentar casos em que magistrados atrabiliários receberam punição por agirem com desrespeito e desmandos com o cidadão brasileiro, pagador de tributos escorchantes, de onde se retira a remuneração daqueles senhores?
Juiz é servidor público igual a qualquer outro. Necessário retirar dele a carapaça autoritária do “quem manda aqui sou eu.”


DIREITOS HUMANOS
                                       Hugo Martins

            É comum, não só nas redes sociais, falar-se que “os direitos humanos” devem ser banidos de nossa vida jurídico-social. A nosso ver, o equívoco se prende ao fato singular de algumas pessoas sapecarem na locução uma espécie de personificação. E, assim, advogam a tese de que “os direitos humanos” devem ser agentes consoladores de quem sofreu alguma consequência da sociedade violenta de que participam. Parece-nos a nós que os Direitos Humanos constituem uma carapaça jurídica, no corpo das Constituições dos estados democráticos de direito, que rechaça toda e qualquer violência aos direitos de todos. Desse modo, eles se inserem no corpo da Carta Política, quando os povos experimentaram, no devir histórico, a violência, os absurdos e a tirania das ditaduras. Estas, a primeira coisa que fazem, depois de instaladas, é suprimir ou anular os direitos e garantias individuais. Desse modo, suprimem o direito de pensar; amordaçam a arte; espalham o medo; quebram e arrebentam quem ousar ir de encontro à nova ideologia. O exemplo mais recente, no Brasil, foi a “revolução” que aqui se instaurou durante vinte e um anos. Durante esse período negro e de maus ventos, o povo brasileiro sofreu toda espécie de enxovalhos e humilhações, sofrimento que se procurava amenizar com os aparelhos ideológicos do Estado a que se refere pensandor francês Louis Althusser. O “ milagre brasileiro”, ideia propalada, à época, pelos meios de comunicação de massas, a mágica do futebol, o feitiço do carnaval, os filmes mitificadores de figuras históricas, as novelas burrificantes e “os grandes feitos” dos ditadores, tudo isso, em colaboração com a alienação reinante, é prato feito para que o povão sofra os enxovalhos e permaneça narcotizado por essas drogas, ministradas em doses homeopáticas... O ditador detesta os Direitos Humanos... É proibido pensar... Eis a tragédia, eis as opiniões costuradas e ingênuas e, de regra, absorvidas pelo emocionalismo barato e chocante.
            O axioma cartesiano do “Cogito ergo sum” (Penso, logo existo) convida a que as pessoas reflitam sobre o pensar e descubram nas suas entranhas que a primeira coisa que o ditador providencia é castrar aquilo que no homem é essencial: a razão. Aniquilar esta é retirar do homem sua própria razão de ser. Daí, a necessidade de uma boa digestão mental daquilo que absorvemos no que estudamos e no que lemos. Só assim, o pensamento lógico se instaura, e o real se nos revela com mais luz, conforme sugere Platão no conhecido texto sobre a caverna. Aliás, o pensador grego faz a diferença essencial entra dogma e epistéme. O primeiro não passa de mera opinião sem fundamento; a segunda aponta para o pensamento científico. Entre uma e outra, há um abismo monstruoso, que provoca, na primeira margem, mortes na alma ou silêncios inexplicáveis. Os chamados Direitos Humanos não podem se render aos argumentos da violência pela violência. Quem deve promover a segurança do cidadão é a maltratada polícia; quem deve levar consolo aos que sofrem pela perda de um ente querido é a própria família, padres, pastores e carpideiras. Os direitos humanos vão além disso, sua missão tem caráter global, pois devem estar voltados para a humanização, a pacificação, a educação (ou palavrinha tão evocada e tão esquecida).
            Embora seja o Brasil um país leigo, em outras palavras, não adota religião alguma, mas inscreve, na Constituição, a liberdade de culto, as pessoas se mostram muito religiosas e pias. Isso é bonito, isso é louvável. Contraditoriamente, desconhecem a essência cristã dos direitos humanos. As duas Declarações de Direitos mais conhecidas, a surgida após a Revolução Francesa, bem como a de 1948, estão recheadas do pensamento do Cristo. Os setenta e oito incisos e os quatro parágrafos do art. 5º da Constituição de 1988 não fogem à regra, pois estão inspirados nas lições do Nazareno. A supressão dos direitos humanos constituir-se-ia na recrucificação do Homem, daquele sujeito manso, tão propalado, tão invocado nas assembleias cristãs, e tão incompreendido e tão maltratado pela incoerência nossa de cada dia.

            “Il faut que chacun cultive son jardin” (É necessário que cada um cultive seu jardim). Voltaire assim fecha o romance Cândido ou do Otimismo... Quem quiser que interprete a frase. Ou leia o romance...  
DIREITO OU TORTO?
                                                   Hugo Martins

         Às vezes, ouvimos de pessoas insensatas e pacientes de incurável miopia intelectual: não existe direito no Brasil! Existe, sim. Desde a hora em que é concebido, o indivíduo começa a ter seus direitos salvaguardados, pois o Código Civil, no art. 2º, dispõe: A personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro. Daí por diante, o direito se presentifica, a toda momento, na dinâmica da vida em sociedade. Negar tal evidência é, pois, não enxergar a própria ignorância.
         O nascimento deve ser obrigatoriamente registrado tal como se faz em cartório com uma propriedade que se adquire; o casamento, a separação judicial, o divórcio e a união estável são coisas, cuja existência recebe o beneplácito do direito; alugar uma casa, apanhar um ônibus, matricular o filho na escola, participar de concurso público pagar tributos; fruir o direito de ir e vir, abrir conta num banco, votar, ser votado, exprimir livremente o pensamento, exigir do Estado-Juiz  resposta a pleitos judiciais também são situações fáticas acobertadas pelo pálio generoso do direito. Quer dizer: o direito se faz presente na vida do indivíduo do nascimento à morte e, até mesmo após esta, quando uma súcia de herdeiros, à moda abutres implacáveis, engalfinham-se em pendengas judiciais para agadanhar o naco do espólio sobre o qual eles exercem seu direito de, muita vez, ser sórdidos.
         Até matar alguém legalmente é matéria pertinente ao direito. Vejam-se os casos de legítima defesa, em que um bem, penalmente protegido, no caso a vida ou a incolumidade física, abre ensanchas a que se repila uma agressão injusta, desde que se recorrendo aos meios necessários e deles fazendo uso de maneira moderada.
         E quando alguém atassalha a honra objetiva ou subjetiva de outrem? Que fazer?  Recorrer ao exercício das próprias razões, fazendo justiça com as próprias mãos?  Não. O direito veda tal comportamento, pois esse tipo de reação é própria dos tempos de barbáries, quando não havia um Estado, que põe à disposição de qualquer pessoa o exercício da jurisdição. Assim, o ofendido, em tais casos, deve recorrer a um poder, que, diante dos fatos e da dinâmica processual de apreciação de provas, dirá quem deverá cumprir essa ou aquela obrigação, ditada num comando legal chamado sentença, proferida por autoridade competente. Situações há em que o ofensor será obrigado a cumprir uma pena não privativa de liberdade e ainda ressarcir o ofendido por meio de pecúnia. Desse modo, vem á baila duas finalidades da pena: reprimir condutas criminosas ou preveni-las.
         Um dos maiores direitos com que é aquinhoado o homem pela ciência jurídica é o direito de recorrer ao Poder Judiciário para fazer valer um direito que julga ferido ou ameaçado. Corresponde ao que os doutos chamam direito à tutela jurisdicional, que deve ser, além de eficiente, ofertada na maior brevidade possível.
         Ninguém escapa à sombra do direito, pois, em sendo um animal social, o homem exerce o direito e a ele verga o cachaço pelo fato singular de que é animal gregário. Para ele, viver em sociedade é um imperativo de sua própria condição. E a paz social só se efetiva com a coercibilidade e coatividade do direito, disciplinando condutas e repelindo o que é nocivo ao convívio social.
         Recorrendo ao jargão jurídico: pelo exposto, dizer que o direito não existe aqui ou ali, além de revelar estreiteza mental, é negar o óbvio ululante, a que se referia Nélson Rodrigues.  
         Por isso, o Estado do Ceará, há de cumprir seu dever, adimplindo a obrigações que tem em relação ao grupo de professores da UECE, baixar o cachaço e advertir seus procuradores de que o Direito reconhecido numa sentença transitada em julgado há de ser atendido, sem tugir nem mugir... Nenhum favor estará fazendo aos vencedores na lide...

          
DIKÉ ET JUSTITIA
                                         Hugo Martins

            Em meio aos livros, à minha frente, olho-a e perscruto-lhe os semas. É uma estatuazinha de gesso. Sobre os olhos uma venda; na mão direita, uma espada; na esquerda, alçada além dos ombros, no exato nível da cabeça, uma balança, cujas bandejas acham-se em perfeito equilíbrio Coisas do espírito engenhoso dos gregos. É Thêmis, deusa da justiça, que costumava ser invocada pelos magistrados a fim de que a aplicação da lei ao caso concreto atingisse o fim colimado: por óbvio, o dar a cada um o que é seu.
            A venda nos olhos evoca a imparcialidade desejável e ínsita a todo julgador. A balança lembra a equidade com que as partes e suas pretensões devem ser tratadas pelo magistrado. Por fim, a espada aponta para a coercibilidade, possibilidade de recorrência à força a fim de que o recalcitrante tenha seu comportamento ajustado à norma em seu dever-ser. Assim, uma sentença é uma norma, que, transitada em julgado, deve ser cumprida independente da vontade do vencido.
            Ora, há mais de duas décadas, os professores das universidades do Estado do Ceará tiveram ganho de causa na última instância do Poder Judiciário. No outro polo da ação, está o estado do Ceará. Confirmada pelo STF a constitucionalidade da lei, combatida pelo ente público, só cabia a este cumprir os efeitos da sentença. Qual o quê! A coisa vem se arrastando por todo esse lapso temporal não porque o Estado apresente razões para sustar o andamento do feito, mas porque o cumprimento da decisão é tratado com indiferença e imoral improbidade por seus procuradores, bem como pela inércia do temor, não se sabe se reverencial ou fruto de vergonhosa pusilaminidade, coisa que instaura a insegurança jurídica, humilha o jurisdicionado e faz crer não existirem juízes no país...
            Assim, não importa o mergulho exegético para se extrair do que se embuça no signo semiológico aqui apresentado se as fumaças, não só do bom direito, mas da prepotência insultante continuarem a obnubilar as consciências de quem pensa ser senhor absoluto das coisas do Estado, tripudiando sobre direito líquidos, certos e indiscutíveis...
            Como fecho, nesse contexto, que se rasgue a venda da deusa, quebrem-lhe a espada e chute-se-lhe a balança
            Reza a parêmia: Dormientibus non sucurrit ius (O Direito não socorre os que dormem). Não há discordar. Só que nós estamos, de há muito, com os olhos bem abertos, mas temerosos de que as manobras do ente público possam fechar os olhos dos que devem aplicar as leis por alguma espécie de narcotizante subliminar e indescritível. Exemplos já tivemos: a ingerência de “relatores”, que nada têm a ver com a causa. Enquanto ela se arrasta, ficaremos atentos, sobretudo pela pertinência e coragem de um pequeno grupo capitaneado pelo amigo Gilberto Telmo. Não fosse isso, estaríamos a ver navios, ante a indiferença bovina do nosso malfadado sindicato, que nada informa, nada diz, nada acrescenta...
            Por isso, deve-se espraiar toda reverência a esse grupo de abnegados.
            Amicus ex corde. Vale!



            
DICA CULINÁRIA
                                                Hugo Martins
Livros também comemos. Deles há que devoramos. Os ingredientes neles contidos são o ponto de partida para definir o bom ou o mau gosto da obra. Sim, há obras gostosas, que provocam tesão estético, tiram seu sono, viram a noite com você e promovem aquela bacanal estonteante, plena de prazer. Também há a obra insípida, destituída de qualquer atrativo ou visgo para pegar o leitor. Quando você pensa que pode desfrutá-la, arrancar dela um momento de prazer, mesmo com meros arroubos burocráticos, ainda que por breves instantes, ela joga em seus olhos a poeira do sono, obriga você a sair do leito e fechar-se no seu sono de cinderela. O jeito é dormir. Aliás, há leitores que adoram obras artísticas dessa natureza, as que servem de sonífero, tão só.
O primeiro passo são as preliminares. Tomemos para a explicação a obra Memórias Póstumas de Brás Cubas e fiquemos com ela só nas preliminares, nada de penetrações mais profundas. Primeiro passo: exploração física. Virar para um lado e para outro as folhas, tocá-las, repassá-las a ver como se organizam as partes, capítulos, prefácio, explicações necessárias e outros elementos que tais. Segundo passo: saber o nome dela. Um dos momentos mais decisivos para que seu desejo de gozo atinja o clímax está aí. Se pular essa parte, vai perder, de muito, deslumbramentos e êxtases. Assim, a palavra “póstuma”, adjetivando a palavra “memória” é de suma importância para que você mantenha vivas as expectativas insertas na obra. Póstumo é adjetivo de origem latina que diz de tudo que vem depois da morte. Ora, o título da obra assevera que alguém escreveu suas memórias, só que ele não as escreveu e morreu; não, ele morreu e depois as escreveu. Releia o título da obra. Para atestar isso, você já leu, abaixo do título a dedicatória assim vertida em bom português “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como lembrança estas MEMÓRIAS PÓSTUMAS”. Ói, o estigma da morte! Ao iniciar a leitura da obra, que abre com AO LEITOR, que antecede o capítulo primeiro, o autor adverte que seu livro não é pra qualquer leitor e diz ser “obra de finado” e, mais à frente, depois de outras considerações, acrescenta “...evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro lado do mundo.”
Pronto fica entendido que estamos nos limites da verossimilhança própria do fazer artístico e não na seara da verdade que a ciência persegue. Muitas vezes, a beleza da obra de arte está em suas absurdidades, na criação de situações impossíveis para o atingimento máximo do êxtase estético.
Dados os primeiros passos, amigo, vá fundo nas “Memórias” e procure desencavar as significações mais profundas, embuçadas “pela pena galhofeira e a tinta da melancolia”, instrumentos com que Brás Cubas põe às claras toda a grande desilusão, todo o máximo desencanto, todo o ceticismo e niilismo em relação ao homem, este ser que, em essência, atemporal e inespacialmente, nunca muda. É mau, é egoísta, é mentiroso, é dissimulado e desleal. Eis a visão de Machado de Assis nesta e em outras obras de sua fase chamada realista.

Dados os primeiros ingredientes, resta ao leitor ir misturando os demais, sem pressa, sem açodamento e, de vez em quando, dando uma provadela a fim de verificar se a mão pesou no acréscimo de algum dos elementos do bolo literário. Bom proveito...
NÓS E OUTROS NÓS.
                                                                        Hugo Martins
            Eis que numa conversa informal, alguém comenta: político tal fez isto e aquilo. Da afirmação, infere-se que, se alguma coisa foi feita por alguém, cujo mister é construir obras públicas e que tais, daí também se conclui que, se o fez, fê-lo por obrigação de ofício, por ditame de consciência.
            Ora, se quem lida com política dá a entender que fez mais do que devia ou fez melhor, também não deve ser mitificado por isso. Nada demais, apenas cumprimento do dever.
            O raciocínio é simples: um médico não é bom médico porque cumpre a missão de preservar a vida ou afugentar a dor. Também um médico, cuja competência fica comprovada por exercer sua obra com máxima dedicação e desmedido amor, também nada faz demais: cumpre o dever para o qual foi incumbido. Da mesma forma, um professor que vai além das expectativas, ensinando, orientando, exemplificando, indicando bibliografia, tirando dúvidas, espedaçando-se, com entusiasmo, em máximos esforços, pode se diferenciar do mero “dador” de aulas, mas, também, cumpre, simplesmente, seu dever.
            Por isso, não basta ao político profissional embriagar-se de tola vaidade, vomitando promessas e dádivas. É sua obrigação alcançar as metas colimadas. Além disso, está sendo regiamente pago com os tributos que a comunidade, coercitivamente, paga, afora outras “remunerações” que engordam sua bolsa e o fazem mais rico, findo o mandato.
            Não basta construir escolas sem que haja a preocupação de dotar o professor de sólido preparo, alcançado com a justa remuneração que o profissional deve auferir. De nada adianta construir hospitais se os profissionais da saúde não encontram condições mínimas de exercer seu trabalho.
            Ao fim e ao cabo, tudo correria, como se diz por aí, às mil maravilhas, se todos, consciente ou inconscientemente, todos que trabalham em prol de todos, adotassem o imperativo categórico do pensador alemão Immanuel Kant, infratranscrito com um par de aspas: “Aja, em qualquer circunstância, como se de sua atitude fosse ser deduzida uma regra geral para o comportamento de todos os homens.”
            O alcance do imperativo vai depender da sinceridade, da consciência que cada homem deve trazer na alma de que amor não é mera palavra que se joga frivolamente ao vento em extravagâncias afetivas e discursos caramelados. Vai além, tem em vista o outro, a quem devemos dar o melhor de nós mesmos.
            Muitos votos despejados nas urnas derivam de manifestações egoísticas, prenhes de individualismo baboso: promessa de emprego, manutenção de cargos, presentinhos e outras patifarias.  Quando não resultam de sofismas e mentiras bem cosidas, apanhadas, aqui e ali, da fala de um cara-de-pau verboso, destituído de qualquer consciência dos axiomas da ciência política na sua acepção grega: cuidar da pólis.
            Cumpra ou não as promessas; use de malabarismo para embair a boa-fé de tantos, ensaie sorrisos cretinos, cerre os punho, cruze os braços e se diga diferente, continue apoiando-se na autoridade duvidosa de gurus políticos e mistificadores, ao fim, aquele artista mal ensaiado levará ao povo que o elegeu a decepção, o engodo e a frustração.
            Parece coisa de último capítulo de novela global: todos aguardam um epílogo que satisfaça suas expectativas mais recônditas e, baixado o pano, vem o desatino e a sensação do nada, do inexistente, do impalpável... E a vida continua, não importa em que palco.

            Só para lembrar: aquela turma tão desamparada e tão sofrida do Congresso Nacional criou uma norma mais do que justa: uma verbinha pouco mais de uma centena de milhões de reais para custear passagens de aviões para os cônjuges. Engraçadinho, não? Ainda bem que temos os bigue brodes, as norrelas e outras atividades culturais afins. Ufa!
CRIANÇA ESPERANÇA.
                                               Hugo Martins

Em todas as películas fílmicas com que brindou a humanidade, Charles Chaplin sempre esboça um sorriso sensaborido, mais um ricto que um sorriso, como que exprimindo sua decepção e sua rascante ironia com a “bondade” humana. De regra, ao fim do filme, Carlitos, incompreendido feito o Albatroz de Baudelaire, vê-se entregue a uma lancinante solidão e a irremediável abandono.
Os que tentaram imitá-lo não conseguiram repassar ao espectador aquele misto de ironia e velada melancolia que só o criador de Luzes da Cidade e Luzes da Ribalta conseguia imprimir no gesto tímido de levar as mãos à boca, soerguer e retorcer os ombros e rasgar, a medo, os lábios. Numa interpretação, em que se pode ler toda a dor, todo o desencanto, toda a tristeza vã, que só pintores com suas telas, que só poetas e romancistas com sua pena, que só filósofos com suas fundas reflexões ousam exprimir.
Aqui no Brasil, o teleator Renato Aragão faz muito esforço para repetir o que Charles Chaplin fazia. Só que em vão. Quando tenta mexer na sensibilidade do público com aquele risinho mentiroso, sempre abre espaço a um ranço interpretativo em que se desencava falsidade e reles sinceridade no que tenta repassar. Nada de persuasivo chega ao telespectador quando ele abre a bocarra, com o risinho pseudochapliniano, tentando convencer o populacho a aderir ao tal “criança esperança”, forma cretina de embair os tolos.
 Dizem que os grandes atores, quando dão luz a seus personagens, estes só convencerão os apreciadores de cinema se estiverem imbuídos de aura interpretativa de que sobressai a convicção de que estão encarnados vivamente neste ou naquele personagem. Ora, Renato Aragão não se inscreve no rol dos grandes intérpretes, seja no cinema, seja na televisão. Está mais próximo do palhaço de circo que do grande ator (com todo o respeito aos palhaços de circo). Os tropeções, esgares e indumentária destes sempre foram motivo do riso das crianças e nunca serviram a manobras malandras para ir ao bolso da população com propostas pilantroides.
Por trás do riso desengraçado de Renato Aragão, esconde-se um sofisma, um raciocínio enganoso global: o de que somos otários desinformados. A esperança a que ele se refere não alcança grande parte de nossas crianças, jogadas ao deus-dará, abandonadas à própria sorte, vítimas do egoísmo reinante de uma sociedade doente, perversa e mal-educada.
A esperança em foco, em outras palavras, o direito a ser gente, o direito a ter direitos encontra-se nos cofres públicos, onde dormitam os tributos que todos pagamos e são desviados por invisíveis mãos despudoradas. Nada mais evidente.
Por trás dessa história de que devemos retirar um naco cristão de nossa bolsa para alimentar programas cretinos e melosos, encondem-se intenções malignas e mentirosas. Nossa sensibilidade não pode ser enganada pelo espetáculo engalanado de uma tropa televisiva bem domesticada sob a batuta de um trágicômico maestro de ópera-bufa.
Se, no riso melancólico de Chaplin, há forte esperança de um mundo em que a sinceridade deva ser o grande sinete; no de Renato Aragão sobressaem a desfaçatez, a ignomínia e a insinceridade das sociedades em que a preocupação com o outro não passa de um grande teatro.

Não, pois, ao criança esperança global. Não sejamos mais um fantoche teleguiado pelo cordel perverso de grandes vivaldinos.
COMENTÁRIO
Hugo Martins
Somos abordado por uma jovem que, munida de uma espécie de questionário, pede-nos listar títulos de livros e respectivos autores. Fulcro da pequena pesquisa: indagar de professores do Curso de Letras da Uece que livros, entre tantos, são os mais importantes para a formação do estudante de Letras em nível de graduação. Deixa, ainda, ao professor a faculdade de indicar mais cinco... Pois bem.
Indicamos dez títulos. Lista eclética, pois, a nosso ver, a formação de qualquer profissional há de ser multifária. Somos contrário ao engessamento das especializações nisso ou naquilo. Havemos de pensar como filósofos... Devemos ver o todo e nos convencer de que a atomização de disciplinas e conteúdos não passa de mera forma de pensar o mesmo fenômeno. Ater-se tão só a este ou àquele aspecto do idioma é pensar torto. Vivas, pois, ao ecletismo.
A indicação de apenas dez títulos atende aos objetivos do trabalho da jovem aluna. Fôssemos indicar o absolutamente suficiente para a formação científico-intelectual do estudante, diríamos que o estudante deve ser apenas um apaixonado por livros. Livros de toda ordem: das historietas de Maurício de Sousa a Machado de Assis e Guimarães Rosa; dos tratados de Lingüística à gramatiquice dessaborida; da poesia de Otacílio Batista à poesia épica de Luiz Vaz de Camões; da filosofice barata dos famigerados livros de auto-ajuda à Ética a Nícômano; das variegadas narrativas bíblicas aos alentados tratados de Filosofia da Religião... Enfim, a formação do estudante de letras não deve reduzir-se ao carreirismo apressado de mestrados e doutorados alinhavados de afogadilho, divorciado do amor pelo estudo e pelo autodidatismo gratuito. É dizer com Castro Alves, no poema O Livro e a América: “livros à mão cheia e manda o povo pensar”.
Toda vez que alguém nos indaga de um dado aspecto da língua portuguesa, esperando uma resposta mágica e gramaticoide para a questão, sempre respondemos: A LEITURA. Leitura de tudo que lhe caia às mãos; leitura de livros, de tubos de pasta dental, de rótulo de papel higiênico e, por via de conseqüência, leitura de mundo. Linguagem e mundo se supõem. Diz o filósofo: “a linguagem é a morada do Ser.”
A formação de qualquer profissional desemboca numa questão singular e muito próxima a nós: o amor pelos livros... Amor adúltero, vário, paradoxalmente infiel e constante...
A MATÉRIA TEMPO
Hugo Martins
Sempre fui apaixonado por futebol. Não o jogado nos tempos de hoje, mas o praticado em outros tempos. Não se trata de nostalgia barata, mas de constatação irrefutável que a história, o devir, o transcorrer do tempo nos impõe. O melhor presente que alguém poderia me dar era uma bola de futebol, mesmo que uma pelota ordinária, daquelas feitas de borracha. Isso porque só tinha eu acesso, na condição de proprietário, quando eu mesmo confeccionava bolas-de-meia para aprender a fazer embaixadas, brincar de gol-a-gol ou treinar chutar com a perna esquerda e a perna direita com a mesma eficiência. Domingos havia que saíamos sobraçando uma chuteira velha, apanhávamos um ônibus e íamos aos subúrbios jogar nosso futebol. Assim aprendíamos, despertando o talento com gratuidade, jogando por jogar sem nenhum desejo de profissionalização ou de alcance de fama. À época, jogador de futebol era jogador de futebol, não mito, não deus, não celebridade. Se se tornavam famosos era pelo mero desempenho, não havia esse negócio de corrupção. Canhoteiro recusou ir à Copa do Mundo de 1958 na Suécia. Mané Garrincha jogava como Manuel Bandeira fazia versos. Se este os fazia “como quem chora de desalento, de desencanto”; aquele fazia sua diabruras como algo que lhe fluía naturalmente da alma pura e das pernas tortas. Assistir a uma partida no Maracanã entre Santos e Botafogo era uma festa para alma. Afinal as duas equipes formavam praticamente a seleção brasileira de futebol. Não tinha esse negócio de estrangeiro e outras babaquices afins. De um lado, Gilmar, Mauro, Zito e Pelé, do Santos; de outro, Nilton Santos, Garrincha, Didi, Amarildo e Zagalo, do Botafogo. Era um jogo cênico, era um espetáculo, era uma alegria. Era futebol de verdade, sem firulas, quedinhas e charminhos... Todos eram titulares da Seleção...
Minha primeira paixão foi o Flamengo. Nasceu ela da leitura da revista Manchete Esportiva. Abri-a, compulsei suas páginas e nela vi as várias equipes do futebol carioca. Simpatizei com o Mengão e sua equipe infernal, que passei, desde então, a acompanhar pelas transmissões radiofônicas. Ainda hoje lembro a equipe básica, com uma ou outra troca episódica: Garcia, Tomires e Pavão; Jadir, Dequinha e Jordan; Joel, Rubens Evaristo, Dida e Esquerdinha. Com o tempo iam entrando novos valores. Sempre fui fã do meia-esquerda Dida, na minha opinião, maior que Zico. Nas primeira partidas da Seleção no ano de 1958, Pelé ( então com dezessete anos) era reserva do meia Dida. Aqui no estado do Ceará, escolhi o Ferrim. Talvez por sua linha, cuja formação ainda está na minha cabeça: Kit, Pacoti, Zé de Melo, Aldo e Fernando.
Era eu um apaixonado por futebol. Passado o tempo, e vendo a realidade que hoje permeia esse esporte, com estrelas demais para firmamento tão exíguo, com cartolas, manipulando resultados, com árbitros venais e treinadores falastrões, restou-me uma frustração de amante enganado, de consumidor embaído, de sonhador que só vivencia pesadelos. Hoje, nem mesmo os jogos do selecionado brasileiro de futebol despertam em minha alma desiludida nenhum encanto. Se, quando menino, recorria a todo expediente para assistir a um jogo, tentando pular o muro do PV (tempo romântico), ou me arriscando no aperto de tanta gente na “hora do pobre” para ver o finalzinho do jogo, ou mesmo, colocando-me franciscanamente aos pés de um rádio, acompanhando uma partida de futebol em outro Estado e me angustiando com o chiar do aparelho a esconder e apagar lances, hoje, adulto, sensato e com a pulga atrás da orelha, desprezo o futebol, dele fujo por não mais ver nele o feérico, o encantador, o maravilhoso dos tempos de antanho... É isso...
REFLEXÃO CRETINOIDE
Hugo Martins
Causa mossa o sujeito fazer um curso de redação para ingressar em cargos públicos ou nos vários cursos universitários oferecidos pelas nossas universidades. Desnecessário. O hábito de ler e escrever, desde a mais tenra idade, já é suficiente para se alcançar exercer um certo domínio na arte de escrever. Ali, o sujeito é amestrado a organizar o pensamento em fórmulas estereotipadas, mas eficazes. Nem sempre alguém que obtém conceito satisfatório nas provas redacionais é bom redator. Apenas observa as formulazinhas e alcança seu desiderato. Sentado nos bancos universitários, convidado a pensar e registrar suas ideias na folha de papel, de regra, vem a tragédia: frases entrecortadas, frases centopeicas, incompreensíveis, sem coesão e incoerentes. Enfim, não apoiado nas famigeradas formulazinhas, o pobre redator enxerga que foi ludibriado e, por isso, deverá gastar algum tempo para recuperar o tempo perdido. Quando o pobre candidato intenta alçar voos mais honestos, soltar sua imaginação e pôr às claras seu modo de pensar o mundo pelas possibilidades que o idioma lhe abre, vem a figura do avaliador, amarrado a critérios cretinoides, e corta as asas do pobre ícaro.
Quando me pedem orientações para o exercício da redação, não apresento mágicas e enumero o necessário para a feitura de bons textos: honestidade intelectual e não submissão a este ou aquele orientador e criador de fórmulas; doses diárias e viciantes de leitura; simultaneidade da atividade do ler e do escrever; escravidão aos dicionários e, por fim, pé na tábua.... Não há mágicas, mas amor aos livros, à leitura e à escritura.... Desse amor, dessa paixão, dessa entrega vem tudo de bom, sobretudo alegria intelectual, coisa, por si mesma indescritível.

terça-feira, 28 de junho de 2016

PRINCÍPIOS
Hugo Martins
Em que estou pensando? No chamado princípio da presunção da inocência, inscrito no inciso LVII, do art. 5º, da Constituição da República Federativa do Brasil. Reza ele que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Em outras palavras: alguém comete um delito qualquer e vai a julgamento. Enquanto as leis do País a ele permitir lançar mão dos recursos existentes, aquele alguém não pode receber a tarja de criminoso enquanto o ordenamento jurídico não declarar, em sentença penal transitada em julgado, ser ele culpado. Sentença transitada em julgado é o documento da lavra do julgador, que não mais permite ao condenado recorrer a outro tribunal. Todas as oportunidades a ele abertas, enquanto porfiava por sua inocência, esgotaram-se. Não há mais saída senão cumprir a pena determinada pela norma.
Estive pensando hoje naquele princípio tão científico, tão belo, tão humano, porque vislumbrei nele a mão do Cristo... Com efeito, a passagem do Evangelho que adverte o homem, o que tem uma trave no olho, de que não deve ensaiar retirar o argueiro do olho de seu semelhante, traduz o mesmo espírito daquele princípio constitucional. Da mesma maneira, quando as Declarações Universais de Direitos, bem como os tratados universais que se ocupam dos direitos humanos insistem na universalidade daquele princípio humanista, na verdade conclamam ao homem, ao jurista, ao pensador, ao estudioso e aos homens em geral prender-se ao preceito cristão tão comentado em missas e cultos e profusamente proferidos em babosas orações, mas tão esquecido na realidade crua da existência.
Não se trata de perdoar a criminosos, tampouco fazer a apologia da impunidade. Não. É, antes de tudo, ter o cuidado de proceder a julgamentos em que inocentes possam ser molestados. A propósito, traz-se à baila uma frase atribuída ao jurista Roberto Lira, um dos redatores do Código Penal Brasileiro: “é preferível absolverem-se mil culpados a condenar um inocente”. Mais uma vez, a propósito, lembra-se o caso dos irmãos Naves, que assombrou e envergonhou a nação brasileira, pois todo o Brasil, inclusive aquele jurista, se irmanou para condenar pessoas inocentes, que só encontraram amparo no advogado João Alamy Filho, que, relatando o caso rumoroso, lembra uma frase de Roberto Lira, indignado com a aplicação do direito numa época de negra e reles ditadura, bem como indignado consigo mesmo, proferiu esta frase lapidar; “o que mais me dói é ver a inocência ultrajada.” 
Aliás, quem tiver a pachorra de percorrer o art. 5º da Constituição e seus setenta e oito incisos e quatro parágrafos não encontrará dificuldade em pescar na maioria deles a força cristã, que revitaliza e humaniza as relações humanas. O jovem Galileu, que, em suas andanças, apregoava, por vales, rios, montanhas e mares, a linguagem do amor e do respeito ao próximo, logo conheceu do amor que habita no coração do homem, pois logo, logo, também, foi julgado, apenado, sem nenhum direito de defesa, embora sua inocência não fosse presumida, mas clara, certa, indiscutível, incontestável... 
Quem discorda do princípio da presunção da inocência está a discordar do próprio Deus dos cristãos, pois, mesmo sabedor de que Caim matara o irmão, aquele Deus, onipotente e onisciente, perguntou ao fratricida: “Caim, que fizeste a teu irmão?” Ora, esse episódio bíblico põe às claras não só o direito de todos à defesa, enquanto a luta por esta for possível, como também a ser considerado inocente enquanto não lhe for patenteada a culpa, decorrente de condenação irrecorrível.
Por isso, diz baboseiras e mergulha em contradição quem se coloca contra existência da filosofia dos direitos humanos, tratando estes como se fossem a personificação de um ente que aplaude todas as iniquidades cometidas contra os seres humanos. Ainda bem que existe o argumento de que a ignorância deve ser perdoada...
Ai daquele que pugna pelas ditaduras, as quais arrostam e arrasam os direitos humanos, prendem, arrebentam e esgorjam todo aquele que imaginar imprimir nas relações humanas o mínimo de respeito ao próximo. 
Era nisso em que estava pensando quando, no fim de semana, trouxe à lembrança as figuras de Millôr Fernandes, Henfil, Paulo Francis, Ziraldo, Jaguar, Ivan Lessa, intelectuais de escol e redatores do jornal O Pasquim, que fizeram frente, com a arma das ideias e do pensamento, à prepotência de fuzis, cassetetes e borzeguins... Estes últimos passaram na voragem do tempo e da História; os primeiros se eternizaram não só pela coragem e destemor, mas, antes de tudo, por insuflarem nas almas a semente imorredoura do idealismo e do culto à liberdade...
À guisa de fecho, eles também, responderam a processos judiciais sem fundamento, senão a do autoritarismo grosseiro, e amargaram o antidireito: eram sumariamente julgados ou, ver caso Vladimir Herzog, covardemente assassinados...
Aos donos do poder, o princípio da presunção da inocência não era coisa que devesse ser levada a sério. Era coisa de quem não tinha o que fazer e vivia a ler filósofos e pensadores, raça de gente inútil...
A juventude de hoje, na sua reconhecida riqueza vocabular, diria; kikikikikikikikikikiki!
                                   CONVERSA DE MESA DE BAR
                                                                                                                              Hugo Martins                                   
Tarde amarela de um domingo nem alegre nem melancólico. Sol pródigo, muito calor, e todos doidos para tomar uma bem geladinha. Éramos quatro em volta da mesa. Todos abertos a prestar homenagem a Dionísio, mas sem séquito de bacantes. O garçom, ao avistar o grupelho, foi logo trazendo uma garrafa de cerveja gelada, que ia derramando, fagueiro, no copo de cada um. O líquido descia pelas goelas ávidas como o néctar servido aos deuses do Olimpo. A ambrosia resumia-se a um pratarraz de arrumadinho, enfeitado por uma porção de tripa de porco torrada. Gostoso além da conta. Nada de coisa sofisticada. Isso fica para os espíritos mais exigentes, educados no refinamento das etiquetas... A indumentária também era própria para aquele ágape dominical, promovido sem nenhum motivo, a não ser para a celebração gratuita do existir. Estávamos todos à vontade: roupas não domingueiras, chinelas de arrasto e camisas de malha. A sofisticação dos bem nascidos ali não tinha entrada...
Súbito, acordes melancólicos saíam do violão seresteiro, e as canções, sobretudo as líricas e as bem vazadas em português castiço, espalhavam-se no ar da cidade, que começava a receber a mortalha negra da noite, que encobria todos os mortais. Algumas músicas famosas e imortais vieram à baila: A DEUSA DA MINHA RUA, CHÃO DE ESTRELAS, ONTEM AO LUAR, SERTANEJA... O que daqui destoasse ia para a lata do lixo... Não é questão de preconceito, mas, antes de tudo, respeito à língua portuguesa e ao ouvido dos outros, cujos tímpanos não devem ser desvirginados impunemente... O fato é que as canções se iam sucedendo e não se percebia que a noite avançava em seus passos imperceptíveis... Como em toda mesa de bar, em que se joga, prodigamente, conversa fora, partiu um questionamento. Nada sobre a economia do país ou o descaramento dos banqueiros; tampouco se discutia se Messi era melhor que Pelé... Não, meus amigos, a questão era Deus. Logo, logo, assumi posição silenciosa por achar tal assunto muito perigoso, pois até guerras provocou, sem contar os rios de sangue que já encharcaram tantos campos de guerra em face das divergências humanas sobre aquela divindade.
Tentei tirar o corpo de banda e não emitir qualquer juízo de valor. O interlocutor, porém, não arredava o pé e queria porque queria que este pobre ignorante se manifestasse sobre o assunto. Em primeiro lugar, quis eu saber por que era tão importante se debater sobre o assunto e por que não deixar Deus em paz. Na realidade acreditar ou não acreditar em Deus parece mais importante que sua própria imanência. Ora, a Igreja Católica teve papel fundamental em pintar um Deus castigador e vingativo, que pune todo aquele que não pautar seu comportamento por Sua Palavra. Quem ouviu isso de quem? Platão? Aristóteles? Santo Agostinho? Santo Tomás de Aquino? Na realidade, nenhum desses pensadores ouviu aquilo, mas certamente pensaram sobre a importância do transcendental na vida do homem... Não vamos trazer nada disso à baila, é desnecessário. O que há mesmo é medo, é a incerteza dos nossos destinos, é o fator tradição cultural, impingindo em cada um de nós a necessidade de eleger um sustentáculo em face dos nossos anseios, incertezas e covardia.
Se Deus é, como diz o jargão teológico, Suma Bondade, Onipotência, Onisciência, cairia Ele em contradição, caso se travestisse de juiz parcial, pois daquelas virtudes só pode imanar uma coisa: o perdão... Aí entra a história do conceito de pecado, oriunda do pensamento judaico-cristão. Quem peca mais? O sujeito que surrupia uma lata de leite para alimentar a prole faminta, ou o político pilantra que se banqueteia com as verbas públicas, retiradas da merenda escolar para construir palacetes e empreender viagens de recreio com toda a família? Quem peca mais? O pequeno delinquente, vítima de uma sociedade perversa e egoísta, ou o comerciante inescrupuloso, que não se envergonha de, por exemplo, vender mercadoria falseada no peso ou de negacear o troco ao cliente por julgar que dois centavos que em sua caixa ficam são coisa sem valor? Fica difícil compreender a ideia de pecado, pois os mesmos que a conceituam são, de regra, os mais legítimos pecadores. É só olhar para os modernos vendilhões do templo, dos que mercadejam a Palavra, os que, aproveitando datas e eventos, envidam todo esforço para praticar a simonia.
A questão se foi estendendo. Já se haviam consumido vinte e duas garrafas de cerveja. Assunto de tal importância não ficava apropriado como tema para discussões inúteis. Deixemos a coisa para filósofos e teólogos. Aliás, discutir e pensar o fenômeno religioso sem um mínimo conhecimento da Filosofia é jogar ao vento conceitos tomados de empréstimo a padres, pastores, rabinos e vendedores de ilusões pela" máquina de fazer doido", que não regateiam discursos gritados para persuadir os incautos de que, dependendo da maior ou menor abertura da bolsa, mais próximo chegarão aos céus...
Meninos, eram vinte e duas horas quando deixamos a mesa. Sóbrios, "mas puxando fogo", deixamos a questão de lado. Já existe uma gama muito grande de igrejinhas e grupelhos a vomitar toda espécie de verdades sobre o assunto Deus. Deixemos a eles a tarefa. Cada conceito, cada verdade, porém, custará uma parcela de sua fortuna, de regra, conquistada com esforço, perseverança, aplicação e trabalho. Pode ser que você encontre ali a salvação que está dentro de você mesmo.
Salvação de quê e de quem, mesmo?


CONSULTE ADVOGADO
                                                                    Hugo Martins
Sobre ser vernaculista de nomeada, orador de largos predicados e político atilado, o baiano Ruy Barbosa também se destacou na arte de advogar. Criticou duramente a redação do Código Civil de 1916, do que resultou uma polêmica com o filólogo e gramático baiano Ernesto Carneiro Ribeiro, de cujos embates surgiram miríades de páginas, de um lado e de outro, redigidas de mais fino lavor linguístico e literário. Orador exuberante, além de exímio redator de cartas, discursos e conferências, ficou conhecido no Brasil pela famosa Oração aos Moços, de que encontramos, vez por outra, trechos transcritos em redes sociais e em salas de escritórios. Candidatou-se duas vezes à presidência da República e participou ativamente das contendas diplomáticas do Brasil com outros países, questões em que se discutiam problemas atinentes ao nosso território. Aqui, colocou ele seus conhecimentos de direito internacional público a serviço dos brasileiros, auxiliando, nos trabalhos, o Barão do Rio Branco.
Ruy Barbosa mantinha seu escritório advocatício em sua própria casa. Conta-se, a título de ilustração, para fazer ver a habilidade do baiano com a coisa jurídica, que, certa feita, um vizinho entrou-lhe no escritório, a fim de fazer-lhe uma consulta. Formou o tal vizinho uma arapuca. Disse ao causídico o vizinho que um determinado cachorro entrara em sua casa e, alçando-se na mesa onde se encontravam cinco quilos de carne, babujou esta, comeu-lhe uma parte, acabando por inutilizá-la inteiramente. Depois da narração, o bom vizinho perguntou a Ruy se ele, vizinho, fazia jus a uma indenização a ser paga pelo dono do cão. Houve um dano, logo deve ser ressarcido pelo dono do animal, disse-lhe o paciente advogado. O vizinho aproveitou a deixa e disse: “Dr. Ruy, o cão pertence ao senhor. Desse modo o senhor me deve (trazendo o valor monetário para os dias de hoje)  quarenta reais”. Ruy aquiesceu, abriu a gaveta e de lá retirou duas notas de vinte reais. O vizinho recebeu a quantia, agradeceu, saiu e, da porta, disse: muito obrigado, doutor. Quando ia saindo, Ruy Barbosa o chamou e disse que a consulta prestada iria custar ao bom vizinho apenas trezentos reais...
Lembrei-me do “obrigado” da formiguinha da anedota, bem como da parêmia popular que diz: “fulano” foi buscar lã e saiu tosquiado.

“Honorário não é gorjeta”. Já li isso no vidro de carros, certamente de advogados...
COMO DEFINIR O QUE SÓ SEI SENTIR?
                                                                Hugo Martins
Como fazer, como colocar no papel? Lembrei-me de Catulo da Paixão Cearense e da indagação supra na canção Ontem ao Luar. É isso: como definir saudade se só é possível senti-la, cada um a seu modo?
Quando estou caminhando, não importa onde, nem por onde, nem pra onde, as idéias me assediam e obrigam-me a que eu as registre quando chegado a casa. Estacar em público e anotá-las é temerário, você pode ser considerado um alienado ou ser, de súbito, assaltado por algum sujeito desprovido de espírito natalino. Onde já se viu? O sujeito empunhando uma caneta na era dos celulares, iPads e Ifodas... Bom, continuo ainda muito preso às saudades do lápis, da caneta e do convívio com os livros. Estes ainda vão provocar muitas saudades, pois estão caindo no esquecimento e no desuso, dando lugar á recepção das notícias do mundo pelos meios audiovisuais. Ai de nós! Como definir o que vemos? E o que só sei sentir? Pois bem. Hoje passei pela experiência de, enquanto caminhava, ver imagens presas a um tempo que me fez sentir saudades.
Lá estou eu no murinho de nossa casa, à hora do ocaso. Orquestra de cigarras. Morcegos ziguezagueando. Aboio dolente. Bimbalhar de chocalhos. Mugidos pungentes. Minha solidão e minha curtição, que só eu sabia sentir. Muita saudade...
Pracinha. Pipoqueiro. Vendedor de algodão-doce. Roda viva de meninos. Farfalhar da copa das mangueiras. Folhas secas espalhadas no chão. Lá vinha ela. As perninhas a pedalar com força. Riso estampado nos lábios finos. A cabeleira loura não esvoaçava, estava presa na longa trança em cuja ponta atava-se gracioso lacinho. A mãe a vigiar a filha. Mal desconfiava de que um pertinaz sonhador espreitava aquela doçura de menina. Não virou musa, vestiu-se de sonhos. Em mim, muita saudade.
Lá estou eu no murinho de minha casa, na cidade grande, mas ainda com ar de província. Era fim de tarde. Em frente à casa um gramado, onde a meninada batia “racha”. Ali estou, menino recém-chegado do interior, com ares de matuto, a ouvir o arrastar de automóveis que deslizam numa larga avenida ali perto. Pouco me importa. Interessa-me por olhar a menina de pernas finas, a pular cordas com as amiguinhas. Só tenho olhos para ela, e ela não me olha, não me vê, não me enxerga. Terminado o folguedo, ela entra. Mergulho em silêncio na minha solidão de menino de coração mole. Muita saudade...
Mesa posta. Pedaços de pão num pequeno receptáculo. Cheiro de café. Fim de tarde. Assovio. Aviso do começo do “racha”. Apreensão. Olhar admoestador da mãe. Liberdade condicional. Par ou ímpar. O dono da bola não podia “sobrar”. De regra, não jogava nada, mas tinha a “autoridade de “dono da bola”. Se não fosse escalado, não tinha “pelada”. Noite chegando. Suor. Botas de poeira. Banho. Jantar. Brincadeira de pega-pega. Sete pecados. Quarteirão. Briga de rua. Braço estirado. “quem cuspir aqui é mais macho”. “Tá qui tua mãe, tá qui a tua”. “Quem pisar é mais macho”. E tome porrada e inimizade. Depois de alguns dias, a paz. Não havia tiros. Não havia canivetadas. Só o gosto de ser menino, de ser taxado de “moleque de rua” pelas madamas, que não souberam criar os filhos e os tornaram infelizes. Sentidas saudades daqueles tempos. Muitas...



CHICO CEGO.

                                                                                               Hugo Martins  
        
            Sob a ampla copa verde do juazeiro, três entes entregues à modorra da hora morta do meio-dia. Sol a pino. Palmas e folhas paradas. Estrada de piçarra batida. Vez em quando, rolos de poeira passam na esteira de caminhão gemedor e cansado. Silêncio prolongado, quebrado apenas pelo zumbido ziguezagueante de besouros cavalo-do-cão. Aqui e ali um bem-te-vi corta o ar, arabescando o espaço azul, limpo de nuvens. Ouvem-se chocalhos, politonam as rolinhas fogo-apagou... Os minutos passam indiferentes àquela mesmice... Só Chico Cego está atento às horas e aos apelos do estômago...

            Era uma espécie de lida diária... Após a sesta dos moradores do lugarejo ali na beira da estrada, Chico erguia-se, batia o barro grudado nas calças, instigava Mael e chamava Glutão, atritando o polegar ao indicador.

            Mael era um carneiro de lã encardida, portando sobre o dorso uma espécie de pequena cangalha de onde pendia, de cada lado, uma espécie de caçuá onde o cego depunha o produto das esmolas, auferidas em sua caminhada diária, de casa em casa, pelo povoado. Animal de boa índole nem balia nem bulia... Sereno, acompanhava o cego aonde este fosse.

            Magro e guenzo, sempre balançando a cauda fina, nunca botava o rabo entre as pernas; com o focinho entreaberto, a língua de fora, num vaivém acelerado, Glutão olhava com doçura para o dono como se lhe oferecesse vassalagem incontida. Nada demais que pudesse ferir os brios caninos. Apenas fidelidade incondicional, resultado de um amor fruto de solidões cotizadas.

            O cego, vestido numa calça cáqui e camisa de riscado, trazia, cruzada ao tronco como talabarte, uma sacola de brim azul, esmaecido pelo tempo. Sobre a cabeça, chapéu de couro à moda vaqueiro, cuja aba era dobrada, chegava às grossas sobrancelhas. Um par de óculos escuros escondia-lhe os olhos emurchecidos e ausentes do mundo.

            Lá iam os três... Atravessavam a estrada e saíam, de casa em casa... O cego gritava: Vicente Crisóstomo! Glutão corria à porta da pessoa referida e recebia o óbolo, sempre concedido de bom grado. A cada casa a que chegavam, era o mesmo ritual. Proferido o nome do dono da casa, Glutão não se fazia de rogado: achegava-se à porta e recebia a esmola e o agrado, que eram depositados no caçuá de Mael. Dito o “Deus lhe pague”, feita a féria do dia, aquelas figuras se iam... Formavam uma espécie de elemento pinturesco e necessário à paisagem local. O dia em que se não via o trio era motivo para comentários...

            Um dia (que dia!), a paisagem soluçou.  Era fim de tarde. Os raios do sol começavam a perder o brilho. Por trás do pequeno cerro, o poente avermelhava-se. Havia mau presságio no ar. Morcegos cortavam o ar. Súbito, uma pancada, um latido e um balado. Sobre a piçarra, uma poça de sangue... Ao lado, o corpo de Chico Cego jazia inerte. Não mais se lhe viam os olhos sem vida. A cabeça esfacelada...  Mael silenciou, e Glutão grunhia sua dor num ir e vir incessante do corpo de Chico Cego à casa que lhes servia de abrigo. Depois, a  noite, como um manto fúnebre, caiu indiferente à dor de homens e bichos.
              


BOA ESTICADA
                                                     Hugo Martins

Cheguei lá. Compulsei mil e seiscentas páginas. Quanto mais lia, mais descansado me sentia. Para mim, os bons textos são como os bons vinhos, não me tiram o sono...  Ambos me são capitosos. Pela etimologia desta última palavra, significa dizer que me chegam à cabeça, entontecem-me. Pois bem, hoje pela manhã, entornei a última dose de um livro saboroso, virei-lhe a última página. Nessas horas, o espírito parece adejar, ergo-me da cadeira e fico zanzando pra lá e pra cá, regurgitando uma alegria interior indescritível como se  “lombrado” pelos efeitos da “viagem”.
O assunto interessa a todos que desejam interpretar o Brasil pela História do Brasil, principalmente a daquela fase que se convencionou chamar de República Nova (não confundir com a Nova República da tragicômica era iniciada por Sarney). A forma de “contar”, de amarrar os acontecimentos, em sua cronologia, em sua análise desapaixonada, são ingredientes que prendem a atenção dos leitores, do mais atento ao mais preguiçoso...
Com efeito, a obra do jornalista cearense Lira Neto sobre a figura controversa de Getúlio Vargas percorre a vida desse brasileiro de São Borja, focando-lhe a imagem risonha e o espírito atento à rede de intrigas em torno do fazer política nesse país de tantos lobos e poucos cordeiros. Getúlio Dorneles Vargas alçou-se ao poder por um golpe, promulgou uma constituição, outorgou outra e acabou por rasgar as duas. Permaneceu no poder durante quinze anos quando foi, por fim, apeado, também por um golpe. Ainda assim, elegeu-se senador da República, mas, mediante sucessivas licenças, deixou-se ficar num exílio involuntário em sua terra natal. Aqui, em sua conhecida fleuma, tecia planos de como voltar, pois efetivamente voltou. Agora pela força do voto. Nessa terceira vez, viu-se enrolado em palpos de aranha, que tomaram grande vulto, levando o ex-ditador ao ato extremo: suicidar-se em 25 de agosto de 1954.
É mitificado por uns e aguilhoado por outros. Aqueles pela industrialização do país, bem como pelo avanço das leis trabalhistas e a preocupação com a melhoria das condições do trabalhador; estes, porque viam em Getúlio um manipulador, com cujo discurso narcotizou a consciência do brasileiro, além de a este impor, no primeiro momento, rígida e imoral ditadura e, no segundo momento, entregar o país ao caos político-econômico e se deixar enredar numa rede de corrupção que não permitia o caminho de volta.
A obra de Lira Neto não toma partido e não alimenta proselitismo. Parece propor a reflexão sobre aquelas duas visões.
O autor, em seus agradecimentos, lista as pessoas que a ele levaram toda espécie de subsídio para tornar a obra cada vez mais fiel aos meandros do fato histórico, bem como assume toda responsabilidade por eventuais distorções que possam exsurgir de sua excelente narrativa.
 Li do jornalista cearense esta obra aqui em foco, a biografia de Maysa e uma espécie de ensaio de cunho sociológico sobre a figura do Padre Cícero Romão Batista. De minha parte, não titubeio em indicar cada uma. Todas constituem leitura agradável, informativa e edificante. Conhecer a História do país é uma “nice”. São muitos os fatos e incontáveis os personagens... Cada qual mais intrigante e excitante...

























BIG BROTHER

                                                                             Hugo Martins


Em 1949, o romancista George Orwell, publicou o livro 1984. No conteúdo irônico da obra, Orwell veicula uma espécie de teoria do Estado, não centrada na forma como esse ente político se organiza com o fim de promover o bem comum, mas voltada, sobretudo, para denunciar a vigilância que o Leviatã impõe ao homem. Essa tarefa de monitorar os passos dos habitantes da polis é comandada pela figura do Big Brother, cuja vontade é imposta pela filosofia do dois mais dois são cinco. Quem contra isso se insurgisse fatalmente teria suas convicções esfaceladas pelos métodos persuasivos da tortura, apanágio dos Estados totalitários, acabando por concordar com aquela conta sinistra.
Pois bem. Ultimamente, adotou-se, no Brasil, um tal Big Brother não para vigiar, pois respira-se, malgré tout, alguma coisa de democrático nesse País do Carnaval, embora nossa privacidade seja invadida por outros métodos permitidos pelo Estado. A coisa trágica dá-se mais ou menos assim: coloca-se numa casa um magote de imbecilóides que, participando duma espécie de jogo para revelar o mais ladino, com o tempo, são mitificados pelo poviléu, aparecem nos meios de comunicação de massa, posam para revistas, quando não caem na prostituição de alto luxo. Por outro lado, a população tem sua curiosidade espicaçada e acompanha sofregamente o tal programinha televisivo, que nada tem de grandioso ou instrutivo. É o supra-sumo da sandice. Apela-se para a vocação para a curiosidade própria de todo homem e promove-se uma narcotização generalizada com doses cavalares de idiotia compartilhada.
Eis aí uma violência que se não quer enxergar. Método eficaz de carcomer o senso crítico, embotar a capacidade de refletir, promover a descerebração cotidiana, atinge, porém, seu objetivo: afastar o pensamento de outras realidades, escondidas pelo manto diáfano da alienação nossa de cada dia.
Ora, o professor há de retirar algo de proveitoso dessa tragicomédia, partindo de um raciocínio pedagógico e simples: se se pretende alimentar a curiosidade ínsita a todo homem, por que não convidar o alunado a um passeio pelo mundo mágico da literatura?  Dar a conhecer a poesia pessoana... A prosa límpida de Machado de Assis... A grandiosidade das epopéias de Homero, de Virgílio e de Camões... A poesia sofrida de Bandeira... A exuberância da prosa alencarina... A vivacidade das crônicas de Rubem Braga, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos... A poesia metafísica de Drummond... A prosa quase fescenina de Jorge Amado... Há obras suficientes não só para satisfazer a curiosidade de todos pelos problemas humanos mas também para preencher os vazios existenciais. Aproveita-se também a oportunidade para uma aproximação mais efetiva com as diversas normas lingüísticas encontradiças na obra literária, bem como para o aperfeiçoamento da expressão falada ou escrita.
Obtém-se, desse modo, duplo lucro: de um lado, alija-se o lixo eletrônico e a passividade intelectual; de outro, alimenta-se a alma com o que de mais nobre existe para enaltecer o gênero humano e para interpretar a realidade: a arte literária.



             
ARS LONGA, VITA BREVIS
                                                           Hugo Martins

Há uma doença rara que medicina nenhuma no mundo consegue curar. Dela são acometidos os grandes escritores, sobretudo aqueles viciados em mordente perfeccionismo. Não existe um nome científico para designá-la. Quem mais se aproximou, na tentativa de conceituá-la, foi o escritor francês Gustave Flaubert, que a concebeu na locução “angústia da forma.”  Surge ela do embate que o escritor trava consigo mesmo, na encarniçada luta entre o que deseja exprimir e a maneira como fazer, recorrendo aos meios de expressão disponíveis na linguagem. O poeta parnasiano Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac é useiro e vezeiro em escrever versos para que, literariamente, compreendamos o que é a coisa. Ora, há situações na vida que, não podendo o homem exprimir por palavras, recorre, nem que não queira, à eloquência do silêncio, ao desespero do choro e do riso, que, ao fim e ao cabo, são a mesma coisa... Na ânsia de exprimir e ciente de que a linguagem é impotente para traduzir determinados estado d´alma, o poeta se dá por vencido e convencido de que há o inexprimível, o indizível, o inefável, isto é, aquilo que está fervilhando nas entranhas do pensamento não vem, satisfatoriamente, à tona, porque a linguagem, na visão dos artífices da palavra, é incapaz, é impotente, é fria ,não dispõe, repitamos, de instrumental para pôr às claras o que se encontra no mais recôndito da alma. Li esse trecho do soneto INANIA VERBA, que transcrevo para ilustrar o que se diz. Numa tradução livre daquela locução latina, temos que, mais ou menos, palavras frágeis, impotentes. Eis o trecho. Aspeio.
“Ah! Quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
- Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,
Olhas desfeito em lodo, o que te deslumbrava,..”

Coisa linda...  Cabe ao leitor, daqui por diante, verificar as conotações, sobretudo nas palavras “ardes”, “sangras”, “cruz”, “lodo”. O poeta, escravo da expressão, ensaia exprimir o que lhe vai na alma, experimentando, profundo sofrimento. Há um momento até que ele se rende á ilusão de que conseguiu seu intento. No entanto aquele deslumbramento se esboroa, transforma-se em lama... Mesmo que o poeta continue sua luta, sempre vai encontrar os obstáculos provindos da impotência da linguagem.
O restante do texto (mais um quarteto e dois tercetos) continua no mesmo tom.
Lembrei-me de que o poeta parnasiano Raimundo Corrêa (essa é a grafia) só deu edição definitiva ao seu soneto Banzo ao fim de quatorze anos... Pouca gente acredita em que a criação literária é um suplício eterno, pois toda a literatura, a grande literatura, provém das dores do mundo. Compreender e exprimir essas constituem, de per si, ingente sofrimento.
Voilà...