VIAGEM
2
Hugo
Martins
Peguei as trouxas. A
imaginação à minha espera. Montei. Súbito, senti-me tal Brás Cubas. Este,
experimentando os torvelinhos de um delírio, a cavaleiro num hipopótamo em
desabalada carreira, julgando não ter a viagem um destino, perguntou ao animal
para onde iriam, afinal. O paquiderme respondeu, seco, que iam em direção à
origem dos tempos. Brás Cubas pergunta se já haviam chegado à tenda de Abraão.
Ora, já estavam além do Éden...
A imaginação, por ser
mais rápida que o hipopótamo, logo alcançou a montaria de Brás Cubas e, a meu
pedido, manteve-se afastada uma boa distância. Logo, logo, muito além do Éden,
encontrávamo-nos numa grande planície enregelada. Inesperadamente, inicia-se
uma cena insólita, só possível em delírios ou em imaginação sem rédeas. Brás
Cubas vê à sua frente a mãe Natureza, a que tudo dá e a que tudo cobra e
ostenta no rosto grave uma frieza glacial. O dialogo era tenso. A ironia
cortante da deusa não encontrava barreiras, pois a perplexidade e o terror de
Brás Cubas não deixavam vislumbrar uma só saída para os argumentos
inquebrantáveis daquela entidade divina. Teve ele de convencer-se de que o
homem é, de fato, um traste sem valor, presa fácil das paixões e paciente
incurável da vocação para o encontro com o nada.
Já enfarada com Brás
Cubas, a mãe natureza pega-lhe pelos cabelos, e alça-lhe ao pico de um morro
ordenando-lhe contemplar o espetáculo. Nesse momento, esporeei a imaginação, e
mais me aproximei para ver a coisa mais de perto. De repente, um estrépito
ensurdecedor, que lembrava a aproximação de uma tempestade. Uma cena
assustadora, pois os séculos galopavam de trás para diante numa corrida
alucinante... O de Brás Cubas logo apontou.
Apesar de a marcha
transcorrer num átimo, Brás Cubas pôde perceber um detalhe, que eu, pobre
curioso, também pude captar: a tragicidade da existência, resumida, em cada
século, sem exceção, à cupidez humana na busca desenfreada por três coisas que
marcam o ser do homem: atracar-se, enamorado, com a riqueza; caçar, sem trégua,
o poder; namorar, com paixão, a glória. Qualquer filosofia, mesmo barateada
pela superficialidade de alguma frívola reflexão, sempre concluirá que aquela tríade
se esboroa, sem apelo, à cobrança pontual do tempo.
Aliás, Brás Cubas,
relatando o próprio delírio, diz que, quando contemplava o último século
passar, sentiu que este começou a diminuir, diminuir, diminuir e, num passe de
mágica, transformar-se numa bola de papel com que brincava, perto da porta do
quarto, seu gato Sultão.
Sem dúvida, isso dá uma
boa gargalhada... De fato, quando minha imaginação me transportou à crueza da
realidade, peguei-me sentado à minha mesa de trabalho, inexplicavelmente
entregue à orgia de uma senhora e rotunda gargalhada... As metáforas, as
metáforas...
Enfim, mais uma viagem
proveitosa...
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