terça-feira, 30 de dezembro de 2014

FELIZ ANO NOVO: SORRIA (2)
                                                   Hugo Martins

Ele não é rápido, ele não anda devagar. Não há nem mesmo a certeza de que ele exista. A maior ou menor intensidade de seu deslocamento depende de quem com ele está lidando. Épocas há que ele não assume importância alguma; em outras, porém, quando você, meu amigo ou minha amiga, começa a abrir os olhos e perceber que tudo não passou de vã ilusão, então você começa a pôr as barbas de molho.
Ele pisa macio. Suas sandálias são silenciosas, não fazem sequer um ruído. É hoje? É amanhã? Foi ontem? Para que as indagações se essas circunstâncias também não existem? Se o indivíduo não vai bem da bola? Se vive alheio à realidade ou perde a memória? Teria ele noção da passagem do tempo? O tempo é dinâmico ou estático? Vale a indagação porque o que existem são convenções fundamentadas em fenômenos físicos. Ainda assim, voluteia no ar um grão de intuição para apreender aqueles conceitos temporais. Essa discussão sobre a matéria tempo não vai dar em nada. Não tem, objetivamente, valor alguma. Seu interesse é nenhum. Que fique, pois com metafísicos e místicos. Que dela retirem pasto para reflexões. Assumem mesmo máxima importância as conseqüências que dela advém. Com efeito, são estas dolorosas. Mal é concebido o indivíduo já começa a morrer. Não é bom que ele perceba essa realidade crua. Deixe o tempo “passar”... De regra, como em tudo, todo começo são flores, na parêmia popular. Na infância, de regra, também, tudo é alegria, tudo é sorriso, tudo é ilusão. Enquanto o indivíduo vai levado pela corrente do tempo, fazendo projetos, atingindo metas e realizando sonhos, o tempo não interfere, continua correndo e a corrente seguindo. Eis que, súbito, o sujeito olha pra trás e começa a enxergar que a vida, “embora seja uma  aventura que valha a pena ser vivida”, o tempo começa a pesar-lhe nos ombros. As doenças do corpo e da alma fazem residência em você. A morte começa a ceifar, aqui e ali, seus entes queridos. “Os desenganos vão conosco à frente, e as ilusões vão ficando atrás.” As rugas começam a fazer desenhos no seu rosto tais tétricas e indeléveis tatuagens; o corpo se dobra, a plástica, antes impecável, cede lugar à flacidez, às estrias, e a alma cai, genuflexa, ante à evidência da certeza da mortalidade. Essa consciência dói. Tudo vai cair no esquecimento. Um dia se faz uma viagem, cujo destino é incerto: ou se mergulha nas trevas do nada ou se vai para regiões paradisíacas tanger liras na companhia de anjos, gozando a tal felicidade e o bem-estar que aqui não se encontra. Ter nascido do pó e a ele, necessariamente, voltar é realidade crua e inexpugnável.
Não há motivo para desespero.  Feliz Ano Novo.  A esperança é a última que morre; o amor é lindo e Jesus te ama.


FELIZ ANO NOVO: SORRIA.
                                         Hugo Martins

            À meia-noite do dia trinta e um de dezembro, as pessoas costumam desejar uma às outras um novo ano, diferente do anterior. Em meio aos votos, de regra, ungidos de muito álcool e do falso encantamento de queima de fogos e outros artifícios para embair os tolos, ouve-se toda espécie de fervorosos augúrios. A festividade, por evidente, é postiça, pois as mudanças ocorrem na interioridade de cada um e não se dão pelo desejo supérfluo e pouco sincero de terceiros... Virado o ano, nada muda: o mundo continua o mesmo, e as angústias cotidianas continuam sua sempiterna tarefa de dilacerar almas a atormentar os espíritos, maltratados pelo individualismo grosseiro e o egoísmo mórbido nosso de cada dia. Aconselhável, nesse dia, a leitura de O Eclesiastes, conteúdo perturbador, livro de cabeceira de Arthur Schopenhauer e Machado de Assis.
            A coisa começa pelo como pagar as dívidas, contraídas nos festejos natalinos; os calotes vêm à tona, pois muita gente, narcotizada pelos cruciantes e insidiosos comerciais, nem mesmo põe mais as mãos na cabeça, pois alimentam a certeza de que os comerciantes darão um “jeitinho” para resolver o problema, medida certa para manter em sôfrega atividade o exército desses consumidores compulsivos. Coisa aparentemente sem importância, mas que angustia, afinal dever os outros sem poder pagar, além de constituir descaramento sem igual, corrói a alma e priva o devedor contumaz e costumeiro de adquirir coisas que lhe vão apaziguar a alma pequena.
            No início do ano, surgem os fantasmas das despesas com material escolar, com o pagamento de tributos relativos à compra (em 60 meses) do carro, também comprado a duras penas, além do acerto com o IPTU e outros tributozinhos imperceptíveis, de cuja existência poucos desconfiam. A violência urbana não deterá sua marcha enquanto houver fome, miséria e descaso dos homens públicos; a injustiça social, mentora-mor das iniquidades, que revoltam os que enxergam, continuará livre e solta para o gáudio da classe política, muito satisfeita com a onda da alienação reinante.
            Como desejar, do mais fundo da alma, feliz ano novo num estado de coisas como esse? Enquanto nos refestelamos em mesas fartas, soltando beijinhos, sorrisos e abraços, lá fora há um clamor abafado, pedindo pelo menos um só dia novo, pleno de satisfação, no decorrer de um ano, que nada tem de novo.
            Bem andou Sêneca, filósofo romano, filiado ao estoicismo, quando, em carta, aconselhava o amigo Lucílio “a usufruir todas as alegrias”, a ele dizendo “que a verdadeira alegria não emerge da satisfação e de prazeres superficiais, mas de coisas profundas, de uma segurança transmitida por espírito sublime”.
            “Verum gaudium res severa est.”  Traduzindo: A verdadeira alegria é coisa séria.

           
             

             
SINTAXE E LEITURA
                                                                Hugo Martins
Transcrevamos o primeiro quarteto do poema Soneto de Fidelidade, da lavra do poeta, diplomata, compositor e boêmio Vinícius de Moraes. Muitos declamam todo o soneto de cor. Encantam-se com as palavras, deixam-se levar pela musicalidade da métrica e das rimas, mas não se sabe se estão entendendo o que leem. Sempre que levo esse texto à sala de aula, percebo que grande parte da turma não é capaz de transpor seus versos para a ordem direta. Como o texto está escrito em ordem inversa, aplicar a análise sintática para alcançar a compreensão do texto e a posterior interpretação é promover sua análise sem ter de recorrer a regras de atomização das frases e sapecar em cada termo determinada classificação. Basta colocá-lo na ordem direta. Pronto promoveu-se a análise.
Eis o quarteto, obedecida a pontuação gráfica utilizada pelo autor.

                                   De tudo, ao meu amor serei atento
                                   Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
                                   Que mesmo em face do maior encanto
                                   Dele se encante mais meu pensamento.
Pergunta-se: qual o primeiro termo da frase? Ora, esta frase obedece à lógica, apesar de aparentar não formar nenhum sentido. Comecemos, pleonasticamente, pelo começo: a partir de qual termo deve-se iniciar a leitura para se encontrar a ponta do fio da meada? Pronto, comecemos a aplicar as regras da sintaxe de colocação, de regência e de concordância. Tal como a leitura da frase latina, a primeira coisa que o leitor deve ter é  o cuidado de olhar para os verbos. É o primeiro passo. Daí tudo fica mais fácil porque palavra puxa palavra. No primeiro verso, temos SEREI, primeira pessoa do singular do verbo ser no futuro do presente. Começou a jogo: EU SEREI ATENTO AO MEU AMOR ANTES DE TUDO; EU SEREI ATENTO AO MEU AMOR COM TAL ZELO; EU SEREI ATENTO AO MEU AMOR SEMPRE; EU SEREI ATENTO AO MEU AMOR COM TAL INTENSIDADE... Consequências: a intensidade deste amor é de tal forma, que o poeta resvala num paradoxo em que pretende exprimir toda a sublimidade e sinceridade do seu amor. Vejamos: QUE MEU PENSAMENTO SE ENCANTE MAIS DO MEU AMOR MESMO QUE EU ME ENCONTRE DIANTE UM GRANDE ENCANTO. Depois dessa operação aparentemente complexa, temos o texto assim compreendido na sua inteireza sintático-semântica: EU SEREI ATENTO AO MEU AMOR ANTES DE TUDO; SEREI ATENTO A ELE COM TAL ZELO, EU SEREI ATENTO A ELE SEMPRE; EU SEREI TÃO ATENTO A ELE, QUE MEU PENSAMENTO MAIS SE ENCANTARÁ DELE MESMO QUE EU ME ENCONTRE FACE A FACE COM UM  ENCANTO APARENTEMENTE MAIOR.
Sintaxe é arrumação, é colocar ordem no pensamento. É deixar de lado regrinhas e exceções e aventurar-se nesse quebra-cabeça do pensamento, coisa que não tem igual.

Exercício recomendado: leitura, leitura, leitura e leitura.
SINTAXE? DIABEISSO?
                                                      Hugo Martins
Área dos estudos linguísticos voltada para a organização do pensamento.  Deve ser estudada no circuito da frase, não importando a extensão desta. Na leitura do texto, intui-se a compreensão do conceito daquela estrutura. Evitemos a discussão teórica e partamos para o lado prático da coisa. Leiamos o primeiro quarteto do poema VISITA À CASA PATERNA, de Luís Guimarães Júnior:
                        Como a ave que volta ao ninho antigo,
                        Depois de um longo e tenebroso inverno,
                        Eu quis também rever o lar paterno,
                        O meu primeiro e virginal abrigo.
Quantas frases há na quadra? Algo ou alguém volta a alguma lugar, depois de acontecer (1); alguém quer rever algo ou alguma coisa (2); este algo é alguma coisa (3). Observar que o texto se inicia com uma comparação por meio da partícula COMO. Agora vamos arrumar as idéias. Promovendo as substituições dos indefinidos, assim temos:
1-      A ave volta ao ninho antigo depois de um longo e tenebroso inverno
2-      Eu quis também rever o lar paterno.
3-      O lar paterno foi o meu primeiro e virginal abrigo.
Isso feito, e tendo olhos para a comparação (COMO), a frase, na ordem direta, sem rimas e métrica, assim fica:

EU QUIS TAMBÉM REVER O LAR PATERNO, QUE FOI O MEU PRIMEIRO E VIRGINAL ABRIGO, ASSIM COMO A AVE QUE VOLTA AO NINHO ANTIGO DEPOIS DE UM LONGO E TENEBROSO INVERNO.
As implicações semânticas, a presença da linguagem figurada e o gosto estético que dela dimana ficam por conta do leitor, suas vivências, experiências ou, como dizem os doutos, seu conhecimento prévio.
Simples, não? Quem “sabe ler”, isto é, quem sabe colocar as palavras no seu lugar justo no circuito da frase fez sua análise sintática. Não necessita de conceitos nem de explicações que confundem e transformam o que é simples em complexo.
Mais um exemplo. Uma só frase, esta transcrita do soneto ANOITECER, de Raimundo Corrêa. Aspeio. “Esbraseia o Ocidente na agonia o Sol...” Vamos à leitura.  Duas leituras se seguem:
O Sol esbraseia o Ocidente na agonia ou O Sol na agonia esbraseia o Ocidente. A segunda organização frásica é a correta. Ocidente é palavra que significa, pelo latim, cair, morrer. Daí se falar em ocaso, cair da noite, pôr do sol. E, por fim, o sintagma NA AGONIA, substituível pelo adjetivo AGONIZANTE se liga, necessariamente ao sintagma nominal O SOL. Com efeito, este é que agoniza, pois está morrendo, está caindo... Ocidente é uma mera marca circunstancial de lugar onde ocorre o fato,
 A sintaxe é isso: colocar os termos em seus devidos lugares. Assim procedendo o leitor, a leitura se tornará mais profícua e agradável.
Não existe passatempo mais agradável que a sintaxe. E é de graça.
Simples, não?
Voltaremos.


VERSO E LEITURA.
                                                          Hugo Martins
Olavo Bilac escreveu dois poemas famosos, espécie de diretrizes ao poeta filiado à estética parnasiana. O primeiro é o longo poema Profissão de Fé; o outro é o soneto A Um Poeta. Em ambos, o conteúdo não assume a mesma importância que a forma, sobretudo aquela que se aproxima da perfeição do ideário da escola a que também se filiaram Raimundo Corrêa, Alberto de Oliveira e Vicente de Carvalho. A doutrina da chamada “arte pela arte” deixa entrever essa idéia da busca infrene pela perfeição formal, que é traduzida na métrica, na rima e na escolha do vocabulário...
Vamos transcrever o primeiro quarteto do soneto referido, texto que aparentemente  oferece dificuldade de leitura. No entanto, desvendado o vocabulário e aplicadas as regras sintáticas de colocação, de concordância e de regência, o espírito do texto se elucida, claro como as manhãs das auroras claras.  Já dissemos do título, que aponta para um destinatário filiado ao Parnasianismo.
                                              A UM POETA
                                   Longe do estéril turbilhão da rua,
                                   Beneditino, escreve! No aconchego
                                   Do claustro, na paciência, no sossego,
                                   Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Transpondo para a ordem direta. Há duas frases no texto: a primeira, que vai de “Longe” a “escreve”. O restante constitui a segunda frase. Leiamos a primeira. Observar que o verbo “escrever      se encontra na segunda pessoa do singular do modo imperativo, portanto, a pessoa a que se refere é o pronome pessoal tu. “Beneditino” é mero vocativo, que pode ser colocado em qualquer lugar da frase, pois não mantém vínculo sintático com nenhum outro termo. Seu vínculo é meramente semântico. Assim temos: “Escreve tu, Beneditino, longe do estéril turbilhão da rua.” Bilac compara o poeta, quando escreve, a um monge beneditino, isolado do mundo e, por isso, (longe) distante de qualquer influência que não seja tão só o fazer poético A poesia parnasiana não deve estar atrelada a questões outras a não ser a essa quase obsessão pela forma, já aqui resaltada.
Observar que os verbos da segunda frase se encontram no mesmo modo e pessoa que o verbo “escrever” da primeira. A leitura deve começar por eles, que, repita-se, fazem alusão ao pronome pessoal tu. Assim temos: “Beneditino, trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua no aconchego do claustro, na paciência, no sossego”. A tarefa do poeta deve ser levada a efeito, estando ele distanciado de tudo, escrevendo paciente e sossegadamente. A repetição da conjunção “E”, no último verso (polissíndeto), sugere o que dizem as formas verbais TRABALHAR, TEIMAR, LIMAR, SOFRER, SUAR. É a luta insana do poeta, trabalhando, perseverando, desbastando excessos, sofrendo e despendendo muito esforço para alcançar o a pureza formal. O poeta parnasiano padece daquilo que Gustave Flaubert, escritor francês, chamava de “a angústia da forma.” É próprio de todo artista a busca, a luta, a angústia, o debater-se com o dizer. Ainda assim, a maioria não fica satisfeita. “Lutar com palavras/é a luta mais vã./ Entanto lutamos/ mal rompe a manhã”, no dizer de Drummond de Andrade.
Essa luta com a expressão é divertida. Torna-se menos árdua quando o indivíduo coloca como divertimento diuturno a leitura, a leitura, a leitura, a leitura. Não se necessita das regras mágicas do “professor de redação”. Machado de Assis, Monteiro Lobato, Olavo Bilac e os grandes escritores de modo geral nunca tiveram professor de redação... Eram empedernidos leitores de tudo que lhes caía nas mãos.
SIMPLIFICANDO:
BENEDITINO, ESCREVE LONGE DO TURBILHÃO ESTÉRIL DA RUA.
BENEDITINO, TRABALHA, E TEIMA, E LIMA E SOFRE E SUA NO ACONCHEGO DO CLAUSTRO, NA PACIÊNCIA E NO SOSSEGO.

Voilà.

Simples, não?

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

MAIS UM NATAL
                                                     Hugo Martins

O burguês de espírito vulgar e estreito, o filisteu, costuma ter faniquitos e alimentar falsa indignação quando lê textos em que se desanca a imagem do velhote de “triste figura”, que, por certo, não é um Quixote, mas um fantoche que a indústria cultural criou para engabelar as pobres crianças, não as crianças pobres, pois estas não têm vez com o velho pançudo na noite do Natal, que, para elas, é motivo de tristeza. Claro, a filosofia do consumismo, do eu posso comprar e do eu posso presentear propicia essa atmosfera sombria em que o sentimento mais abominável do homem vem à tona: a inveja “que baba...” e tudo do que dela advém.
Enquanto o bom burguês se banqueteia, troca sorrisos, dá presentes, recebe presentes, belisca quitutes e bebe bom vinho, os pequenos ódios silenciosos carcomem almas desencantadas pela mentira convencional do Natal. Quando o burguês infeliz dá presentes, de regra vem o comentário: “foi caríssimo!” Aqueles que recebem presentes não caríssimos olham desolados para a coisa e dizem, descaradamente: “lindo”, “amei” e cuidam de desenhar no semblante aquele sorriso ensaiado para as ocasiões próprias das festas natalinas e outras que tais. Em qualquer contexto, essa história de trocar presentes nas noites natalinas é baixar o cachaço aos comandos publicitários, alimentados pela sede de lucro de comerciantes acostumados à postura bovina de consumidores ingênuos... e lisos.
Não se vá aqui tecer considerações sobre os significados que se escondem por trás do signo tenebroso do Natal. Há deles provindos de cabeças persuadidas pelos instrumentos da indústria cultural, que redundam, de regra, em lugares-comuns, chavões batidos e, quase sempre, traduzidos no palavreado oco e insípido, próprio de quem faz leitura caolha do mundo. Outros há que enveredam no discurso aparentemente teológico, pois suas falas, tal como no discurso político, encerram a mesma mensagem da paz universal, da festa da fraternidade, do amor que deve unir os homens e outras baboseiras afins, embora o noticiário veicule, todos os dias, as maldades, o egoísmo, a perversidade, o pouco caso com a vida do outro, a desumanidade atroz e sanguinolenta dessa triste humanidade, refestelada na e acostumada com a sempre presente cruel hipocrisia.
Os demais discursos filistinos provirão, na certa, dos centros oficiais largamente aceitos pela grande massa. Algum padre de fala melíflua, discurso gosmento, cabeleira bem assentada, vestido de acordo com os últimos figurinos da moda européia, construirá mensagens de paz para todos os boquiabertos fieis, que dali saem com a certeza de que sua alma estará salva nessa “noite feliz do Senhor Deus do amor”! Algum pastor risonho e algum rabino sisudo também ensaiarão discurso sábio, tão sensaborão quanto o daquele sacerdote jeitoso com as palavras. Todas as falas serão tão pontuais quanto à missa do galo, o “chantclair” que, por três vezes, anunciou a falta de fidelidade de Pedro com seu mestre. Haverá algo do inconsciente nisso? Assunto para psicanalistas estudiosos e expertos e espertos...
Discurso cínico? Descaramento com as coisas divinas? Temor de ser espontâneo e encarar, cristãmente essa festa tão bonita em que se homenageia um homem de coração manso e transbordante de amor?
Nada disso. Se a postura fosse cínica, na linha dos pensadores gregos Antístenes e Diógenes, talvez o teatro do Natal não merecesse mais que um sorriso de desprezo; o Natal não tangencia o divino em nada, não passa de um jogo cretinoide entre alguém que vende e alguém que é persuadido a comprar, ainda que não tenha condições para isso (que o digam o SPC e o CERASA); por fim, se o Cristo, o cordeiro da paz, o anjo maior do amor voltasse a Terra e testemunhasse a pantomima do Natal, com certeza empunharia o látego com que chicoteou os vendilhões do templo e, sem dó nem piedade, lanharia costas e almas dessa casta de novos fariseus e bradaria “afastai-vos de mim, vós que obrais a iniqüidade”.
Ho, ho, ho, ho, ho...



CARRO PRA QUE TE QUERO?
                                                    Hugo Martins

Hoje me perguntaram por que não tenho um automóvel. Ajuntei: porque não sou burro, com todo o respeito que merece o quadrúpede. Eis o porquê da questão e da resposta. Claro que ter a propriedade de um automóvel não constitui por si mesmo um ato pouco inteligente. Direi com o burguês gentil-homem, que repete a frase cretina há dezenas de anos: “ter carro não é luxo, mas uma necessidade”. Grande tirada! Há tempos elegi o táxi como transporte ideal, seguro e barato. Não pago prestação de carro; não pago IPVA; não compro gasolina, não adquiro pneus nem bateria Enfim, não comprometo quase todo o meu pobre dinheirinho na manutenção de um automóvel. Não pago estacionamento; não alimento o temor de ser assaltado por estacionar o carro longe do lugar para onde me dirijo; não fico preso à desconfiança de ser assediado por marginais, que me tomem o veículo, acometam-me de humilhações e até mesmo atentem contra minha incolumidade e a própria vida. Por fim, possuir um automóvel constitui transtorno até mesmo para “enxugar” umas geladinhas a mais e voltar para casa dirigindo. Quer dizer: as multas fazem parte, também, das despesas certas e eventuais de um automóvel. Possuir carro é burramente casar-se de novo, é sustentar uma família sem filhos, sem parentes ou aderentes. Ela, por si só, é uma dor de cabeça que se tem para sempre. Pior é que, numa possível separação, não há partilha de bens, só acúmulo de gastos e prejuízos pagos por um só “cônjuge.”
Quem pode comprar um carro, sem que tal despesa não lhe comprometa  orçamento nem lhe tire o sono  não sentirá dor de cabeça com isso. Só lhe sobram as outras dores. O lance é que comprar um carro se tornou uma coisa muito fácil, isto é, o sujeito pode pagá-lo em sessenta ou em até setenta e dois meses apenas. Legal: as financeiras, penhoradas, agradecem. Afinal, você não comprou o carro, alugou-o. É aqui que a burrice se manifesta, com direito a zurros, coices e outros sestros asininos. Francamente, quem adquire um automóvel naquelas condições se não é curto de inteligência por se submeter a essa enfieira de torturas, torna-se míope de inteligência por render-se à vaidade tola de pensar que possuir automóvel lhe dá alguma importância aos olhos dos outros. Afora a realidade jurídica de que o comprador só tem a posse do objeto e não a propriedade. Essa só se efetiva quando a coisa for paga em sua totalidade.
Gasto com o táxi: quase nenhum. Estabelecido o contrato, o motorista se obriga a deixar o passageiro ao local indicado, e o passageiro, a pagar a corrida contratada e assinalada no taxímetro. Terminada a faina, cada um pro seu lado, e estamos conversados.
Se eu soubesse pedalar, estaria hoje me locomovendo nesses “camelos” de cidade. Se o poder público permitisse, estaria montando uma burrinha ou uma eguinha “marchadeira”, indo pra lá e pra cá, sem nenhum medo de ser feliz. Pelo menos deixaria de alugar táxi...






NE SUTOR ULTRA CREPIDAM (sapateiro, não vá além das sandálias)
                                                    Hugo Martins

Dia 1º de janeiro do ano entrante, despeço-me. Foram só oito anos. Também não continuo no posto porque a lei não permite. Caso contrário, não só eu mas também minha família continuaria no mesmo barco porque “navegar é preciso” rumo aos nossos projetos pessoais. Segundo uma ministra de triste figura e eterna feiúra, “o povo é apenas um detalhe”. E eu, do alto da empáfia própria de minha família, aduzo: continuará sendo ainda, por séculos, massa de manobra, pois, por ignorar o porquê dos fatos históricos, deixa-se levar por conversa fiada de que é tão pródigo um dos meus irmãos. Oito anos, não são oito dias. De uma coisa estou certo: deixei a impressão de haver realizado muito em benefício desse povo. Claro que a publicidade oficial cuidou disso. Nela, as escolas públicas do estado lembram as escolas norte-americanas vistas em fitas cinematográficas. Se se trata de propaganda sobre saúde, médicos, bem acomodados em salas modernamente aparelhadas, atendem sorridentes e cortesmente pacientes risonhos, em cujo semblante se espelha grata satisfação. A segurança é teatralizada pelo desfile de carros importados, dirigidos por soldados bem apessoados, que, em contato com a população, são todo ouvidos, lembram, com seus sorrisos e delicadeza, o cavalheirismo do ator Cary Grant nas fitas hollywoodianas... Sobre ensino superior, cuidei de evitar levar à publicidade, pois pouco me interessou o desempenho das universidades públicas do estado. Elas são coisa de somenos importância.
No fundo da consciência, porém, meu diabinho interior me espicaça a razão e insiste em que eu seja verdadeiro, que reconheça o fracasso por que passaram, durante minha gestão, a educação e a saúde. E espeta-me a bunda com seu longo e incandescente tridente, obrigando-me a reconhecer que a segurança pública é assunto jogado às traças, pois, conforme dados estatísticos, enquanto estive à frente da administração, o cometimento de crimes contra a vida e contra o patrimônio só tendeu a aumentar. Quis estrebuchar, mas o diabinho, diabolicamente, persuadiu-me a reconhecer, também, que meu maior projeto era destruir as universidades públicas estaduais. Para isso, metia minha colher em tudo, até mesmo na autonomia didático-pedagógica delas, pois a financeira e administrativa sempre ficaram sob meu tacão autoritário. Só não consegui meu intento por que elas não me pertencem, são propriedade do povo. Além do mais, intentei não cumprir comando sentencial em que se reconhecem legítimos interesses da classe docente.

A minha despedida é meramente simbólica. Saio de um vestíbulo e entro noutro. Não “saio da vida para entrar na história”. Continuo na história, agora para fazer algo que me é absolutamente desconhecido. Anísio Teixeira, Paulo Freire, Lauro de Oliveira Lima e Darcy Ribeiro fossem vivos, seriam, num governo de vergonha, os nomes indicados para a empreitada. Qualquer deles. Afora esses, as universidades brasileiras estão abarrotadas de pessoas mais entendidas e preparadas do que eu para exercer o ofício. Há educadores com reconhecido preparo às carradas No entanto a presidente da República escolheu a mim, doa a quem doer. Afinal, no banquete político ainda está em voga a máxima atribuída a São Francisco de Assis. Pra que competência e preparo nessa terra tupiniquim de tantas torpezas e tantos desencantos? Faço parte desse jogo. Às favas a ética. EU estou preparado... EU tenho a força. Educar é preciso, estar preparado não é preciso. Meu nome deveria ser Narciso, mas o povo sabe quem eu sou...

sábado, 20 de dezembro de 2014

 ... DO BRASIL SEM EDUCAÇÃO
                                                               Hugo Martins

Causou-me grave estarrecimento o motivo que levou um juiz do estado do Maranhão a ordenar a prisão de funcionários de uma companhia aérea. O magistrado agiu como os ditadores, os insensatos ou adotou o comportamento daqueles que calçam as sandálias e o capacete alados do deus Mercúrio, pois só pisam a terra, que lhes há de tragar, por causa de uma lei contra a qual eles não podem se insurgir: a Lei da Gravidade.
De outra parte, o juiz demonstrou desconhecer o ordenamento jurídico brasileiro em vigor, pois parece não ter olhos para o teor do inciso LXI do art. 5º da Constituição da República Federativa do Brasil. Com efeito, o dispositivo, claro como a luz da Aurora, assim reza, e eu aspeio: “ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente, salvo nos casos de transgressão militar ou crime propriamente militar, definidos em lei.”
Vejamos cada uma das hipóteses a fim de que cheguemos à conclusão de que o juiz é autoritário mesmo (”sabe com quem está falando?”): primeira: os funcionários não são militares, portanto, caso seu comportamento tivesse cunho de infração criminal, pelo óbvio, não poderiam responder pelo disposto no Código Penal Militar; segunda: se os funcionários tivessem praticado algum delito tipificado no Código Penal, a prisão deles só seria justificada caso tivessem sido surpreendidos cometendo a infração; acabando de cometê-la; ou fossem perseguidos pela autoridade, ou por qualquer pessoa em situação que fizesse presumir ser autor da infração. Eis as hipóteses do chamado estado de flagrância, situações que justificam a decretação de prisão. E, por fim, a terceira hipótese: quando o juiz de direito determinar a prisão de alguém, tem ele de fundamentar sua decisão, sob pena de estar ela nula de pleno direito (art. 93, IX da CF/88). Não se encontravam aqueles trabalhadores acobertados por nenhuma das hipóteses apresentadas. Logo, a prisão foi ilegal.
Trocando em miúdos, e deixando todo esse arrazoado de lado, não é difícil chegar às seguintes conclusões; o juiz herdou o complexo coronelístico da cultura patriarcal brasileira; faz de conta que desconhece as leis; ou logrou aprovação em concurso de provas e títulos, cuja aplicação está a carecer de exames, não psicotécnicos, mas de sopesamento do equilíbrio e sanidade mental do candidato...
A Associação de Magistrados do Estado do Maranhão irá, com certeza, apurar responsabilidades que, via de regra, podem acabar em samba ou numa rodada de pizzas de todos os sabores. Há muitos desmandos, muita conversa fiada, muito discurso bonito e... Fica a pergunta: quem pode apresentar casos em que magistrados atrabiliários receberam punição por agirem com desrespeito e desmandos com o cidadão brasileiro, pagador de tributos escorchantes, de onde se retira a remuneração daqueles senhores?
Juiz é servidor público igual a qualquer outro. Necessário retirar dele a carapaça autoritária do “quem manda aqui sou eu.”



EIS O MUNDO
                                                    Hugo Martins
Existe uma foto famosa do poeta português Fernando Pessoa, encontradiça numa obra do crítico literário Antônio Quadros. Nela, o homem dos heterônimos porta seu capote escuro, seu chapéu de fita, seu óculos redondos, e se encontra no interior de uma quitanda. O objetivo da fotografia era pôr em evidência a pose do criador da Mensagem, entornando o conteúdo de um litro de vinho. Pessoa, porém, afastou a gratuidade da fotografia e escreveu-lhe no verso a seguinte frase: “Fernando Pessoa em fragrante delitro”. A isso se dá o nome de fazer poético, isto é, o encontrar no mundo outras significações escondidas na, nem sempre, vã aparência das coisas.
A propósito, trago à baila um episódio protagonizado pelo pintor espanhol Diego Velázquez (1599/1660). Tinha ele pintado a tela a Crucificação de Jesus. Um filho menor, inadvertidamente, verteu sobre a face direita do Cristo uma porção de tinta, estragando, assim, o trabalho artístico do pai. Dizem que este nem ralhou com o filho, tampouco o castigou pelo sucedido. Ato contínuo, lançou mão de uma espátula, fez uma raspagem na tinta derramada de modo que aquilo que poderia ser uma nódoa transformou-se numa mecha de cabelos a cobrir a face direita do cristo. Uma saída poética, sem dúvida, o que angariou mais reconhecimento artístico para a tela.
Voilà, mundo transfigurado... transformado pela mágica inventividade do artista.



CRONIQUETA ARRANCADA A FÓRCEPS.
                                                     Hugo Martins

Os dedos querem correr na superfície dura do teclado. Nada. Pego de uma caneta e refugio-me num canto de mesa. Garatujo o papel. Nada. Vem o desânimo. O silêncio propicia a busca do assunto.  Embora grávido de mundo, o parto não acontece. Penso no orador romano Marcus Tulius Cicero, que dizia que não devemos passar um só dia sem escrever uma linha, sob pena de o dia ser considerado inútil. Em seguida, lembro-me dos conselhos de Drummond à filha Julieta, tecendo-lhe exortações a escrever todo dia, qualquer coisa, escrever por escrever, sem pensar em publicação. Para o poeta itabirano, escrever seria a forma mais legítima de se dialogar com o mundo, embora essa interação se dê entre aquele que pensa o mundo e o escreve. O mundo está aí, inerte, indiferente aos homens e às suas dores. O homem que trate de dispersar estas ou não procurá-las. Aliás, pensar o mundo é trazê-lo nos ombros e criar para si mesmo situações de angústia. Por isso, bem andam os que sofrem de miopia real ou intelectual. Ainda assim este escriba prefere conviver com o sofrimento nosso de cada dia, que nos impõe, em nosso mortal silêncio, o ato de pensar.
 De nada adianta esticar o olhar e querer enxergar significações no mundo se o intérprete render-se às imposições dos aparelhos ideológicos do Estado. Em isso ocorrendo, falseia-se o real. Já pensou o Natal? Abstraiam-se as árvores de inverno europeu; elimine-se a figura balofa do velhote de brancas barbaças, pança abaulada e risada copiada do cinema hollywoodiano; não se dê a mínima importância a crianças encarapitadas no alto dos prédios a entoar batidos Jingles Bell... Suprimido esse texto da indústria cultural, não se trocam presentes; dispersem-se as reuniões de estudados “amigos secretos” com gosto de cultura norte-america. Feito isso, todos se apresentam na condição de pessoas não manipuladas, dispostas a, numa atmosfera de franca simplicidade, verdadeiramente cotizar ternura, amor, gratidão e outras manifestação de carinho de quem deixou em casa, ou no raio que o parta, a mesquinhez dos pequenos ódios cotidianos.
As renas, o Papai Noel de largos borzeguins, a neve que cai, a aldeia banhada de lua e neve constituem a mis em scène do que há de mais ridículo para personificar o Natal.
Alguém dirá: esse sujeito que costurou este texto é um revoltado, um recalcado, um traumatizado por algum episódio ruim que experimentou na infância... Da minha parte, dos altiplanos de minha aparente insensatez, dispenso a opinião provinda de qualquer casta de psicólogos, tantos os de academia quanto os que garimpam em obras esparsas, ofertadas a conta-gotas, fórmulas de “como bem viver.” 
Aprendi a ler nos livros e na escola da vida. Tanto é que ainda me pergunto se a festa comemorativa dos natais não é um jogo ilusório. O calendário romano só tinha dez meses. Depois acrescentaram mais dois: julho e agosto. O primeiro, em homenagem a Júlio César; o segundo, em homenagem a Otávio Augusto. Diante desses fatos,  quem   garante, com segurança e certeza, o ano e o dia do nascimento do Cristo?  Estamos vivendo o século XIX, o século XX ou o século XXI.
Sei não... Ho, ho, ho, ho...
Alguém dirá: não importa. Interessa comemorar. Fazer empréstimos. Gastar. Endividar-se, Vestir roupa domingueira. Esbaldar-se com bebidas e comidas. E se guardar “pra quando o Carnaval passar.”



FATO OU LENDA?
                                                      Hugo Martins
Chegou-me de oitiva um fato televisivo. De regra, estes vêm edulcorados de sensacionalismo barateado ou não se revelam consentâneos com a verdade, daí a indignação de que parecem tomadas as pessoas quando repassam tais notícias.
Em apertada síntese, conta-se que uma senhorita, agente de trânsito, numa ação de fiscalização, mandou um motorista parar, pediu-lhe os documentos do veículo, bem como a carta de motorista. Contam que tudo estava na mais vã irregularidade. Continua a narração: a jovem autuou o motorista, como determinava seu dever de ofício, mas o sujeito deu uma carteirada na jovem, identificando-se como juiz de direito e, ungido de toda a vaidade, todo o poder e toda jactância, deu ordem de prisão à jovem, que, depois do processo transitado em julgado, isto é, não mais cabia recurso, foi condenada a pagar a quantia de R4 5.000,00 (cinco mil) reais.
Aqui eu digo, alto e bom som, isso não faz sentido. Alguém iniciou uma deslavada mentira por desconhecer a matéria ou por padecer de mitomania crônica...
Ora, a jovem estava exercendo sua função pública, por isso, nada mais fez, diante dos fatos narrados, que cumprir seu dever.
A nenhum juiz deste País é dada a livre faculdade de prender as pessoas a torto e a direito. A não ser que sofra de doentia crise de autoritarismo, não tenha estudado direito ou julgue, a seu bel-prazer, que seu fulano, seu beltrano e seu sicrano, em pleno Estado Democrático de Direito, deva se submeter a arrufos e caprichos de julgadores insensatos.
Vamos à lei. O ordenamento jurídico nacional coloca que “ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade competente, salvo nos casos de transgressão militar ou crime propriamente militar, definidos em lei.” (art. 5º, LXI, CF/88).
A jovem não estava em estado de flagrância, pois não comete crime quem cumpre seu dever; o juiz, para prender a jovem, tinha que dizer, por escrito e tudo muito bem fundamentado,  os motivos factuais e legais que justificassem a prisão. Não é o caso. Por fim, os agentes de trânsito não se submetem ao Código Penal Militar. Ainda que respondessem,  não ocorreu, in casu, transgressão ou crime propriamente , militar.
Daí a conclusão. Se a jovem recebeu ordem de prisão, deve ter sido por outro motivo não explicitado, não pelos fatos aqui analisados. Considerar plausível a historieta é querer considerar seus semelhantes uns trouxas de barrete e capelo.


TRAVESSURAS.
                                                                    Hugo Martins

Muitas traquinadas fazíamos. Não havia sentimento de culpa, só o medo de chegar aos ouvidos dos pais quando a coisa ultrapassava as raias do aceitável. Furtar frutas no quintal do vizinho, enfrentando o medo de levar um tiro de sal era coisa que cheirava a aventura digna de figurar em qualquer almanaque de heróis. Colocar uma pedra sob uma caixa de papelão, aquelas de sapatos, no meio da calçada e ficar alimentando a certeza de que o primeiro menino que a visse certamente nela meteria esplêndido chute era um jogo sádico dos melhores. Ficar numa esquina, amarrar uma cédula na ponta de uma linha de costura, colocar a cédula numa distância considerável, e esperar que alguém a alcançasse enquanto a linha era paulatinamente puxada, também constituía um jogo que divertia a meninada. Havia, porém, uma brincadeira que era extremamente reprovável pelo grau de maldade e de mau gosto que encerrava. A única desculpa é que fazia parte das brincadeiras da meninada daquele tempo. Ou, por que não, do sadismo ínsito a todo ser humano... Tem gosto escatológico, tom agressivo e encerrava a vontade consciente de expor alguém à ridicularia e ao riso patife de quem cometeu o pecadilho.
Como se dava a coisa? Formávamos o grupo dos “moleques da Cachorra Magra” (Rua Marechal Deodoro). Promovia-se a reunião numa das muitas esquinas, e se discutia o que fazer, de preferência contra meninos de outras ruas (lembrei-me da turma da Zona Norte nas revistas Bolinha e Luluzinha).  Dividiam-se as tarefas: um arranjava um pedaço de pau, um cabo de vassoura, por exemplo, servia; outro ficava com a incumbência de arranjar matéria fecal humana e, com esta, untar, o pedaço de pau. Isso feito, saía o grupo à procura de uma “vitima”, de regra um moleque, nunca pessoas adultas. Simulava-se uma briga. A “vítima” se aproximava e ficava a assistir à “discussão”, que assim se desenrolava: “Quer brigar, porra? Pois vamos lá”. O outro, tão pilantra quanto o primeiro, de posse da “arma” contundente, dizia: “Pois eu quero, Vamos”. O “desafiante”, então, dizia: “Tu só estás dando uma de valente porque está com esse pau.” Solta, e aí tu vais ver o que é bom pra tosse.” Nesse momento, o segundo safardana se virava pra “vítima”, estirava o braço que sustinha o pau e dizia: “Segura aí, rapaz!”Feita a patifaria, o grupo “metia o pé na carreira”, enquanto o infeliz moleque, atônito e impotente, ficava a olhar para a mão. Na rua mal-iluminada, no atropelo de gente correndo, ecoavam gargalhadas semelhantes àquelas dos malandros, dos pastores da noite dos romances de  Jorge Amado. Era a brincadeira do “pau cagado”, suja em todos os sentidos, mas tão próxima da natureza maligna com que o ser humano tanto se identifica.

Essas coisas de menino me vieram à cachola porque as vivenciei e devido à leitura que fiz do romancista norte-americano Mark Twain, que escreveu duas obras imortais inspiradoras sobre a infância: As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckleberry Finn. Ficam como sugestão de leitura.  Não se sabe se despertam o mesmo interesse que as novelas globais.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

HORA DO POBRE OU INVASÃO
                                                                              Hugo Martins

Um dia desses, fui fazer um passeio sentimental na velha Gentilândia de minha infância. Desci do ônibus na Av. Treze de Maio, atravessei a praça em frente à Residência Universitária e enveredei pela Rua João Gentil, no meu tempo, São José do Tauape. Passei em frente à casa de um garoto de nome Mocico, atravessei a Padre Francisco Pinto e cheguei a uma travessa onde ficava o Grupo Escolar Padre Anchieta, onde cursei o terceiro ano primário e onde, no recreio disputava partidas de gol-a-gol com um colega de nome Antonio Livramento Na esquina da travessa com a Rua São José do Tauape, morava um rapazola branquicela, alourado, de grandes olhos verdes, torcedor empedernido do Ceará e que costumava “bater racha” em frente à minha casa na então Rua Rodolfo Teófilo, hoje Waldery Uchoa. Seu nome era Jordane. Havia em frente à casa um gramado, bem como um cercado de muro derrubado em que a moçada “batia pelada.” Ainda na São José do Tauape, morava o garoto Glilson, mais à frente,  Rogério e seu irmão Jório; logo adiante, uma família apaixonada pelo Fortaleza e pelo Fluminense. Daquela família, lembro-me de Carlos Castilho e Chico, de apelido Esquerdinha. Este era muito habilidoso com a bola nos pés e tinha uma visão ampla do jogo. Na Adolfo Herbster, havia o campo da Rua Júlio César, onde não cansávamos de “rachar” quase todas as tardes... Próximo ao campo, morava um grupo de irmãos, cujos nomes parecem ter sido inspirados na cultura romana: Taciano, Tácito, Tacito. Os outros eram Roberto Jupi e Veinho. Não lembro o nome de Veinho no momento. Sei tratar-se de um sujeito de espírito brincalhão, que costumava pôr apelido em Deus e o mundo. Eu mesmo recebi um apelido que “pegou” durante toda a minha vida. A turma me chamava de Frei Papinha ou Papinha . Quem, à época, assistiu ao filme Macelinho Pão e Vinho sabe o porquê do apelido. Meu cabelo era cortado à moda Cascão: raspado do lado e, no alto da cabeça, uma porção de cabelos lisos, com uma pastinha... Naquele tempo tal estilo de corte recebia o nome de Principe de Gales... É mole??
Essa história que estou contando, foi levada a efeito, numa tarde, na casa de nosso amigo Cristiano Santos, durante uma conversa regada a um cafezinho coado na hora. Na ocasião, surgiram outras lembranças marcantes daqueles tempos.
Em dado momento, veio à tona o futebol, sobretudo o praticado no velho PV. Na época, ainda não havia esse intercâmbio nacional tão comum hoje em virtude das políticas esportivas de campeonatos de toda ordem, e pela influência dos meios de comunicação de massa. De tempos em tempos, vinha um time do Rio ou de São Paulo jogar por aqui. Era uma festa, era uma novidade que ouriçava a meninada, que não media esforços para ver de perto jogadores que só conhecia nas publicações como Revista dos Esportes e Manchete Esportiva. Quando não, nos cartazes afixados lá no Pedão da Bananada no Abrigo Central...
O grande sofrimento da garotada era entrar no estádio. Por ser curto o dinheiro, a “negada” não media esforços para isso. Ficar na porta do Presidente Vargas a ouvir o rumor da torcida e não poder estar lá, assistindo às tiradas dos craques, aos voos do Caravele, às patadas de BCC, à maestria de Damasceno, aos gritos histéricos de torcedores apaixonados, com o radinho de pilha acompanhando o programa Bola de Meia, tudo era muito doloroso. Resignar-se? Nunca. Solução: “pular o muro”. O vigia não dava trégua. A frustração era compensada pelo entoar de um coro de músicas ofensivas à pobre mãe do vigia ou ao próprio vigia. Uma delas dizia: “O galo canta, o macaco assovia, ... de jumento .. .. do vigia.” Tempo bom aqueles. Que fazer? Desistir? Só havia uma solução: voltar para frente do PV, estirar o olho pidão para o porteiro ou confiar na passagem de “alguém importante” ou influente ou amigo, que se compadecesse do drama daquele infeliz. “Enquanto a bola dança, o tempo avança”, e nós aqui fora. A fazer o quê? A única coisa possível para satisfazer a expectativa: esperar “a hora do pobre” ou “a invasão”. Faltando dez minutos para terminar o jogo, era uma estimativa que se fazia, aquele magote de meninos se amontoava nas proximidades do portão – não havia ainda as borboletas – só as mariposas que brincavam com a lâmpada do poste da pracinha em frente ao PV. Havia empurra-empurra, olhares desconfiados, ânsias e esperança de que o portão fosse logo aberto. Até que enfim o momento esperado chegava. A correria parecia uma disputa esportiva, uma corrida de retirantes da seca em direção à parca comida para todos... Era o alívio de uma grande tensão daquelas alminhas... Se hoje “não tem mais isso não”, resta o doce consolo de lembrar a alegria, de ver que o tempo não passou em vão, de poetizar um tempo que valeu a pena ser vivido.


MAIS UM NATAL
                                                     Hugo Martins

O burguês de espírito vulgar e estreito, o filisteu, costuma ter faniquitos e alimentar falsa indignação quando lê textos em que se desanca a imagem do velhote de “triste figura”, que, por certo, não é um Quixote, mas um fantoche que a indústria cultural criou para engabelar as pobres crianças, não as crianças pobres, pois estas não têm vez com o velho pançudo na noite do Natal, que, para elas, é motivo de tristeza. Claro, a filosofia do consumismo, do eu posso comprar e do eu posso presentear propicia essa atmosfera sombria em que o sentimento mais abominável do homem vem à tona: a inveja “que baba...” e tudo do que dela advém.
Enquanto o bom burguês se banqueteia, troca sorrisos, dá presentes, recebe presentes, belisca quitutes e bebe bom vinho, os pequenos ódios silenciosos carcomem almas desencantadas pela mentira convencional do Natal. Quando o burguês infeliz dá presentes, de regra vem o comentário: “foi caríssimo!” Aqueles que recebem presentes não caríssimos olham desolados para a coisa e dizem, descaradamente: “lindo”, “amei” e cuidam de desenhar no semblante aquele sorriso ensaiado para as ocasiões próprias das festas natalinas e outras que tais. Em qualquer contexto, essa história de trocar presentes nas noites natalinas é baixar o cachaço aos comandos publicitários, alimentados pela sede de lucro de comerciantes acostumados à postura bovina de consumidores ingênuos... e lisos.
Não se vá aqui tecer considerações sobre os significados que se escondem por trás do signo tenebroso do Natal. Há deles provindos de cabeças persuadidas pelos instrumentos da indústria cultural, que redundam, de regra, em lugares-comuns, chavões batidos e, quase sempre, traduzidos no palavreado oco e insípido, próprio de quem faz leitura caolha do mundo. Outros há que enveredam no discurso aparentemente teológico, pois suas falas, tal como no discurso político, encerram a mesma mensagem da paz universal, da festa da fraternidade, do amor que deve unir os homens e outras baboseiras afins, embora o noticiário veicule, todos os dias, as maldades, o egoísmo, a perversidade, o pouco caso com a vida do outro, a desumanidade atroz e sanguinolenta dessa triste humanidade, refestelada na e acostumada com a sempre presente cruel hipocrisia.
Os demais discursos filistinos provirão, na certa, dos centros oficiais largamente aceitos pela grande massa. Algum padre de fala melíflua, discurso gosmento, cabeleira bem assentada, vestido de acordo com os últimos figurinos da moda européia, construirá mensagens de paz para todos os boquiabertos fieis, que dali saem com a certeza de que sua alma estará salva nessa “noite feliz do Senhor Deus do amor”! Algum pastor risonho e algum rabino sisudo também ensaiarão discurso sábio, tão sensaborão quanto o daquele sacerdote jeitoso com as palavras. Todas as falas serão tão pontuais quanto à missa do galo, o “chantclair” que, por três vezes, anunciou a falta de fidelidade de Pedro com seu mestre. Haverá algo do inconsciente nisso? Assunto para psicanalistas estudiosos e expertos e espertos...
Discurso cínico? Descaramento com as coisas divinas? Temor de ser espontâneo e encarar, cristãmente essa festa tão bonita em que se homenageia um homem de coração manso e transbordante de amor?
Nada disso. Se a postura fosse cínica, na linha dos pensadores gregos Antístenes e Diógenes, talvez o teatro do Natal não merecesse mais que um sorriso de desprezo; o Natal não tangencia o divino em nada, não passa de um jogo cretinoide entre alguém que vende e alguém que é persuadido a comprar, ainda que não tenha condições para isso (que o digam o SPC e o CERASA); por fim, se o Cristo, o cordeiro da paz, o anjo maior do amor voltasse a Terra e testemunhasse a pantomima do Natal, com certeza empunharia o látego com que chicoteou os vendilhões do templo e, sem dó nem piedade, lanharia costas e almas dessa casta de novos fariseus e bradaria “afastai-vos de mim, vós que obrais a iniqüidade”.
Ho, ho, ho, ho, ho...



NA CASA DO SENHOR NÃO EXISTE SATANÁS. XÔ, SATANÁS!
                                                                                           Hugo Martins

Quem primeiro fez uma leitura diferente da figura do Cristo, apreendendo-o na sua dimensão humana, foi o grego Nikos Kazantzakis, também autor do romance Zorba, o Grego, levado ao cinema, e estrelado pelo ator mexicano Anthony Quinn.
A leitura aqui referida se encontra no romance A Última Tentação, que o cineasta Martin Scorsese acrescentou, por sua conta, o complemento nominal “de Cristo”. Embora tenha causado algum “frisson” na mentalidade burguesa e farisaica dos tempos modernos, a obra está aí, livre, soberana, atestando a coragem de seu autor em expor convicções desafiadoras e temerárias...
Outro escritor, que também procede a uma leitura diferente do ser do Nazareno e do próprio Deus, é o português José de Sousa Saramago, ganhador do Prêmio Nobel em literatura em 1998. O autor não levanta bandeiras, tampouco toma partido por esta ou aquela forma de pensar o fenômeno religioso. Demonstra não ter se rendido, passivamente, a opiniões de quem quer que seja. Saramago se revela livre para depreender o que se esconde por trás dos signos culturais e linguísticos de toda sorte e das intenções, quase sempre direcionadas, de pregadores e intérpretes donos de uma verdade questionável. O português tem a sua própria verdade, construída na base de reflexões e intuída de leituras variadas, que lhe servem de grande lupa para enxergar, “sob o manto diáfano da fantasia”, o que se esconde nos imperativos categóricos, provindos de falas levianas a que se não deve dar importância. Isso fica para os ingênuos, para os descerebrados, para os medrosos e pusilânimes.
Furto-me à tentação de fazer qualquer comentário sobre as obras, sobretudo porque elas poderão chocar, escandalizar e provocar faniquitos nos senhores e senhoras tão dados à salvação das almas e tão empenhados na luta contra o “inimigo”, que eles tanto abominam, mas como falam daquele, deixando de lado o “amigo”... É ler e chegar a conclusões...
Trata-se de duas obras fundamentais: a primeira, O Evangelho Segundo Jesus Cristo; a segunda, Caim. Vale a pena ler. Não trazem doutrinas, não fazem apologias, não trazem verdades absolutas, não encerram discurso persuasivo de conversões e outros fenômenos. Não. Bastam-se a si mesmas, pois veiculam “uma leitura possível” de um texto pouco visitado, raramente revisitado e, por via de conseqüência, quase não pensado.   
Depois da leitura daquelas obras, não é suficiente abrir o arsenal de insultos estereotipados contra o autor. Trata-se de obra literária e não manual de conversão... Dizem que “literatura é ficção, criação de uma supra-realidade, com os dados profundos e singulares da intuição do artista.” Por isso, não é bom confundir Saramago com padres e pastores modernosos, de discurso melífluo e donos de falas prêt-à-porter.
O criador de Ensaio sobre a Cegueira é romancista dos melhores, repita-se, cujo discurso faz pensar e dissipar as nuvens negras do obscurantismo...
Apenas.




DECLARAÇÕES DE UM AMANTE RIDICULAMENTE APAIXONADO.
                                                        Hugo Martins
Dormi bem, mas passei a noite sonhando com ela. Sábado, manhã ensolarada, muito calor. Aula de língua italiana: condizionale, imperfetto, passato prossimo, i pronomi diretti, i pronomi relativi, via della grammatica, ma non mi dire, buon viaggio... Final de aula. Ligação telefônica. Pedir táxi. Percorro o corredor sujo e encardido do pátio da faculdade, sinto a náusea sartriana, e eu pensando nela. É amor que vale a pena Está à minha espera com toda a fidelidade, sem rebuços, paciente, sem contradições, sem me falar em promessas e planos. Gosto de seu jeito. Se escorrega em mentiras, pois costuma dizê-las com freqüência, embora, nesses momentos, esconda-se no jogo de palavras e ensaie peripécias retóricas para me nocautear com seus argumentos quase que irrefutáveis, meus olhos não impõem a ela outra roupagem diversa daquela da condição humana. Aceito-a com suas contradições e respeito sua condição de ser livre. Ninguém tem o direito nem o condão de impor mudanças a ninguém. Ela já tentou fazer isso inumeráveis vezes, mas encontra minha renitência na minha condição de também ser livre. Por isso, embora pareça que não pretenda me impor mudanças, com seus caprichos e seus arroubos mandões, sempre de mim se aproxima, sorrateiramente, e vai soltando a linha de seu novelo de argumentos e acaba por se impor à minha vontade. Não com mentiras lesivas às minhas expectativas, mas com a mentira carinhosa, benéfica, que torna o mundo mais lírico, mais suportável. Rendo-me a ela e deixo-me levar pelo acalanto do vaivém de seus buliçosos braços e pelos sussurros amorosos que não cansa de me cochichar, travessamente, nos ouvidos. Nesses ensaios, de tênue e delicada sensualidade, mergulho sem medo, sei haver ali verdades imorredouras, cujas muralhas servem de anteparo ao indevido ingresso das mentiras convencionais do dia a dia. Saio desse estonteante devaneio. O táxi estacionara em frente ao prédio do apartamento em que moro.
Subo as escadas. O coração bate regularmente. Na expectativa de reencontrá-la, enfio a chave na fechadura da porta da frente e empurro levemente a porta. Não vejo ninguém. Leve decepção se estampa na minha alma. Começo a entretecer projeções (pasto para psicólogos direcionarem a vida de sicranos e beltranos). Faço silêncio, baixo a cabeça e desconfio de que minha autoconfiança está a querer me abandonar. Sorvo fundamente uma golfada de ar, empurro a folha da porta e giro a chave. Viro-me. Ela está a poucos passos de mim, fitando-me com olhos serenos e sinceros com a me dizer que ela nunca mudou, que não pretende me mudar, pois somos o que somos. Pego de suas mãos. Abraço-a e levo-a para uma rede de corda, que fica na área e me serve de aconchego para jogos amorosos, coisa que, com ela, pratico todo dia. Antes, olho-a longamente. Está vestindo roupa colorida, salpicada, aqui e ali, por discretas estampas. Enquanto caminhamos sem pressa para a rede, apalpo seu corpo rígido. Sem despi-la, abro todos os seus membros (são vários) e nela me introduzo num mergulho gozoso e interminável. Saio da rede. Ela nos meus braços. Aperto-a de encontro ao peito. Estendo-a sobre a superfície plana do birô. É minha fêmea, meu tudo, minha amiga sincera, independente e desnuda da carapaça dos ouriços. Entrega-se gratuitamente e cobra de mim a mesma doação incondicional. Abandonado nos seus braços, viajo, choro, dou boas risadas, conheço lugares e pessoas interessantes, sobretudo as avessas a gratuitas futilidades. Aprendo com ela, amo-a sem medo, e, sem ela, para mim, é quase impossível viver. É discreta, não leva ao conhecimento de terceiros nossa vida pessoal, tampouco joga aos apetites de aves daninhas nossas intimidades. Não. É uma dama, é discrição, é pura classe, é refinamento. Por isso, grito aos quatro ventos, sem titubear e sem medo de ser ridículo como costuma ocorrer com os amantes eternamente apaixonados: EU TE AMO, LITERATURA! Simplesmente.


domingo, 14 de dezembro de 2014

DEDOS TALENTOSOS.
                                                       Hugo Martins
Estive hoje no consultório de um profissional da saúde, mais precisamente, uma nutricionista. Sempre que me encontro em consultórios, filas de banco, filas de qualquer espécie, ou no interior de ônibus municipais na hora do ruge-ruge de fim de tarde, invariavelmente estou em companhia de um amigo ou de uma amiga. Em outras palavras, nessas situações, sempre tenho nas mãos um livro ou uma revista. Mera estratégia de preencher o tempo e não abrir oportunidade a que alguém puxe conversa mole. A companhia de tais amigos e amigas me preenche, dá-me alento e evita a presença de inoportunos.
Hoje, porém, alguma coisa chamou-me a atenção e tive que cessar o diálogo que mantinha com uma amiga. Conversávamos sobre um assunto de minha especial predileção: a literatura. Mesmo assim, fui fisgado pelo insólito da cena. Espalhadas em poltronas, as pessoas, jovens, evidentemente, mergulhadas em fundo silêncio, estavam todas, sem exceção, olhando para o telefone celular movimentando os dedos, sobretudo os polegares, como se estivessem passando as contas de um terço ou debulhando uma invisível espiga de milhos.

A cena induziu-me a uma ilação: a juventude brasileira, com raras exceções, pode não ser dada a reflexões, a escrever, pode possuir um vocabulário exíguo, pobre e limitado, mas de uma coisa pode-se ter certeza: são todos exímios digitadores...
PEQUENO ENSAIO SOBRE A INUTILIDADE DAS PERMANÊNCIAS
                                                        Hugo Martins

Em conversa informal, um dos presentes pergunta se o verbo” caguetar” está certo ou errado quando o empregamos no sentido de dedurar alguém. Não só é devidamente aceito como também já se encontra dicionarizado. Disse-lhe que, se persistisse a folhear  bons dicionários (Aurélio, Houais...), iria encontrar também a forma “cabuetar” , de largo uso no cotidiano do falante nordestino. Ambos os registros constituem a corruptela do verbo “alcaguetar”. Assim, temos a série do paradigma nominal: “cagueta ou caguete”, “cabueta” e “alcagüete”... São, pois, formas variantes, mais aceitas ou menos aceitas. Nas questões lingüísticas, o certo ou o errado não constituem conceitos   absolutos. Isso é coisa da tradição greco-romana, cujos gramáticos, por razões compreensíveis, só legitimavam as formas e construções advindas dos escritores renomadas. Vezo das gramáticas ocidentais. Tudo muda, tudo passa, tudo se transforma. “Nihil novi sub sole” (nada de novo sob o sol). Por isso, é aconselhável que tenhamos como referencial a norma ou uso a que se referem os lingüistas. Observe-se que o gramático diz que o correto é “assistir AO jogo”. Ora, entre cem brasileiros, no uso espontâneo da expressão, 95 dirão “assistir O jogo”. O sujeito sempre “chega EM casa”, mas o autoritarismo gramatical manda que ele “chegue A casa”... Bárbaro era, para os gregos, aqueles que não falavam grego, portanto, assim se expressavam” bá, bá, bá, bá”. Para os romanos, bárbaro era todo aquele que habitava além das fronteiras do império romano. Aquela turma além-fronteira costumava atacar os romanos e exigir-lhes tributos escorchantes (“ai dos vencidos”). Para isso, muitas vezes, recorriam à violência atroz e sanguinolenta. Daí, bárbaro passou a significar também alguém impiedoso e sanguinário (hunos, godos, visigodos, ostrogodos, gauleses). Nos anos 60, para a Jovem Guarda, bárbaro denotava tudo aquilo que estivesse consentâneo com a moda, hábitos e gostos da juventude de então...
Por falar em juventude, a hodierna, de linguagem pródiga e rico vocabulário, de algum tempo, vem usando duas locuções para designar algo bom e, em contraposição, algo não bom. Temos: “massa” e “mó paia”. Diante de um belo filme, o sujeito brada: “massa”, brother! Se a película não lhe cai no gosto, diz, decepcionado e irônico: “mó paia”, mermão! Ambos os sintagmas pertencem ao vocabulário de quem vende e faz uso da maconha. Se esta é de má qualidade, é porque está misturada com outras ervas que não o cânhamo puro, a aliamba, a diamba, o haxixe. Se, ao contrário, a substância se assemelhar a cocô seco de cachorro, por não receber qualquer mistura, aí, “cumpade”, a “coisa” é “massa”. Pronto, dentro de algum tempo, estarão tais expressões incorporadas ao vocabulário dicionarizado e na boca do povo “porque ele é que fala gostoso o português do Brasil. Ao passo que nós o que fazemos é macaquear a sintaxe lusíada”. O aspeado pertence a Manuel Bandeira no poema Evocação do Recife, poema que faz parte do livro Libertinagem...
Toda palavra, não importa qual, já foi, um dia, um neologismo...