quarta-feira, 30 de novembro de 2016

MAIS UMA REFLEXÃO PRA ENCHER LINGUIÇA.

Hugo Martins

Pergunta cretina: qual o curso mais difícil na área acadêmica? Resposta adequada: aquele para o qual o sujeito não tem nenhum amor ou o elege por outras razões que não o chamado interior, a vocação. Há de haver sinceridade, pois, pois... sob pena de o indivíduo cair na esparrela das hipocrisias. Vejamos um caso de franca e flagrante hipocrisia.
Nos anos setenta, mergulhado o Brasil nos negros véus de estúpida ditadura, corria uma anedota de que aquele que desejasse ou não cursar Direito bastava passar em frente à porta principal da salamanca e dar bom dia ao porteiro. Diz a ferina maldade humana que este, no lugar de responder ao cumprimento, dizia as palavras sacramentais: "coisíssima  nenhuma, você já está matriculado". Bom lembrar que naquele tempo só a UFC oferecia tal curso, diferentemente dos dias de então em que a cada esquina se dá de cara com "cursos de direito".
Democratizado o país com a promulgação de uma Constituição  de feitio democrático em 5 de outubro de 1988, os operadores do direito passaram a ser mais valorizados, sobretudo com a percepção de salários mais polpudos e honorários menos humilhantes. Ora, logo, logo, as "vocações" despertaram de sua hibernação histórica. Resultado: os exames da OAB, por meio dos quais o bacharégua em direito pode obter a licença para advogar, provocaram o vertiginoso aparecimento da indústria de cursinhos e de feira editorial. Ambos produzem e mercadejam os famigerados e ridículos "bizus". Quer dizer: o sujeito gasta cinco anos nos bancos universitários, submete-se aos exames e neles é reprovado. Depois, matricula-se, por alguns meses, num desses  bem arrumados cursinhos e logra feliz aprovação... Que que há? Hipóteses: nossas faculdades não preparam seus alunos para enfrentamentos de lides forenses; os cursinhos "adestram", como o cão de Pavlov, os infelizes candidatos, ou estes não passam de paspalhões mentirosos, frívolos e hipócritas.
A formação em direito ou em qualquer curso de cunho superior exige, além de sinceridade de propósitos, formação eclética, que se dá no silêncio de autodidatismo sincero, posto em prática por quem guia seu comportamento também por mais franca honestidade. Não basta a frequência aos bancos escolares. Suficiente por si mesmo o amor aos livros, aos estudos e as dedicação e aplicação a não importa o curso escolhido.
Não há cursos difíceis, mas traição de propósitos. Trata-se das essência do caos e do cosmos; da diké e da hybris; do comedimento ou dos excessos. Que o digam os gregos em sua universal sabedoria, dispersa nas páginas de sua literatura, de sua filosofia, no seu teatro e na sua incompreendida ou mal-digerida mitologia.

Voilà!

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