domingo, 26 de junho de 2016

                                    A ELA, COM CARINHO.
                                                                                  Hugo Martins

Em que estou pensando? Em muita coisa. Passei todo o domingo ligado na biografia do filósofo alemão Arthur Schopenhauer. Aqui e ali, dava uma parada para fazer alguns exercícios de língua italiana e passar a vista no livreto (Dov´è Yukio?), obra que servirá de base para um dos exames ao longo deste semestre. Realmente é muita matéria para se exercitar o pensamento. Lá pelas seis horas, porém, ela me veio à lembrança. Ela sempre está nas minhas lembranças. Foi chegando sorrateiramente. Olhei-a. Estava sentada numa espreguiçadeira. Vestido simples, chinelos macios, sempre portando os óculos de grossas lentes. Seu olhar já denunciava desencanto. Suas bem torneadas pernas, cansadas, já não tinham a mesma firmeza. O silêncio parecia ser seu grande refúgio. Às vezes, entrelaçava os dedos das mãos e ficava a girar os polegares. Antes de ser abatida pela velhice, revelava-se para mim uma mulher forte, corajosa e intimorata. Não revelava o que lhe ia na alma, mas percebia eu o amor incondicional que dedicava aos filhos. Apesar de meu ensimesmamento, havia entre mim e ela uma cumplicidade, uma espécie de admiração mútua. Sempre me apoiou nos meus projetos. Não titubeava em comprar os livros de que o filho necessitava. Se não podia, de logo, comprar a obra, por falta de dinheiro ou qualquer outro estorvo, em poucos dias encontrava uma forma de atender ao pedido do filho. Nunca deixou de demonstrar sua satisfação com os êxitos que o filho alcançava.  A velha era única conforme sempre digo. Também não deixo de dizer que, se existem heróis, não tenho dúvida, minha mãe é a heroína modelar... Nunca dei ouvido a heróis ou coisa que o valha. A não ser que ombreiem com minha mãe. Coisa que acho difícil. Minha velha sempre será única.
Amanhã fará vinte e cinco anos que ela nos deixou. Parece-me, neste momento, que ela anda a espreitar-me como a querer dizer-me que não nos deixou. Sua presença se faz sentir não só nos dias nove de setembro, mas a cada momento em que preciso me socorrer de alguém que me dê alento. Só ela sabia fazer isso... Só ela sabe fazer isso.

Não tenho saudades dela. Ela cumpriu sua sina, não podemos trazê-la de volta. Lembrar-me dela será sempre uma forma de tê-la perto de mim. Sempre que vou dormir, lembro-me de que, quando éramos pequenos, estirávamos a mão e dizíamos lá da rede, “a bênção, mamãe, a benção, papai”. Ela dizia: “Deus te abençoe, Deus te faça feliz”. Não mais ouvimos isso. Lá nos escaninhos da alma, lá onde dormem as lembranças, ainda perduram alguns resquícios de dor silenciosa.

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