MAIS UMA REFLEXÃO PRA ENCHER LINGUIÇA.
Hugo Martins
Pergunta cretina: qual o curso mais difícil na área acadêmica? Resposta adequada: aquele para o qual o sujeito não tem nenhum amor ou o elege por outras razões que não o chamado interior, a vocação. Há de haver sinceridade, pois, pois... sob pena de o indivíduo cair na esparrela das hipocrisias. Vejamos um caso de franca e flagrante hipocrisia.
Nos anos setenta, mergulhado o Brasil nos negros véus de estúpida ditadura, corria uma anedota de que aquele que desejasse ou não cursar Direito bastava passar em frente à porta principal da salamanca e dar bom dia ao porteiro. Diz a ferina maldade humana que este, no lugar de responder ao cumprimento, dizia as palavras sacramentais: "coisíssima nenhuma, você já está matriculado". Bom lembrar que naquele tempo só a UFC oferecia tal curso, diferentemente dos dias de então em que a cada esquina se dá de cara com "cursos de direito".
Democratizado o país com a promulgação de uma Constituição de feitio democrático em 5 de outubro de 1988, os operadores do direito passaram a ser mais valorizados, sobretudo com a percepção de salários mais polpudos e honorários menos humilhantes. Ora, logo, logo, as "vocações" despertaram de sua hibernação histórica. Resultado: os exames da OAB, por meio dos quais o bacharégua em direito pode obter a licença para advogar, provocaram o vertiginoso aparecimento da indústria de cursinhos e de feira editorial. Ambos produzem e mercadejam os famigerados e ridículos "bizus". Quer dizer: o sujeito gasta cinco anos nos bancos universitários, submete-se aos exames e neles é reprovado. Depois, matricula-se, por alguns meses, num desses bem arrumados cursinhos e logra feliz aprovação... Que que há? Hipóteses: nossas faculdades não preparam seus alunos para enfrentamentos de lides forenses; os cursinhos "adestram", como o cão de Pavlov, os infelizes candidatos, ou estes não passam de paspalhões mentirosos, frívolos e hipócritas.
A formação em direito ou em qualquer curso de cunho superior exige, além de sinceridade de propósitos, formação eclética, que se dá no silêncio de autodidatismo sincero, posto em prática por quem guia seu comportamento também por mais franca honestidade. Não basta a frequência aos bancos escolares. Suficiente por si mesmo o amor aos livros, aos estudos e as dedicação e aplicação a não importa o curso escolhido.
Não há cursos difíceis, mas traição de propósitos. Trata-se das essência do caos e do cosmos; da diké e da hybris; do comedimento ou dos excessos. Que o digam os gregos em sua universal sabedoria, dispersa nas páginas de sua literatura, de sua filosofia, no seu teatro e na sua incompreendida ou mal-digerida mitologia.
Voilà!
METÁFORAS.
Hugo Martins
Hugo Martins
Metáfora é palavra grega, formada por dois radicais, que, somados, resultam no significado aquilo que vai além. Corresponde, semanticamente, em latim, ao que Cícero chamou de TRANSLATIO, que, por sua vez, em inglês, significa TRANSLATION (tradução), literalmente, levar além. Assim, quando o produtor de um texto deseja ir além do significado dicionarizado de uma palavra ou expressão, recorre ao processo da metaforização para alcançar maior expressividade ao que pretende dizer. Vai além da acepção primária. Quando Jesus Cristo chama os fariseus de "sepulcros caiados", "raça de víboras" ou "geração adúltera", por ordem, tais sintagmas travestem as expressões aproximadas de hipócritas, traiçoeiros e perigosos e, por fim, cambada de filhos de puta.
Recorre-se de regra à metaforização para suprir a impotência da linguagem em traduzir o que vai na alma do escritor, que se esbate na "angústia da forma".
Quando Caetano Veloso, na letra da canção Sampa, que, por si mesma, já é uma metáfora (intimidade, carinho), refere-se às Avenidas Ipiranga e, sobretudo, à São João, e diz, antes, "alguma coisa acontece no meu coração", presta sibilina homenagem ao compositor da música Ronda, que conta a história de uma mulher que, sentindo-se rejeitada pelo amante, projeta o cometimento de um homicídio, "numa cena de sangue num bar da Avenida São João". Na mesma canção, o compositor baiano cria uma graciosa metáfora para traduzir o ar cosmopolita da cidade, que congrega etnias e transpira o caos das grandes metrópoles. Faz isso num mero jogo de repetição do mesmo termo sintático: "Porque tu és o avesso do avesso do avesso do avesso." Grande achado.
Aquele "meu guri", do Chico, cuja mãe o enxerga deitado na grama a contemplar o céu, não olha o céu. Na verdade, está morto, lembrando o extermínio, real ou desejado, de nossas crianças, cometido por uma sociedade hipócrita, insensível e perversa.
A Pata da Gazela, de Alencar, nada mais é que a releitura do conto A Gata Borralheira, aquela do sapatinho de cristal que, metaforizado, pode ser uma alusão à genitália feminina. São tantas as emoções... Os romances Esaú e Jacó, de Machado de Assis, e A Leste do Éden, de Stainbeck, colocam, no plano familiar, conflitos entre irmãos, motivados pelo mais detestável sentimento humano, o ciúme. A história dos filhos de Isaac e Rebeca, e os de Adão e Eva está implícita no enredo das duas obras referidas. O próprio título já sugere a temática...
Quando Murilo Mendes escreve o verso:"As horas passam, os homens caem, a poesia fica" (coisa linda), diz, de maneira originalíssima, da passagem do tempo, que tudo destrói e joga o homem no esquecimento, mas não impede que a arte seja eterna e eterna e eterna...
São tantas as emoções...
Quando os militares da ditadura de 1964 criaram o slogan "O Brasil é um país feito por nós", o humorista Millôr Fernandes não leu a última palavra como um pronome, mas como um substantivo, no que resultou na lancinante metáfora, inserta na frase "Resta saber quem vai desatá-los". Ui!
A leitura da obra literária é tanto mais encantadora quanto mais estiver polvilhada a obra de tiradas metafóricas. Brás Cubas só escreveu o romance Memórias Póstuma de Brás Cubas por causa da metáfora. Afinal, diz ele:"Leitor, eu não sou um autor defunto, mas um defunto autor para quem a campa foi o último berço."
São muitas as emoções. Não aspeio, muito pobre
Aspearia se "Assum preto o meu cantar é tão triste quanto o teu, também roubaram o meu amor que era a luz dos olhos meus". Sobretudo se se souber que se furam os olhos do pássaro para "ele assim cantá mió", na letra de Humberto Teixeira.
E aquele cangaceiro de Lampião que disse:"Se eu soubesse que chorando, empato a tua viagem, meus olhos eram dois rios que não te davam passagem." Aí é Freud.
Que diria a genialidade dum tal ximbinha, referida por um jornalista? Que o diga Suassuna na sua bela metáfora, lembrando Beethoven. E os safadões e outros idiotas da mesma fauna, que diriam dessas metáforas? Umas porcarias, certamente.
Compreensível. São muitas as emoções.
Recorre-se de regra à metaforização para suprir a impotência da linguagem em traduzir o que vai na alma do escritor, que se esbate na "angústia da forma".
Quando Caetano Veloso, na letra da canção Sampa, que, por si mesma, já é uma metáfora (intimidade, carinho), refere-se às Avenidas Ipiranga e, sobretudo, à São João, e diz, antes, "alguma coisa acontece no meu coração", presta sibilina homenagem ao compositor da música Ronda, que conta a história de uma mulher que, sentindo-se rejeitada pelo amante, projeta o cometimento de um homicídio, "numa cena de sangue num bar da Avenida São João". Na mesma canção, o compositor baiano cria uma graciosa metáfora para traduzir o ar cosmopolita da cidade, que congrega etnias e transpira o caos das grandes metrópoles. Faz isso num mero jogo de repetição do mesmo termo sintático: "Porque tu és o avesso do avesso do avesso do avesso." Grande achado.
Aquele "meu guri", do Chico, cuja mãe o enxerga deitado na grama a contemplar o céu, não olha o céu. Na verdade, está morto, lembrando o extermínio, real ou desejado, de nossas crianças, cometido por uma sociedade hipócrita, insensível e perversa.
A Pata da Gazela, de Alencar, nada mais é que a releitura do conto A Gata Borralheira, aquela do sapatinho de cristal que, metaforizado, pode ser uma alusão à genitália feminina. São tantas as emoções... Os romances Esaú e Jacó, de Machado de Assis, e A Leste do Éden, de Stainbeck, colocam, no plano familiar, conflitos entre irmãos, motivados pelo mais detestável sentimento humano, o ciúme. A história dos filhos de Isaac e Rebeca, e os de Adão e Eva está implícita no enredo das duas obras referidas. O próprio título já sugere a temática...
Quando Murilo Mendes escreve o verso:"As horas passam, os homens caem, a poesia fica" (coisa linda), diz, de maneira originalíssima, da passagem do tempo, que tudo destrói e joga o homem no esquecimento, mas não impede que a arte seja eterna e eterna e eterna...
São tantas as emoções...
Quando os militares da ditadura de 1964 criaram o slogan "O Brasil é um país feito por nós", o humorista Millôr Fernandes não leu a última palavra como um pronome, mas como um substantivo, no que resultou na lancinante metáfora, inserta na frase "Resta saber quem vai desatá-los". Ui!
A leitura da obra literária é tanto mais encantadora quanto mais estiver polvilhada a obra de tiradas metafóricas. Brás Cubas só escreveu o romance Memórias Póstuma de Brás Cubas por causa da metáfora. Afinal, diz ele:"Leitor, eu não sou um autor defunto, mas um defunto autor para quem a campa foi o último berço."
São muitas as emoções. Não aspeio, muito pobre
Aspearia se "Assum preto o meu cantar é tão triste quanto o teu, também roubaram o meu amor que era a luz dos olhos meus". Sobretudo se se souber que se furam os olhos do pássaro para "ele assim cantá mió", na letra de Humberto Teixeira.
E aquele cangaceiro de Lampião que disse:"Se eu soubesse que chorando, empato a tua viagem, meus olhos eram dois rios que não te davam passagem." Aí é Freud.
Que diria a genialidade dum tal ximbinha, referida por um jornalista? Que o diga Suassuna na sua bela metáfora, lembrando Beethoven. E os safadões e outros idiotas da mesma fauna, que diriam dessas metáforas? Umas porcarias, certamente.
Compreensível. São muitas as emoções.