DO JEITO QUE A VIDA QUER
Hugo Martins
A locução
“big brother” foi usada literariamente, pela primeira vez, pelo escritor George
Orwell no romance 1984, obra escrita em 1948, que denunciava a ingerência do
Estado na sua sempiterna tarefa de monitorar a vida do cidadão, sobretudo após
o pós-guerra, com o vertiginoso desenvolvimento dos aparatos tecnológicos. Por
certo, o romance é marcado por um tom político, denunciando a vigilância sob a
qual submerge o homem - quer queira, quer não - nas teias trágicas de manobras,
engendradas pelo “grande irmão”.
Não é
à toa que todos, indistintamente, têm seus dados de identificação retidos em arquivos
e em outras misteriosas instâncias que nem o diabo desconfia... E o pior:
muitos nem mesmo têm consciência desse drama. Quando o cidadão esposa uma opinião, assume um
gosto, elege comportamento, aplaude atitudes e mitifica pessoas, não desconfia
de que foi, silenciosamente, influenciado pelas tramas diabólicas das teias
engendradas pelo “big brother.” Até aí nada demais. Alguém diria tratar-se de
ciência política adotada pelo Estado em benefício (?) de todos. Por que não
aventar a hipótese de que a coisa possa significar lucro para poucos, advindo
da indiferença de muitos?
Hoje,
por exemplo, edita-se um novo “Big Brother”. De pouco adianta protesto,
abaixo-assinados e outros protestinhos, pois o programa alcança audiências
inimagináveis. Quer dizer: a onda de protesto, entretecida por alguma mente
superior, conhecedora da ingenuidade das massas, nada mais é que uma forma de
induzir os ingênuos, que, por terem os olhos fechados, não enxergam a trapaça e
se colocam, pontualmente, à frente da “máquina de fazer” a fim de acompanhar
tudo que se passa num ambiente previamente preparado como uma espécie de teatro
de tablado.
Em
que consiste a pantomima? Amontoa-se, nesse teatro um grupo de cretinóides,
todos exercendo um papel mal interpretado e previamente definido num “script”,
acompanhados por um mentor global, que entremeia comportamentos e atitudes a
fim de mais e mais espicaçar a curiosidade doentia do “televidiota”. Passadas
algumas semanas, sairá um “vencedor”, que abocanha um prêmio retirado dos
milhares de telefonemas, que fazem as vezes de zona eleitoral. O maior
ganhador, porém, é a emissora televisiva e patrocinadores, bem ciente de que
nesta vida tem bobo pra tudo.
Os
episódios ali encenados, de regra, retratam conversas e sussurros, em que se
apregoam, subliminarmente, a tramóia, a deslealdade, a falta de decoro e o
desrespeito à pessoa humana. Para apimentar as relações entre os “artistas”,
põem-se às claras cenas de nudez, sensualismo barato e jogos amorosos em que
predomina a mais vã patifaria, concorrente dos episódios de Sodoma e Gomorra e
das cenas picantes de filmes
pornográficos.
Não
resta dúvida: o programa é pedagógico, informa, forma e serve de lazer a todos
que demonstram algum pendor para o desenvolvimento moral, político e
intelectual.
Da
minha parte, deixarei ao léu os textos latinos em que venho ultimamente
mergulhando. Não me esquecerei, também, de deixar de lado a grande literatura
e, até mesmo, o hábito de escrevinhar textos. Para quê? A que leva essa
bobagem? Só traz alienação. Ninguém me impedirá da doce apreciação estética que
me proporcionará o “big brother”. Hoje mesmo estou a postos. Você, que finge
indiferença ao programa, está convidado a engrossar o cordão daqueles que, com
ar de idiota, não desgrudarão o olho da tela... Vale a pena.