DATAS
Hugo Martins
Dediquei o
dia a ouvir música lírica. Visitei Albinoni, ouvindo seu Adágio; mergulhei
fundo na Serenata ao Luar, viajando no tom plangente nos acordes do piano de
Rubinstein. Depois, mudei de rota e procurei Franz Schubert e curti-lhe a
Serenata. Por fim, fui ao Largo de Xerxes e ouvi as Lamentações de Thaís.
Nessas horas,
a alma parece subir às alturas, procurando se desvencilhar da dureza do
cotidiano, aceita o Convite à Viagem, de Charles Baudelaire, e se deixa levar
ao etéreo, ao intangível, ao metafísico. Nessa ânsia louca, rende-se o espírito
à reflexão enquanto a tarde “cai silente e fria.”
Houve um
momento, em que a emoção era tamanha, que tive que me conter para impedir um
dilúvio de lágrimas, que teimavam em escorrer, tépidas, nos sulcos de meu rosto
já marcado pela ação deletéria e silenciosa do tempo.
Súbito, me
vem à mente a figura grave de minha mãe. Olho seu rosto, em que repousa um par
de óculos de grossas lentes e leio nos seus lábios finos um ar de desencanto
com a vida, embora suportando-a asceticamente como um estóico empedernido.
Trajava um vestido simples de cor azul e achava-se sentada numa
espreguiçadeira, com o braço direito levemente apoiado no espaldar. Sempre trago
gravada na lembrança a maneira como minha mãe se movia dentro de casa. Às
vezes, surpreendia-a com as mãos entrelaçadas, girando os polegares e absorta
em pensamentos que, talvez, avaliassem se valeu a pena do viver. Da minha
parte, penso que, apesar dos contratempos e sofrimentos, enfrentou os
dissabores da vida com altivez e coragem. No dia 9 de setembro de 1990,
deixou-nos, nós, os dez órfãos adultos...
Nunca visito
seu túmulo. Ela não está ali. Está nas lembranças dos filhos. Por onde anda não
sei embora me visite quase diariamente. Sua imagem nunca me chega falseada. É a
mesma mulher de têmpera de aço, que repassou para os filhos a virtude de não
tropeçar nos jogos sujos da vida, bem como a voracidade pela leitura. É outra
imagem que dela tenho: deitada numa rede, os óculos na ponta do nariz e
absorvida na leitura de algum livro...
Não tenho
saudades dela. Não há razão para isso, pois ela está sempre comigo. É minha
heroína, ninguém com ela concorre. É meu modelo, minha inspiração, meu maior
arquétipo. Minha mãe não me espera a visita em dias preestabelecidos. Vive sua
condição, vivo eu a minha.
A música de
Bach me tira das reflexões. Por um instante, numa espécie de transe, senti
minha mãe por trás de meus ombros a espreitar o que dedilho na superfície
branca da tela do computador. Digo, de mim para mim: será que está a me
corrigir os tropeços na língua como costumava fazer quando me ensinava as
primeiras letras? Ou estaria a antegozar a homenagem que ora lhe faço, em cujas
entrelinhas se lê a advertência de que não existe um dia específico para se
homenagear as mães que habitam o sobrenatural? Afinal o amor filial na tem hora
marcada, manifesta-se sempre que a luz do amor e da gratidão sopra no coração
de cada um... E isso faço agora...
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