“E AÍ, EU COMECEI A COMETER LOUCURAS...
Hugo Martins
Semana passada tive um feliz encontro com uma pessoa que não via de há muito. Fora minha colega dos bancos do Curso de Letras, nos idos dos anos setenta, e costumávamos, aos sábados, assistir à chamada sessão do cinema de arte no vetusto Cine Diogo. Por um acaso, aliás muito apropriado, encontrei-a num bar, instância boêmia de que é pródiga a cidade de Fortaleza e, achei mais apropriado, ainda, porque ela é versada na arte de levantar copos, além de gostar de jogar conversa fora e não ser chata. A conversa correu solta enquanto a cerveja ia caindo sobre a mesa sem interferência de autocensuras ou de censuras indesejáveis. Tudo como manda o figurino de quem gosta de uma boa conversa.
Quando me disse ter deixado as belas-letras para dedicar-se a cuidar da alma dos outros, enfim, tornar-se uma terapeuta, dei-lhe meus pêsames e, ao mesmo tempo e paradoxalmente, parabenizei-a, ajuntando que a profissão era rentável. Fiz ver a ela que ser terapeuta, no étimo grego, é cuidar dos outros, é cuidar do escravo, é ser carinhoso, adorador, médico.... No entanto, só se aplica a palavrinha, nos sombrios dias de hoje, a psicólogos e outros profissionais do ramo... Enquanto o tempo passava, os copos se enchiam, e o papo mais e mais se animava, até que assentou-se entre nós dois o grande motivo da conversa: o terapeuta existe para ajudar os outros, e estes para aconselhar a outros que procurem ajuda... E nessa brincadeira, vieram à tona as pulsões, o id, o ego, o inconsciente, o subconsciente, os arquétipos, os sonhos, Eros e Tânatos... E o indefectível argumento de que todo homem pode ser analisado... Contrapus o argumento de que isso é relativo, pois o analista-terapeuta-psicólogo, na maior parte das vezes, não tem nenhum preparo, arrimando-se apenas em leituras pouco espessas, muito semelhantes à cultura de almanaques. Coisa parecida com o enciclopedismo do Google, que tem resposta para tudo. Profundidade fica para as cucuias. Interessa o imediatismo... A ajuda dos terapeutas, de regra, arrasta-se por anos a fio, e o analisado-terapeutizado-ajudado queda-se como um dependente de uma droga: a conversa fiada, o jogo dos lugares-comuns e a certeza de que seus problemas estarão, ao longo de um grande lapso temporal, sendo resolvidos. Pois sim, diria Luiz Gonzaga... E vamos abrir a bolsa... A alma precisa disso...
Ouvi de minha amiga todo esse converseiro sem me render ao clássico argumento: você também precisa de ajuda. Não sei por que cargas d´´agua vejo nisso tudo um meio de ir, honestamente, à bolsa dos outros sem que percebam que estão sendo cinicamente garfados...
Não sou psicólogo, assim como muitos romancistas também não o são, mas neles é que se encontram os mais ricos mananciais acerca do que vai nos escaninhos da alma do homem. Conversar com analistas-psicólogos-terapeutas é o mesmo que conversar com um padre num confessionário, ou chorar as mágoas num ombro amigo ou, ainda, projetar as dores numa folha de papel, numa espécie de projeção do eu ferido e sofrido, como fez o romancista alemão Goethe... É a função emotiva da linguagem de que falam os linguistas.
Minha intuição me diz que as grandes causas do sofrimento humano é o tempo que passa impune e indiferente às dores do mundo, bem como a consciência de todo homem acerca de sua própria finitude. A grande clientela daqueles cuidadores é formada por pessoas que estão muito além da maturidade que julgaram alcançar no plano etário, profissional e afetivo. Na verdade, pesa-lhes nos ombros a grande dor do tempo que passou, está passando e apontando para o trágico e irremediável fim de tudo. Quanto aos jovens, na civilização ocidental, existe um jogo ideológico que para eles cria um mundo feérico de felicidades mil, centrado no consumir, não só os bens de consumo em si, mas as formas de pensar, de interpretar o mundo, de navegar nos mares de uma existência sem nenhuma raiz humanística e toda radicada num aqui e num agora inconsistentes e sem nenhum sentido. Quer curar uma mulher naquelas condições? Devolva-lhe a juventude, e tudo fica resolvido. Quer curar um jovem neurótico dos dias de hoje, aquele que pode frequentar divãs, encha-lhe de mimos, presentes e outras benesses do mesmo jaez que lhe façam sentir-se importante...
Por fim, fiz ver à minha amiga que, se alguém anda à cata de terapias, curas e outros alívios para a alma, que recorra à Yoga, à Filosofia, à Literatura e à reflexão, que seus males serão aliviados. Sem contar com o lucro de não se deixar levar pela conversa fiada da grande carga de alienação e imbecilidade coletivizada pela indústria cultural, que impõe padrões, dita modas, impõe formas de pensar e ainda dá ao sujeito a impressão de que pensa bem o mundo quando, na verdade, faz ele parte de um grande rebanho de bois mansos, levados ao matadouro de almas, tangidos pelo cajado da persuasão de quem diz quem manda...
E viva Epicuro...
Minha colega disse-me que eu estava precisando de ajuda. Respondi com Fernando Pessoa: “se vocês têm a verdade, a ciência, a sabedoria, guardem-as, eu tenho a minha loucura. ” As no lugar de nas como objeto direto de guardar é uma forma rebelde que o poeta usou como recurso para se insurgir contra toda ortodoxia, todo discurso autoritário inserto no campo do domínio ideológico e manipulador...
Nada contra a ciência; tudo contra “você está precisando de ajuda. ” Muita gente pretensiosa, portadora de analfabetismo funcional crônico, às vezes levanta a voz e brada do alto de sua santa e ingente ignorância que fulanos, sicranos e beltranos estão precisando de terapia... Risos, risos, risos...
Tomamos mais umas duas, “castramos o felino” e o pano baixou...
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