sexta-feira, 17 de março de 2017

INDICAÇÃO DE LEITURA DA OBRA LITERÁRIA.

Hugo Martins

Lendo uma coletânea dos cem melhores contos do século XX (critério do organizador), dou de cara com A Nova Califórnia, do romancista carioca Lima Barreto, conto que li quando ainda sentado nos bancos da Faculdade de Letras.
Trago o fato à vaca fria porque o estarrecimento que me provocou na época é o mesmo que experimento quando acabei, há pouco, de virar-lhe a última página.
Com pitadas de cortante e dilacerante sarcasmo voltairiano, o autor contrói uma alegoria na qual esparrama a baixeza humana, traduzida na hipocrisia e na desfaçatez de homens aparentenente, aparentemente, repita-se, graves, sérios e solenes.
Tubiacanga, cidadezinha de pouco mais de cinco mil habitantes, recebe a visita de um sábio, um químico de reputação reconhecida nas revistas da época. Homem recatado, vivia afastado, recolhido à sua casa, onde efetuava pesquisas científicas. Logo despertou a inveja e o despeito de alguns sabichões da cidade, o farmacêutico, o professor dado aos estudos da gramática normativa e outras figuras de menor expressão...
Como mandara construir um forno na sala da frente e comprara material para a prática da Química, logo despertou a curiosidade daquela gentalha, que começou a fazer suposições de que se tratava de algum maluco com ligações com o tinhoso.
Qual não foi a surpresa dos três iluminados quando receberam o convite do cientista, que lhes desejava fazer uma comunicação. Na reunião, ouviram do alquimista o fato de que era fácil produzir ouro com ossos de defuntos. No outro dia, Flammel, o nome do químico, sumiu da cidade. Até aí, nada de anormal. O que deixou espantada a população foram os arrobamentos que se procediam às urnas, túmulos e sepulcros da "mansão dos mortos". A indignação de todos era visível na atitude e comentários dos habitantes. Até que um certo dia, um dos profanadores foi surpreendido e preso... Sem tugir e mugir, prometeu aos seus captores ensinar a fórmula do produzir ouro com ossos de defuntos.
Não é fácil conter o riso daí então... Todas as pessoas, das mais gradas e das mais respeitáveis, saíam de surdina de suas casa pulando a janela, indo em direção  ao cemitério para levar a efeito a faina sinistra de profanar as catacumbas e dali retirar o maior número de ossos. A coisa ficou mais engraçada quando, num dado dia, a cidade ficou vazia de gente, todos se entregavam a uma insana luta, disputando, no cemitério, angariar mais e mais ossos... Diz o escritor que naquele dia havia mais mortos no solo do campo santo que os que ali se encontravam sepultados. Só uma pessoa, o bêbado Belmiro que, sentado às margens do rio que dava o nome à cidade, Tubiacanga, ingeria copos e mais copos de Parati enquanto contemplava as águas, que escorriam indiferentes às comédias e dores do mundo.
Recontei a narrativa. O leitor que trate de ler o conto e fazer suas interpretações. Matéria há de sobra... Se preferir ficar indiferente às significações esconsas nas entrelinhas, aproveite para, pelo menos, rir, a badeiras despregadas,  das travessuras trágicas e hipócritas de que o homem é capaz para atingir não se sabe o que mesmo.
No espaço temporal que vai do nascimento, passando pela consciência da finitude e chegando aos territórios da "indesejada das gentes", está a "salvação" do homem. Ou sua perdição?...

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