UM HOMEM BOM
Hugo Martins
Era
uma vez um homem. Estatura mediana, de magreza visível, olhos perscrutadores e
ar de quem está de bem com a consciência e com o mundo. Suportou a existência
por quase cem anos. Há quem diga que, aos noventa e cinco anos, defendeu no
Tribunal do Júri um vizinho, cuja fortuna não podia pagar os serviços do velho
advogado. Patrocinou a defesa e alcançou a absolvição do cliente. Era um
fervoroso amante do Direito, na mais profunda acepção desta palavra. Sua visão
da ciência jurídica em muito se aproximava daquela sobre que disserta o jurista
alemão Rudolph von Ihering na obra A Luta Pelo Direito. Além disso, era homem detentor de convicções
religiosas muito bem assentadas, que se traduziam pela preocupação com o outro.
Certa
feita, fora contratado por um grupo de empresários para resolver uma pendenga
judicial no campo do direito empresarial. Feito o contrato de prestação de
serviço, ficou acertado que os honorários de oitenta mil cruzeiros seriam pagos
ao fim da questão. Finda esta, os empresários ficaram satisfeitos e comunicaram
ao homem que os honorários estavam depositados.
Ao conferir seu saldo bancário, tomado de estranheza, o homem dirigiu-se
ao gerente e perguntou por que havia em sua conta aquela quantia excedente ao
seu saldo real. Ficou sabendo que os empresários haviam depositado quatrocentos
mil cruzeiros a título de honorários advocatícios. O homem sorriu e ordenou ao
gerente que devolvesse aos empresários a quantia de trezentos e vinte mil
cruzeiros, ajuntando que aquele dinheiro a mais não lhe pertencia...
Esse
homem é contemporâneo de Luiz Carlos Prestes, o cavaleiro da esperança. Eram inimigos
figadais no que tange à ideologia política e à crença religiosa. Se o último
era comunista ferrenho, a História que o diga, o primeiro nutria simpatia pela
democracia cristã; enquanto Prestes era ateu confesso, aquele homem era cristão
de ir à missa todas as manhãs. Preso após o levante comunista de 1935, ninguém
se apresentava para defender Prestes. Isso fez o homem. E, ao ver as condições
em que se encontrava o prisioneiro, disse, indignado, que, se não houvesse uma
lei no País que resguardasse a dignidade daquele homem, que se lhe aplicasse
pelo menos a Lei de Proteção aos Animais...
Certa
ocasião, defendendo um réu a quem se suprimia o direito de ser ouvido, o homem saiu-se com este brilhante argumento.
Meus senhores, Deus, em sua onisciência e onipotência, sabia o que Caim
cometera contra seu irmão Abel. Ainda assim, respeitou-lhe o direito de ser
ouvido, perguntando àquele: “Caim, que fizeste a teu irmão”. Certamente os
inquisidores cederam, e o direito se fez...
Esse
homem foi convidado pelo Presidente Juscelino a compor o Supremo Tribunal.
Recusou a honraria. Certamente para não abrir margem a comentários maliciosos
de que o Presidente isso fizera porque o velho advogado defendera a posse do
político mineiro durante o movimento contra o homem de Diamantina...
Que
falta faz ao País um homem deste porte! Heráclito Fontoura Sobral Pinto era
aquilo que se convencionou chamar de reserva moral da nação. É homem que deve
servir de inspiração para aqueles que lidam com a ciência do Direito, sobretudo
numa época em que este é tão malbaratado.
Sobral
Pinto se inscreve no rol de homens modelares. Não estudava só Direito. Era
afeito a matérias afins. Daí sua formação sólida e seu senso de humanidade no
trato com o outro. Era, sem dúvida, um homem extraordinário.
Nenhum comentário:
Postar um comentário