quinta-feira, 16 de junho de 2016

VIAGENS
                                               Hugo Martins

Sou sedentário por vocação. Às vezes, bate-me uma vontade de passear, viajar, montar a garupa da minguada vocação de viajante, que pouco me resta, e sair por aí, ao deus-dará, chutando tampinhas, chapinhando poças d´água, olhando outros céus, conversando com as gentes e conhecendo lugares. Desejo chegar aos destinos seguro e de alma aberta. Dispenso companhias, a não ser alguns amigos fiéis, que conversam, discutem, alegram o mundo e distraem a alma, sem enchimento de saco das mesmices dos blá-blá-blás cotidianos: livros, livros e livros a mancheia. Quanto ao transporte, não me apetece entrar em avião. Aliás, neles nunca entrei nem pretendo fazê-lo. Para quem viaja todo santo dia, o transporte mais aconselhável são as asas da imaginação. Com elas, não há sedentarismo; São seguras, não se desviam do rumo e sempre chegam ao destino desejado, sem perigo de quedas, desastres ou sequestros. E com elas, você aonde bem quiser e entender. Não há barreira humanas, tampouco alfandegárias.
Durante a semana que se está findando, empreendi algumas “viagens. ” Todas me foram proveitosas. Uma, porém, pungiu-me fundo a sensibilidade. Primeiro, cheguei a Pasárgada, não à cidade da antiga Pérsia, mas àquela em que Manuel Bandeira, de uma feita, refugiou-se e fez tudo o que a vida lhe sonegou: tornou-se amigo do rei, fez ginástica, montou burro brabo, tomou banho de mar e, quando cansou, ouviu as histórias de Rosa, contadas pela mãe-d´água, e teve a mulher que queria, na cama que ele escolheu. O poeta estava feliz por ter feito tudo aquilo que devia ter sido e que não foi. Não sei por que cargas d´água, toda vez que a isso me refiro, os olhos se me enchem de lágrimas. Acho que são as emoções da viagem. Pois bem, dali viajei ao Rio de Janeiro, visitar Bandeira no Morro de Santa Teresa, lugar em que o poeta pernambucano morou por algum tempo. Entrei em seus aposentos de mãos dadas com as da imaginação. Estava ele sentado a rabiscar uma folha de papel. Olhei por cima de seus ombros: redigia seu testamento. Documento simples, sem volteios e sem a rigidez hierática do linguajar dos notários. Diferente: vazado em cinco estrofes, com versos em redondilha maior (sete sílabas poéticas), transpira o “documento” a secura das frustrações inomináveis, sempre preso à temática daquilo que devia ter sido e não foi. Eis o conteúdo: a perda de dinheiros e de amores não compungia tanto o poeta; das terras que visitou, só uma ficou marcada no olhar, aquela que inventou (Pasárgada); traz abrigado no peito o filho que não nasceu, pois nunca teve um filho de seu; o enterro de uma vocação (arquiteto) por causa da doença de que foi acometido na juventude. Por fim, ajoelha-se e roga: “Sou poeta menor, perdoai”. O último item do “testamento”, o derramamento lúcido e melancólico por não poder ter lutado.
Ora, Bandeira foi arquiteto e escultor. Construiu grandes edifícios poéticos e cinzelou versos imorredouros, singelos, profundos e, sobretudo, grandes. Nunca será um poeta menor, jamais. Não sei que alma boa, lançando mão do sintagma “poeta menor”, reconheceu a grandeza do poeta Manuel Carneiro Bandeira de Souza Filho, fazendo este jogo morfofonético em que sobressai a sublimidade das palavras em que se esconde a poesia. Contemplemos:
POETAMENORMENORMENORMENOSMENORMENORMENORMENORME...
Não se exige do leitor nada, a não ser observar o tamanho da “palavra”, cuja leitura 

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