FELIZ
ANO NOVO: SORRIA (2)
Hugo
Martins
Ele não é rápido, ele
não anda devagar. Não há nem mesmo a certeza de que ele exista. A maior ou
menor intensidade de seu deslocamento depende de quem com ele está lidando.
Épocas há que ele não assume importância alguma; em outras, porém, quando você,
meu amigo ou minha amiga, começa a abrir os olhos e perceber que tudo não
passou de vã ilusão, então você começa a pôr as barbas de molho.
Ele pisa macio. Suas
sandálias são silenciosas, não fazem sequer um ruído. É hoje? É amanhã? Foi
ontem? Para que as indagações se essas circunstâncias também não existem? Se o
indivíduo não vai bem da bola? Se vive alheio à realidade ou perde a memória?
Teria ele noção da passagem do tempo? O tempo é dinâmico ou estático? Vale a
indagação porque o que existem são convenções fundamentadas em fenômenos
físicos. Ainda assim, voluteia no ar um grão de intuição para apreender aqueles
conceitos temporais. Essa discussão sobre a matéria tempo não vai dar em nada.
Não tem, objetivamente, valor alguma. Seu interesse é nenhum. Que fique, pois
com metafísicos e místicos. Que dela retirem pasto para reflexões. Assumem
mesmo máxima importância as conseqüências que dela advém. Com efeito, são estas
dolorosas. Mal é concebido o indivíduo já começa a morrer. Não é bom que ele perceba
essa realidade crua. Deixe o tempo “passar”... De regra, como em tudo, todo
começo são flores, na parêmia popular. Na infância, de regra, também, tudo é
alegria, tudo é sorriso, tudo é ilusão. Enquanto o indivíduo vai levado pela
corrente do tempo, fazendo projetos, atingindo metas e realizando sonhos, o
tempo não interfere, continua correndo e a corrente seguindo. Eis que, súbito,
o sujeito olha pra trás e começa a enxergar que a vida, “embora seja uma aventura que valha a pena ser vivida”, o
tempo começa a pesar-lhe nos ombros. As doenças do corpo e da alma fazem
residência em você. A morte começa a ceifar, aqui e ali, seus entes queridos.
“Os desenganos vão conosco à frente, e as ilusões vão ficando atrás.” As rugas
começam a fazer desenhos no seu rosto tais tétricas e indeléveis tatuagens; o
corpo se dobra, a plástica, antes impecável, cede lugar à flacidez, às estrias,
e a alma cai, genuflexa, ante à evidência da certeza da mortalidade. Essa
consciência dói. Tudo vai cair no esquecimento. Um dia se faz uma viagem, cujo
destino é incerto: ou se mergulha nas trevas do nada ou se vai para regiões
paradisíacas tanger liras na companhia de anjos, gozando a tal felicidade e o
bem-estar que aqui não se encontra. Ter nascido do pó e a ele, necessariamente,
voltar é realidade crua e inexpugnável.
Não há motivo para
desespero. Feliz Ano Novo. A esperança é a última que morre; o amor é
lindo e Jesus te ama.