segunda-feira, 20 de junho de 2016

AH! NORMAIS.
                                                      Hugo Martins

                Antigamente, em toda cidade do interior, havia um doido oficial. Era uma espécie de repositório das neuroses coletivas da cidade. Hoje é difícil distinguir os doidos oficiais, existem muitos candidatos para isso. Aliás, Machado de Assis, no conto O Alienista, bem como a Psiquiatria moderna não traçam fronteiras nítidas entre lucidez e loucura... Todos estamos pisando essa linha imaginária, pendendo ora para um lado, ora para o outro...
            Na minha meninice em Itapipoca, conheci dois deles: Zezim do Mocambo e Pinta Cega.
            Zezim era um negro alto, magro, cujas vestes se reduziam a um saco de estopa com dois buracos por onde ele introduzia suas pernas finas e longas. A boca do saco fazia as vezes de cós, a que ele amarrava uma embira à moda cinto. Era visível o contraste entre aquela figura e a voz, cujo timbre era acutíssimo.
            Zezim era um louco manso. Andava pela feira a catar restos de comida para se alimentar. Não mexia com ninguém. Só uma coisa o irritava, e a população sádica e os moleques de rua disso sabiam. Quando ele passava, em seu andar desengonçado, as pessoas se escondiam e gritavam a todo pulmão: TRÁ LÁ LÁ, TRÁ LÁ LÁ... Palavrões de todas as cores saltavam aos borbotões nos gritos “assopranados” de Zezim. Nessas ocasiões, o alienado lançava mão de pedras e cacos de telhas e os arremessava para o lugar de onde partia a ofensa. Em seguida, punha as mãos abertas como a tapar as orelhas e saía em desembalada carreira rumo ao açude, lugar onde provavelmente encontrava segurança.
            Pinta Cega costuma ficar na pracinha em frente à igreja matriz. Passeava de um lado para o outro, parava, sentava-se, levantava-se, sentava-se... Trazia um pano sujo sobre os cabelos revoltos e vestia saia estampada. A psicologia malsã da molecada já conhecia o espírito iracundo de Pinta Cega. Um grito espichado ecoava de um dos cantos da praça: Piiiiiinta Ceeeega. Possessa, a louca bradava toda sorte de palavrão cabeludo. Era pródiga na arte de pespegar palavrões nos insultantes.
            Um dia, ao ouvir o apelido odiento, sem atinar de onde partira, como bode expiatório experimentado, elegeu um para depositar sua ira e sua indignação. Saíram-lhe espontaneamente da gorja, esses versos abaixo transcritos acompanhados de uma música que ela improvisara: 
                                   O negro João Barroso
                                   É um negro sem-vergonha
                                    Eu ainda pego os ovos dele
                                   E faço assim, assim ,assim...
            Ao proferir o último verso, fechava a mão, apertando o polegar à parte lateral do indicador, baixava-se com a mão em direção ao chão e fazia movimentos circulares, como se sustivesse os” pissuídos” do homem entre os dedos... Gritos, apupos e gargalhadas politonavam como coro naquela tristonha tragicomédia.
            Vai longe o tempo em que os conheci. Mesmo na minha ingenuidade de menino interiorano, não lembro haver me alegrado com a pantomima que tinha como personagens aqueles dois malucos e a súcia coadjuvante. Na verdade, sentia por eles uma espécie de ternura por vê-los tão desarmados e desamados. E, se me fosse dado protegê-los, não hesitaria em pôr em fuga todos aqueles que se regozijavam com a desgraça que sobre aqueles se abateu...
            Os malucos formam o mesmo time, o de artistas e o da criança. Os três são uns insatisfeitos com o mundo enxergado por nossas lentes. Daí o descompasso entre o seu comportamento insólito e o comportamento certinho dos demais membros da sociedade. Criam mundo imaginários, fictícios e aparentemente irreais para suprir insatisfações que só eles mesmos saberiam explicar.
            Ai do mundo não existissem esses sublimes loucos... Aliás, a História dos homens é construída pelos loucos...
           


            

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