terça-feira, 8 de janeiro de 2013


DO JEITO QUE A VIDA QUER

                                          Hugo Martins

            A locução “big brother” foi usada literariamente, pela primeira vez, pelo escritor George Orwell no romance 1984, obra escrita em 1948, que denunciava a ingerência do Estado na sua sempiterna tarefa de monitorar a vida do cidadão, sobretudo após o pós-guerra, com o vertiginoso desenvolvimento dos aparatos tecnológicos. Por certo, o romance é marcado por um tom político, denunciando a vigilância sob a qual submerge o homem - quer queira, quer não - nas teias trágicas de manobras, engendradas pelo “grande irmão”.

            Não é à toa que todos, indistintamente, têm seus dados de identificação retidos em arquivos e em outras misteriosas instâncias que nem o diabo desconfia... E o pior: muitos nem mesmo têm consciência desse drama.  Quando o cidadão esposa uma opinião, assume um gosto, elege comportamento, aplaude atitudes e mitifica pessoas, não desconfia de que foi, silenciosamente, influenciado pelas tramas diabólicas das teias engendradas pelo “big brother.” Até aí nada demais. Alguém diria tratar-se de ciência política adotada pelo Estado em benefício (?) de todos. Por que não aventar a hipótese de que a coisa possa significar lucro para poucos, advindo da indiferença de muitos?

            Hoje, por exemplo, edita-se um novo “Big Brother”. De pouco adianta protesto, abaixo-assinados e outros protestinhos, pois o programa alcança audiências inimagináveis. Quer dizer: a onda de protesto, entretecida por alguma mente superior, conhecedora da ingenuidade das massas, nada mais é que uma forma de induzir os ingênuos, que, por terem os olhos fechados, não enxergam a trapaça e se colocam, pontualmente, à frente da “máquina de fazer” a fim de acompanhar tudo que se passa num ambiente previamente preparado como uma espécie de teatro de tablado.

            Em que consiste a pantomima? Amontoa-se, nesse teatro um grupo de cretinóides, todos exercendo um papel mal interpretado e previamente definido num “script”, acompanhados por um mentor global, que entremeia comportamentos e atitudes a fim de mais e mais espicaçar a curiosidade doentia do “televidiota”. Passadas algumas semanas, sairá um “vencedor”, que abocanha um prêmio retirado dos milhares de telefonemas, que fazem as vezes de zona eleitoral. O maior ganhador, porém, é a emissora televisiva e patrocinadores, bem ciente de que nesta vida tem bobo pra tudo.

            Os episódios ali encenados, de regra, retratam conversas e sussurros, em que se apregoam, subliminarmente, a tramóia, a deslealdade, a falta de decoro e o desrespeito à pessoa humana. Para apimentar as relações entre os “artistas”, põem-se às claras cenas de nudez, sensualismo barato e jogos amorosos em que predomina a mais vã patifaria, concorrente dos episódios de Sodoma e Gomorra e das  cenas picantes de filmes pornográficos.

            Não resta dúvida: o programa é pedagógico, informa, forma e serve de lazer a todos que demonstram algum pendor para o desenvolvimento moral, político e intelectual.

            Da minha parte, deixarei ao léu os textos latinos em que venho ultimamente mergulhando. Não me esquecerei, também, de deixar de lado a grande literatura e, até mesmo, o hábito de escrevinhar textos. Para quê? A que leva essa bobagem? Só traz alienação. Ninguém me impedirá da doce apreciação estética que me proporcionará o “big brother”. Hoje mesmo estou a postos. Você, que finge indiferença ao programa, está convidado a engrossar o cordão daqueles que, com ar de idiota, não desgrudarão o olho da tela... Vale a pena.

               

           

           

DIREITOS HUMANOS

                                       Hugo Martins

 

            É comum, não só nas redes sociais, falar-se que “os direitos humanos” devem ser banidos de nossa vida jurídico-social. A nosso ver, o equívoco se prende ao fato singular de algumas pessoas sapecarem na locução uma espécie de personificação. E, assim, advogam a tese de que “os direitos humanos” devem ser agentes consoladores de quem sofreu alguma consequência da sociedade violenta de que participam. Parece-nos a nós que os Direitos Humanos constituem uma carapaça jurídica, no corpo das Constituições dos estados democráticos de direito, que rechaça toda e qualquer violência aos direitos de todos. Desse modo, eles se inserem no corpo da Carta Política, quando os povos experimentaram, no devir histórico, a violência, os absurdos e a tirania das ditaduras. Estas, a primeira coisa que fazem, depois de instaladas, é suprimir ou anular os direitos e garantias individuais. Desse modo, suprimem o direito de pensar; amordaçam a arte; espalham o medo; quebram e arrebentam quem ousar ir de encontro à nova ideologia. O exemplo mais recente, no Brasil, foi a “revolução” que aqui se instaurou durante vinte e um anos. Durante esse período negro e de maus ventos, o povo brasileiro sofreu toda espécie de enxovalhos e humilhações, sofrimento que se procurava amenizar com os aparelhos ideológicos do Estado a que se refere pensandor francês Louis Althusser. O “o milagre brasileiro”, ideia propalada, à época, pelos meios de comunicação de massas, a mágica do futebol, o feitiço do carnaval, os filmes mitificadores de figuras históricas, as novelas burrificantes e “os grandes feitos” dos ditadores, tudo isso, em colaboração com a alienação reinante, é prato feito para que o povão sofra os enxovalhos e permaneça narcotizado por essas drogas, ministradas em doses homeopáticas... O ditador detesta os Direitos Humanos... É proibido pensar... Eis a tragédia, eis as opiniões costuradas e ingênuas e, de regra, absorvidas pelo emocionalismo barato e chocante.

            O axioma cartesiano do “Cogito ergo sum” (Penso, logo existo) convida a que as pessoas sobre ele reflitam e descubram nas suas entranhas que a primeira coisa que o ditador providencia é castrar aquilo que no homem é essencial: a razão. Aniquilar esta é retirar do homem sua própria razão de ser. Daí, a necessidade de uma boa digestão mental daquilo que absorvemos no que estudamos e no que lemos. Só assim, o pensamento lógico se instaura, e o real se nos revela com mais luz, conforme sugere Platão no conhecido texto sobre a caverna. Aliás, o pensador grego faz a diferença essencial entra dogma e epistéme. O primeiro não passa de mera opinião sem fundamento; a segunda aponta para o pensamento científico. Entre uma e outra há um abismo monstruoso, que provoca, na primeira margem, mortes na alma ou silêncios inexplicáveis. Os chamados Direitos Humanos não podem se render aos argumentos da violência pela violência. Quem deve promover a segurança do cidadão é a maltratada polícia; quem deve levar consolo aos que sofrem pela perda de um ente querido é a própria família, padres, pastores e carpideiras. Os direitos humanos vão além disso, sua missão tem caráter global, pois devem estar voltados para a humanização, a pacificação, a educação (ou palavrinha tão evocada e tão esquecida).

            Embora seja o Brasil um país leigo, em outras palavras, não adota religião alguma, mas inscreve, na Constituição, a liberdade de culto, as pessoas se mostram muito religiosas e pias. Isso é bonito, isso é louvável. Contraditoriamente, desconhecem a essência cristã dos direitos humanos. As duas Declarações de Direitos mais conhecidas, a surgida após a Revolução Francesa, bem como a de 1948, estão recheadas do pensamento do Cristo. Os setenta e oito incisos e os quatro parágrafos do art. 5º da Constituição de 1988 não fogem à regra, pois estão inspirados nas lições do Nazareno. A supressão dos direitos humanos constituir-se-ia na recrucificação do Homem, daquele sujeito manso, tão propalado, tão invocado nas assembleias cristãs, e tão incompreendido e tão maltratado pela incoerência nossa de cada dia.

            Il faut que chacun cultive son jardin” (É necessário que cada um cultive seu jardim). Voltaire assim fecha o romance Cândido ou do Otimismo... Quem quiser que interprete a frase. Ou leia o romance... Que os deuses do Olimpo evitem que alguém sofra dor de cabeça na empreitada...