terça-feira, 11 de abril de 2017

UM OLHAR
Hugo Martins

Hoje revisitei Aristóteles, o Estagirita, folheando sua obra Ética a Nicômaco, precisamente no ponto em que o filósofo grego disserta mais fundamente sobre a Felicidade. A leitura despertou-me largas reflexões, pois o tema, pela sua aparente complexidade, abre ensanchas a que todo homem reflita sobre a questão, já que o objetivo-mor de todo ser humano é ser feliz. Por isso, cada um arrota seus conceitos seja o poeta, seja o boêmio, seja o filósofo ou, não se pode negar, até mesmo aquele que não “perde tempo” (?) em refletir sobre o assunto. Ninguém, nos seus devaneios e reflexões, tem mais razão que o outro. O tema não permite nenhuma absolutização, pois, subsumindo-se na relativização, muitas e variadas são as visões que sobre a Felicidade se espraiam.
Para Diógenes, o cínico, pensador grego pós-socrático, ela pode reduzir-se a não se criarem necessidades para si mesmo (veja-se a sociedade do consumo e do espetáculo); no mesmo diapasão reflexivo, Epicuro dizia que com um pedaço de pão e um pouco d´água, ele rivalizava com o próprio Zeus... Os estoicos, gregos e romanos, não se arriscavam a nada dizer sobre a questão, pois, como tudo é movimento, nada pode ser definido em absoluto. A alegria de hoje, pode ser a dor de amanhã...
Vinícius de Moraes, talvez tocado pela ideia da transitoriedade das coisas, compara a tal felicidade “a uma gota de orvalho numa pétala de flor”, que “brilha tranquila, depois, de leve oscila, e cai como uma lágrima de amor. ”
Há mesmo uma reflexão, supinamente tola e cretinoide, quando o sujeito vem e diz que “não existe a felicidade, o que existem são momentos felizes”. Isso aí dá o que pensar, sobretudo levar quem pensa a não pensar em reflexão tão destrambelhada.
Além disso, afloram reflexões de todo jaez, provindas de doutrinas religiosas, da lição de padres, pastores, rabinos e de toda casta de outras doutrinas pararreligiosas, as quais fornecem fórmulas para que o indivíduo se aproxime de posturas mentais semelhantes às miríades de bem-aventuranças criadas pela imaginação rica de profetas dos antigos e novos tempos.
De todas as reflexões, a aristotélica sempre me tocou profundamente os escaninhos da alma. Simples, direta e sábia. A sensação de felicidade está na contemplação estética. Em outras palavras, a linguagem da arte, revelada em qualquer signo, seja o som, seja a linha, seja o volume seja a perspectiva, seja o movimento, seja a palavra (ave, palavra) é a forma mais legítima e segura de o indivíduo se aproximar daquela alegria indefinível, que só o sujeito que a experimente pode definir para ele mesmo. Só. Só as Artes (com maiúscula) possuem o condão de injetar no ser pensante a sensação de bem-aventurança. Não é à toa que a Estética, parte da Filosofia que se ocupa do Belo, remonta, em seu significado original, à ideia de sentir. Veja-se a palavra anestesia, cuja preposição “A” com a variante “AN” significa ausência de sensação...
A propósito, hoje ganhei de presente dois livros da lavra da cultura grega, A Teogonia e Os Trabalhos e os Dias, ambos da autoria de Hesíodo. Não sei definir minha alegria antegozando a leitura de tais obras.
Quando digo que a leitura é uma “droga” inebriante, de “lombra” contínua e prolongada, talvez esteja intuindo a contemplação a que se refere Aristóteles. O resto vem por acréscimo... Ando sempre “lombrado.” É mais gostoso sentir e pensar o mundo com essas “viagens”