sábado, 18 de junho de 2016

VIAGEM 2
                                           Hugo Martins

Peguei as trouxas. A imaginação à minha espera. Montei. Súbito, senti-me tal Brás Cubas. Este, experimentando os torvelinhos de um delírio, a cavaleiro num hipopótamo em desabalada carreira, julgando não ter a viagem um destino, perguntou ao animal para onde iriam, afinal. O paquiderme respondeu, seco, que iam em direção à origem dos tempos. Brás Cubas pergunta se já haviam chegado à tenda de Abraão. Ora, já estavam além do Éden... 
A imaginação, por ser mais rápida que o hipopótamo, logo alcançou a montaria de Brás Cubas e, a meu pedido, manteve-se afastada uma boa distância. Logo, logo, muito além do Éden, encontrávamo-nos numa grande planície enregelada. Inesperadamente, inicia-se uma cena insólita, só possível em delírios ou em imaginação sem rédeas. Brás Cubas vê à sua frente a mãe Natureza, a que tudo dá e a que tudo cobra e ostenta no rosto grave uma frieza glacial. O dialogo era tenso. A ironia cortante da deusa não encontrava barreiras, pois a perplexidade e o terror de Brás Cubas não deixavam vislumbrar uma só saída para os argumentos inquebrantáveis daquela entidade divina. Teve ele de convencer-se de que o homem é, de fato, um traste sem valor, presa fácil das paixões e paciente incurável da vocação para o encontro com o nada.
Já enfarada com Brás Cubas, a mãe natureza pega-lhe pelos cabelos, e alça-lhe ao pico de um morro ordenando-lhe contemplar o espetáculo. Nesse momento, esporeei a imaginação, e mais me aproximei para ver a coisa mais de perto. De repente, um estrépito ensurdecedor, que lembrava a aproximação de uma tempestade. Uma cena assustadora, pois os séculos galopavam de trás para diante numa corrida alucinante... O de Brás Cubas logo apontou.
Apesar de a marcha transcorrer num átimo, Brás Cubas pôde perceber um detalhe, que eu, pobre curioso, também pude captar: a tragicidade da existência, resumida, em cada século, sem exceção, à cupidez humana na busca desenfreada por três coisas que marcam o ser do homem: atracar-se, enamorado, com a riqueza; caçar, sem trégua, o poder; namorar, com paixão, a glória. Qualquer filosofia, mesmo barateada pela superficialidade de alguma frívola reflexão, sempre concluirá que aquela tríade se esboroa, sem apelo, à cobrança pontual do tempo.
Aliás, Brás Cubas, relatando o próprio delírio, diz que, quando contemplava o último século passar, sentiu que este começou a diminuir, diminuir, diminuir e, num passe de mágica, transformar-se numa bola de papel com que brincava, perto da porta do quarto, seu gato Sultão.
Sem dúvida, isso dá uma boa gargalhada... De fato, quando minha imaginação me transportou à crueza da realidade, peguei-me sentado à minha mesa de trabalho, inexplicavelmente entregue à orgia de uma senhora e rotunda gargalhada... As metáforas, as metáforas...
Enfim, mais uma viagem proveitosa...


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