CHICO CEGO.
Hugo Martins
Sob
a ampla copa verde do juazeiro, três entes entregues à modorra da hora morta do
meio-dia. Sol a pino. Palmas e folhas paradas. Estrada de piçarra batida. Vez
em quando, rolos de poeira passam na esteira de caminhão gemedor e cansado.
Silêncio prolongado, quebrado apenas pelo zumbido ziguezagueante de besouros
cavalo-do-cão. Aqui e ali um bem-te-vi corta o ar, arabescando o espaço azul,
limpo de nuvens. Ouvem-se chocalhos, politonam as rolinhas fogo-apagou... Os
minutos passam indiferentes àquela mesmice... Só Chico Cego está atento às
horas e aos apelos do estômago...
Era
uma espécie de lida diária... Após a sesta dos moradores do lugarejo ali na
beira da estrada, Chico erguia-se, batia o barro grudado nas calças, instigava
Mael e chamava Glutão, atritando o polegar ao indicador.
Mael
era um carneiro de lã encardida, portando sobre o dorso uma espécie de pequena
cangalha de onde pendia, de cada lado, uma espécie de caçuá onde o cego depunha
o produto das esmolas, auferidas em sua caminhada diária, de casa em casa, pelo
povoado. Animal de boa índole nem balia nem bulia... Sereno, acompanhava o cego
aonde este fosse.
Magro
e guenzo, sempre balançando a cauda fina, nunca botava o rabo entre as pernas;
com o focinho entreaberto, a língua de fora, num vaivém acelerado, Glutão
olhava com doçura para o dono como se lhe oferecesse vassalagem incontida. Nada
demais que pudesse ferir os brios caninos. Apenas fidelidade incondicional,
resultado de um amor fruto de solidões cotizadas.
O
cego, vestido numa calça cáqui e camisa de riscado, trazia, cruzada ao tronco
como talabarte, uma sacola de brim azul, esmaecido pelo tempo. Sobre a cabeça,
chapéu de couro à moda vaqueiro, cuja aba era dobrada, chegava às grossas
sobrancelhas. Um par de óculos escuros escondia-lhe os olhos emurchecidos e
ausentes do mundo.
Lá
iam os três... Atravessavam a estrada e saíam, de casa em casa... O cego
gritava: Vicente Crisóstomo! Glutão corria à porta da pessoa referida e recebia
o óbolo, sempre concedido de bom grado. A cada casa a que chegavam, era o mesmo
ritual. Proferido o nome do dono da casa, Glutão não se fazia de rogado:
achegava-se à porta e recebia a esmola e o agrado, que eram depositados no
caçuá de Mael. Dito o “Deus lhe pague”, feita a féria do dia, aquelas figuras
se iam... Formavam uma espécie de elemento pinturesco e necessário à paisagem
local. O dia em que se não via o trio era motivo para comentários...
Um
dia (que dia!), a paisagem soluçou. Era
fim de tarde. Os raios do sol começavam a perder o brilho. Por trás do pequeno
cerro, o poente avermelhava-se. Havia mau presságio no ar. Morcegos cortavam o
ar. Súbito, uma pancada, um latido e um balado. Sobre a piçarra, uma poça de
sangue... Ao lado, o corpo de Chico Cego jazia inerte. Não mais se lhe viam os
olhos sem vida. A cabeça esfacelada...
Mael silenciou, e Glutão grunhia sua dor num ir e vir incessante do
corpo de Chico Cego à casa que lhes servia de abrigo. Depois, a noite, como um manto fúnebre, caiu indiferente
à dor de homens e bichos.
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