quarta-feira, 28 de novembro de 2012


DATAS

                                   Hugo Martins

 

            Dediquei o dia a ouvir música lírica. Visitei Albinoni, ouvindo seu Adágio; mergulhei fundo na Serenata ao Luar, viajando no tom plangente nos acordes do piano de Rubinstein. Depois, mudei de rota e procurei Franz Schubert e curti-lhe a Serenata. Por fim, fui ao Largo de Xerxes e ouvi as Lamentações de Thaís.

            Nessas horas, a alma parece subir às alturas, procurando se desvencilhar da dureza do cotidiano, aceita o Convite à Viagem, de Charles Baudelaire, e se deixa levar ao etéreo, ao intangível, ao metafísico. Nessa ânsia louca, rende-se o espírito à reflexão enquanto a tarde “cai silente e fria.”

            Houve um momento, em que a emoção era tamanha, que tive que me conter para impedir um dilúvio de lágrimas, que teimavam em escorrer, tépidas, nos sulcos de meu rosto já marcado pela ação deletéria e silenciosa do tempo.

            Súbito, me vem à mente a figura grave de minha mãe. Olho seu rosto, em que repousa um par de óculos de grossas lentes e leio nos seus lábios finos um ar de desencanto com a vida, embora suportando-a asceticamente como um estóico empedernido. Trajava um vestido simples de cor azul e achava-se sentada numa espreguiçadeira, com o braço direito levemente apoiado no espaldar. Sempre trago gravada na lembrança a maneira como minha mãe se movia dentro de casa. Às vezes, surpreendia-a com as mãos entrelaçadas, girando os polegares e absorta em pensamentos que, talvez, avaliassem se valeu a pena do viver. Da minha parte, penso que, apesar dos contratempos e sofrimentos, enfrentou os dissabores da vida com altivez e coragem. No dia 9 de setembro de 1990, deixou-nos, nós, os dez órfãos adultos...

            Nunca visito seu túmulo. Ela não está ali. Está nas lembranças dos filhos. Por onde anda não sei embora me visite quase diariamente. Sua imagem nunca me chega falseada. É a mesma mulher de têmpera de aço, que repassou para os filhos a virtude de não tropeçar nos jogos sujos da vida, bem como a voracidade pela leitura. É outra imagem que dela tenho: deitada numa rede, os óculos na ponta do nariz e absorvida na leitura de algum livro...

            Não tenho saudades dela. Não há razão para isso, pois ela está sempre comigo. É minha heroína, ninguém com ela concorre. É meu modelo, minha inspiração, meu maior arquétipo. Minha mãe não me espera a visita em dias preestabelecidos. Vive sua condição, vivo eu a minha.

            A música de Bach me tira das reflexões. Por um instante, numa espécie de transe, senti minha mãe por trás de meus ombros a espreitar o que dedilho na superfície branca da tela do computador. Digo, de mim para mim: será que está a me corrigir os tropeços na língua como costumava fazer quando me ensinava as primeiras letras? Ou estaria a antegozar a homenagem que ora lhe faço, em cujas entrelinhas se lê a advertência de que não existe um dia específico para se homenagear as mães que habitam o sobrenatural? Afinal o amor filial na tem hora marcada, manifesta-se sempre que a luz do amor e da gratidão sopra no coração de cada um... E isso faço agora...

sábado, 3 de novembro de 2012


PERSONA

                                                 Hugo Martins

 

            Acabou. Sexta-feira, sábado e domingo passaram com o mesma marcha e ritmo de outros dias vãos. Os que visitaram seus mortos voltam às suas casas com a dor universal da inescapável certeza da finitude da existência. Mergulharam dentro de si mesmos e constataram que pouco adianta alimentar vaidades de que somos grandes coisas. Não passamos de cadáveres ambulantes à espera do lauto banquete promovido sempiternamente pelo exército de inumeráveis vermes que nos espreitam os olhos para “roê-los e deixar apenas os cabelos na frialdade inorgânica da terra”.

            No sábado, os bares se encheram “de homens vazios”, na feliz expressão do poetinha. Aqui e ali, conversas prenhes da filosofice cotidiana. Tangem-se as cordas de um violão seresteiro ou se maltratam as letras de nosso cancioneiro. O tempo passa, a cerveja gelada cai na mesa, vira-se um copo de cachaça, espocam risadas. “Cai a tarde tristonha e serena.” E “sobre a triste Fortaleza, o ouro dos astros chove.” Isso aí vale no poema Vila Rica, de Bilac. Não mais é possível enxergar o céu recamado de estrelas. Os homens têm coisas mais importantes a fazer. Por que olhar o céu se há tanta cerveja a beber, e o tempo é escasso? Importa viver a vida, nos seus mistérios, fugindo à sombra tétrica da solidão interior. Inútil buscar uma saída para quem está preso nas armadilhas que criou para si mesmo. Abrir a porta, olhar o tempo, fazer um esgar, tentando mostrar mentirosa satisfação? Inútil. Estamos presos no “cárcere das almas”, tendo que enfrentar a nós mesmos. Que trágico?  “E agora, José? Ou, pior, ainda, trancados a sete chaves sem poder fugir à presença do outro. Isso é coisa de Sartre. Parece plágio, mas não é. Lembro que Villa Lobos, quando lhe indagaram de seu processo criativo, respondeu afirmando que todos os sons e acordes do mundo Deus colocou nas mãos de Bach. Por isso - dizia - sempre que compunha, ia ao último. Era mais perto. Para chegar ao primeiro, as dificuldades eram maiores. Aliás, a música do maestro brasileiro traduz-se numa boa estirada para limpar as sujeiras que vão na alma. Ela e as demais artes, refúgio dos que evitam as mesmices dos homens vazios.

            Chega o domingo. Todos acordam e constatam que a volta para si mesmos e o encontro com o vazio é inevitável... Vamos para casa. Ainda há um pedaço de tarde e a noite já se aproxima. A idiotia dos programas televisivos está à espera. Estamos cansados... Baboseiras do Faustão, alegria postiça e comercial de Sílvio Santos ou as partidas futebolísticas, toda uma programação, bem programada, para doutorar idiotas... Afinal, todo o show da vida é fantástico...

            Amanhã só será outro dia em época de revolução, “num tempo, página infeliz de nossa história, passagem desbotada na nossa memória das nossas novas gerações.” A rigor, todo amanhã é sempre igual, quando os sonhos revoluteiam em nossas almas pequenas à procura de uma saída... Não há saída... Há o real concreto, despido de máscaras e maquiagens, impotentes e insuficientes para esconder a dor que se tenta esconder nas pequenas fugas que empreendemos na busca de não se sabe do quê... Baixado o pano, a encenação continua...

            Segunda-feira. Que pena! Que dor!

VALORES

                                            Hugo Martins

            Passei boa parte do sábado lendo uma espécie de biografia sobre o cronista cearense Airton Monte. Espécie de retrato falado, pintado por simpática pena realista, o livrinho nos toca a alma. Vida profissional e familiar do escritor/psiquiatra posta a nu, não com a grosseria de publicações que se banqueteiam com fofocas e outras asnices do mesmo naipe. Não, a autora, elaborando trabalho de cunho universitário, demonstra maturidade intelectual e honesta preocupação de bem informar, como sói acontecer com jornalistas que teimam em não desvirtuar os fatos. De parabéns ela...

            As folhas são viradas. Nelas não me interessa o estilo de vida boêmia por que optou o cronista, tampouco o rol de amigos que conquistou ao longo de sua existência. Chama-me a atenção sua preocupação com duas namoradas de quem jamais se separa: a literatura e a medicina. Com elas mantém relação amorosa de que se extrai a preocupação com o ser humano e o desejo de criar. Nessa última, vislumbram-se o ato quase confessional de quem se psicanaliza e o intimismo lírico, que fuça a alma, num misto de revelação lírica e desencanto filosófico. É o que interessa.

            Embora não seja leitor de jornais, toda vez que me caía nas mãos um exemplar do jornal O Povo, não passava os olhos sobre manchetes e notícias. Ia direto para a crônica diária de Airton. Ali, pelo olhar daquele homem triste, embora se diga de seu espírito galhofeiro, viajava eu pelos becos, ruas e bares de Fortaleza. Encontrava-me com boêmios bons de conversa e de copo. Solidarizava-me com a melancolia do “cronista de Fortaleza” e desvirginava as madrugadas sanguíneas, habitada por rebanhos  de incorrigíveis noctívagos.

            O coloquialismo era sua marca, lembrando, pelo tratamento do tema e pela recorrência à línguagem despretensiosa, sem resvalar o vulgarismo, a prosa moleca do baiano Jorge Amado. Se este cantou os “pastores da noite” de Salvador, Airton Monte decantou e exaltou Fortaleza, levando o leitor a lugares desaconselháveis a moços-família, dando àquele conhecer a beleza trágico-humana do “bas-fond”. Tudo respingado de ternura e emoção das boas. Daquelas que fazem o leitor meditar e enxergar que, por trás da vã aparência das coisas, escondem-se realidades mágicas, que só o cronista, fugindo à frieza do essencial, desvenda o acidental, o episódico. Enfim, o material indispensável para fazer a crônica.

            Se, lembrando Noel, “São Paulo dá café, Minas dá Leite”, aqui no Ceará, lugar que, “em se plantando, tudo dá”, nasceram e viveram cronistas tão bons e admiráveis quanto Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e os nossos cearenses Rachel de Queiroz e Milton Dias. Todos já falecidos...

            Há pouco também faleceu Airton. Deve ter levado no alforje miríades de idéias para compor, com os primeiros, crônicas celestiais, desvendando o se esconde no cotidiano da região etérea, que só filósofos e homens de letras ousam desvendar. Seu riso zombeteiro e sua gargalhada desabrida e traquinas devem também estar fazendo coro com algum anjo dissimulado e maroto, dado a peraltices boêmias...

            Viva aos céus...

           

terça-feira, 16 de outubro de 2012


Em que estou pensando? Em abandonar minha profissão de professor. Este não é ofício lucrativo, pois se ministro aulas há quarenta anos, do curso médio à  universidade, e até hoje nada amealhei, só encontro uma saída: vestir um paletó, construir discursos melosos, colocá-los sob o braço e tratar de fundar uma dessas igrejas, que, após a promulgação da Constituição de 1988, vão surgindo a cada esquina desse país de tanta gente fervorosa. Parece que não me será difícil, basta amontoar um magote de fiéis e prometer a eles o reino dos céus. Como fazer isso?

Em primeiro lugar, temos de estar convencidos da existência de gente que não encontra dentro de si mesma uma razão para viver e, rendida ao seu vazio existencial, entregam, sem esforço, sua alma doente a qualquer espertalhão que sabe costurar balelas convincentes para eleger apenas “eleitos” ao paraíso. É bom reforçar que aquele que não ouvir as palavras do pregador não ganhará o reino dos céus. 

Em segundo lugar, abrir um arsenal de palavras mágicas para atingir o coração dos fiéis. Por exemplo: “caros fiéis, vós que tendes a alma amargurada e o espírito combalido pelos insistentes apelos da vida mundana, vinde a esta casa de Deus e nela permanecei, pois, só aqui, encontrareis a paz e a bonança que o dinheiro não proporciona.” Aqui podeis orar e meditar e ser ouvido pelo senhor, que nada vos negará.... É suficiente, porém, pagar o dízimo para que nossa função de pregador se mantenha e esta casa permaneça de pé para a alegria e a satisfação de nosso salvador.” Não tenham dúvidas,leitores, após essa lenga-lenga, logo se formará um grande cortejo de fiéis, abrindo, pressurosos, suas carteiras e despejando seu parco dinheirinho sobre o altar para maior glória e a festiva alegria do abnegado pastor.

Em terceiro lugar, temos de tratar de escrever livros de orações e conselhos e, também, abrir uma conta bancária onde será, certamente, depositado o dinheirinho dos confiantes compradores. De regra, o conteúdo dos livretos terá sempre uma marca: ajudar os fiéis a sair das dificuldades financeiras e outros apertinhos próprios do cotidiano. Assim, desfilarão pela obra frases de todo jaez, sempre com o lembrete: tende fé e o senhor vos ouvirá. Vamos ensaiar algumas: “irmão na fé, não vos deixeis abater pelas pequenas derrotas do cotidiano, Deus é fiel e não permitirá que pequenos incidentes arquitetados pelo “inimigo” (dizem ser o demônio) perturbem a tranquilidade que vós encontrastes na oração.” Ou, então: “Por que temer o amanhã, se vós o construís num presente recamado por orações?” Lembrai que o senhor ensinou aos incréus que toda tempestade pode ser domada. Basta recorrer à fé que “move montanhas.” Vamos bolar outra frase dessa natureza. “Meus irmãos na fé, escutai sempre o que diz o senhor quando orardes; Ele não se engana nem engana. Qualquer prece saída do coração, estando ungida de sinceridade e fervor, a ele chegará e, cedo, vós tereis a resposta que vós esperáveis. Segurai na mão de Deus. Levantai os corações ao alto; confiai e orai, pois nada vos acontecerá, pois o senhor é vigilante, onisciente e onipresente...”

Importante: nenhuma frase deve dispensar o uso da 2ª pessoa do plural. Impressiona, transpira autoridade e dá importância ao pregador ainda que nada signifiquem. Tem o mesmo efeito que o discurso verborrágico de rábulas e advogados pretensiosos. Funciona e convence mesmo grávida de sofismas.

Por fim, é esperar e consultar diariamente a conta bancária. Nela está toda a paz, toda a ventura, todo o bem-estar, toda a bonança do pregador. Os fiéis são os pastores, e tudo lhes faltará, inclusive a capacidade de reconhecer que a paz que procuram está dentro de suas alminhas tolas. Quanto ao pregador... “nada a declarar”, como diria Armando Falcão, pois não se discute o “óbvio ululante”, como diria o anjo pornográfico.

Noutra oportunidade, darei o nome da igreja que pretendo fundar, sua organização, seus bispos e ajudantes.  Espero que não me deixem na mão. Também quero me arrumar...

Depois de tudo no seu lugar, vou pensar se vale a pena dar aulas. Se compensa ajudar a estudantada a pensar. Sei não...

Como fecho, convido todos os professores a fazerem parte desse empreendimento...

A propósito, lembro aqui uma letra do cancioneiro popular que dizia:

                        “Camelô, na conversa,

                        Ele vende algodão por veludo.

                        Está provado, porque, neste mundo,

                        Tem bobo pra tudo.”

segunda-feira, 1 de outubro de 2012


 


PARECER (contra a patifaria pedagógica)


                                                                                                 Hugo Martins

 

            Chegaram às mãos do subscritor três simpáticos requerimentos da lavra de alunos do Curso Médio. Dois deles perseguem o direito a fazer recuperação, calcando a pretensão na PORTARIA nº 178/GDC, de 18 de março de 2005. O outro não vem esteado em dispositivo legal nenhum. Os três soaram a este parecerista como o ato único de uma ópera-bufa mal ensaiada, em face da desfaçatez de que estão imbuídos. O autor deste parecer não é crítico teatral, mas, por força das circunstâncias, vai aqui ensaiar sê-lo, pelas razões a seguir escandidas.

 

            Senhor Diretor de Ensino, entendemos que o ensino-aprendizagem “da última flor do Lácio” não se deve reduzir ao repasse de áridos preceitos gramatiqueiros, coadjuvados pelas indefectíveis exceções, apanágio de quem não intui honestamente a importância de que se deve revestir o ensino da língua e, por isso, recorre àqueles expedientes para escamotear sua incompetência ou exercer sobre o espírito flébil do alunado uma espécie  de terror, incutindo naquelas pobres almas a idéia bastarda de que o idioma português é muito difícil e outras idéias mentirosas afins. Ora, é sabido que, sobretudo em bodegas pedagógicas particulares, esta visão do ensino do idioma português já se tornou lugar comum, repetido em ceca e meca. Aliás, parafraseando Lauro de Oliveira Lima, o professor de língua portuguesa, no Brasil, é como o cão de Pavlov, mal ouve a sineta, começa a salivar gramática. Enquanto isso, o essencial no ensino desse belo idioma não freqüenta a sala de aula. O aluno lê mal, escreve sofrivelmente, fala tropeçando em balbucios, apóia-se em muletas verbais e chavões batidos e rebatidos, sem falar na antológica incapacidade de interpretar o que lê, escuta ou vê. Em outras palavras, o ensino centrado na gramática pela gramática é inócuo, mentiroso, desonesto e fere os brios intelectuais de quem ousa pensar neste País de descerebrados.

 

            Senhor Diretor, o pensador José Ortega y Gasset dizia, numa espécie de lapidar parêmia: “eu sou eu e as minhas circunstâncias”. Em outras palavras, o espanhol cuidava em dizer que homem se define no tempo histórico que vivencia. Paciente desse eterno devir, vítima do tempo e das vicissitudes que deste advêm, há de compreender o habitat em que passeia sua alma na busca incessante de um sentido para a sua existência. Nesse momento, é que se torna mais verdadeiro e legítimo o “Cogito, ergo sum” cartesiano. Nesse diapasão, a existência do homem não pode ser apenas um passivo estar no mundo, pois, assim, não passaria ele de um títere desajeitado, agente e paciente de todas as circunstâncias, mas desorientado, sem norte, vazio e sem vida...

 

            A familiaridade com o modo de ser da língua, suas riqueza e variedade lexicais, seus multifacetados torneios sintáticos, suas possibilidades semântico-expressivas formam um rico arsenal para que o homem cada vez mais se revele ao mundo e revele a si mesmo esse mesmo mundo. A linguagem, com especialidade a que se manifesta pela palavra, é a grande razão do binômio homem e mundo. Os gregos chamavam a Deus de LOGOS; os latinos chamavam-NO o VERBO. Basta ler o primeiro parágrafo do Evangelho segundo São João. O próprio livro que enfeixa e revela os ensinamentos divinos é chamado metaforicamente A PALAVRA. Nessa linha de raciocínio, o pensador francês Pierre Teillard Chardin escreveu uma obra magistral a que intitulou O HOMEM, O MUNDO E DEUS. Quer dizer, a compreensão do transcendente, do metafísico, do divino sempre se dará pela palavra, a “palavramundo” drummondiana, neologismo criado pelo poeta de Itabira para dizer, como ele dizia, que toda palavra está grávida de mundo.

 

            É por essa senda que o professor intenta ciceronear seus alunos. Ensaia conduzi-los, sem que eles se dêem conta das urzes e pedras do caminho. Aos poucos, vão abrindo suas próprias veredas, lendo, escrevendo, falando, interpretando e internalizando comportamentos lingüísticos, distantes da ortodoxia bem comportada e da gravidade cretina dos gramatiqueiros de linguagem e pedagogia insípidas. Aos educandos basta o praticar o ato comunicativo em suas quatro possibilidades, assim como os pássaros, que voam, e os peixes, que nadam, sem necessitar aprender aquilo para que se revelam, de berço, vocacionados. Sim, Senhor Diretor, nossos jovens estão necessitando estudar língua portuguesa não memorizando regras absurdas e as exceções das exceções das exceções. Basta colocar nas mãos deles o essencial para a aprendizagem desse belo, rico e saboroso idioma, assunto de que nos ocuparemos a seguir.

 

            Prezado Diretor, iniciadas as atividades letivas, já na primeira aula, este parecerista elabora, com a turma, uma espécie de código silencioso, de cujos dispositivos faz-se uma espécie de contrato, de modo que direitos e deveres ficam explicitados. Trata-se de uma espécie de roteiro deontológico.

            Em primeiro lugar, apresentado o programa, fica acertado que não haverá aulas de gramática traduzidas em cantilenas monocórdias das regrinhas e exceções. Não. A gramática da língua será vista naturalmente por meio das atividades em que se prioriza o fundamental: falar, ler, escrever e ouvir. Tendo sempre em mente a competência lingüística do falante, aquela a que se refere Noam Chomsky, busca-se simplesmente e tão-só exercitar o desempenho lingüístico do aluno. Deixa-se de lado todo e qualquer preconceito em relação à idéia maniqueísta erro e acerto. Interessa-nos que o falante vivencie as diversas normas e registros de uma mesma língua. Para isso, muito se encarece a convivência com o texto literário, pois este é, sem dúvida, uma espécie de supranorma, que enfeixa todos os falares possíveis e prováveis de um idioma. A propósito, conforme Chomsky, todos nós conhecemos a língua portuguesa, isto é, usamo-la como instrumento de comunicação no dia-a-dia. Tanto é que letrados e iletrados  se comunicam sem problema alguma. Isto é competência. Claro que se devem relevar os acidentes grau de cultura e quejandos. Agora, não há negar que cada falante utiliza a língua portuguesa, imprimindo a ela um desempenho determinado por fatores extralingüísticos. Isto é desempenho ou performance.

 

            Em segundo lugar, certo de que o professor nada ensina, pois o cérebro do educando não é uma tabula rasa, oca e sem vida, procura-se desenvolver atividades por meio das quais o aluno exercite aqueles potenciais retro-referidos: o falar, o ler, o escrever e o ouvir. De que modo?

 

            Partimos da premissa de que todo professor “ensina” língua portuguesa. Com efeito, quando ministra suas aulas, certamente fá-lo recorrendo à norma padrão-culta, aquela que se encontra em toda situação comunicativa em que há um mínimo de solenidade e maior nível de abstração. Inclusive o professor de língua portuguesa também “ensina” português.

 

            Se alguma diferença existe entre uns e outros, é que os últimos apenas devem dispor de aparato pedagógico mais rico para explicar, com técnica mais apurada, este ou aquele fato lingüístico.

 

            Por essa razão, o professor de língua portuguesa, no seu mister, perseguindo o objetivo de tornar o aluno mais proficiente na utilização de seu idioma, há de criar condições para que o atingimento desse escopo seja uma realidade sem que o aluno seja coagido a memorizar regrinhas sensaboronas e sem nenhuma utilidade.

 

            O modo mais eficiente tem em mira aquelas potencialidades. Assim, desenvolve-se em sala de aula e em casa atividades em que aquelas potencialidades já referidas estejam sempre em jogo.

 

            Colocado o texto à apreciação da turma, lido, relido, feito o levantamento do vocabulário, comentadas as idéias nele presentes e aquelas por ele suscitadas, propõe-se a tarefa doméstica que, à luz do programa, leva o aluno a reescrever o texto, escrevendo frases, parágrafos e outros textos, utilizando o vocabulário do texto lido em sala de aula.

 

Paralelamente, o aluno procede à leitura de uma obra literária, prévia e amplamente motivada. Afasta-se a ficha de leitura convencional proposta pela editora. A nosso ver, tal fichinha sufoca o gosto pela leitura da obra. Feito isso, propomos três ou quatro questões básicas: levantamento do vocabulário, pelo menos quarenta palavras; redação de frases ou parágrafos com as palavras retro-referidas; resumo da obra; e, por fim, redação de um texto em que se enfoca o problema humano entrevisto na obra.

 

Por outro lado, a historiografia da literatura brasileira é trazida à baila por imposição do cumprimento do programa. Durante as exposições, o professor sempre demonstra preocupação com mostrar aos alunos que aquilo não é, na exata acepção da palavra, ensino de literatura. Não se ensina nem se aprende literatura, vivencia-se. Isso se dá com a leitura da obra...

 

Ao fim e ao cabo, a nosso aviso, o professor de língua portuguesa cumpre satisfatoriamente seu papel quando forma um leitor. Explicando: formar o leitor é despertar no alunado o gosto da leitura, fazendo ver a ele o prazer que nela se encontra, o entusiasmo pelo aprender gratuitamente, o desvendar de novos mundos, o que vai na alma humana... Enfim, a convivência com o texto, sobretudo o literário, é uma forma de pensar o mundo, de filosofar, de buscar respostas, de empreender a catarse aristotélica, a depuração do espírito e sintonizar este com as harmonias e desarmonias do universo. Cremos mesmo na idéia de que o formar o leitor é despertar o homem bom, ético e virtuoso e, por conseqüência, é empreender a eliminação do cafajeste, do cretino e do inescrupuloso...

 

Senhor Diretor, no ano letivo que se foi, perseguimos a mesma prática pedagógica de outros anos. Nessa empreitada, levamos a efeito não avaliações ortodoxas e comportadas de provinhas e examezinhos burocráticas... Não. Preferimos cobrar cumprimento de dever, pois estamos convencidos de que não se avalia, ao pé da letra, o nível de aprendizado da língua materna pelo aluno. À medida que evoluímos intelectualmente, vamos progredindo também no desempenho lingüístico, sobretudo na recorrência à norma-padrão culta. Assim é que, passada a tarefa, de regra de caráter doméstico, concede-se ao aluno tempo considerável para que ele desenvolva aquele trabalho. No momento da entrega do trabalho, o professor verifica quem fez ou quem não fez a tarefa. Ao primeiro, concede-se uma cruz, sinal positivo de cumprimento de dever; ao segundo, coloca-se no diário um traço horizontal, que denuncia não-cumprimento de dever. Ao final da etapa ou do semestre, a nota do aluno é concedida de conformidade com a feitura ou não da tarefa. Sintomático: somam-se cruzes e traços horizontais. Daí surge a média da etapa. Elementar, meu caro Diretor, como diria Sherlock Holmes, personagem do romancista inglês Conan Doyle...

 

Magnânimo Diretor, o durante o ano letivo que findou, levamos a efeito 21 (vinte e uma) avaliações: na primeira etapa, 4 (quatro) ; na segunda, 5 (cinco) ; na terceira, 6 ( seis ) e, na última, 6 (seis).

 

A PORTARIA nº 176/GDG, de 18 de março de 2005 diz, in verbis: “No Ensino Médio, independentemente do número de aulas, deverá haver, no mínimo, duas avaliações por etapa”. Ora, o professor que se apegar ferrenhamente ao dispositivo transcrito fará, por ano, apenas OITO AVALIAÇÕES. Em nossa disciplina, durante o ano letivo de 2005, fizemos VINTE E UMA AVALIAÇÕES. Não se exige do bom intérprete, ante o exposto nenhum mergulho hermenêutico mais profundo para chegar à conclusão de que os alunos tiveram, durante toda a jornada pedagógica, amplas chances de proceder à sua recuperação. Basta uma continha simples de subtração. Simples: SUBTRAINDO-SE OITO DE VINTE E UM, CHEGA-SE A TREZE. Dividindo este resultando por quatro, tiveram os alunos três oportunidades para recuperar o que desejavam recuperar... Com um bônus de mais uma oportunidade...

 

Perseguem direito a recuperação os seguintes cidadãos, todos alunos do Curso Médio, turma C, turno manhã: PERI, BRÁS CUBAS, VIRGÍNIA WOLF( nomes fictícios). Vejamos caso a caso.

O aluno Peri, na primeira etapa letiva, não fez nenhuma das tarefas letivas; na segunda etapa, fez três das cinco tarefas levadas a efeito; na terceira, das seis, fez quatro e na última etapa, das seis fez duas. Quer dizer, das VINTE UMA OPORTUNIDADES, o senhor Peri optou por fazer apenas nove. A ausência do senhor Peri é cristalinamente notável. Em nossas aulas, faltou apenas SETENTA E UMA VEZES. Sem contar as furtivas escapadelas que, pensava ele, o professor não percebia.

 

O aluno Brás Cubas, na primeira etapa, fez três das quatro tarefas: na segunda, de cinco, fez três: na terceira, de seis, fez duas; e, na última, de seis, fez duas. Em outras palavras, DAS VINTE E UMA, o senhor Brás Cubas fez menos da metade do que dele se exigiu. Em nossas aulas, o senhor Brás Cubas faltou apenas SESSENTA E QUATRO VEZES. Era o que se costuma chamar um eterno ausente. Não me lembra nem mesmo sua fisionomia.

 

A aluna Virgínia Wolf, na primeira etapa letiva, fez três das quatro tarefas: na segunda etapa, das cinco, não fez uma tarefa sequer; na terceira, de seis, também não fez nenhuma; e, na quarta etapa, de seis, fez quatro. A senhorita Virgínia Wolf ostenta apenas SESSENTA E SETE faltas nas nossas aulas de língua portuguesa.

 

Senhor Diretor, este parecerista não entende educação com ausência de responsabilidade, tampouco com a visão ética macunaímica, em que o indivíduo pensa em passar a perna no outro ou confia num secular apadrinhamento próprio da cultura brasileira ou, mesmo, num entibiamento desavergonhado das forças morais. Havemos de, como professores, afastar-nos da concepção bastarda de que a educação deva render-se à mera repetição de conceitos batidos ou à mentira convencional do “formar bons cidadãos”... Palavrório inútil que cheira a preguiça mental e servilismo barato a pedagogias importadas e repetidas numa cantilena monocórdia de fazer inveja a qualquer papagaio bem adestrado. Nossos alunos devem ser chamados à ordem. Cumprir o dever não é nenhum favor que se faça a ninguém. É, antes, contribuir para que o mundo se torne um lugar melhor. Não existe nada mais irrespirável que os ares da corrupção, da mentira, da falta de vergonha...

 

A pedagogia brasileira vê a recuperação como uma espécie de UTI em que o indivíduo recobra suas forças vitais por intermédio de dosagens homeopáticas de remedinhos, ministrados por examezinhos de que resulta a satisfação cretina do aluno por haver ludibriado alguém e a si mesmo, coadjuvada pelo adjetivozinho pespegado ao professor amedrontado e subserviente: “aquele professor é legal, é gente boa, é gente fina” e outras que tais...

 

É talvez por força dessa pedagogia irresponsável, em que falta mais austeridade, mais severidade e mais seriedade, que nosso País, este paraíso de corruptos, figura como aquele que pior prepara seus cidadãos. Em todo e qualquer levantamento que se faça para auscultar o desempenho de nossos alunos, em termos mundiais, estes sempre ocupam as últimas posições.

 

             Por fim, Senhor Diretor de Ensino, a atividade intelectual não é apanágio de todos. É, com certeza, algo não democrático. Fica para poucos, os que buscam sondar com mais profundidade o que vai pelo mundo. Ela é enfadonha para quem não vê nela nenhum atrativo; ela é desaconselhável para quem nela enxerga uma forma de encher as burras. Ela é, talvez, o único caminho para que evitemos que os maus, os negligentes, os corruptos e os detentores de mau caráter se assenhoreiem do mundo, e sejamos obrigados a nos render àquilo que parece ser a ordem natural das coisas.

 

Pelo exposto, é que este parecerista é contrário a conceder direito a quem não cumpre deveres agregados àquele direito. Aliás, compactuar com patifaria pedagógica é insurgir-se contra os princípios maiores da pedagogia. Seria, como arrotam os pedagogos, pelo óbvio, UMA PRÁTICA ANTIPEDAGÓGICA.

 

Eis o parecer. A instituição faça o que melhor lhe parece.

           

 

           

 

           

 

           

           

           

 

sábado, 29 de setembro de 2012


 AI, ESSA DOR!

                                      Hugo Martins

 

               Vi hoje um pequeno cartaz em que Maurício de Souza dá a entender que Mônica, a menininha dentuça e de grande força interior, deve casar-se com o amiguinho de infância Cebolinha. É de crer-se que o leitor, no mais fundo de sua alma, não aplaudirá a idéia, afinal não se admite a morte de sonhos e fantasias. Seria o mesmo que fazer crescer o menino Peter Pan, criação do novelista inglês J, M. Barrie. Ficaria, pois, decretada a morte da eterna infância, decantada por prosadores e poetas de todos os tempos e de todas as eras.

            Mônica, adolescendo, perde o encanto e a magia dos “tempos de criança” a que alude Ataulfo Alves, letra em que o compositor mineiro diz “eu era feliz e não sabia”. Arrancar a brava menina daqueles tempos é despi-la do seu próprio ser. Ela representa, com seus arroubos de violência, a mulher que quer se ver respeitada, que se impõe num mundo organizado por machos. O convincente coelhinho Sansão é a única arma de que dispõe para repelir as agressões exteriores, provindas de quem não a aceita, de quem não suporta ver a força que existe na menina-mulher, jogada em meio à crueldade coletiva do lobo homem. No entanto, por trás da metáfora da reação, esconde-se um poço de ternura, capaz de perdoar e reatar amizades. A “dentuça” não odeia, não guarda rancores, ao contrário alimenta amor pelos amigos, deles se compadece e demonstra a força da solidariedade. De outro lado, encontra tempo para voar para o mundo platônico das idéias, quando conversa e troca amabilidades com o anjinho... Está ela na instância do mundo mágico das crianças, época de devaneios e distante das correrias, maldades, atrocidades e falseamentos do real, predicados lamentáveis da vida adulta. Não existirá violência maior que dela retirar essa atmosfera em que a vida vale a pena ser vivida. Em mantendo Mônica em seu Ser, Maurício de Sousa crescerá ainda mais em sua atividade pedagógica como também se revelará consciente com o Ser da ficção: instaurar mundos em que as essências do mundo se fixam a se eternizam... Aqui não se permite a dialética, a categoria tempo. Aqui este não corre, a não ser no interior da própria narrativa... É nessa ilogicidade que se revela a lógica do discurso em que estão em jogo os temas eternos revelados pela linguagem da ficção literária...

            Só na crueza da existência corre o tempo. Mas sua marcha traz sofrimentos, dores e dissabores e, por isso, torna-se figadal inimigo do homem. Existe coisa mais dolorosa que o espelho e a fotografia? Como dói folhear álbuns de fotografias em que encontramos nossos “mortos de sobrecasaca”, a que se refere Drummond em poema homônimo!!! E a ridicularia dos cosméticos, que porfiam por esconder os rasgões de rugas e pés-de-galinha, desenhados tal tatuagens indeléveis em rostos macerados? E a intervenção cirúrgica, em que pacientes do eterno devir buscam, inutilmente, conter as marcas do tempo, cujo resultado desemboca numa mentira que logo retorna à verdade?

            “Os anos se aproximam silenciosamente” diz o poeta latino Ovídio. Todo esforço para contê-lo é vão. Traduz-se numa luta renhida e cômica contra a angústia do efêmero, do imenso e interminável caudal da existência... A indústria da eterna juventude traduz-se numa perversidade sem par, pois faz a fortuna de seus mentores e fabrica o sofrimento de quem não quer olhar a vida de frente...

            A reflexão me assaltou quando vi Mônica, ao lado de Cebolinha, os dois paramentados numa solenidade de casamento. Num primeiro momento, abateu-se sobre mim um sobressalto ao ver a menininha com os cabelos arrumados, o rostinho desfigurado por maquiagens falseadoras do semblante, ladeada pelo rapazola enfiado num terno elegante, abrindo um largo e burguês sorriso. Disse de mim para mim: pronto, mataram Mônica e Cebolinha! Depois, com mais vagar, rendi-me à reflexão de que se trata de mais uma jogada lúdica de Maurício de Sousa com o fim de espicaçar a curiosidade dos leitores e persuadi-los a acompanhar a saga daqueles dois personagens já eternizados na categoria dos tipos eternos. Se assim for, não lhe tiro a razão e o tirocínio. Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali não devem migrar para o torvelhinho da vida adulta. Isso resultaria num contrassenso de se lhes impingir a dor universal, que não tangencia o mundo feérico da infância.

            Eles não merecem tal estocada, são a-temporais; tampouco os leitores, presos à temporalidade que faz refletir sobre matéria tão dolorosa: o tempo, este inimigo sem face, que porta sandálias silenciosas.

           

           

           

             

sábado, 15 de setembro de 2012


EM QUE ESTOU PENSANDO? Em manter minha reputação infensa a qualquer mancha, proveniente de atos de improbidade no exercício de meu ofício. Continuar, firme e forte, o propósito de seguir os conselhos e exemplos de minha mãe e de meu avô materno e não ceder um só milímetro ao canto de sereia, que leva o homem, por algum motivo, a vender sua alma nos mais comezinhos episódios do cotidiano.

Deitado numa rede de corda, ao sabor de uma brisa fagueira que corre na minha varanda, vou virando as páginas dos Diários do escritor maranhense Josué Montelo, e com ele viajo não só na historia política do Brasil com suas tricas e futricas mas também no desenrolar da história de nossa  literatura. Vou, pelas mãos de Josué Montelo, ao palácio do Catete, assisto ao drama de Getúlio. Conheço o Brasil dos anos dourados de Juscelino e me atemorizo com a cacetada de Brucutu com que a última ditadura atordoou o povo brasileiro, caçando mandatos, prendendo, arrebentando pessoas e instituições, amordaçando a arte, proibindo o direito ao livre pensar e levando à morte todo aquele que ousasse levantar sua voz contra os desmandos... Também vou à Academia Brasileira de Letras tomar o chá das cinco com os imortais e reencontro alguns velhos escritores que povoaram de sonhos minha longínqua infância. Converso com Viriato Correia e lembro a obra Cazuza, com que o escritor maranhense alimentava a formação dos jovens, por meio de textos grávidos de sadio civismo; cumprimento também Olegário Mariano, o lírico poeta das cigarras. Entrevejo, sentado ao sofá, de pernas cruzadas, Manuel Bandeira, conversando longamente com o crítico literário Álvaro Lins... De repente, entra de supetão, com sua gravata borboleta, João Guimarães Rosa, rindo e conversando com Cassiano Ricardo acerca da força da linguagem, sobretudo a de cunho poético, aquela capaz de instaurar o feérico, o maravilhoso da vida, com suas facetas também sórdidas. Tudo ali transpirava vetustez: os escritores já carregando nos ombros o peso do mundo, a gravidade do mobiliário, os bustos de algum imortal, bem como a galeria de quadros de autores diversos. Participo do colóquio, sempre amparado pela bondade delicada de Josué Montelo. Ao sair, tomo a Avenida Rio Branco, chego à Cinelândia e sento-me numa das mesas do Bar Amarelinho, reduto de toda espécie de gente ligada às artes e à boêmia, e tomo uma cerveja bem geladinha, com o fito de lavar o fígado e olhar as pessoas que passam apressadas em busca de não sei o quê...

Mas que ando eu a fazer em tais devaneios?  Creio que nada demais em tudo isso. Talvez à procura de assunto, fuçando as prateleiras da imaginação à cata de algo que valha a pena colocar no papel de forma gratuita e desinteressada. Exercício de estilo numa época em que se costuma falar das acontecências do mundo, recorrendo a lugares comuns e a balbucios monossilábicos, que mais parecem deslustradas, repetidas e enfadonhas onomatopéias... Sim, o escrever é como o coçar. Basta começar, diz a sabedoria popular. E aqui me acho nesse exercício, dedilhando o teclado, deixando correr a imaginação num minguado exercício de impressões de leitura. Aliás, exercício desnecessário, pois não se encontra interlocutor, alguém que, amante de arte literária, sirva de apoio numa cotização, numa troca graciosa de opinião sobre o que vai pelo mundo, sobre o que é a arte e seu papel humanizante.

Há pouco me levantei a fim de atender ao telefone. Alguém, do outro lado da linha, pergunta-me se não folheei os jornais durante a semana. Respondo que não. A propósito não sou leitor de revistas semanais, tampouco de jornais e, raras vezes, ligo “a máquina de fazer doido”.

Sinto-me bem, permanecendo desinformado. Ainda assim, por força da aldeia global a que se refere Marshall McLuhan, os meios de comunicação de massa, na sua infatigável  labuta por distorcer o real ou imbecilizar os “televidiotas”, estão espalhados em qualquer lugar a que você chegue, instaurando a solidão coletivizada.

Feito esse reparo, a pessoa com quem converso pergunto se não estou acompanhando o “mar de lama” que vem emporcalhando a moral e o moral do brasileiro. Digo-lhe que ouço aqui e ali fiapos de conversas e notícias televisivas, cujo conteúdo me dá a impressão de que somos, historicamente, um povo que padece do complexo de Ali Babá. Este reunia um bando formado de apenas quarenta componentes; atualmente, neste país de contrastes, não se sabe quem é ou quem não é quadrilheiro.

Com efeito, de oitiva, toma-se ciência, numa espécie de consenso, do que vêm os homens públicos levando a efeito para pilhar os cofres públicos. Para evitar que a farândola de ladrões mais e mais se agigante, inventou-se um processo de barrar-lhes a marcha, o qual recebeu o sugestivo rótulo de “ficha limpa”. Vergonhoso, decepcionante, imoral e decadente um país, cujos gestores, legisladores ou pretendentes tenham sua vida pública monitorada pelo Poder Judiciário como forma de banir das assembléias, câmaras e colegiados afins as maçãs podres, os quistos, os cânceres e a pestilência de almas fadadas ao furto, à embromação e à mentira que insulta.

No próximo mês, o povo irá às urnas. Enquanto isso, as hienas, à cata de votos, mostram as garras e mandíbulas, na desesperada ânsia de conquistar o eleitor, que, embora bem armado com o voto, deixa-se seduzir por discursos vazios, promessas vãs e mentiras deslavadas...

Ora, consultando a lista de políticos “ficha-suja”, vejo naquele sórdido plantel os nomes de hienas que também eram e continuam sendo portadores da mesma lenga-lenga, da mesma sordidez, da mesma mendacidade, da mesma falta de vergonha, sem tirar nem pôr. Deles há que, ainda exercendo a função, quando surpreendidos pela ação do Ministério Público, pegam suas trouxas e se botam para outros países. Outros, quando surpreendidos pela poder policial, são algemados à frente de câmaras, baixam a cabeça ou escondem-na sob a blusa ou casaco para não se deixar filmar pela câmara indiscreta de repórteres... Pergunta-se: por que não erguem a cabeça como antes faziam e tecem considerações sobre sua inocência? Não, isso não fazem, preferem dizer que só falam “na presença de meu advogado”. Enquanto o povo se volta para o processo do mensalão, não se dá conta de que mensalões e mensalinhos são urdidos a todo momento pela capacidade de ave de rapina da grande parte de outros politiqueiros, bem versados, também na arte de se apoderar da riqueza que o povo produz. Ora, seria o caso de dizer que a arte de furtar o povo é lugar comum entre os sicários e bandidos, que se dizem preocupados em cuidar do povo. Coloquemos as barbas de molho, essa coisa de cuidar do povo esconde o eufemismo “narcotizar o povo” para que se torne mais fácil furtar sem grandes cuidados.

Num sermão do Padre Antônio Vieira, lê-se que o filósofo grego Diógenes, o cínico, vendo uma vara de ministros levando a enforcar um homem que havia furtado um carneiro, começou a bradar: “Lá vão os ladrões grandes enforcar os pequenos”. Trocando em miúdos, essa gentalha maltratada e moída, a que chamamos de marginais ou bandidos, bem como aqueles que não fruem uma só migalha do direito comum a todos, nada mais representam que as consequências advindas das ações dos ladrões grandes a que se refere Vieira...

É grande a patifaria. É vergonhoso tudo isso.

Fecho o texto. Há muita coisa a dizer. Deixo a outros a incumbência.  Volto à minha velha rede de corda, abro o volume dos Diários de Montelo e mergulho na leitura. Nesse momento, teço uma breve reflexão: há mais filosofia no ato de ler e afastar-se do ramerrão cotidiano que perder tempo em refletir e garatujar o papel, tendo como referencial o emporcalhamento de que vem, há mais de quinhentos anos, padecendo o maltratado povo brasileiro...

Pois é...

 

 

segunda-feira, 3 de setembro de 2012


EM QUE ESTOU PENSANDO? No momento acabo de assistir à propaganda eleitoral gratuita e esta me deixa sempre a pensar. Penso, por exemplo, na forma de raciocinar por silogismos. Que é isso? Criado pelo gênio de Aristóteles, o silogismo pode carregar uma verdade ou uma mentira embuçada em falácias. Em outras palavras: quem raciocina por este modo, parte de duas premissas, uma maior e outra menor. Se ambas forem verdadeiras, chega-se a uma conclusão verdadeira. Se uma delas for falsa, a conclusão poderá ter aparência de verdade, mas encerra uma mentira acerca dos dados da realidade. Por exemplo: todo homem é mortal; Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal. Aqui temos um silogismo, cuja conclusão é verdadeira. No raciocínio: no Brasil, todos têm seus direito respeitados; João da Silva é brasileiro; logo, João da Silva tem seus direitos respeitados no Brasil. Eis um silogismo, cuja conclusão é falsa, porque uma das premissas, a maior, é falsa. Assim é a propaganda eleitoral gratuita: plena de falácias, cheia de engodos, verdadeiramente grávida de mentiras.

A propósito, lembra-me a figura de um ex-governador boquirroto e de língua solta. Durante a campanha não regateava ele promessas de toda sorte. Eleito, soube que os médicos no Ceará estavam em greve. Perguntado sobre como ia resolver o impasse, sorriu e, na sua linguagem destampada e estúpida, disse de maneira cínica: “Nenhum problema. Médicos são como sal, branquinhos e se encontram em qualquer lugar”. A esta conclusão chegou ele, construindo uma metáfora desgraciosa, embutida em premissas falsas. Haverá sempre necessidade de médicos e profissionais da saúde. No entanto o ex-governador de língua afiada foi infeliz, mas manteve sua prepotência, hoje mais atenuada pelas respostas que o eleitor lhe vem dando ao longo do processo político. Aliás, fez ele parte de um grupelho de coronéis, que combatiam coronéis, e costumava assestar seus projetos em ridículos slogans de Governo das Mudanças. Essa premissa nunca chegou a nenhuma conclusão positiva, pois o Ceará continua com os mesmos vícios, a mesma miséria e a mesma penúria na área do social. Se se fez alguma mudança, certamente estas beneficiaram tão só a classe política e os grupos empresariais que dão sustentação às campanhas. Veja-se que o governo atual do estado do Ceará procedeu a licitação em que a população pagará por mês a modesta quantia de R$ 450.000,00 (quatrocentos e cinquenta mil) reais para que o governador e sua tropa de apaniguados sobrevoem, pra lá e pra cá, os céus de todo o mundo em avião dotado de todo luxo e conforto: ar condicionado e outros bichos... Enquanto isso, a educação pública vai de mal a pior, basta ver as estatísticas; a saúde encontra-se entregue às baratas; a segurança resume-se na propaganda de uma tal Ronda do Quarteirão: policiais embonecados em fardas feitas sob medidas, a bordo de camioneta Hilux, passeando todos pimpões nas ruas inseguras de Fortaleza. Enquanto isso, parar em semáforos é correr o risco de ser assaltado ou morto. Sair de casa é expor-se à sanha de bandidos, que se apoderam dos bens do incauto e ainda os humilham chamando-os de vagabundos. O mais coerente para a população é manter-se em casa e não arriscar sua vida. A coisa chega a ser engraçada; especialistas em segurança pública vão aos meios de comunicação de massa para aconselhar as pessoas como se comportar. Ora, isso também é um sofisma, pois o tributo que se paga deve ter por destinação assegurar, sem nenhum favor, não só segurança mas também meios de que todos vivam suas vidas com um mínimo de dignidade... O problema é a linguagem... A propósito, há uma propaganda dos Tribunais Eleitorais que encerram uma conclusão incontestável; VOTO É CONSEQUÊNCIA... Que premissas antecedem tal conclusão?  Ei-las: todo cidadão delega poderes a representantes para legislar e para administrar a comunidade; logo, sua escolha redundará em consequências que seus olhos logo, logo, testemunharão.

Por outro lado, se o voto se atrela a outros interesses que não ao bem comum, fim maior da participação sincera de todos, as consequências nunca satisfarão a expectativa de todos, mas surtirão como tumores e purulências de toda ordem na dinâmica social.

Por fim, é bom precatar-se com os sofismas em que os candidatos costumam pendurar-se. De regra, os sorrisos, os gestos a musiquinha, os braços em forma de ele e punhos fechados demonstrando força nos bons propósitos, bem como a presença de políticos de reputação duvidosa nos palanques eletrônicos para apoiar candidatos, não devem servir de premissa verdadeira, porque eles, com raras e honrosas exceções, são mentirosos como o boneco Pinóquio. Suas promessas devem ser vistas como as histórias de Trancoso ou os “causos” contados por vaqueiros e caçadores, os quais, conforme a sabedoria popular, aumentam sempre noventa e nove pontos no que contam.

 

Para chegar a conclusões que se aproximem daquelas consequências a que alude a propaganda dos Tribunais Eleitorais, é de bom alvitre fugir ao rio caudaloso das mentiras e falsas promessas de palanques eleitorais e santinhos, meras falácias, e recorrer ao silêncio da consciência. Daí, as consequências advirão, certamente, alvissareiras.

A propósito, como a programação televisiva anda muito carente de humor negro, o horário da propaganda eleitoral gratuita é um bom prato para quem desejar extrair das entrelinhas material para rir a bandeiras despregadas. Pena que seja só por poucos dias...

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012


SOMOS CORRUPTOS

                                    Hugo Martins

 

 

               Não sei se existe um remédio específico para essa “doença”, que acomete a população brasileira desde que Dom João VI aqui deu com os costados, fugindo como cachorro assustado da sombra ameaçadora de Napoleão Bonaparte. Claro que, antes, quando Pedro Álvares Cabral, historicamente, tropeçou no Brasil, já trazia esse almirante luso das terras da Europa algum vírus de corrupção. Só que aquele rei criou o Banco do Brasil para pilhar seus recursos e lastro a fim de sustentar o número gigantesco de ociosos da imensa corte e, ao mesmo tempo, comprar-lhes a consciência. A voracidade sobre o tesouro foi tamanha, que aquela instituição financeira cedo foi à bancarrota. Quer dizer, corrupção é algo que se entranha na alma por lento processo histórico. Basta olhar para a classe política partidária, useira e vezeira na arte de corromper e ser corrompida. Mas não só nesse ambiente sujo prolifera a corrupção. Vai ela mais longe, estando, paradoxalmente, muito próxima de cada de cada um de nós.

            Ser corrupto é ser ou estar podre ou estragado, adjetivos extensivos a coisas e homens. Sobre as primeiras, ela se manifesta pelas intempéries, pela a ação corrosiva do tempo. Sobre os últimos, infiltra-se no espírito pelos processos educacionais, repassados pela família, pela escola e pelo discurso ideológico e subliminar de grupos sociais, cuja fala persuade os ingênuos e descerebrados a adotar comportamentos e visões de mundo.

            A corrupção não se enxerga apenas no insultante mensalão em que figurões da política posam de bandidos; também não se encontra ela nos festins dos jogos de influência; tampouco na pilhagem do dinheiro público, levada a efeito por lobos vorazes, que consideram a população como um rebanho de dóceis cordeiros, facilmente tangido pelo cajado da narcotização discurseira. Ela vai mais longe e pode ser encontrada como mercadoria suja nas diversas relações sociais.

            Somos corruptos quando recebemos um troco a mais e nos regozijamos de haver levado vantagem na coisa, malgrado o prejuízo causado a terceiros. Somos corruptos quando deixamos que o lojista se apodere de nossos centavos, temendo sofrer críticas dos circunstantes, quando, na verdade, aquele sujeito invade nosso direito à propriedade. Argumento: não é de bom tom “brigar” por ninharias. Somos corruptos quando, espreitando a prova do colega na carteira ao lado, pensamos estar enganando alguém, quando, na verdade, o enganado é o “pescador”. Somos corruptos quando elegemos o lema “o mundo é dos espertos” ou, quando, recorremos a meios ilícitos para auferir alguma vantagem e bradamos: “chapéu de otário é marreta”. Somos corruptos quando vendemos nossa consciência política, vendendo nosso voto por carradas de tijolos, por quantias de dinheiro ou promessas de empregos futuros caso o candidato seja eleito. Somos corruptos quando, diante de uma tarefa escolar, que devemos elaborar com nosso esforço, recorremos à prodigalidade de informações, nem sempre verdadeiras, da Internet e, num simples toque de botões, CtrlC+CtrlV, furtamos o autor da informação e pensamos estar enganando o professor. Nesse caso, somos três vezes corruptos, pois, além daqueles atos desonestos, estamos enganando a nós mesmos. Em outras palavras, somos corruptos toda vez que vendemos nossa alma por momentos vãos de uma falsa e transitória satisfação. É a corrupção doença. Não se sabe se está inscrita no CID, código bem conhecidos dos que lidam com problemas da saúde...

            É possível haver antídoto para esses envenenamentos da alma. Pensadores, do alto de sua sapiência, não transigem e dizem, peremptoriamente, ser a educação o mais eficiente remédio para combater esse mal que corrói e destrói civilizações.

 O Brasil parece alcançar proeminente posição no rol de países em que a corrupção é regra. Lamentável encontrar e abalroar cada esquina com um canalha. Triste participar de grupos sociais em que a corrupção se espraia como gafanhotos na lavoura. Triste sina a de um país que pode não ser bem sucedido em competições esportivas internacionais, mas é sempre grande vencedor quando se trata de miséria, fome, ladroeira, falta de decoro, imoralidade e desrespeito aos direitos humanos mais comezinhos, sobretudo quando se diz ser este país uma entre as dez maiores potências econômicas do mundo.

            É...  Não há motivo de alguém se orgulhar de ser brasileiro. Mais coerente e sincero, diria o filósofo: “Eu tenho vergonha de ser brasileiro.”

           

           

segunda-feira, 27 de agosto de 2012


O ZÉ

                                     Hugo Martins

 

            A pequena chácara. Lua quase morta. Um só breu. No alpendre, muita conversa, risos, brincadeiras, anedotas. Em meio à mata, em frente à casa, escuridão, fru-fru das palhas do velho coqueiro. Pios de caburé. Súbito, um grito, um susto, risos esganiçados. Três jovens, entregues a folguedos, brincavam com coisas do além. Falou-se no Zé. Quem seria? Por que foi invocado se ali não se encontrava? Certamente uma ficção. O certo é que, naquele momento, naquela noite fria e silente, era invocado. Seu semblante e sua silhueta, certamente, desenhavam-se no espírito de cada uma do grupo. Talvez fosse alto e desengonçado, ar sombrio de pouca conversa, que se esgueirava por entre o bananeiral onde ninguém, àquela hora soturna, atrevia-se a se embrenhar. A voz, quem sabe, fosse tonitruante de causar medo, e os cabelos longos e revoltos emoldurassem a catadura impassível, em que se espraiavam rugas fundas, cortadas, por várias cicatrizes, que lembravam navalhadas. As vestimentas, esmolambadas, davam-lhe o ar de náufrago. As mãos eram medonhamente grandes e marcadas por veias proeminentes. Estava descalço. Os pés enormes de unhas maltratadas estavam cobertos de uma lama pegajosa que parecia estar ali fazia tempo. Mas o Zé ali não estava. A não ser na imaginação de quem ouvia a voz soturna de uma moçoila, que, escondida numa coluna, subitamente, surgia e proferia soturnamente:

            Eu sou o Zé!

            Tudo brincadeira para preencher o tempo curtido no alpendre depois do jantar. Enquanto a dona da casa daquele sítio e o marido, balançando-se numa rede, folheavam livros e comentavam, aqui e ali, uma passagem interessante estampada nas páginas, as meninas riam muito. A noite avançava indiferente ao fiapo de lua, que, bailando no céu, espalhava tênues raios de luz nas copas das árvores, que se arrepiavam pelo sopro frio do sussurrar do vento.

            Vez e outra, ouvia-se:

            Eu sou o Zé!!

            A risadaria surdia estremecida, sempre seguida de um pedido:

            - Para. Não gosto dessas brincadeiras. Elas me metem medo quando vou me recolher para dormir.

            O frio recrudesceu, e o vento, insistentemente, soprava com mais força, balançando a varanda das redes. Por fim, o tiritar mordente obrigou todos ao recolhimento tépido dos lençóis. Já passava da meia-noite.

            As velhas fechaduras ringiam à medida que as portas se iam fechando uma a uma. Lá fora o sibilar do vento e o pipilar melancólico dos caburés em meio ao silêncio cavo da noite escura. Apagaram-se as lâmpadas da grande sala. Agora, bom mesmo era dormir. O casal se metera sob o grande edredão da cama larga. As meninas também foram para suas alcovas. Duas ocuparam o mesmo quarto e se encostaram uma à outra como se o contato dos corpos exorcizasse algum laivo de medo provindo da lembrança do Zé. A outra jovem se dirigiu para um terceiro quarto, cuja porta dava para o grande terreno em frente à casa, mal iluminado pela lâmpada que o vento movia para lá e para cá, provocando no roça-roça com a parede um ruído rascante. Lá fora só as vozes da noite. O som de uma motocicleta rasgou o silêncio. Ao longe, o latido de um cão solitário. O farfalhar da copa das árvores fazia contraponto com o pio soturno de rasga-mortalhas, anunciando maus agouros. Aos poucos, a casa mergulhava em profundo silêncio, quebrado apenas pelo ronronar de seus habitantes...

            Súbito, um bate-bate alucinante de uma porta despertou a jovem que se trancara. Justamente a porta que ela fechara com o ferrolho enferrujado... Do outro lado do corredor, outra porta começou a bater numa espécie de estonteante frenesi. Quem àquela hora estaria fazendo tais peraltices? Uma voz ecoou de um dos quartos:

            - Mãeeeeeeeee?!

            No mesmo tom, outra voz espavorida gritou:

            - Paiiiiiiiiiiiiiiii?!!

            O silêncio persistia. Súbito, como se estivessem todos presos por um conluio, deixaram seus quartos e correram para a sala, tratando de acender a lâmpada presa à telha-vã. A porta da sala, conjugada à cozinha, que dava para o quintal, parecia falar. Dela vinha uma espécie de gemido. Alguém certamente estaria ali... Seria o Ze?

            A menina magricela de cabelos longos estreitou-se à mãe. As outras duas se entreolhavam como a se perguntar o que poderia ser. Finalmente, todos se armaram de facas, facões foices e pedaços de lenha que dormitavam sob o fogão e resolveram, a medo, abrir a porta que tremelicava pelos açoites do vento. Ninguém. Só as rajadas do vento gélido. As almas só não ficaram mais aliviadas porque, de repente, uma voz professoral anunciou:

            - Eu não sou o Zé. Eu não sou ninguém. Sou o eco da imaginação de cada um. Venho das priscas eras adormecidas do inconsciente. Habito os sonhos, os temores e as alucinações das sombras e dos ruídos da noite. Eu sou o desconhecido.  Eu sou o medo.

             

           

 

segunda-feira, 20 de agosto de 2012


 O GURU XV

                                                       Hugo Martins



            Escrevi a Ridendo Sic, perguntando-lhe se, para produzir alguma coisa com aparência de texto, o sujeito precisa escorar-se em alguma “inspiração.” Hoje recebi carta sua. Aí vai o que ele pensa.

            “Bom dizer que, se se trata de criação literária, existem dois tipos de escritor: de um lado, o da inspiração; de outro, o da transpiração. No rol dos primeiros, inscreve-se o poeta pernambucano Manuel Bandeira. Em suas memórias, Itinerário de Pasárgada, confessa haver perdido muitos versos, pois, quando assediado pela inspiração, em situações insólitas, não dispunha de uma caneta ou lápis. Na mesma obra, invoca o fato de, certa ocasião, estar lendo a Ciropédia (obra sobre a Pérsia) e ter a alma invadida por uma vontade incontrolável de pôr termo à vida, rabiscar o verso “Vou-me embora pra Pasárgada” e nada mais sair. Só depois de sete anos, experimentando a mesma sensação, o restante do poema saltou-lhe do espírito em borbotões. Ressalte-se que inspiração não deve ser vista como resultado de dores corriqueiras do cotidiano, é necessário ter e saber o que dizer. O sujeito deve, como diz Drummond, andar armado com palavras para não incidir no equívoco daquele que verseja “por dor de cotovelo, falta de dinheiro ou momentâneas tomadas com as forças líricas do mundo”. No segundo rol, encontra-se o também pernambucano João Cabral de Melo Neto, que deixava nas entrelinhas a regra “dê-me o tema que eu faço o poema”. É o poeta de gabinete, da oficina a que se refere Bilac no soneto A um Poeta.

            Tanto na poesia quanto na prosa, porém, o escritor costuma promover mondas ao texto. Cortar palavras, desentortar frases, acrescentar, reescrever passagens até que o espírito se sacie do ato criativo. Eça de Queirós dizia reescrever páginas e mais páginas mais de cinco vezes. Para apurar o estilo, Balzac respondia, de punho próprio, a todas as cartas enviadas por seus leitores. É a síndrome do perfeccionismo comum aos bons escritores...

            No entanto, quando se trata da feitura de texto sem preocupações estéticas, não se faz necessário nenhum tipo de inspiração. Basta a reflexão, a disciplina intelectual, o ter o que dizer, o cuidado a atenção à clareza, à precisão, à propriedade vocabular e, por último, enxotar a preguiça e lançar-se à obra com todo denodo.

            Engana-se quem diz ser tarefa difícil escrever um texto. Difícil mesmo é convencer-se de que o escrever supõe o ler. São atos que se supõem. Com a leitura, o indivíduo vai se assenhoreando das acontecências da vida e se familiarizando com os torneios sintático-semânticos, sempre recorrendo ao dicionário para desvendar sentidos e grafias vocabulares. O escrever é comparável ao ato de quem pretende andar de bicicleta. Depois de vacilações, medos e quedas, o sujeito vai, aos poucos adquirindo a coragem de enfrentar a solidão da folha em branco e, com o tempo, passa a dominar um modo próprio, a ser dono de um estilo.

            Considero a leitura ou a redação de um texto atividades mais temerárias que resolver um problema de matemática. O visgo das palavras, as intenções que se escondem por trás delas, o destrinçar de um texto, o arrumar as palavras no ordenamento sintático a fim de que traduzam o que mais se aproxima do que pretende  dizer, é tarefa dolorosa e que requer muito esforço e amor à leitura. A propósito lembro um livro de Othon M. Garcia- Comunicação em Prosa Moderna-, com o subtítulo Aprenda a Escrever Aprendendo a Pensar. Livro de cabeceira para todo aquele que deseja aventurar-se no ato de escrever. Não se trata de manual inédito sobre o assunto. Obra séria a que recorre todo aquele que lida com a faina de redigir e extremamente útil a quem deseja garatujar folhas de papel com algum sentido e alguma correção.

            Aliás, considero desnecessário o “ensinamento” de professores de redação. Não se ensina ninguém a escrever por meio de fórmulas nem por intermédio de regrinhas de acentuação gráfica e do sistema ortográfico em vigor. Necessário: ler, pensar e escrever. O mais não passa se conversa fiada.

            Não me consta que os grandes escritores e redatores da língua tenham sido excelentes alunos da língua portuguesa. Foram, antes de tudo, empedernidos leitores.

            Após a leitura da missiva, meditei e nada pude acrescentar algo de novo àquelas idéias... Lembrei, porém de duas frase lapidares; uma de Monteiro Lobato e outra de Castro Alves, que transcrevo, por ordem:

            “Um país se faz com homens e livros”

            “Bendito o que semeia livros, livros a mancheia, e manda o povo pensar.”