CONVIVÊNCIA
Hugo Martins
Dia 15 de novembro de 2015. Tarde fria entrando por meu quarto. Correntes de vento. Zoadas de motores de automóvel, cortando, a espaços, a movimentada avenida. Em torno de meu ambiente de trabalho, três fotografias em tamanho grande. Minhas três filhas. Um largo sorriso no rosto de Maria Cecília; nos lábios apertados e graves de Maria Clara, a tradução da solenidade que seu traje revela. Fizera ela a primeira comunhão. No alto da cabeça, uma guirlanda empresta-lhe um ar angelical. A roupa é branca; sobre ela o PX grego, índice do nome do Cristo. No olhar firme e seguro de Maria Helena, nos seus dezesseis anos, sinto-me como que vigiado...
Veio-me á mente um fiapo de leitura que fizera hoje à tarde, em que Carlos Drummond escrevera a sua filha Maria Julieta, concitando-a a escrever. No apelo, o poeta de Itabira com ela insiste: “escreva! Escreva qualquer coisa seja ou não para publicar! Se não for para publicar, melhor ainda.”
A mim me pareceu que, para o poeta mineiro, o ato de escrever parece traduzir a idéia de que, no diálogo com o mundo por esse meio, o homem deve procurar, por instantes, um sentido para a existência. Assim, escrevendo, mesmo que palavras e frases soltas, o homem fala do mundo, com ele dialoga e, nesse ramerrão, tenha sentido ou não o texto, o mundo se vai revelando, recebendo luz, deixando ver o que está escondido nos claro-escuros de seus mistérios...
Foi com tais reflexões, advindas das palavras do poeta, que continuo a escrever, escrever, escrever, aliando esse ato ao da leitura, coisa que faço todo o santo dia, coisa que já me deu a certeza de que a literatura é ato libertador, que nos traz conforto a qualquer momento. A propósito, quando alguém me telefona e pergunta se estou só, invariavelmente respondo que jamais me encontro só. Próximos a mim, à esquerda, à direita, na área, no quarto, até mesmo no banheiro, meus amigos filósofos, literatos, poetas, ensaístas e tutti quanti me acompanham. Os livros me dão alento, comigo conversam constantemente, me trazem alegria, me fazem rir e provocam emoções que tornam minha alma mais leve e mais cordata e mais ciente de que a vida vale a pena ser vivida, pois da literatura retiro grande acervo daquilo que dá seiva à vida. O mais é a vida, com suas alegrias, tristezas, contratempos, sonhos e pesadelos. Paradoxalmente, há situações em que, mesmo tendo pessoas à minha volta, sinto profunda solidão... Acho-as vazias, tolas e supinamente pretensiosas... Penso tratar-se de falta de sintonia espiritual ou estou sendo rigoroso com meu próximo. Não sei, nem quero pensar nisso...
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