sexta-feira, 17 de março de 2017

BORA?
Hugo Martins

O sujeito pergunta por que não gosto de viajar para fora do meu país. A resposta mais direta, mais sincera e mais objetiva seria: porque não gosto. Há, porém, é claro, algumas razões. A primeira seria: não conheço bem meu Ceará e mal conheço meu Brasil, por que teria que conhecer outros países? A segunda tem cunho preservativo: nunca entrei num avião nem pretendo fazê-lo, embora se me enfileirem carradas de argumentos a favor da segurança dos pássaros de aço. Não cedo, gosto da terra, tenho horror aos céus... Terceira razão: conheço os mais longínquos lugares, suas culturas e atrativos sem nunca ter posto por lá meus pés. Sobrepairei-os montado nas asas da arte, da literatura, da filosofia, enfim em agradáveis passeios intelectuais, sem a companhia de gente chata e antipática. Discorrer sobre os habitantes daquelas paragens não nos é difícil, pois são todos homens iguais a todos os demais habitantes do mundo, diferenciando-se, tão só, pelo verniz da cultura de cada um... Quando alguém fala, entusiasmado, sobre franceses, ingleses, italianos e tutti quanti, revela profundo e inexplicável complexo de inferioridade cultural, ajuntando, ainda, discurso em que as comparações colocam sempre o Brasil em posição de inferioridade. Ora, dane-se, sô! Dispomos aqui de paisagem geográfica encantadora: mares, montanhas e cidade, todos muito belos. O povo é bom e generoso (não tragamos à baila nossa formação histórica no que tange às classes dominantes); nada ficamos a dever a ninguém no tocante ao nosso desenvolvimento intelectual no campo da ciência e das artes; nossa culinária não tem comparação, mantendo fidelidade às nossas raízes históricas; mulher bela que nem a brasileira não existe. Européias são feiosas, mal-ajambradas e estereotipadas na aparência... A mulher brasileira é a mulher brasileira: graciosa, negra, mulata, branca, cafuza, mameluca ou cabocla, gostosa, sensual é sempre a mesma: diferente, bem diferente das outras de outras terras.
Uma pitada de gozação. Certo dia, fotografei os vários ângulos do nosso Passeio Público, a Praça dos Mártires, e mostrei a alguns amigos, dizendo tratar-se de paisagens européias. Ficaram encantados e disseram: "isso é que é um lugar". Perguntaram se era algum lugar de Paris, Londres ou Estocolmo. Ri um poucão e disse: não, meus amigos, é o nosso Passeio Público, em Fortaleza. Legal, né mermo? É mole ?
Viajar para a Europa ou para o raio que o parta pode interessar a muita gente, é gosto que não se discute. Quanto a mim, não troco, por razões aludidas, minha terrinha por nada. Não me orgulho de ser brasileiro, Histoire oblige, mas nada me impede de dizer com Pero Vaz de Caminha: "a terra é bela e generosa e, em se plantando, tudo dá", inclusive sensatez e sinceridade.
O resto é conversa de quem padece de incurável  complexo de burguesice...
Viva nosso Brasil e suas múltiplas facetas, que a todos encantam.
Fico aqui e não abro
INDICAÇÃO DE LEITURA DA OBRA LITERÁRIA.

Hugo Martins

Lendo uma coletânea dos cem melhores contos do século XX (critério do organizador), dou de cara com A Nova Califórnia, do romancista carioca Lima Barreto, conto que li quando ainda sentado nos bancos da Faculdade de Letras.
Trago o fato à vaca fria porque o estarrecimento que me provocou na época é o mesmo que experimento quando acabei, há pouco, de virar-lhe a última página.
Com pitadas de cortante e dilacerante sarcasmo voltairiano, o autor contrói uma alegoria na qual esparrama a baixeza humana, traduzida na hipocrisia e na desfaçatez de homens aparentenente, aparentemente, repita-se, graves, sérios e solenes.
Tubiacanga, cidadezinha de pouco mais de cinco mil habitantes, recebe a visita de um sábio, um químico de reputação reconhecida nas revistas da época. Homem recatado, vivia afastado, recolhido à sua casa, onde efetuava pesquisas científicas. Logo despertou a inveja e o despeito de alguns sabichões da cidade, o farmacêutico, o professor dado aos estudos da gramática normativa e outras figuras de menor expressão...
Como mandara construir um forno na sala da frente e comprara material para a prática da Química, logo despertou a curiosidade daquela gentalha, que começou a fazer suposições de que se tratava de algum maluco com ligações com o tinhoso.
Qual não foi a surpresa dos três iluminados quando receberam o convite do cientista, que lhes desejava fazer uma comunicação. Na reunião, ouviram do alquimista o fato de que era fácil produzir ouro com ossos de defuntos. No outro dia, Flammel, o nome do químico, sumiu da cidade. Até aí, nada de anormal. O que deixou espantada a população foram os arrobamentos que se procediam às urnas, túmulos e sepulcros da "mansão dos mortos". A indignação de todos era visível na atitude e comentários dos habitantes. Até que um certo dia, um dos profanadores foi surpreendido e preso... Sem tugir e mugir, prometeu aos seus captores ensinar a fórmula do produzir ouro com ossos de defuntos.
Não é fácil conter o riso daí então... Todas as pessoas, das mais gradas e das mais respeitáveis, saíam de surdina de suas casa pulando a janela, indo em direção  ao cemitério para levar a efeito a faina sinistra de profanar as catacumbas e dali retirar o maior número de ossos. A coisa ficou mais engraçada quando, num dado dia, a cidade ficou vazia de gente, todos se entregavam a uma insana luta, disputando, no cemitério, angariar mais e mais ossos... Diz o escritor que naquele dia havia mais mortos no solo do campo santo que os que ali se encontravam sepultados. Só uma pessoa, o bêbado Belmiro que, sentado às margens do rio que dava o nome à cidade, Tubiacanga, ingeria copos e mais copos de Parati enquanto contemplava as águas, que escorriam indiferentes às comédias e dores do mundo.
Recontei a narrativa. O leitor que trate de ler o conto e fazer suas interpretações. Matéria há de sobra... Se preferir ficar indiferente às significações esconsas nas entrelinhas, aproveite para, pelo menos, rir, a badeiras despregadas,  das travessuras trágicas e hipócritas de que o homem é capaz para atingir não se sabe o que mesmo.
No espaço temporal que vai do nascimento, passando pela consciência da finitude e chegando aos territórios da "indesejada das gentes", está a "salvação" do homem. Ou sua perdição?...
“E AÍ, EU COMECEI A COMETER LOUCURAS...
Hugo Martins

Semana passada tive um feliz encontro com uma pessoa que não via de há muito. Fora minha colega dos bancos do Curso de Letras, nos idos dos anos setenta, e costumávamos, aos sábados, assistir à chamada sessão do cinema de arte no vetusto Cine Diogo. Por um acaso, aliás muito apropriado, encontrei-a num bar, instância boêmia de que é pródiga a cidade de Fortaleza e, achei mais apropriado, ainda, porque ela é versada na arte de levantar copos, além de gostar de jogar conversa fora e não ser chata. A conversa correu solta enquanto a cerveja ia caindo sobre a mesa sem interferência de autocensuras ou de censuras indesejáveis. Tudo como manda o figurino de quem gosta de uma boa conversa.
Quando me disse ter deixado as belas-letras para dedicar-se a cuidar da alma dos outros, enfim, tornar-se uma terapeuta, dei-lhe meus pêsames e, ao mesmo tempo e paradoxalmente, parabenizei-a, ajuntando que a profissão era rentável. Fiz ver a ela que ser terapeuta, no étimo grego, é cuidar dos outros, é cuidar do escravo, é ser carinhoso, adorador, médico.... No entanto, só se aplica a palavrinha, nos sombrios dias de hoje, a psicólogos e outros profissionais do ramo... Enquanto o tempo passava, os copos se enchiam, e o papo mais e mais se animava, até que assentou-se entre nós dois o grande motivo da conversa: o terapeuta existe para ajudar os outros, e estes para aconselhar a outros que procurem ajuda... E nessa brincadeira, vieram à tona as pulsões, o id, o ego, o inconsciente, o subconsciente, os arquétipos, os sonhos, Eros e Tânatos... E o indefectível argumento de que todo homem pode ser analisado... Contrapus o argumento de que isso é relativo, pois o analista-terapeuta-psicólogo, na maior parte das vezes, não tem nenhum preparo, arrimando-se apenas em leituras pouco espessas, muito semelhantes à cultura de almanaques. Coisa parecida com o enciclopedismo do Google, que tem resposta para tudo. Profundidade fica para as cucuias. Interessa o imediatismo... A ajuda dos terapeutas, de regra, arrasta-se por anos a fio, e o analisado-terapeutizado-ajudado queda-se como um dependente de uma droga: a conversa fiada, o jogo dos lugares-comuns e a certeza de que seus problemas estarão, ao longo de um grande lapso temporal, sendo resolvidos. Pois sim, diria Luiz Gonzaga... E vamos abrir a bolsa... A alma precisa disso...
Ouvi de minha amiga todo esse converseiro sem me render ao clássico argumento: você também precisa de ajuda. Não sei por que cargas d´´agua vejo nisso tudo um meio de ir, honestamente, à bolsa dos outros sem que percebam que estão sendo cinicamente garfados...
Não sou psicólogo, assim como muitos romancistas também não o são, mas neles é que se encontram os mais ricos mananciais acerca do que vai nos escaninhos da alma do homem. Conversar com analistas-psicólogos-terapeutas é o mesmo que conversar com um padre num confessionário, ou chorar as mágoas num ombro amigo ou, ainda, projetar as dores numa folha de papel, numa espécie de projeção do eu ferido e sofrido, como fez o romancista alemão Goethe... É a função emotiva da linguagem de que falam os linguistas.
Minha intuição me diz que as grandes causas do sofrimento humano é o tempo que passa impune e indiferente às dores do mundo, bem como a consciência de todo homem acerca de sua própria finitude. A grande clientela daqueles cuidadores é formada por pessoas que estão muito além da maturidade que julgaram alcançar no plano etário, profissional e afetivo. Na verdade, pesa-lhes nos ombros a grande dor do tempo que passou, está passando e apontando para o trágico e irremediável fim de tudo. Quanto aos jovens, na civilização ocidental, existe um jogo ideológico que para eles cria um mundo feérico de felicidades mil, centrado no consumir, não só os bens de consumo em si, mas as formas de pensar, de interpretar o mundo, de navegar nos mares de uma existência sem nenhuma raiz humanística e toda radicada num aqui e num agora inconsistentes e sem nenhum sentido. Quer curar uma mulher naquelas condições? Devolva-lhe a juventude, e tudo fica resolvido. Quer curar um jovem neurótico dos dias de hoje, aquele que pode frequentar divãs, encha-lhe de mimos, presentes e outras benesses do mesmo jaez que lhe façam sentir-se importante...
Por fim, fiz ver à minha amiga que, se alguém anda à cata de terapias, curas e outros alívios para a alma, que recorra à Yoga, à Filosofia, à Literatura e à reflexão, que seus males serão aliviados. Sem contar com o lucro de não se deixar levar pela conversa fiada da grande carga de alienação e imbecilidade coletivizada pela indústria cultural, que impõe padrões, dita modas, impõe formas de pensar e ainda dá ao sujeito a impressão de que pensa bem o mundo quando, na verdade, faz ele parte de um grande rebanho de bois mansos, levados ao matadouro de almas, tangidos pelo cajado da persuasão de quem diz quem manda...
E viva Epicuro...
Minha colega disse-me que eu estava precisando de ajuda. Respondi com Fernando Pessoa: “se vocês têm a verdade, a ciência, a sabedoria, guardem-as, eu tenho a minha loucura. ” As no lugar de nas como objeto direto de guardar é uma forma rebelde que o poeta usou como recurso para se insurgir contra toda ortodoxia, todo discurso autoritário inserto no campo do domínio ideológico e manipulador...
Nada contra a ciência; tudo contra “você está precisando de ajuda. ” Muita gente pretensiosa, portadora de analfabetismo funcional crônico, às vezes levanta a voz e brada do alto de sua santa e ingente ignorância que fulanos, sicranos e beltranos estão precisando de terapia... Risos, risos, risos...
Tomamos mais umas duas,  “castramos o felino” e o pano baixou...
MÃE SÓ TEM UMA
Hugo Martins

Era uma data alvissareira. As mães estavam sendo homenageadas. Abriu-se, na escolinha das crianças, um concurso que consistia em escrever texto sobre as mães, em cuja estrutura deveria ser encontrada a expressão "mãe só tem uma".
Três textos foram selecionados e deveriam ser lidos em voz alta durante os festejos. Um deles seria premiado com o galardão de escritura mais original. E assim foi feito.
A primeira candidata, uma menininha de seis anos, leu sua produção. Aspeio. "Amo muito minha querida mãezinha. Ela me dá muito carinho. Ela se preocupa comigo. Olha para meu futuro e está sempre do meu lado porque "mãe só tem uma."
Estrugiram palmas, vivas; foram muitos os beijos e abraços.
A segunda candidata era outra menininha de olhar vivo e ar de quem sabe a que veio. Confiante, começou a ler seu texto. Aspeio. "Minha mãe é uma mulher forte e muito amorosa. Antes de ir para o trabalho, me deixa na escola. Ao meio-dia, ela vem me pegar e me leva para casa. Depois do almoço, fica comigo e me dá muito carinho. Sai para o trabalho e só volta à noitinha. Jantamos e, depois, vamos nos deitar. Ela conta muita historinha para mim. Sempre durmo muito feliz e sou muito feliz porque "mãe só tem uma".
Também não foram poucos os aplausos. A menininha saiu confiante.
O último candidato era um menino de ar sapeca. Entrou sorrindo no palco, deu tchauzinhos e adeuses, meteu a mão no bolso, tirou um pedaço de papel amarfanhado e começou a ler. Aspeio.
"Quando cheguei em casa á noite vindo da escola, entrei e vi que o quarto de minha mãe estava em penumbra. Ouvi vozes... Era minha mãe e um alegre amigo. Quando eu ia atravessando a sala, ouvi minha mãe: "Joãozinho, vá à geladeira e traga duas cervejas geladas". Obedeci ao comando, puxei a porta da geladeira, olhei nas prateleiras e no interior do refrigerador. Ante o que vi, gritei": Mãe, só tem uma".
Ganhou o concurso pela entonação virgulada e pela originalidade da narrativa.
Legal, né mermo?