DIREITOS HUMANOS
Hugo Martins
É
comum, não só nas redes sociais, falar-se que “os direitos humanos” devem ser
banidos de nossa vida jurídico-social. A nosso ver, o equívoco se prende ao
fato singular de algumas pessoas sapecarem na locução uma espécie de
personificação. E, assim, advogam a tese de que “os direitos humanos” devem ser
agentes consoladores de quem sofreu alguma consequência da sociedade violenta
de que participam. Parece-nos a nós que os Direitos Humanos constituem uma
carapaça jurídica, no corpo das Constituições dos estados democráticos de
direito, que rechaça toda e qualquer violência aos direitos de todos. Desse
modo, eles se inserem no corpo da Carta Política, quando os povos
experimentaram, no devir histórico, a violência, os absurdos e a tirania das
ditaduras. Estas, a primeira coisa que fazem, depois de instaladas, é suprimir
ou anular os direitos e garantias individuais. Desse modo, suprimem o direito
de pensar; amordaçam a arte; espalham o medo; quebram e arrebentam quem ousar
ir de encontro à nova ideologia. O exemplo mais recente, no Brasil, foi a
“revolução” que aqui se instaurou durante vinte e um anos. Durante esse período
negro e de maus ventos, o povo brasileiro sofreu toda espécie de enxovalhos e
humilhações, sofrimento que se procurava amenizar com os aparelhos ideológicos
do Estado a que se refere pensandor francês Louis Althusser. O “o milagre
brasileiro”, ideia propalada, à época, pelos meios de comunicação de massas, a
mágica do futebol, o feitiço do carnaval, os filmes mitificadores de figuras
históricas, as novelas burrificantes e “os grandes feitos” dos ditadores, tudo
isso, em colaboração com a alienação reinante, é prato feito para que o povão
sofra os enxovalhos e permaneça narcotizado por essas drogas, ministradas em
doses homeopáticas... O ditador detesta os Direitos Humanos... É proibido
pensar... Eis a tragédia, eis as opiniões costuradas e ingênuas e, de regra,
absorvidas pelo emocionalismo barato e chocante.
O
axioma cartesiano do “Cogito ergo sum” (Penso, logo existo) convida a que as
pessoas sobre ele reflitam e descubram nas suas entranhas que a primeira coisa
que o ditador providencia é castrar aquilo que no homem é essencial: a razão.
Aniquilar esta é retirar do homem sua própria razão de ser. Daí, a necessidade
de uma boa digestão mental daquilo que absorvemos no que estudamos e no que
lemos. Só assim, o pensamento lógico se instaura, e o real se nos revela com
mais luz, conforme sugere Platão no conhecido texto sobre a caverna. Aliás, o
pensador grego faz a diferença essencial entra dogma e epistéme. O primeiro não
passa de mera opinião sem fundamento; a segunda aponta para o pensamento
científico. Entre uma e outra há um abismo monstruoso, que provoca, na primeira
margem, mortes na alma ou silêncios inexplicáveis. Os chamados Direitos Humanos
não podem se render aos argumentos da violência pela violência. Quem deve
promover a segurança do cidadão é a maltratada polícia; quem deve levar consolo
aos que sofrem pela perda de um ente querido é a própria família, padres,
pastores e carpideiras. Os direitos humanos vão além disso, sua missão tem
caráter global, pois devem estar voltados para a humanização, a pacificação, a
educação (ou palavrinha tão evocada e tão esquecida).
Embora
seja o Brasil um país leigo, em outras palavras, não adota religião alguma, mas
inscreve, na Constituição, a liberdade de culto, as pessoas se mostram muito
religiosas e pias. Isso é bonito, isso é louvável. Contraditoriamente,
desconhecem a essência cristã dos direitos humanos. As duas Declarações de
Direitos mais conhecidas, a surgida após a Revolução Francesa, bem como a de
1948, estão recheadas do pensamento do Cristo. Os setenta e oito incisos e os
quatro parágrafos do art. 5º da Constituição de 1988 não fogem à regra, pois
estão inspirados nas lições do Nazareno. A supressão dos direitos humanos
constituir-se-ia na recrucificação do Homem, daquele sujeito manso, tão
propalado, tão invocado nas assembleias cristãs, e tão incompreendido e tão
maltratado pela incoerência nossa de cada dia.
“Il faut que chacun cultive son jardin”
(É necessário que cada um cultive seu jardim). Voltaire assim fecha o romance
Cândido ou do Otimismo... Quem quiser que interprete a frase. Ou leia o
romance... Que os deuses do Olimpo evitem que alguém sofra dor de cabeça na
empreitada...
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