Escrituras Livres

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

MAIS UMA REFLEXÃO PRA ENCHER LINGUIÇA.

Hugo Martins

Pergunta cretina: qual o curso mais difícil na área acadêmica? Resposta adequada: aquele para o qual o sujeito não tem nenhum amor ou o elege por outras razões que não o chamado interior, a vocação. Há de haver sinceridade, pois, pois... sob pena de o indivíduo cair na esparrela das hipocrisias. Vejamos um caso de franca e flagrante hipocrisia.
Nos anos setenta, mergulhado o Brasil nos negros véus de estúpida ditadura, corria uma anedota de que aquele que desejasse ou não cursar Direito bastava passar em frente à porta principal da salamanca e dar bom dia ao porteiro. Diz a ferina maldade humana que este, no lugar de responder ao cumprimento, dizia as palavras sacramentais: "coisíssima  nenhuma, você já está matriculado". Bom lembrar que naquele tempo só a UFC oferecia tal curso, diferentemente dos dias de então em que a cada esquina se dá de cara com "cursos de direito".
Democratizado o país com a promulgação de uma Constituição  de feitio democrático em 5 de outubro de 1988, os operadores do direito passaram a ser mais valorizados, sobretudo com a percepção de salários mais polpudos e honorários menos humilhantes. Ora, logo, logo, as "vocações" despertaram de sua hibernação histórica. Resultado: os exames da OAB, por meio dos quais o bacharégua em direito pode obter a licença para advogar, provocaram o vertiginoso aparecimento da indústria de cursinhos e de feira editorial. Ambos produzem e mercadejam os famigerados e ridículos "bizus". Quer dizer: o sujeito gasta cinco anos nos bancos universitários, submete-se aos exames e neles é reprovado. Depois, matricula-se, por alguns meses, num desses  bem arrumados cursinhos e logra feliz aprovação... Que que há? Hipóteses: nossas faculdades não preparam seus alunos para enfrentamentos de lides forenses; os cursinhos "adestram", como o cão de Pavlov, os infelizes candidatos, ou estes não passam de paspalhões mentirosos, frívolos e hipócritas.
A formação em direito ou em qualquer curso de cunho superior exige, além de sinceridade de propósitos, formação eclética, que se dá no silêncio de autodidatismo sincero, posto em prática por quem guia seu comportamento também por mais franca honestidade. Não basta a frequência aos bancos escolares. Suficiente por si mesmo o amor aos livros, aos estudos e as dedicação e aplicação a não importa o curso escolhido.
Não há cursos difíceis, mas traição de propósitos. Trata-se das essência do caos e do cosmos; da diké e da hybris; do comedimento ou dos excessos. Que o digam os gregos em sua universal sabedoria, dispersa nas páginas de sua literatura, de sua filosofia, no seu teatro e na sua incompreendida ou mal-digerida mitologia.

Voilà!
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terça-feira, 29 de novembro de 2016

MUNDO VASTO.

Hugo Martins

Escritores há de órgãos sensoriais e atenção tão apurados e atentos, que traduzem o que vai pelo mundo com precisão de régua e compasso como a não deixar dúvida em relação à realidade que retratam e o  resultante desse esforço de recriar o impalpável diluído na imprecisão do ser.
Armado com palavras, perseguindo e caçando formas de dizer,  numa luta sem trégua, para encontrar a melhor tintura expressiva, lança mão do imaginário e, por consequência, das potencialidades criativas entranhadas na língua, nem sempre visíveis a todo redator, mas tão só àquele que ousa encontrar e dizer o aparentemente imponderável. Daí a questão da palavra e da coisa ou, com mais poeticidade, da "palavramundo", belo achado de Drummond tantas vezes por nós lembrado aqui e acolá.
Embora a retórica costume classificar como metáfora apenas situações em que se compara algo com algo, com o nexo apenas sugerido, chamo aqui metaforização, e em obediência ao étimo grego, toda situação em que o significado é levado além do seu sentido original. Assim, quando, o poeta diz que, "o nosso peito desafia a própria morte" se está em jogo o valor liberdade, a palavra "peito", semanticamente, (metonímia é um mero nome da retórica) é transportada para além, significando: nosso amor, nosso denodo, nossa coragem arrostarão qualquer situação, por mais temerária, para fazer valer a liberdade como valor maior de um povo.
É a partir desse postulado, que faremos um apanhado, de algumas metáforas célebres e belas, saídas de penas originais em sua inventividade única.
O jogador Mané Garrincha era famoso pela habilidade de driblar o adversário em qualquer dimensão espacial do campo. Nélson Rodrigues dizia que, "para Garrincha, um guardanapo era um latifúndio". Coisa linda se levarmos em conta que a palavra "latifúndio, constituída de dois radicais latinos, significa, ao pé da letra, terreno ou campo (fundus), largo (latus). O escritor Ruy Castro chamava Nelson Rodrigues de "Anjo Pornográfico". Ao biografar o teatrólogo pernambucano, intitulou a obra com esse sintagma. Ora, "anjo" seja em grego ou em latim, significa mensageiro. Desse modo, Nelson seria um veiculador de pornografia? Falso, pois Ruy Castro aplicou o substantivo não no seu sentido originário, mas recorrendo à acepção que deu a igreja católica àquela palavrinha dissilábica, afastando aquela pecha ao criador de Beijo no Asfalto. Afinal, os anjos da igreja católica são a medida maior da candura e da pureza... Constituem, por si sós, uma metáfora de larga semanticidade.
Com efeito, Nelson não era um pornógrafo como é visto pelo burguês filisteu, era um conservador, que pintava com tintas vivas a postura hipócrita do homem em sua mais verdadeira essência. Só isso.
Há palavras que já trazem de berço personificação metafórica: madrasta e sogra são exemplos de nós bem conhecidos. Muitas vezes, o escritor retira proveito do próprio corpo da palavra. Lembro aqui Rubem Braga pondo às claras a insignificância de alguém dentro dos esquemas mentais de sociedades insensíveis e perversas. Que fez ele? Ao nomear o personagem chamou-o de "joão da silva". Com minúsculas doídas, com o apelo a um nome próprio retirado da palavra latina "silva" (selva, mata) lugar em que eram concebidos os filhos do cruzamento do senhor com índias ou escravas. Como não "queriam dar seu nome" àquela prole, recorriam ao sugestivo nome. Aliás, em Machado de Assis, no Memórias Póstuma de Brás Cubas, há um capítulo intitulado "A Filha da Moita", alusão à bastadia de uma tal Eugênia, em cujo nome encontra-se o prefixo grego "EU" que significa  bom, excelente. Atente-se para o fato de que o resto da estrutura do nome da personagem significa, em grego, origem. Irônica e cortante metáfora em apenas um sintagma nominal.
Jorge Amado tem um romance,  cujo título é Pastores da Noite. Dá para desconfiar a quem alude o escritor baiano? Dá para pensar: boêmios e outros seres afins...
"São muitas as emoções". São muitas as metáforas. Necessário tão só captar as essências... E o mundo se tornará mais belo. "Mundo, mundo, vasto mundo, Se eu me chamasse Raimundo, /Seria uma rima/ Não seria uma solução..."
Voilà!
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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

METÁFORAS.
Hugo Martins
Metáfora é palavra grega, formada por dois radicais, que, somados, resultam no significado aquilo que vai além. Corresponde, semanticamente, em latim, ao que Cícero chamou de TRANSLATIO, que, por sua vez, em inglês, significa TRANSLATION (tradução), literalmente, levar além. Assim, quando o produtor de um texto deseja ir além do significado dicionarizado de uma palavra ou expressão, recorre ao processo da metaforização para alcançar maior expressividade ao que pretende dizer. Vai além da acepção primária. Quando Jesus Cristo chama os fariseus de "sepulcros caiados", "raça de víboras" ou "geração adúltera", por ordem, tais sintagmas travestem as expressões aproximadas de hipócritas, traiçoeiros e perigosos e, por fim, cambada de filhos de puta.
Recorre-se de regra à metaforização para suprir a impotência da linguagem em traduzir o que vai na alma do escritor, que se esbate na "angústia da forma".
Quando Caetano Veloso, na letra da canção Sampa, que, por si mesma, já é uma metáfora (intimidade, carinho), refere-se às Avenidas Ipiranga e, sobretudo, à São João, e diz, antes, "alguma coisa acontece no meu coração", presta sibilina homenagem ao compositor da música Ronda, que conta a história de uma mulher que, sentindo-se rejeitada pelo amante, projeta o cometimento de um homicídio, "numa cena de sangue num bar da Avenida São João". Na mesma canção, o compositor baiano cria uma graciosa metáfora para traduzir o ar cosmopolita da cidade, que congrega etnias e transpira o caos das grandes metrópoles. Faz isso num mero jogo de repetição do mesmo termo sintático: "Porque tu és o avesso do avesso do avesso do avesso." Grande achado.
Aquele "meu guri", do Chico, cuja mãe o enxerga deitado na grama a contemplar o céu, não olha o céu. Na verdade, está morto, lembrando o extermínio, real ou desejado, de nossas crianças, cometido por uma sociedade hipócrita, insensível e perversa.
A Pata da Gazela, de Alencar, nada mais é que a releitura do conto A Gata Borralheira, aquela do sapatinho de cristal que, metaforizado, pode ser uma alusão à genitália feminina. São tantas as emoções... Os romances Esaú e Jacó, de Machado de Assis, e A Leste do Éden, de Stainbeck, colocam, no plano familiar, conflitos entre irmãos, motivados pelo mais detestável sentimento humano, o ciúme. A história dos filhos de Isaac e Rebeca, e os de Adão e Eva está implícita no enredo das duas obras referidas. O próprio título já sugere a temática...
Quando Murilo Mendes escreve o verso:"As horas passam, os homens caem, a poesia fica" (coisa linda), diz, de maneira originalíssima, da passagem do tempo, que tudo destrói e joga o homem no esquecimento, mas não impede que a arte seja eterna e eterna e eterna...
São tantas as emoções...
Quando os militares da ditadura de 1964 criaram o slogan "O Brasil é um país feito por nós", o humorista Millôr Fernandes não leu a última palavra como um pronome, mas como um substantivo, no que resultou na lancinante metáfora, inserta na frase "Resta saber quem vai desatá-los". Ui!
A leitura da obra literária é tanto mais encantadora quanto mais estiver polvilhada a obra de tiradas metafóricas. Brás Cubas só escreveu o romance Memórias Póstuma de Brás Cubas por causa da metáfora. Afinal, diz ele:"Leitor, eu não sou um autor defunto, mas um defunto autor para quem a campa foi o último berço."
São muitas as emoções. Não aspeio, muito pobre
Aspearia se "Assum preto o meu cantar é tão triste quanto o teu, também roubaram o meu amor que era a luz dos olhos meus". Sobretudo se se souber que se furam os olhos do pássaro para "ele assim cantá mió", na letra de Humberto Teixeira.
E aquele cangaceiro de Lampião que disse:"Se eu soubesse que chorando, empato a tua viagem, meus olhos eram dois rios que não te davam passagem." Aí é Freud.
Que diria a genialidade dum tal ximbinha, referida por um jornalista? Que o diga Suassuna na sua bela metáfora, lembrando Beethoven. E os safadões e outros idiotas da mesma fauna, que diriam dessas metáforas? Umas porcarias, certamente.
Compreensível. São muitas as emoções.
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terça-feira, 22 de novembro de 2016

VAI AÍ UMA REFLEXÃO?

Hugo Martins

Dezesseis horas, e eu aqui na minha redinha de corda, armada bem baixinha, quase ao rés do chão. Quando me perguntam  por que  assim? Medo de quedas. Ponho o dedo no chão, dou um embalo curto e me entrego ao devaneio, à procura de um assunto que valha a pena ser tratado por uma pena leviana, que se entrega ao prazer de escrever por, simples e gratuitamente, escrever. Sem esperar recompensas ou aplausos. Rendo-me ao dolce fa niente de quem já trabalhou além da conta e se regala no prazer de entregar-se ao ler e ao escrever sem nenhum sentimento de culpa. Que faço eu, em plena segunda-feira, a essas horas, olhando o céu azul, límpido,
sem fiapo algum de nuvem, nem mesmo para construir figuras como fazia nos meus tempos idos de menino sonhador e involuntário gestaltista? Dá pra perceber que escrevo um texto. Há pouco tempo fechara o volume de Mitologia Grega, o primeiro de uma série de três, de autoria de Junito de Souza Brandão, publicação da Editora Vozes. É Gaia, é Urano,  é Cronos, é Caos, é o Cosmos, os Titãs, os  Campos Elísios, é o Érebo, é o Tártaro, é Diké e é Hybris. Parece a escalação de um time de futebol...
É imaginação, é maravilhamento, é o mundo intrepretado por outros signos, saídos do gênio grego, que guardam, em seu ventre,  feérica contemporaneidade. Mar imenso e inesgotável de simbologia, cujos signos, símbolos e ícones se prestam para que o homem explique, por eles, o mundo e também o interprete.
Tomemos Diké e Hybris. Vamos à viagem. Quem se aventura a estudar a ciência do Direito voltando-se apenas para a leitura simplista de leis, jurisprudência e doutrina, sem dar crédito a outras matérias como filosofia, sociologia, psicologia, literatura, rótulo de papel higiênico, placas de rua, escatologia, enfim, tudo que lhe caia nas mãos, que se reduz, ao fim e ao cabo, à Filosofia na sua mais ampla acepção, será incluído no rol daqueles que se enquadram numa parêmia de Holbach, que diz:"Quem só estuda direito não sabe direito."
A função-mor, ou a teleologia primeira do Direito, é manter a pacificação da sociedade dos homens no mundo. Quando alguém vai ao Estado-juiz, perseguindo uma pretensão, que julga legítima, contra outra pessoa, está a pedir ao primeiro que restabeleça a ordem natural das coisas, perturbada pelo réu (que está no polo passivo da demanda.) Por intermédio do processo, aquilo que vai à frente por impulsos ou ações de uma parte e outra, alcança-se o desiderato que se tem em mira. O Estado dirá o direito, reorganizando o mundo, sempre à luz do que determina o ordenamento jurídico.
Ora, Diké é o Direito, é a organização, é o cosmos; a  Hybris, é o caos, a desordem, a quebra do equilíbrio das coisas no mundo. Aí temos a sabedoria própria dos mitos refletida numa coisa aparentemente sem importância.
Outra reflexão com a mesma luz. A Filosofia diz que o homem é constituído de um Ser e um não-Ser. O primeiro é perfeito, imuatável e eterno; o outro é seu contraponto, dobra-se às matérias tempo e movimento, por isso é imperfeito, efêmero e fugaz. Duas realidades duras para o "caniço pensante".
Vamos a algo aparentemente comezinho... Quando as mulheres enxergam, no espelho, as garatujas e tatuagens que o tempo lhes pespega no corpo (a hybris), tratam de recorrer a todos os meios possíveis para, num jogo de gato-e-rato, fugir à ação deletéria do gato. Entre outros meios, recorrem aos cosméticos (palavra derivada de cosmos) na vã tentativa de reorganizar o irremediável.
Para não ser injusto com as mulheres, tampouco correr o risco de ser taxado de preconceituoso, é de se lembrar que a sociedade do espetáculo, a sociedade das vãs aparências e do "homem unidimensional" também impôs a este a rendição à indústria dos reparos do corpo. Quanto aos da alma, trata-se de "questão prenhe de outras questões"
Eis aí... Os mitologemas muito ajudam nas leituras de mundo, até mesmo quando flagram os homens na constatação irrefutável de que "Vanitas vanitatum et omnia vanitas."

Deo gratias ago.
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sábado, 19 de novembro de 2016

EQUÍVOCOS
Hugo Martins

A canção Balada número 7, composta por Alberto Luís em 1971 e interpretada por Moacir Franco, homenageia o maior ponteiro direito do futebol mundial, Mané Garrincha, jogador do Botafogo do Rio de Janeiro, ao lado de Nílton Santos, Didi, Amarildo e Zagalo, todos titulares absolutos da Seleção brasileira de futebol, que, em 1962, conquistou o bicampeonato na Copa do Mundo, disputada no Chile. Pois bem... Na verdade, de início, pretendia o compositor homenagear Ypojucan, jogador do Vasco da Gama, que estava internado, muito doente, já às porta da morte. Quando mostrou a letra a Moacir Franco, este, de um estalo de Vieira, propôs decantar Mané Garrincha, coisa que depois fez em pleno Maracanã, diante de cento e cinquenta mil pessoas, que foram prestigiar Mané Grarricha num embate envolvendo Seleção do mundo e a Seleção brasileira, numa espécie de preito de gratidão ao infernal ponteiro. Garrincha estava, então, com quarenta anos de idade. A canção foi entoada antes do jogo e provocou forte emoção e muito choro nos que lá estavam...
A reflexão surgiu devido à leitura que acabo de fazer da biografia de outro jogador do Botafogo, muito, mas muito mais excêntrico que Mané. Morreu aos 39 anos, num hospital psiquiátrico, totalmente abatido e destroçado pela loucura. Trata-se de Heleno de Freitas, que também é homenageado por Benito di Paula, na canção Tributo a um Rei Esquecido... Quem posta na Internet o video em que aparecem cenas para ilustrar a canção quem lá aparece é Mané Garrincha e não Heleno de Freitas. Eis o equívoco. Para constatar, é necessário ler a biografia de Garrincha, escrita pelo jornalista carioca Ruy Castro. Título da obra: A Estrela Solitária, metáfora extensiva tanto ao time do Botafogo quanto ao craque Mané Garrincha...
Se Mané parecia ser simplório; Heleno ostentava ares de aristocrata falastrão e narcisista Garrincha tinha como maior diversão refugiar-se na sua cidade natal, Pau Grande, no estado do Rio de Janeiro, e lá participar de "peladas" com os amigo, caçar passarinhos e beber cachaça. Heleno era frequentador de altas rodas sociais, onde desfilava com ternos e sapatos da última moda, era formado em Direito e só bebia uísque ou vinho. Garrincha não ostentava nenhuma belez física, sua alma parecia irmanar-se com o  modo de ser de Carlitos, personagem de Chaplin: desajeitado, vocabulário limitado, sorriso franco e sincero, pouco dado à frequência a rodas sociais. Trazia no rosto uma aura de simplicidade e bondade. Heleno era um tipo bonito. Alto, esguio, cabelos repartidos para o lado e fixados com brilhantina. Formava o tipo cinematográfico a la Marlon Brando. Era perseguido e adorado pelas beldades e dondocas frequentadoras do Copacabana Palace...
Trocando em miúdos, Heleno era um rei, na mania monarquista do povo brasileiro, e Mané Garrincha um plebeu desgracioso e sem vaidade. É diante de tais retratos que vejo na canção de Benito referência clara a Heleno Freitas e não a Mané Garrincha.
Garrincha permenece na lembrança de quem o viu no Maracanã, encantando a todos com jogadas, a um tempo, mirabolantes e engraçadas. Era conhecido como Alegria do Povo. O pouco que conheço de Heleno de Freitas devo ao testemunho e à fala da crônica esportiva. Dizem que jogava bonita e elegantemente. Dizem que se tivesse participado da Seleção que perdeu a Copa em 1950 para o Uruguai, o resultado teria sido favorável aos brasileiros, e Obdulo Varela teria baixado o cachaço à valentia, ousadia e o destempero verbal, marcas vivas da personalidade de Heleno de Freitas...
Duas vidas interessantes tanto pela comicidade quanto pela tragicidade da existência...

Eis aí...
Postado por Hugo Martins às 12:09 Nenhum comentário:
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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Minha amiga, duas coisas ocuparam-me as reflexões e serviram de mote para a escritura dessas "mal traçadas" linhas. A primeira voltou-se para a questão da frase "conhece-te a ti mesmo", inscrita nos frontões do Oráculo de Delfos, templo grego dedicado a Apolo. Há uma tendência a se interpretar a frase, emprestando a ela tons "psicologizantes". Embora toda interpretação, desde que não se revele estapafúrdia, deva ser respeitada, a leitura de alguns mitógrafos guindou-me a dar crédito mais à questão do caos e do cosmos, tomando o primeiro como perturbarção na ordem natural das coisas, e o segundo, como organização, equilíbrio exigido nas mais comezinhas das coisas na vida do homem. Assim, todo excesso, todo descomedimento do homem praticado na ordem posta ao mundo, o grego chamou de hybris. Nesse diapasão, os suplícios impostos a Prometeu, a Tântalo e a Sísifo, por exemplo, explicam-se pelos excessos que aqueles praticaram. Portanto, o "conhecer-se a si mesmo" é o vigiar-se para não se render à hybris. No pensamento cristão, a hybris corresponde ao cometimento do que se convencionou chamar pecado, sobretudo nos textos epistolográficos de São Paulo.
O próprio Sócrates adotou a frase como guia para filosofar sobre a necessidade de se manter tudo no mundo no justo equilíbrio,  o que Aristóteles, depois, vai resumir na parêmia" in medio virtus".
Lembrar que, ao lado daquela frase, havia outra como que lhe servindo de complemento"evite os excessos."
Não é difícil verificar que todo excesso cometido pelo homem, não importa quando ou por que, resulta em prejuízo para ele e, nas mais das vezes, para seus pares.
A outra questão estarrece: o poder judiciário no Ceará impôs a um jornal local não publicar o nome de um juiz que resvalou numa hybris. A coisa se torna mais gravosa, primeiro, porque fere de morte todos os princípios democráticos  inscritos na Constituição Federal, mormente a livre manifestação de pensamento; e, de outro bordo, o mandamento que veda qualquer espécie de censura...
O fato imputado ao magistrado é real, provado e comprovado. Por isso, abre-se grave precedente legal, pois, pelo princípio da igualdade, qualquer cidadão que cometer um delito pode invocar o mesmo privilégio sem que o Judiciário se manifeste contrário a tal desiderato.
É de se ver que a questão da hybris dos gregos não se inscreve na pregação de filosofice barata ou matéria para agradar intelectos desocupados de coisas sérias. Pelo contrário, é algo que está grudado como indelével tatuagem no modo de ser do homem...
Em sua essência, matéria da Ontologia, ciência que se ocupa do Ser enquanto Ser, o homem é o mesmo em todos os quadrantes espaciais e temporais.
Voilà !
Postado por Hugo Martins às 20:31 Nenhum comentário:
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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Cara, gosto desse texto. Traz ele além de pitadas históricas, alguma reflexão amarga sobre sinceridade de propósitos e outros bichos ligados à frivolidade de fulanos, sicranos e beltranos. Sempre detestei a impostura. Futebol e qualquer competição esportiva nesse país de pouco siso cheira a safadeza, patifaria e falta de vergonha. Gosto desse texto, sim. De algum modo, reflete o que ainda trago de sinceridade na alma, além de meu horror pela deslealdade nos fatos mais comezinhos no dia a dia. Embates esportivos, aqui e alhures, de alguma maneira, refletem o homem.
Saudemos Selene. Hoje cedo ela estava bela, gorda e deslumbrante.
Grande abraço de seu sempre servo e amigo,
Hugo Martins

A MATÉRIA TEMPO
                                                        Hugo Martins

Sempre fui apaixonado por futebol. Não o jogado nos tempos de hoje, mas o praticado em outros tempos. Não se trata de nostalgia barata, mas de constatação irrefutável do que a história, o devir, o transcorrer do tempo nos impõem. O melhor presente que alguém poderia me dar era uma bola de futebol, mesmo que uma pelota ordinária, daquelas feitas de borracha. Isso porque só tinha eu acesso, na condição de proprietário, quando eu mesmo confeccionava bolas-de-meia para aprender a fazer embaixadas, brincar de gol-a-gol ou treinar chutar com a perna esquerda e a perna direita com a mesma eficiência. Domingos havia que saíamos sobraçando uma chuteira velha, apanhávamos um ônibus e íamos aos subúrbios jogar nosso futebol. Assim aprendíamos, despertando o talento com gratuidade, jogando por jogar sem nenhum desejo de profissionalização ou de alcance de fama. À época, jogador de futebol era jogador de futebol, não mito, não deus, não celebridade. Se se tornavam famosos era pelo mero desempenho, não havia esse negócio de corrupção. Canhoteiro recusou ir à Copa do Mundo de 1958 na Suécia. Mané Garrincha jogava como Manuel Bandeira fazia versos. Se este os fazia “como quem chora de desalento, de desencanto”; aquele fazia suas diabruras como algo que lhe fluía naturalmente da alma pura e das pernas tortas. Assistir a uma partida no Maracanã entre Santos e Botafogo era uma festa para alma. Afinal as duas equipes formavam praticamente a seleção brasileira de futebol. Não tinha esse negócio de estrangeiro e outras babaquices afins. De um lado, Gilmar, Mauro, Zito e Pelé, do Santos; de outro, Nilton Santos, Garrincha, Didi, Amarildo e Zagalo, do Botafogo. Era um jogo cênico, era um espetáculo, era uma alegria. Era futebol de verdade, sem firulas, quedinhas e charminhos... Todos eram titulares da Seleção...
Minha primeira paixão foi o Flamengo. Nasceu ela da leitura da revista Manchete Esportiva. Abria-a, compulsava suas páginas e nela via as várias equipes do futebol carioca. Simpatizei com o Mengão e sua equipe infernal, que passei, desde então, a acompanhar pelas transmissões radiofônicas. Ainda hoje lembro a equipe básica, com uma ou outra troca episódica: Garcia, Tomires e Pavão; Jadir, Dequinha e Jordan; Joel, Rubens Evaristo, Dida e Esquerdinha. Com o tempo iam entrando novos valores. Sempre fui fã do meia-esquerda Dida, na minha opinião, maior que Zico. Nas primeira partidas da Seleção no ano de 1958, Pelé (então com dezessete anos) era reserva do meia Dida. Aqui no estado do Ceará, escolhi o Ferrim. Talvez por sua linha, cuja formação ainda está na minha cabeça: Kit, Pacoti, Zé de Melo, Aldo e Fernando.
Era eu um apaixonado por futebol. Passado o tempo, e vendo a realidade que hoje permeia esse esporte, com estrelas demais para firmamento tão exíguo, com cartolas, manipulando resultados, com árbitros venais e treinadores falastrões, restou-me uma frustração de amante enganado, de consumidor embaído, de sonhador que só vivencia pesadelos. Hoje, nem mesmo os jogos do selecionado brasileiro de futebol despertam em minha alma desiludida nenhum encanto. Se, quando menino, recorria a todo expediente para assistir a um jogo, tentando pular o muro do PV (tempo romântico), ou me arriscando no aperto de tanta gente na “hora do pobre” para ver o finalzinho do jogo, ou mesmo, colocando-me franciscanamente aos pés de um rádio, acompanhando  uma partida de futebol em outro Estado e me angustiando com o chiar do aparelho a esconder e apagar lances, hoje, adulto, sensato e com a pulga atrás da orelha, desprezo o futebol, dele fujo por não mais ver nele o feérico, o encantador, o maravilhoso dos tempos de antanho... É isso... Nunca soube eu conviver com mentiras...
Postado por Hugo Martins às 05:11 Nenhum comentário:
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terça-feira, 15 de novembro de 2016

SELENE, SEMPRE AMADA.

Hugo Martins

Brisazinha fagueira. Ventinho fresco. Faz duas horas que toca uma musiquinha própria para o relax, muito comum em  exercícios de postura na Yoga. Deitado na redinha de corda na varandinha aqui de casa, sinto o espírito aquietado, a alma posta em pleno sossego. Quero crer seja a interferência da melodia, transpirando numa miscelânea de toques quase monocórdios de notas musicais de um piano, como que arrastadas numa sintonia vaga que se encaminha para não sei que infinitude... Em contraponto, espaçados acordes de flauta, somados ao pipilar de pássaros pululantes e inquietos, arrulhando seus cantos díspares. Tudo é harmonia, lembrando a proposta de Baudelaire de gosto simbolista em que tudo é ordem, beleza, luxo, calma e volúpia (là tout n'est qu'ordre ou beauté, luxe, calme, volupté). Nesse transe,  estava o poeta tomado pelos fluidos inebriantes de estupefacientes; aqui, estamos mergulhados na magia da música, divina música...
Entregue ao momento, desperto e ouço um chamado interior a me lancinar o espírito: "anda, é preciso escrever o texto sobre o mito de Sísifo conforme ficou afiançado entre ti e tu mesmo". Ergui a cabeça, virei-a de lado e o que vejo? No firmamento claro, vejo-a gorda, imponente, brilhante, como sempre deixando ver no torso redondo machas indecifráveis a olho nu, que o povo deu de comparar com uma cena em que se vê São Jorge, matando um dragão. Fito-a longamente a ver se ela me dá uma piscadela. Selene, porém, mantém-se indiferente. Ainda bem que não só a mim, pois sua preocupação única é receber os raios do Sol e mexer com o humor das marés.
Já inventaram  muitas histórias sobre Selene. Quando menino, de espírito aberto aos mistérios do universo, revelados pela boca dos contadores de histórias de Trancoso, acreditava, como os da minha idade, que, em certas noites, os fluidos quase astrais (ou "satelitiais"?) de Selene envolviam com mais vigor os espíritos maus, e os homens destes portadores se transformavam num animal híbrido para quem se criou o substantivo composto "lobisomem". Muito menino sertanejo temia, nas sextas-feiras em que Selene estava grávida, atravessar, sozinho, caminhos desertos, temendo o aparecimento súbito daquele bicho feio e dado a grandes maldades... Uiiiiiii !!
Selene foi eleita o "astro dos namorados". Muita gente duvida de que o homem tenha posto o pé por lá. Lembro que no dia em que correu a notícia da chegada da nave no solo lunar,  e este fora pisado por astronautas, um senhor, homem severo, religioso, amante de dadas "verdades", porém crédulo a doer na alma, dizia alto e bom som: "eu não acrefito numa coisa dessas. Estão querendo brincar com as coisas de Deus." Alguém perguntou por que. Aquele senhor, para dar maior certeza  ao que dissera, aduziu: " passei o dia todinho olhando o céu, esperando o tal foguete estacionar na lua. Tudo conversa. Amanheceu o dia e não vi nenhum movimento por lá".
Quanto a ser o "astro dos namorados", há alguma dose de verossimilhança na coisa. O cancioneiro popular é pródigo de produções poéticas enaltecendo Selene, seus encantos, sua mística e sua influência no amolecer corações apaixonados.
À época em que, em terras interioranas, as luzes da cidade se apagavam às vinte e duas horas, os casais de namorados não aprovavam nessas horas a presença de Selene. Não se sabe o porquê.
Vivas a Selene, nossa sempre amada...
Postado por Hugo Martins às 17:58 Nenhum comentário:
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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Mia amica,
Sempre fui fascinado pela linguagem. Embora mais inclinado para a vertente verbal, a de que se ocupa a ciência linguística, pelo fato de traduzir todas as demais e não ser traduzida por nenhuma outra, não fujo aos encantos da linguagem expressa pelo signo semiológico. Afinal o mundo, que dizem ser um moinho, só existe na linguagem. Sem ela tudo é vão.
Depois que, graças aos deuses do Olimpo, voltei a estudar a língua grega, aproveitei para fazer visitas frequentes à Mitologia, assunto que interessa a todo aquele que ama a cultura clássica e vê no estudo dos mitos matéria rica para os desvendamentos que encerram a relação necessária homem e mundo.
Já num texto escrito há poucos dias, procedi à análise do Suplício de Tântalo, ligando o relato aos dias hodiernos, ressaltando o sofrimento por que passa o homem quando se vê envolvido e emaranhado pelos palpos do consumismo irrefreável, cuja teia é entretecida pelo discurso persuasivo de quem conhece a alma humana em suas fragilidades.
O suplício, entre os gregos (lembrar que, nesse aspecto, os romanos se limitaram a copiar os gregos) corresponde, mutatis mutandis (mudando o que se deve mudar), ao conceito de castigo ao pecador na Bíblia Sagrada, sobremaneira, no discurso epistolográfico de São Paulo.
O castigo pelo pecado cometido, no conceito bíblico, ocorre em nível de consciência. No Antigo Testamento, o deslize de Adão e Eva foi insurgir-se contra a divindade pela desobediência e pela soberba. Castigo: expulsão do Jardim do Éden e viver do suor do rosto como se trabalhar fosse um suplício e houvesse, à época, necessidade de trabalhar para prover a subsistência.
Há um suplício na Mitologia grega, que serve de pasto a interpretações de todo jaez, o Suplício de Prometeu, que, em muito, aproxima-se do mito adâmico, pois ocorreu a soberba e o confronto com as determinações e autoridade de Zeus. Prometeu furtou o fogo e deu vida ao homem, resumidamente. Foi, por ordem do deus dos deuses, acorrentado ao Monte Cáucaso para onde Zeus enviava uma imensa águia, que passou a roer,eternamente, o fígado do herói. Há relatos que dizem que Prometeu foi libertado pelo próprio Zeus; há outros, porém, que Héracles (ou Hércules) libertou-o matando a águia.
O suplício mesmo está traduzido no fato de a águia devorar a víscera do herói, a ele impingindo lancinante dores e, no outro dia, aquela renascer para, novamente , ser devorada.
Aí cabem interpretações de toda sorte...De cunho teológico, filosófico, literário. O cardápio é rico e variado.
O livro Ocidentais, de Machado de Assis, em sua primeira página, traz o soneto O Desfecho, poema que trata da questão aqui retratada, em que o escritor fluminense situa  Prometeu acorrentado, que olha para o tempo, que corre, "pausadamente como um dobre de finados", sendo surpreendido, de súbito, pelos ataques da grande ave do céu, que "rói, perpetuamente, a víscera do herói". Um dia a águia chega para cumprir sua faina e vê que o fígado não mais renascera. Eis a questão: o fígado devorado significa o sono; o fígado renascido sugere o acordar para a vida. O seu não renascimento representa a morte, metaforizada "na mão invisível que dilui as cadeias", que sustêm o herói.
O úitimo verso do soneto pôe em evidência a visão de Machado acerca da vida, que, para ele, se traduz em dor, peso, sofrimento, condição a que homem nenhum pode fugir. Como a morte é o fim de tudo, e o sujeito, nesse eufemismo cretino, "vai descansar", a vida deve ser um fardo pesado, situação belamente traduzida no verso machadiano: "Acabara o suplício; acabara o homem". Uma igualdade perfeita.
Quem desejar conhecer o mito pelo discurso da tragédia, pode ler Prometeu Acorrentado, de Ésquilo.
Reiteramos o cabimento de variadas interpretações do texto mítico. A outras correntes podem estar presos os prometeus de todas as facetas. É descobri-las, é encontrá-los, é arrostar as grandes águias. Questão de audácia.
Grande abraço, mia bella ragazza...
Postado por Hugo Martins às 21:56 Nenhum comentário:
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Minha cara, essas situações, definidas com propriedade por Catulo, recebem do crítico literário e do leitor escafandristas a denominação de "o indefinível" "o inexprimível" ou "o inefável". Este último sintagma  é o mais pleno de significação, pois tem parentesco com "nefando" e "infando", termos que encerram um radical que tem a ver  com "infante", aquele que não sabe falar ou dizer algo sobre algo. Mais profundamente, contemplar a criança, ainda não senhora de mecanismos verbais para expressar o mundo, é deparar a perplexidade em sua concretude.
Aliás, há situações de vida que não se consegue exprimir no simples dizer. Por isso, é comum, diante do inaceitável, do inexplicável, o bicho homem recorrer simplesmente ao silêncio, ao choro e ao riso. Os dois últimos são irmãos siameses.
Faz doze meses exatos que redigi o texto que se segue. Intitulei-o, tomando de empréstimo os versos de Catulo da Paixão, não confundir com o poeta latino, encontradiços na bela letra da canção Ontem ao Luar.
Grande abraço.
Do seu criado,
Hugo Martins

COMO DEFINIR O QUE SÓ SEI SENTIR?
                                                                Hugo Martins
Como fazer, como colocar no papel? Lembrei-me de Catulo da Paixão Cearense e a indagação supra na canção Ontem ao Luar. É isso: como definir saudade se só é possível senti-la, cada um a seu modo?
Quando estou caminhando, não importa onde, nem por onde, nem pra onde, as idéias me assediam e obrigam-me a que eu as registre quando chegado a casa. Estacar em público e anotá-las é temerário, você pode ser considerado um alienado ou ser, de súbito, assaltado por algum sujeito desprovido de espírito natalino. Onde já se viu? O sujeito empunhando uma caneta na era dos celulares, iPads e Ifodas... Bom, continuo ainda muito preso às saudades do lápis, da caneta e do convívio com os livros. Estes ainda vão provocar muitas saudades, pois estão caindo no esquecimento e no desuso, dando lugar á recepção das notícias do mundo pelos meios audiovisuais. Ai de nós! Como definir o que vemos? E o que só sei sentir? Pois bem. Hoje passei pela experiência de, enquanto caminhava, ver imagens presas a um tempo que me fez sentir saudades.
Lá estou eu no murinho de nossa casa, à hora do ocaso. Orquestra de cigarras. Morcegos ziguezagueando. Aboio dolente. Bimbalhar de chocalhos. Mugidos pungentes. Minha solidão e minha curtição, que só eu sabia sentir. Muita saudade...
Pracinha. Pipoqueiro. Vendedor de algodão-doce. Roda viva de meninos. Farfalhar da copa das mangueiras. Folhas secas espalhadas no chão. Lá vinha ela. As perninhas a pedalar com força. Riso estampado nos lábios finos. A cabeleira loura não esvoaçava, estava presa na longa trança em cuja ponta atava-se gracioso lacinho. A mãe a vigiar a filha. Mal desconfiava de que um pertinaz sonhador espreitava aquela doçura de menina. Não virou musa, vestiu-se de sonhos. Em mim, muita saudade.
Lá estou eu no murinho de minha casa, na cidade grande, mas ainda com ar de província. Era fim de tarde. Em frente à casa um gramado, onde a meninada batia “racha”. Ali estou, menino recém-chegado do interior, com ares de matuto, a ouvir o arrastar de automóveis que deslizam numa larga avenida ali perto. Pouco me importa. Interessa-me por olhar a menina de pernas finas, a pular cordas com as amiguinhas. Só tenho olhos para ela, e ela não me olha, não me vê, não me enxerga. Terminado o folguedo, ela entra. Mergulho em silêncio na minha solidão de menino de coração mole. Muita saudade...
Mesa posta. Pedaços de pão num pequeno receptáculo. Cheiro de café. Fim de tarde. Assovio. Aviso do começo do “racha”. Apreensão. Olhar admoestador da mãe. Liberdade condicional. Par ou ímpar. O dono da bola não podia “sobrar”. De regra, não jogava nada, mas tinha a “autoridade de “dono da bola”. Se não fosse escalado, não tinha “pelada”. Noite chegando. Suor. Botas de poeira. Banho. Jantar. Brincadeira de pega-pega. Sete pecados. Quarteirão. Briga de rua. Braço estirado. “quem cuspir aqui é mais macho”. “Tá qui tua mãe, tá qui a tua”. “Quem pisar é mais macho”. E tome porrada e inimizade. Depois de alguns dias, a paz. Não havia tiros. Não havia canivetadas. Só o gosto de ser menino, de ser taxado de “moleque de rua” pelas madamas, que não souberam criar os filhos e os tornaram infelizes. Sentidas saudades daqueles tempos. Muitas...
Postado por Hugo Martins às 21:55 Nenhum comentário:
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domingo, 13 de novembro de 2016

Minha cara, aí vai outro texto que reedito. Redigi-o no ano de 2014. Minha admiração por Rui Barbosa nasceu quando, ainda criança, minha mãe falou-me sobre ele e sua privilegiada inteligência, que servia de parâmetro no incentivo aos estudos da gurizada daquela época.
Já adulto, lendo a mais completa biografia que conheço sobre Machado de Assis, de lá retirei uma informação de que Rui Barbosa seria homem, cuja vaidade não admitia ser o segundo de todos. O autor da biografia deixa até mesmo transparecer, nas entrelinhas, que Rui cultivaria a pior antivirtude de um homem: o ser invejoso.
O autor da biografia do romancista carioca é o mesmo que deu a público a obra Rui, o Homem e o Mito, em cujas páginas efetivamente se encontra um discurso em que o advogado baiano é escrachado pela pena raivosa e parcial de Raimundo Magalhães Júnior. A leitura de referida obra não me causou mossa. Devia haver nas verrinas cortantes do biógrafo alguma ferida mal-curada ou algum rancor adormecido nos porões de seu subconsciente... São hipóteses plausíveis, deduções de leitor que procura enxergar nas diatribes de Magalhães Júnior algo sem fundamento, vez que Rui era homem respeitado e benquisto por seus pares.
Com efeito, veio em defesa de Rui um advogado, também baiano, de nome Salomão Jorge, que lançou uma réplica enfeixada num grosso volume, cujos capítulos recebem o mesmo título dado por Magalhães Júnior aos de dua obra. Trata-se da obra O Piolho na Asa da Águia, título que encerra uma referência à antonomásia A Águia de Haia, pespegada a Rui Barbosa por sua brilhante ação diplomática nos tribunais daquela cidade, ao mesmo tempo em que ironiza a figura do homem de letras Magalhães Júnior. Para nossa insatisfação não houve uma tréplica em virtude do falecimento deste último. Assim não fosse, a polêmica teria continuado, pois um e outro dos contendores sabiam terçar as armas da linguagem além de demonstrarem ser senhores de incomparável capacidade para costurar argumentos, coisa que delicia o espírito...
Aí a seguir um texto de nossa lavra em que pomos em foco historieta que visa a relevar a inteligência de Rui mesmo em situações comezinhas do cotidiano.
Creio eu ter sido Rui Barbosa um homem bom em toda a extensão da palavra. Guia-me nesse juízo a intuição.
Voilá, minha fictícia amiga mais um dos nossos textões, terror dos frequentadores dessas redes sociais, que também baixam o cachaço para os tacões autoritários das pressa e azáfama dos nossos dias vãos.
Com o apreço de seu fiel servo,
Hugo Martins

CONSULTE ADVOGADO
                                                                    Hugo Martins
Sobre ser vernaculista de nomeada, orador de largos predicados e político atilado, o baiano Ruy Barbosa também se destacou na arte de advogar. Criticou duramente a redação do Código Civil de 1916, do que resultou uma polêmica com o filólogo e gramático baiano Ernesto Carneiro Ribeiro, de cujos embates surgiram miríades de páginas, de um lado e de outro, redigidas de mais fino lavor linguístico e literário. Orador exuberante, além de exímio redator de cartas, discursos e conferências, ficou conhecido no Brasil pela famosa Oração aos Moços, de que encontramos, vez por outra, trechos transcritos em redes sociais e em salas de escritórios. Candidatou-se duas vezes à presidência da República e participou ativamente das contendas diplomáticas do Brasil com outros países, questões em que se discutiam problemas atinentes ao nosso território. Aqui, colocou ele seus conhecimentos de direito internacional público a serviço dos brasileiros, auxiliando, nos trabalhos, o Barão do Rio Branco.
Ruy Barbosa mantinha seu escritório advocatício em sua própria casa. Conta-se, a título de ilustração, para fazer ver a habilidade do baiano com a coisa jurídica, que, certa feita, um vizinho entrou-lhe no escritório, a fim de fazer-lhe uma consulta. Formou o tal vizinho uma arapuca. Disse ao causídico o vizinho que um determinado cachorro entrara em sua casa e, alçando-se na mesa onde se encontravam cinco quilos de carne, babujou esta, comeu-lhe uma parte, acabando por inutilizá-la inteiramente. Depois da narração, o bom vizinho perguntou a Ruy se ele, vizinho, fazia jus a uma indenização a ser paga pelo dono do cão. Houve um dano, logo deve ser ressarcido pelo dono do animal, disse-lhe o paciente advogado. O vizinho aproveitou a deixa e disse: “Dr. Ruy, o cão pertence ao senhor. Desse modo o senhor me deve (trazendo o valor monetário para os dias de hoje)  oitenta reais”. Ruy aquiesceu, abriu a gaveta e de lá retirou quatro notas de vinte reais. O vizinho recebeu a quantia, agradeceu, saiu e, da porta, disse: muito obrigado, doutor. Quando ia saindo, Ruy Barbosa o chamou e disse que a consulta prestada iria custar ao bom vizinho apenas trezentos reais...
Lembrei-me do “obrigado” da formiguinha da anedota, bem como da parêmia popular que diz: “fulano” foi buscar lã e saiu tosquiado.
“Honorário não é gorjeta”. Já li isso no vidro de carros, certamente de advogados...
Postado por Hugo Martins às 20:18 Nenhum comentário:
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Minha cara, o texto abaixo surgiu-me de uma reflexão sobre as festas natalinas que se aproximam. Não há
PEC, não há crise que suporte um Natal feliz. Entre outras coisas, a cama também é lugar de reflexão. Esta que se segue, saltou-me de súbito da cachola. Não com as cabriolas de volatim como aquelas que se penduraram no cérebro de Brás Cubas quando refletia sobre um emplastro ou emplasto para curar a eterna melancolia humana.
Importa que ela saiu e aí está. Nenhuma profundidade. Apenas reflexão, apenas, tão só.
Abraços de seu amigo fictício e sempre (vou mudar o adjetivo) servo,
Hugo Martins.

A Antiguidade clássica legou à cultura Ocidental uma gama de histórias, aventuras, tragédias e outros relatos mágicos, os quais constituem, ao longo do devir histórico, interpretações acertadas sobre o modo de estar o homem no mundo. Qualquer explicação sobre o cosmos assenta-se,necessariamente, nos relatos míticos. Hoje não há nada de novo sob o sol. A propósito, um amigo meu, helenista dos melhores, costuma dizer, em tom de chiste, que tudo o que se diz na nossa cultura hodierna não passa de anotações de pé de página da cultura clássica Não lhe falecem razões.
Deixando de lado a filosofia, as artes plásticas, as artes cênicas (tragédia, comédia) e a rica literatura greco-latina, visitemos a Mitologia e dela retiremos, aleatoriamente, qualquer relato e aqui teremos um problema humano comum a todos os tempos e a todos os confins e paragens da civilização de qualquer coloração cultural e antropológica. Lembremos o Suplício de Tântalo a ver se o relato guarda algum vínculo com os tempos de então.  Pois bem..
Tântalo, o rei da Lídia, rico e poderoso, guardava tal prestígio como os deuses, que, às vezes, sentava-se à mesa com eles. Certa feita, ofereceu aos deuses um banquete e serviu-lhes carna humana, a do próprio filho Pélops, a quem matara para experimentar os senhores do Olimpo. Estes, então, impingiram ao insensato rei um suplício: jogaram-no nos Infernos no  meio de um lago de águas cristalinas, rodeado de árvores carregadas de frutos apetitosos. Provocaram nele grande e infinita sede, somada a tormentosa fome. Toda vez que ensaiva qualquer tentativa para alcançar os frutos e água estes escapavam-lhe.
Eis aí o suplício tantálico... As catedrais de consumo, o apelo ao consumir irresponsável e desbragadamente, a criação de necessidades desnecessárias e inúteis formam um conjunto tétrico de situações a que o homem moderno se dobra, criando para si inomináveis sofrimentos.
Herbert Marcuse, filósofo da Escola de Frankfurt criou a locução "homem unidimensional" para caracterizar aquele que se acha feliz se os meios de comunicação de massa isso disserem. Se se acha infeliz vai a um shopping center qualquer e lá pode recobrar sua felicidade.
Cremos que os tântalos dos tempos modernos guardam a mesma identidade daquele dos Infernos gregos: espicaçados pela fome e pela sede de ter e ter e mais ter, afogam-se num sofrimento insuportável, surgido de sua insensatez em dar ouvido aos apelos sibilinos dos meios criados pela Indústria Cultural, filha cruel da Revolução Industrial, também parida de outra Revolução, a francesa, que apregoou um tripé construído pelo discurso cínico de vivaldinos, cuja virtude maior é conhecer a fragilidade humana.
Lembrou-me Jean de la Fontaine e a fábula do corvo. Alcandorado nos galhos de uma grande árvore, a ave agourenta trazia no bico um pedaço de queijo. Próximo, um lobo faminto cobriu-a de pródigos e mentirosos elogios. Claro que a ave de plumas negras vai abrir a bicarra e deixar cair o naco de queijo... Conclusão? Tire a sua.
Postado por Hugo Martins às 08:49 Nenhum comentário:
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sábado, 12 de novembro de 2016

Minha cara amiga, se há na música popular brasileira quem conhece a fundo os segredos e meandros da língua portuguesa para expressar significações que extrapolam o grau zero da linguagem, esse é, sem discussão, o senhor Chico Buarque de Holanda. Modéstia à parte, conheço grande parte de suas composições, verdadeiras joias raras, nas quais já mergulhei com zeloso cuidado a fim de flagrar em alguma delas algum laivo de mediocridade. Reconheço que fui infeliz (e feliz) na empreitada. Tudo é beleza, tudo é poesia, tudo é simplicidade e, em alguns momentos, o regional atinge as raias da universalidade. A temática é ampla, que o diga o crítico Tárik de Souza, que teve a pachorra de ir fundo na obra geral do criador de Carolina para, ao fim recortá-la, e nela encontrar cinco focos diversos da poética de Chico: o trovadorismo das cantigas de amor; o samba com foros da malandragem carioca; o cronista observador de costumes e comportamentos; o político, que põe em relevo "páginas cruéis de nossa História"; e, por fim, o amante, que, sem escrúpulos e com afeto, desnuda alma e coração, abrindo-os em preito de gratidão e louvor à mulher amada.
Para os amantes da boa música, rimada com letra de superior qualidade, poucos compositores ombreiam com Chico Buarque, na arte e no tratamento sensível no uso estilístico da língua portuguesa.
Suas composições podem figurar em qualquer antologia poética da criação literária brasileira, sem que se lhe faça qualquer concessão ou favor... É escritor de mão cheia...
Segue a título de ilustração a análise, ainda que perfunctória, de um trecho de uma letra em que se pode pescar a universalidade da dor em dado contexto político, além de bela oferenda solidária de quem lê, sente e compreende o sofrimento de muitos que não conseguem entendê-lo e explicá-lo. O poeta filtra tudo isso e faz o que faz: a poesia, a verdade transfigurada nas possibilidades expressivas ínsitas nas potencialidades do idioma.
Voilá !!!
LEITURAS E LEITURAS...
Hugo Martins
Um gramático tradicional, aferrado aos conceitos/preceitos da Gramática Normativa, ao ler os três primeiros versos da letra da canção Roda-viva, de Chico Buarque de Holanda, diria que o compositor teria incorrido num erro.... Transcrevamos os versos: “Tem dias que a gente se sente/ como quem partiu ou morreu/ a gente estancou de repente...” Estar numa roda-viva é estar entregue ao ramerrão, ao caos, ao lufa-lufa do dia a dia. A partir daí, procedendo-se à leitura do texto, estando o leitor desprovido de qualquer preconceito em relação aos “erros” que porventura nele possamos encontrar, ver-se-á que o gramático “pisa na bola” por se esquecer da existência de um setor dos estudos linguísticos que prioriza a expressividade em detrimento da correção. Isso é matéria da Estilística, parte dos estudos linguísticos voltados para a expressividade/afetividade da linguagem.
O gramático dirá que o compositor erra ao empregar o verbo “ter” no lugar de “haver”. Se este pertence, no caso, à norma padrão; o primeiro, sendo do linguajar coloquial, denuncia que o compositor se irmana com o sofrimento de sua gente no corre-corre do cotidiano. A opção pelo verbo “ter” é intencional. Em seguida, Chico Buarque usa a palavra “gente” duas vezes. Essa palavra merece mais de uma leitura: o compositor se refere a ele mesmo, usando-a como espécie de pronome pessoal, ou se refere às pessoas de modo geral com quem ele se irmana, comungando dores, desesperos e sofrimentos e tudo o que dimana da barafunda dos dias vãos da vida das gentes...
Pois bem: os chamados “erros” e “desvios” visam ao alcance de maior expressividade no dizer. Por isso são comuns em textos literários ou naqueles em que há uma predominância da função poética da linguagem. Metaforizar: eis a questão. Não se duvide: entre incorrer num erro para alcançar maior expressividade ou submeter-se às normas gramaticais dos acertos, qualquer escritor de bom senso preferirá a primeira alternativa.
Bom continuar a leitura do restante do texto. A nós nos bastam os versos em análise...
Postado por Hugo Martins às 19:47 Nenhum comentário:
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Cara amiga, de fato recebo, com muita frequência e insistência, reiterados convites para estabelecer, aqui no Facebook, laços de "amizade" com fulanos e sicranos. Tentei manter duas amigas, ex-alunas do curso ginasial, mas não me foi possível continuar: pouco diálogo, quase nenhum, e muitas postagens de matérias de cunho religioso, acompanhadas do discurso das conversões, sem contar com o subliminar imperativo (magister dixit) de que a pessoa conhece com profundidade e incontestável certeza a natureza das divindades e santos a que se refere. Afora o discurso louvaminheiro acerca de novéis padres de fala sibilina, hoje transformados, pela mágica gosmenta e visguenta dos meios de comunicação de massa, em verdadeiros apóstolos dos novos e desesperantes tempos de muito sofrimento e muita conversa fiada. Logo, logo, percebi que ambas se enquadravam no esquema das mesmices tão encontradiças por essas paragens. Afastei-as e afastei-me. Aqui estou sozinho, insulado, ilhado na vã aparência das coisas. Na verdade, encontro-me, aqui neste espaço, tal qual Inês de Castro, posto em sossego. E, sem deixar, é claro, de fazer meus périplos pelo perfil de pessoas que conheço, vou exercitando a nobre arte de escrever, uma das formas legítimas de proceder a leituras de mundo.
Assim, aproveito o espaço do Face, no início da página, em que se incita o sujeito a escrever algo de dua própria lavra, para escrever meus textos, bons ou maus, curtos ou longos, maçantes ou agradáveis. Importa a mim escrevê-los. Em seguida, transponho-os para um blogue onde já registrei mais de quatrocentas publicações...
Alguém me pergunta porque não faço deles uma seleção e publico um livro. Digo que isso é assunto que não me passa pela cabeça, pois considero tal veleidade inútil vaidade. Há muito papel rabiscado no mundo; há muitas legiões de néscios garatujando textos como que plagiando escritores famosos, muitas vezes, até mesmo copiando-os vil e desavergonhadamente. Basta. Não tenho talento para me alçar à condição de literato. Basta-me recorrer ao ato de escrever como catarse, como depuração das emoções, usando a superfície da página para projetar meus alentos, desalentos, minhas alegrias e tristezas numa espécie de psicanalização, se é que o termo existe.
Por isso, deixo aqui minhas desculpas às pessoas que intentam conquistar, aqui, minha amizade e a isso rejeito.
Quanto a você, minha amiga fictícia, deixo, como sempre, a você a certeza de que sou seu sempre e fiel amigo e criado,
Hugo Martins
Postado por Hugo Martins às 11:53 Nenhum comentário:
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PRECONCEITO
Hugo Martins

Cara amiga, faz exatos dois anos que publique o texto infra. Hoje, reli o conto Negrinha, do escritor de Taubaté, publicado em 1920. Pretendo, noutra ocasião, escrever algo sobre o conteúdo do referido conto, sublinhando a carga de ironia, somada à hipocrisia, que nele se entrevê. A primeira, aplica-se a uma senhora de excelsas virtudes, entre elas, a arte de judiar de crianças; a outra cola-se a um padre, homem extremamente vocacionado no preparar almas bondosas, como a daquela senhora, para encontrarem seu justo lugar no paraíso. Não quero me antecipar. Vai aí uma só pitada da narrativa saborosa e sarcástica, que nos leva ao riso amargo e à decepção com algumas espécies humanas, que se escondem sob o manto daquelas duas virtudes assinaladas no início deste texto. O texto tem outras virtudes...
Como dizem os cronistas sociais, depois eu conto.
Felicidades mil.
Hugo Martins, seu amigo e criado...

Monteiro Lobato era um brasileiro porreta. Nos anos de chumbo da era getulista, não regateava críticas à administração do homem de São Borjas. Tanto é que, por isso, foi preso, mas, ainda assim, nunca deixou de terçar armas contra a corrupção e o entreguismo da alma e da economia brasileiras ao estrangeiro. Penalizado com a humilhante situação a que foram entregues as populações sertanejas, criou a figura de Jeca Tatu, o que irritou o Congresso Nacional, que interpretou a coisa como se o escritor paulista estivesse fazendo pouco da figura do sertanejo. Claro que Lobato isso fez para chamar a atenção do povo brasileiro, à época ainda desprovido da eficiência dos meios de comunicação de massas. Tive o prazer de ler na juventude sua chamada obra infanto-juvenil, que, aos meus olhos, também é obra para adulto... Já a reli, de cabo a rabo, por duas vezes: uma irmã minha emprestou-me. Meu entusiasmo por Lobato nunca arrefeceu. Ganhei de presente de outra irmã a tal obra infanto-juvenil. Além desta, devorei com sofreguidão seus três livros de contos – Urupês, Cidades Mortas e Negrinhs. Além disso, li sua correspondência sentimental, as cartas que enviara à namorada e, depois, esposa, Dona Purezinha. Li também o volume em que constam suas Ideias de Jeca Tatu, coletânea de textos de cunho crítico, que escreveu na condição de redator de alguns jornais de São Paulo e onde se encontra o célebre artigo Paranoia ou Mistificação?, texto em que criticava a pintura “moderna” de Anita Malfatti e que serviu de mote para a eclosão da Semana de Arte Moderna de 1922.
Lobato me veio agora á cabeça porque ouvi, numa conversa informal, que algum “idiota da objetividade” está propondo uma releitura da obra saborosa do mais legítimo representante da literatura infantil no Brasil. E daí? O tal sujeito pariu a brilhante idéia de que Lobato seria preconceituoso em relação à personagem Tia Nastácia, que era negra. Nunca ouvi tolice maior... Primeiro porque, à época, ainda não existia, por óbvio, a Constituição Federal de 1988; segundo, porque Lobato morreu exatamente no ano em que a ONU lançou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948; terceiro, Tia Nastácia é vista pelo escritor como a mucama que se integrou à família brasileira num processo social muito comum, naqueles tempos; por fim, mesmo a linguagem desabrida da Emília, aliás criação de Tia Nastácia, quando arremetia com menos delicadeza, o leitor percebe haver ali manifestação de profundo carinho, afinal Tia Nastácia participava de tudo que ocorria na casa de Dona Benta, inclusive das aventuras dos meninos e da boneca de pano. Quem quiser reler as fábulas gregas, em Monteiro Lobato, vai ouvi-las da narração da velha e querida mucama nas suas Histórias de Tia Nastácia. Esta era amada, respeitada, querida de todos e sua palavra era ouvida, seja como partícipe das preocupações pedagógicas de Dona Benta, seja quando conquistava a todos com o sabor de seus bolinhos. O próprio Minotauro do labirinto de Creta perdeu-se de amores pelos bolinhos dela, que só foi libertada do jugo daquele misto de touro e homem graças às ardilezas da Emília e dos netos de Vovó Benta.
Esse sujeito, que vem alimentando essas idéias de jerico, ou está querendo aparecer ou não tem o que fazer... Ninguém revê a obra de arte ( a não ser a igreja católica quando colocou veuzinhos nas figura de Micheângelo na Capela Sistina). O Direito, enquanto ciência, não se ocupa de fatos literários ou fictícios, mas dos reais e concretos. Tia Nastácia faz parte da galeria de personagens imorredouros na cultura brasileira tais as figuras das músicas carnavalescas “Nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia”? e “O teu cabelo não nega, mulata, porque és mulata na cor”... Será que o cidadão vai também à procura dos compositores dessas músicas, que também já morreram, para cobrar-lhes respeito aos negros e impingir-lhes algum castigo?
Será que esse sujeito faz parte daquele rol de imbecis que levaram Gustav Flaubert às barras dos tribunais por terem enxergado, em Madame de Bovary, episódios atentatórios “à moral e aos bons costumes” da sociedade da época? Flaubert e sua obra aí estão com ou apesar da ausência daqueles toleirões. Será que o sujeitinho quixotesco, com todo o respeito ao personagem de Cervantes, julga estar resgatando (opa” um verbo do PT) a dignidade do povo a quem ele quer proteger da sanha preconceituosa de Monteiro Lobato? Ora, durma-se com esse barulho, desculpem-me o lugar-comum, mas é preciso muito saco (outro lugar-comum) para agüentar essa intervenção patrioteira contra a obra de um dos grandes brasileiros que nossa História conhece...
Essas são as belas ações... As que não têm nenhum significado... A não ser torrar a paciência de quem está quieto no seu canto. Fuuuu!
Se existe vida post mortem, Lobato deve estar muito preocupado...
Postado por Hugo Martins às 11:01 Nenhum comentário:
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Amiga, reedito o presente texto, escrito no ano de 2013. Você me pediu que eu escrevesse algo que retratasse as posturas mentais em dados quadrantes da História e eu, não por preguiça mental, mas por estar voltado para a leitura de uma biografia de Heleno de Freitas e a releitura da peça teatral Prometeu Acorrentado, de Ésquilo, acostei-me na facilidade da reedição. Se tivesse, porém,  que escrever outro texto nesse diapasão, a fim de atender seu pedido, o molde seria o mesmo ainda que o significante ou parte formal do texto fosse outro.
Espero ter atendido seu desiderato. Sempre fui de opinião que o leitor deve estar desarmado de todo preconceito ou pré-conceito quando tiver que enfrentar dados conteúdos da obra de arte.
Ler o Marquês de Sade, para mim, foi um desafio, sobremaneira os  120 dias em Sodoma, obra em cujo bojo pude ver as piores perversões a que o homem pode chegar. Não sei se me deixei persuadir pelo prefácio e introdução, escritos por Sartre e Simone de Beauvoir, respectivamente, cujos argumentos procuram levar ao leitor o convencimento de que todo "aquele saco de gatos" desfilando nas páginas do livro, pode estar retratando o que o homem possui de vocação para ser livre... Depois, ficou mais fácil ler do mesmo autor Filosofia da Alcova, Justine e Escola de Vícios.
Lembra-me, no momento, que o imperador Otávio Augusto jogou ao exílio eterno o grande Ovídio porque este escrevera A Arte de Amar, obra pedagógica que, trocando em miúdos, em muito se aproxima do Kama Sutra. Ambas as obras ainda são lidas hoje, despertando o mesmo interesse ao longo do devir histórico.
Coisas da cultura, coisas do homem, este inveterado Proteu, escravo das metamorfoses e das tranfigurações da dinâmina cultural.
Por isso, não precisa concordar comigo em nada. Basta ler este texto e os, se possível, livros aqui sugeridos. É o que basta. A literatura sempre e sempre enriquece e encanta o espírito, tudo questão de tempo, preparo e abertura intelectual. O mais é sempre mais e nunca menos. Se assim não fosse, teríamos um paradoxo...
Queira-me bem. Seu amigo e sempiterno criado,
Hugo Martins

LEITURA DE MUNDO

                                                                             Hugo Martins

 Até a década de oitenta, não se permitia à juventude ler determinadas obras literárias porque, na opinião dos educadores e censores, poderiam elas exercer efeito deletério de grandes proporções no espírito da moçada. Seriam criações das forças do mal. Às meninas, futuras jovens casadoiras, oferecia-se um cardápio de livros, em cujo conteúdo e direcionamento ideológico, pescavam-se idéias subliminares de que toda moça deveria ter como objetivo maior de vida a preparação para o casamento. Com efeito, havia mesmo escolas em que, no turno da manhã, a jovem estudava as matérias propedêuticas comuns ao currículo escolar da época, e, no turno da tarde, assistia a aulas de etiqueta, de como preparar um bom petisco ou lauto almoço e, sobretudo, como administrar a casa e agradar o marido. Essa ideologia se encontrava bem às claras na famigerada Biblioteca das Moças...
Virtuosa era a jovem que guardava as primícias da virgindade para um determinado homem, muitas vezes escolhido pelos pais da donzela. Bom partido era aquele que detinha bens patrimoniais que, caso a casa caísse, na hora da partilha, a jovem poderia abiscoitar um bom naco do patrimônio, de regra, construído pelo marido. Não é à toa que o regime conjugal obrigatório na época era o da comunhão universal de bens, isto é, aquilo que pertencesse aos nubentes, mesmo antes do casamento, deveria ser partilhado na base de cinqüenta por cento para cada um...
Determinados obras, consideradas clássicas, quando não eram trancadas a sete chaves, eram jogadas à fogueira ou colocadas num tal Index Librorum Prohibitorum (Índice dos livros proibidos).  Coisa da igreja Católica, tão preocupada com a salvação das almas... Comovente...  Madame Bovary, na França, levou seu autor às barras dos tribunais por ser considerado imoral. Ler O Primo Basílio ou o Crime do Padre Amaro era um sacrilégio. Na opinião dos filisteus, o primeiro era também imoral e o último, atentatório aos homens virtuosos da Igreja. Graciliano Ramos teve alguns de seus livros levados literalmente à fogueira numa praça pública em Alagoas. Difícil mesmo é saber o que é moral ou imoral quando se trata da criação artística. Qual seria o grau de moralidade ou imoralidade que o burguês ignorante daria ao quadro O Juízo Final, em que Michelângelo Buonarroti coloca em evidência a nudez lírica de seus personagens?  O artista não acrescenta à sua criação senão o que é humano. A questão do feio ou do bonito, do moral ou do imoral parece situar-se, pelo menos em termos de criação artística, no que cada um tem de censor ou de apreciador estético.
Lembra-nos um episódio em que um professor foi demitido de um colégio em Fortaleza porque indicou a obra A Estrela Sobe de Marques Rebelo. Um pedagogo dos mais néscios julgou ser a obra imprópria para alunos que já cursavam o último ano do Curso Médio. Argumento daquele bravo educador: estava passando um filme baseado na obra. Estarrecido, o educador viu uma cena em que uma jovem, desejando subir na vida artística, tinha que deitar-se na cama do diretor do filme e com ele fazer concessões se quisesse ser uma “estrela”. Quer dizer, sexualidade, mesmo mercadejada,  para nosso educador é coisa feia sobre a qual não se deve falar e, portanto, a demissão do professor fundou-se numa justa causa. A História continua. Hoje, toda moçoila que alimente o sonho de ser “modelo”, também há de fazer concessões por faltar-lhe talento... Os pedagogos e censores de agora não mais se preocupam, os tempos são outros.
Um escritor brasileiro, dos mais profícuos, contador de histórias, intérprete do Brasil, de linguagem, a um tempo, desabrida e rica, também tem recebido tarjas de escritor imoral e, portanto desaconselhável ao filisteu. Trata-se de Jorge Amado. Não conheço leitor sério que rejeite Jorge Amado por descrever cenas escabrosas ou utilizar, em seus livros, palavrões cabeludos de largo uso pelo povo. Aliás, trata-se de uma marca estilística do escritor baiano, que leva o leitor às gargalhadas. Jorge Amado sem palavrão é o mesmo que o Brasil sem carnaval e futebol. O leitor ingênuo, arraigado a preconceitos avoengos não enxerga o outro lado da prosa amadiana, não lhe descobre a poesia e o humanismo, aspectos tão polvilhados em sua obra. Esse tipo de leitor age como o cãozito de Pavlov, mal vê um palavrão, joga de lado a obra, perdendo a oportunidade de recrear o espírito com o texto saboroso do criador de Capitães da Areia.
A obra de Jorge Amado é pródiga de brasilidade. A linguagem é brasileira. A temática é brasileira. O coronelismo cacaueiro, os menores abandonados, os malandros, os capoeiras, o grevista, o retirante, as putas, e toda a casta de personagens que, pelo menos ficcionalmente, nos convidam para o seu lado. Com Jorge Amado, o leitor fica sempre ao lado do mais fraco ou daquele que não se afeiçoa aos padrões da sociedade capitalista. Não, os personagens de Jorge Amado, quase todos, sobretudo os marginalizados e explorados, respiram liberdade e desvinculação dos modelos bem comportados.
Ora, o escritor baiano é, no Brasil, um dos mais lidos. Muitas de suas obras foram traduzidas para mais de cinquenta idiomas. Vários de seus livros foram adaptados para o cinema e para a televisão.
Mesmo assim, o leitor-burguês-filisteu, sempre preso a livros que estão na moda, figuram na lista dos mais vendidos ou se encontram na linha de frente dos balcões de entrada de livrarias, tem pavor ao palavrão. Míope, só enxerga o palavrão... Não há palavras para definir o leitor-filisteu que abomina o palavrão e outras coisas afins...
Por evidente, também se vende muito lixo cultural, muita coisa travestida de bom-gosto graças a uma insondável química que consegue transformar cocô em arte porque, como já dizia um compositor, “camelô na conversa ele vende algodão por veludo. Está provado porque neste mundo tem bobo pra tudo.”
Eis um bom argumento para o leitor inimigo de palavrões e de cenas escabrosas na obra literária ou qualquer outra manifestação de cunho artístico.
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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

EM QUE ESTOU PENSANDO?

Houve um tempo em Fortaleza que os exames vestibulares muito privilegiavam o autor de obra literária na prova de língua portuguesa. Embora o aluno não se obrigasse a ler este ou aquele livro, era ponto de honra saber quem era o autor do texto, onde nascera, que outras obras escrevera e que manias cultivava. Isso sem contar com perguntas absurdas como: qual o olho cego de Camões? O esquerdo ou o direito? Que doença mais assaltava os poetas românticos? Se o aluno demonstrasse ter conhecimento “profundo” como, por exemplo, saber de que doença padecia Machado de Assis, de que este sofria de gagueira ou era mulato, que, por vezes, cobria a tez com talco para esconder sua negritude, demonstrava ser versado em literatura. Viva-se o mal do biografismo ingênuo. Que fazer? Os cursinhos, na sua eterna faina de amestrar alunos, não deixavam passar nada. Fernando Pessoa gostava de tomar uns vinhos além da conta, coisa que chocava o burguês, lá se levava a informação para a sala de aula. A obra do autor não interessava. Monteiro Lobato foi preso por afrontar o governo Vargas. Lá chegava a informação nas cabeçorras do alunado. A obra era apenas um detalhe. Para que ler Graciliano Ramos? Bastava saber que fora preso também pelo governo Vargas e que em um de seus livros havia uma cachorra famosa... Ler a obra nem pensar. Havia, à época, professores cuja fama se espalhava graças à sua especialidade em, no dia que antecedia a prova de língua portuguesa, “acertar” o nome do autor do texto que cairia na prova. Eram os tais “bizus”, pedagogia cretina e bancária que considerava os alunos seres passivos e idiotizados. Tais professores eram de tal modo festejados, que os jornais o colocavam na galeria dos “melhores professores da cidade”.
Lembra-me o dia em que um aluno, chegado da prova, corria rumo à casa, um largo sorriso estampado no rosto, gritando: “acertei o autor, coisa muito fácil. Caiu a Eça de Queiroz, irmã da Rachel de Queiroz...”  Dá pra agüentar?

Em que eu estava pensando? Exatamente nisso, nessa coisa de se “aprender” literatura pelo biografismo inútil. Literatura não se aprende. Come-se. Bebe-se numa orgia perpétua, longe dos modismos estéreis, dos didatismos cretinóides e da “cultura de sovaco”, tão falsa quão enganosa.
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EM QUE ESTOU PENSANDO?

Houve um tempo em Fortaleza que os exames vestibulares muito privilegiavam o autor de obra literária na prova de língua portuguesa. Embora o aluno não se obrigasse a ler este ou aquele livro, era ponto de honra saber quem era o autor do texto, onde nascera, que outras obras escrevera e que manias cultivava. Isso sem contar com perguntas absurdas como: qual o olho cego de Camões? O esquerdo ou o direito? Que doença mais assaltava os poetas românticos? Se o aluno demonstrasse ter conhecimento “profundo” como, por exemplo, saber de que doença padecia Machado de Assis, de que este sofria de gagueira ou era mulato, que, por vezes, cobria a tez com talco para esconder sua negritude, demonstrava ser versado em literatura. Viva-se o mal do biografismo ingênuo. Que fazer? Os cursinhos, na sua eterna faina de amestrar alunos, não deixavam passar nada. Fernando Pessoa gostava de tomar uns vinhos além da conta, coisa que chocava o burguês, lá se levava a informação para a sala de aula. A obra do autor não interessava. Monteiro Lobato foi preso por afrontar o governo Vargas. Lá chegava a informação nas cabeçorras do alunado. A obra era apenas um detalhe. Para que ler Graciliano Ramos? Bastava saber que fora preso também pelo governo Vargas e que em um de seus livros havia uma cachorra famosa... Ler a obra nem pensar. Havia, à época, professores cuja fama se espalhava graças à sua especialidade em, no dia que antecedia a prova de língua portuguesa, “acertar” o nome do autor do texto que cairia na prova. Eram os tais “bizus”, pedagogia cretina e bancária que considerava os alunos seres passivos e idiotizados. Tais professores eram de tal modo festejados, que os jornais o colocavam na galeria dos “melhores professores da cidade”.
Lembra-me o dia em que um aluno, chegado da prova, corria rumo à casa, um largo sorriso estampado no rosto, gritando: “acertei o autor, coisa muito fácil. Caiu a Eça de Queiroz, irmã da Rachel de Queiroz...”  Dá pra agüentar?

Em que eu estava pensando? Exatamente nisso, nessa coisa de se “aprender” literatura pelo biografismo inútil. Literatura não se aprende. Come-se. Bebe-se numa orgia perpétua, longe dos modismos estéreis, dos didatismos cretinóides e da “cultura de sovaco”, tão falsa quão enganosa.
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EM QUE ESTOU PENSANDO?

Houve um tempo em Fortaleza que os exames vestibulares muito privilegiavam o autor de obra literária na prova de língua portuguesa. Embora o aluno não se obrigasse a ler este ou aquele livro, era ponto de honra saber quem era o autor do texto, onde nascera, que outras obras escrevera e que manias cultivava. Isso sem contar com perguntas absurdas como: qual o olho cego de Camões? O esquerdo ou o direito? Que doença mais assaltava os poetas românticos? Se o aluno demonstrasse ter conhecimento “profundo” como, por exemplo, saber de que doença padecia Machado de Assis, de que este sofria de gagueira ou era mulato, que, por vezes, cobria a tez com talco para esconder sua negritude, demonstrava ser versado em literatura. Viva-se o mal do biografismo ingênuo. Que fazer? Os cursinhos, na sua eterna faina de amestrar alunos, não deixavam passar nada. Fernando Pessoa gostava de tomar uns vinhos além da conta, coisa que chocava o burguês, lá se levava a informação para a sala de aula. A obra do autor não interessava. Monteiro Lobato foi preso por afrontar o governo Vargas. Lá chegava a informação nas cabeçorras do alunado. A obra era apenas um detalhe. Para que ler Graciliano Ramos? Bastava saber que fora preso também pelo governo Vargas e que em um de seus livros havia uma cachorra famosa... Ler a obra nem pensar. Havia, à época, professores cuja fama se espalhava graças à sua especialidade em, no dia que antecedia a prova de língua portuguesa, “acertar” o nome do autor do texto que cairia na prova. Eram os tais “bizus”, pedagogia cretina e bancária que considerava os alunos seres passivos e idiotizados. Tais professores eram de tal modo festejados, que os jornais o colocavam na galeria dos “melhores professores da cidade”.
Lembra-me o dia em que um aluno, chegado da prova, corria rumo à casa, um largo sorriso estampado no rosto, gritando: “acertei o autor, coisa muito fácil. Caiu a Eça de Queiroz, irmã da Rachel de Queiroz...”  Dá pra agüentar?

Em que eu estava pensando? Exatamente nisso, nessa coisa de se “aprender” literatura pelo biografismo inútil. Literatura não se aprende. Come-se. Bebe-se numa orgia perpétua, longe dos modismos estéreis, dos didatismos cretinóides e da “cultura de sovaco”, tão falsa quão enganosa.
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PRECONCEITO
Hugo Martins
Cara amiga, faz exatos dois anos que publique o texto infra. Hoje, reli o conto Negrinha, do escritor de Taubaté, publicado em 1920. Pretendo, noutra ocasião, escrever algo sobre o conteúdo do referido conto, sublinhando a carga de ironia, somada à hipocrisia, que nele se entrevê. A primeira, aplica-se a uma senhora de excelsas virtudes, entre elas, a arte de judiar de crianças; a outra, cola-se a um padre, homem extremamente vocacionado no preparar almas bondosas, como a daquela senhora, para encontrarem seu justo lugar no paraíso. Não quero me antecipar. Vai aí uma só pitada da narrativa saborosa e sarcástica, que nos leva ao riso amargo e à decepção com algumas espécies humanas, que se escondem sob o manto daquelas duas virtudes assinaladas no início deste texto. O texto tem outras virtudes...
Como dizem os cronistas sociais, depois eu conto.
Felicidades mil.
Hugo Martins, seu amigo e criado...
Monteiro Lobato era um brasileiro porreta. Nos anos de chumbo da era getulista, não regateava críticas à administração do homem de São Borjas. Tanto é que, por isso, foi preso, mas, ainda assim, nunca deixou de terçar armas contra a corrupção e o entreguismo da alma e da economia brasileiras ao estrangeiro. Penalizado com a humilhante situação a que foram entregues as populações sertanejas, criou a figura de Jeca Tatu, o que irritou o Congresso Nacional, que interpretou a coisa como se o escritor paulista estivesse fazendo pouco da figura do sertanejo. Claro que Lobato isso fez para chamar a atenção do povo brasileiro, à época ainda desprovido da eficiência dos meios de comunicação de massas. Tive o prazer de ler na juventude sua chamada obra infanto-juvenil, que, aos meus olhos, também é obra para adulto... Já a reli, de cabo a rabo, por duas vezes: uma irmã minha emprestou-me. Meu entusiasmo por Lobato nunca arrefeceu. Ganhei de presente de outra irmã a tal obra infanto-juvenil. Além desta, devorei com sofreguidão seus três livros de contos – Urupês, Cidades Mortas e Negrinhs. Além disso, li sua correspondência sentimental, as cartas que enviara à namorada e, depois, esposa, Dona Purezinha. Li também o volume em que constam suas Ideias de Jeca Tatu, coletânea de textos de cunho crítico, que escreveu na condição de redator de alguns jornais de São Paulo e onde se encontra o célebre artigo Paranoia ou Mistificação?, texto em que criticava a pintura “moderna” de Anita Malfatti e que serviu de mote para a eclosão da Semana de Arte Moderna de 1922.
Lobato me veio agora á cabeça porque ouvi, numa conversa informal, que algum “idiota da objetividade” está propondo uma releitura da obra saborosa do mais legítimo representante da literatura infantil no Brasil. E daí? O tal sujeito pariu a brilhante idéia de que Lobato seria preconceituoso em relação à personagem Tia Nastácia, que era negra. Nunca ouvi tolice maior... Primeiro porque, à época, ainda não existia, por óbvio, a Constituição Federal de 1988; segundo, porque Lobato morreu exatamente no ano em que a ONU lançou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948; terceiro, Tia Nastácia é vista pelo escritor como a mucama que se integrou à família brasileira num processo social muito comum, naqueles tempos; por fim, mesmo a linguagem desabrida da Emília, aliás criação de Tia Nastácia, quando arremetia com menos delicadeza, o leitor percebe haver ali manifestação de profundo carinho, afinal Tia Nastácia participava de tudo que ocorria na casa de Dona Benta, inclusive das aventuras dos meninos e da boneca de pano. Quem quiser reler as fábulas gregas, em Monteiro Lobato, vai ouvi-las da narração da velha e querida mucama nas suas Histórias de Tia Nastácia. Esta era amada, respeitada, querida de todos e sua palavra era ouvida, seja como partícipe das preocupações pedagógicas de Dona Benta, seja quando conquistava a todos com o sabor de seus bolinhos. O próprio Minotauro do labirinto de Creta perdeu-se de amores pelos bolinhos dela, que só foi libertada do jugo daquele misto de touro e homem graças às ardilezas da Emília e dos netos de Vovó Benta.
Esse sujeito, que vem alimentando essas idéias de jerico, ou está querendo aparecer ou não tem o que fazer... Ninguém revê a obra de arte ( a não ser a igreja católica quando colocou veuzinhos nas figura de Micheângelo na Capela Sistina). O Direito, enquanto ciência, não se ocupa de fatos literários ou fictícios, mas dos reais e concretos. Tia Nastácia faz parte da galeria de personagens imorredouros na cultura brasileira tais as figuras das músicas carnavalescas “Nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia”? e “O teu cabelo não nega, mulata, porque és mulata na cor”... Será que o cidadão vai também à procura dos compositores dessas músicas, que também já morreram, para cobrar-lhes respeito aos negros e impingir-lhes algum castigo?
Será que esse sujeito faz parte daquele rol de imbecis que levaram Gustav Flaubert às barras dos tribunais por terem enxergado, em Madame de Bovary, episódios atentatórios “à moral e aos bons costumes” da sociedade da época? Flaubert e sua obra aí estão com ou apesar da ausência daqueles toleirões. Será que o sujeitinho quixotesco, com todo o respeito ao personagem de Cervantes, julga estar resgatando (opa” um verbo do PT) a dignidade do povo a quem ele quer proteger da sanha preconceituosa de Monteiro Lobato? Ora, durma-se com esse barulho, desculpem-me o lugar-comum, mas é preciso muito saco (outro lugar-comum) para agüentar essa intervenção patrioteira contra a obra de um dos grandes brasileiros que nossa História conhece...
Essas são as belas ações... As que não têm nenhum significado... A não ser torrar a paciência de quem está quieto no seu canto. Fuuuu!
Se existe vida post mortem, Lobato deve estar muito preocupado
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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

CARTA à AMIGA – XXVIII
Χαιρει, φιλει!
Aí vão algumas reflexões indisciplinadas, frutos de meus devaneios e de meus desvarios ante a complexidade do mundo. A leitura que venho empreendendo sobre a mitologia, sobretudo a grega, pois a latina não passa de mero pasticho, provoca em mim uma enxurrada de reflexões que aqui coloco e a você entrego como oferenda, rogando-lhe não alimentar jamais a ideia de que estou experimentando pisar na linha tênue que separa a lucidez da loucura. Esta, sob algumas perspectivas, tem seus encantos. Foi até mesmo decantada pela pena brilhante do renascentista holandês Erasmo de Roterdã. Não sou filósofo, bem sei. Mas a prerrogativa de pensar pertence a qualquer ser pensante, que não tem nenhum dever de ser pensador de conformidade com as diretrizes de quem quer que seja. Se minhas reflexões possam parecer descomedidas, estou a me dar o direito de, também, mergulhar numa ubpis (hybris) intelectual, encadear toda sorte de frases soltas, bêbadas sem coerência a fim de colocar às claras como vejo o mundo. Depois, eu retomo a δικε (diké)
Vez e outra, tecerei comentários acerca de algum mito grego ou de algum personagem cujo comportamento está voltado para a explicação do mundo naqueles tempos de Homero, Hesíodo, Aquiles, Ulisses, Argos, Calypso, Enéias, Dido, Príamo e toda a gente que, embora não “seja nada e seja tudo”, como diz o vate português.
Seu criado, sempre.
Namastê.
Hugo Martins


AS PALAVRAS
                                                 Hugo Martins
               
            Les Mots (As Palavras) é título de livro autobiográfico do escritor francês Jean-Paul Sartre em cujo bojo pode-se pescar, além de outros aspectos, a relação biunívoca existente entre palavra/mundo ou mundo/palavra. Reflexão aproximada da empreendida pelo também existencialista francês Michel Foucault na obra As Palavras e as Coisas.  O tema não tem nada de novo. Sempre foi pasto de reflexão de filósofos e linguistas. Por ser questão umbilicalmente ligada à condição humana, mesmo por ingênua intuição, pode-se chegar à conclusão que leva até mesmo o senso comum a pensar que nada existe sem a linguagem, entidade que funda o mundo e suas implicações de toda ordem. A reflexão aqui abarca todos e qualquer signo, que, ao fim e ao cabo, traduzem-se, e só por ele, pelo signo idiomático. Soltar a vista em torno do mundo e tentar traduzir algum laivo de significado de alguma coisa sem recorrer ao signo linguístico é flagrar-se impotente por despender esforço inútil e vão. Assim, fica firmado que nada existe sem a palavra, sem o λóγος, dos gregos, sem o verbum, dos latinos. Não é à toa que a Bíblia Sagrada recebe o apodo de A Palavra, com letra maiúscula, e o Evangelho, segundo São João, dizer que o Verbo se fez carne, quando se refere ao discurso do Cristo.
            A Antiguidade Clássica costumava explicar o mundo recorrendo a signos, cuja significação é, na linguagem da matemática, um intervalo aberto. Em outras palavras, aqueles se escancaram, permitindo, sem absurdidades, multifárias interpretações. Veja, por exemplo, o nascimento da deusa Afrodite (grega) ou Vênus (latina), aliás celebrado em famoso quadro do pintor italiano Sandro Botticelli. Aqui a deslumbrante deusa surge das ondas do mar. Ora, toda e qualquer matéria líquida, pelo menos numa interpretação esteada na simbologia freudiana, sugere sêmen (semen, seminis – semente em latim, assim como σπερμα, também semente, em grego. Para confirmar Freud, nesse passo, leia-se sobre o caos e o cosmo. A primeira é palavra sabida de todos, qualquer falta de ordem: a segunda significa, ao pé da letra, organização. Pausa para reflexão: as mulheres, sobretudo elas, quando veem o tempo se aproximar a passos de lobo, tatuando-lhes rosto e corpo com vivas e indeléveis rugas, a que recorrem? À cosmética, pois, pois... com o fito de reorganizar os estragos que o tempo impõem a todos, sem exceção. Deixando as filosofices de lado, lembremos que o nascimento do mundo (o cosmo) surge de uma cópula eterna entre Gaia (a terra) e Urano (o céu ou firmamento). Diz o mitólogo que Urano não saía de cima da pobre e sufocada Gaia e nem mesmo permitia que fosse a ela dar à luz os filhos, que viviam presos no ventre da mãe. Esta consegue dialogar com o Cronos, dá-lhe uma pequena foice e ordena que decepe a genitália de Urano. Feito a coisa, Urano dá um grande grito, afasta-se da esposa e se alça aos céus. Quando ocorre a chuva, a terra é fertilizada. E Vênus, que tem a ver com isso? Exato. O imenso falo, ainda gotejante, cai no mar. Dessa junção líquida, é gerada a deusa da Beleza e do Amor. Bonitim, né mermo?
            Outro exemplo. O sentido maior da tragédia de Édipo pode ser vista pela psicanálise como a maioria das pessoas já conhece. Mas Édipo, na verdade, é vítima da υβpις (descomedimento), que, por sua vez, contrapõe-se à δικη (justiça). Quando o indivíduo, mesmo involuntariamente, excede-se em dados comportamentos, pode revelar-se injusto e, por isso, deve suportar a força da justiça. Não devendo esta ser tomada como aplicação de lei e de determinada pena, mas padecerá de algum castigo a fim de que volte à sintonia do equilíbrio universal. Vejam-se os dramas de Midas, Prometeu, Sísifo, Mársias e uma miríade de histórias que revelam a sabedoria daqueles majestosos povos antigos, jogando com o destino de todos...
            A linguagem, a linguagem. Dia de Finados. Existirá coisa mais sem sentido? Ao pé da letra, quem se findou não mais existe. A não ser na memória, nas lembranças, nas recordações. E tem mais: estas são mais ou menos nítidas na cabeça de qualquer um dependendo do tempo do passamento e se o indivíduo mantiver a memória. Perdida esta, nada mais faz sentido, não há significações para o dia dos finados.
            A indústria cultural é useira e vezeira em criar significações pelo método da repetição, que, por sua vez, confia na existência da alienação. Que diabos vem a ser Halloween na cultura brasileira? Não existe. A não ser pela imposição da subserviência cultural, processo imposto pelo cinema e outros meios bem próprios da tal globalização de tudo. Quer dizer, nosso folclore é esquecido, nossa identidade cultural é desvirtuada, e tudo assume ar de franca naturalidade. É a linguagem, são os mistérios do mundo.
            Na mitologia hebraica, Adão e Eva foram descomedidos, foram além do permitido na ordem natural das coisas. É a hybris e não a diké. Todo homem, na sua fragilidade e na sua impermanência, pode, em algum momento de sua vida, resvalar na hybris. O mais engaçado de tudo é que o descomedimento e a justeza se supõem, um não existe sem o outro. A monotonia apolínea exige a contraposição da festividade dionisíaca. Que dizer, a lei dos contrários, que não passa da dialética de que tanto se fala, a tese, a antítese, a síntese, que se torna tese, que exige uma antítese, que se transforma em tese e... vamos embora, é o movimento, é o tempo, são as leis da existência. E tudo isso é concebido e expresso pela linguagem. Nada existe. Só a linguagem. Se esta existe, tudo passa a existir.
            Quem melhor sintetizou tal ideia foi o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade quando promoveu o casamento, eterno e inseparável de uma tese e uma antítese, a palavra e o mundo, que ele fundiu numa cópula eterna, semelhante à de Gaia com Urano. Não em tudo, pois a separação dos dois primeiros é impraticável, é impossível, seria o fim dos tempos. Da fusão deles, chega-se à síntese intransformável, chega-se às significações do mundo. Olha que coisa bunitinha: “palavramundo”. Dessa foda, nascem incontáveis significações: deuses, titãs, monstros, a Felicidade, a Beleza a Bondade, o Ódio, o Amor, e tantas outras entidades, cujas facetas constituem um conjunto vazio de largo espectro à disposição do preenchimento das visões de cada um de nós. Eis o Caos; eis o Cosmos: eis a Palavra.


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