segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Mia amica,
Sempre fui fascinado pela linguagem. Embora mais inclinado para a vertente verbal, a de que se ocupa a ciência linguística, pelo fato de traduzir todas as demais e não ser traduzida por nenhuma outra, não fujo aos encantos da linguagem expressa pelo signo semiológico. Afinal o mundo, que dizem ser um moinho, só existe na linguagem. Sem ela tudo é vão.
Depois que, graças aos deuses do Olimpo, voltei a estudar a língua grega, aproveitei para fazer visitas frequentes à Mitologia, assunto que interessa a todo aquele que ama a cultura clássica e vê no estudo dos mitos matéria rica para os desvendamentos que encerram a relação necessária homem e mundo.
Já num texto escrito há poucos dias, procedi à análise do Suplício de Tântalo, ligando o relato aos dias hodiernos, ressaltando o sofrimento por que passa o homem quando se vê envolvido e emaranhado pelos palpos do consumismo irrefreável, cuja teia é entretecida pelo discurso persuasivo de quem conhece a alma humana em suas fragilidades.
O suplício, entre os gregos (lembrar que, nesse aspecto, os romanos se limitaram a copiar os gregos) corresponde, mutatis mutandis (mudando o que se deve mudar), ao conceito de castigo ao pecador na Bíblia Sagrada, sobremaneira, no discurso epistolográfico de São Paulo.
O castigo pelo pecado cometido, no conceito bíblico, ocorre em nível de consciência. No Antigo Testamento, o deslize de Adão e Eva foi insurgir-se contra a divindade pela desobediência e pela soberba. Castigo: expulsão do Jardim do Éden e viver do suor do rosto como se trabalhar fosse um suplício e houvesse, à época, necessidade de trabalhar para prover a subsistência.
Há um suplício na Mitologia grega, que serve de pasto a interpretações de todo jaez, o Suplício de Prometeu, que, em muito, aproxima-se do mito adâmico, pois ocorreu a soberba e o confronto com as determinações e autoridade de Zeus. Prometeu furtou o fogo e deu vida ao homem, resumidamente. Foi, por ordem do deus dos deuses, acorrentado ao Monte Cáucaso para onde Zeus enviava uma imensa águia, que passou a roer,eternamente, o fígado do herói. Há relatos que dizem que Prometeu foi libertado pelo próprio Zeus; há outros, porém, que Héracles (ou Hércules) libertou-o matando a águia.
O suplício mesmo está traduzido no fato de a águia devorar a víscera do herói, a ele impingindo lancinante dores e, no outro dia, aquela renascer para, novamente , ser devorada.
Aí cabem interpretações de toda sorte...De cunho teológico, filosófico, literário. O cardápio é rico e variado.
O livro Ocidentais, de Machado de Assis, em sua primeira página, traz o soneto O Desfecho, poema que trata da questão aqui retratada, em que o escritor fluminense situa  Prometeu acorrentado, que olha para o tempo, que corre, "pausadamente como um dobre de finados", sendo surpreendido, de súbito, pelos ataques da grande ave do céu, que "rói, perpetuamente, a víscera do herói". Um dia a águia chega para cumprir sua faina e vê que o fígado não mais renascera. Eis a questão: o fígado devorado significa o sono; o fígado renascido sugere o acordar para a vida. O seu não renascimento representa a morte, metaforizada "na mão invisível que dilui as cadeias", que sustêm o herói.
O úitimo verso do soneto pôe em evidência a visão de Machado acerca da vida, que, para ele, se traduz em dor, peso, sofrimento, condição a que homem nenhum pode fugir. Como a morte é o fim de tudo, e o sujeito, nesse eufemismo cretino, "vai descansar", a vida deve ser um fardo pesado, situação belamente traduzida no verso machadiano: "Acabara o suplício; acabara o homem". Uma igualdade perfeita.
Quem desejar conhecer o mito pelo discurso da tragédia, pode ler Prometeu Acorrentado, de Ésquilo.
Reiteramos o cabimento de variadas interpretações do texto mítico. A outras correntes podem estar presos os prometeus de todas as facetas. É descobri-las, é encontrá-los, é arrostar as grandes águias. Questão de audácia.
Grande abraço, mia bella ragazza...

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