METÁFORAS.
Hugo Martins
Hugo Martins
Metáfora é palavra grega, formada por dois radicais, que, somados, resultam no significado aquilo que vai além. Corresponde, semanticamente, em latim, ao que Cícero chamou de TRANSLATIO, que, por sua vez, em inglês, significa TRANSLATION (tradução), literalmente, levar além. Assim, quando o produtor de um texto deseja ir além do significado dicionarizado de uma palavra ou expressão, recorre ao processo da metaforização para alcançar maior expressividade ao que pretende dizer. Vai além da acepção primária. Quando Jesus Cristo chama os fariseus de "sepulcros caiados", "raça de víboras" ou "geração adúltera", por ordem, tais sintagmas travestem as expressões aproximadas de hipócritas, traiçoeiros e perigosos e, por fim, cambada de filhos de puta.
Recorre-se de regra à metaforização para suprir a impotência da linguagem em traduzir o que vai na alma do escritor, que se esbate na "angústia da forma".
Quando Caetano Veloso, na letra da canção Sampa, que, por si mesma, já é uma metáfora (intimidade, carinho), refere-se às Avenidas Ipiranga e, sobretudo, à São João, e diz, antes, "alguma coisa acontece no meu coração", presta sibilina homenagem ao compositor da música Ronda, que conta a história de uma mulher que, sentindo-se rejeitada pelo amante, projeta o cometimento de um homicídio, "numa cena de sangue num bar da Avenida São João". Na mesma canção, o compositor baiano cria uma graciosa metáfora para traduzir o ar cosmopolita da cidade, que congrega etnias e transpira o caos das grandes metrópoles. Faz isso num mero jogo de repetição do mesmo termo sintático: "Porque tu és o avesso do avesso do avesso do avesso." Grande achado.
Aquele "meu guri", do Chico, cuja mãe o enxerga deitado na grama a contemplar o céu, não olha o céu. Na verdade, está morto, lembrando o extermínio, real ou desejado, de nossas crianças, cometido por uma sociedade hipócrita, insensível e perversa.
A Pata da Gazela, de Alencar, nada mais é que a releitura do conto A Gata Borralheira, aquela do sapatinho de cristal que, metaforizado, pode ser uma alusão à genitália feminina. São tantas as emoções... Os romances Esaú e Jacó, de Machado de Assis, e A Leste do Éden, de Stainbeck, colocam, no plano familiar, conflitos entre irmãos, motivados pelo mais detestável sentimento humano, o ciúme. A história dos filhos de Isaac e Rebeca, e os de Adão e Eva está implícita no enredo das duas obras referidas. O próprio título já sugere a temática...
Quando Murilo Mendes escreve o verso:"As horas passam, os homens caem, a poesia fica" (coisa linda), diz, de maneira originalíssima, da passagem do tempo, que tudo destrói e joga o homem no esquecimento, mas não impede que a arte seja eterna e eterna e eterna...
São tantas as emoções...
Quando os militares da ditadura de 1964 criaram o slogan "O Brasil é um país feito por nós", o humorista Millôr Fernandes não leu a última palavra como um pronome, mas como um substantivo, no que resultou na lancinante metáfora, inserta na frase "Resta saber quem vai desatá-los". Ui!
A leitura da obra literária é tanto mais encantadora quanto mais estiver polvilhada a obra de tiradas metafóricas. Brás Cubas só escreveu o romance Memórias Póstuma de Brás Cubas por causa da metáfora. Afinal, diz ele:"Leitor, eu não sou um autor defunto, mas um defunto autor para quem a campa foi o último berço."
São muitas as emoções. Não aspeio, muito pobre
Aspearia se "Assum preto o meu cantar é tão triste quanto o teu, também roubaram o meu amor que era a luz dos olhos meus". Sobretudo se se souber que se furam os olhos do pássaro para "ele assim cantá mió", na letra de Humberto Teixeira.
E aquele cangaceiro de Lampião que disse:"Se eu soubesse que chorando, empato a tua viagem, meus olhos eram dois rios que não te davam passagem." Aí é Freud.
Que diria a genialidade dum tal ximbinha, referida por um jornalista? Que o diga Suassuna na sua bela metáfora, lembrando Beethoven. E os safadões e outros idiotas da mesma fauna, que diriam dessas metáforas? Umas porcarias, certamente.
Compreensível. São muitas as emoções.
Recorre-se de regra à metaforização para suprir a impotência da linguagem em traduzir o que vai na alma do escritor, que se esbate na "angústia da forma".
Quando Caetano Veloso, na letra da canção Sampa, que, por si mesma, já é uma metáfora (intimidade, carinho), refere-se às Avenidas Ipiranga e, sobretudo, à São João, e diz, antes, "alguma coisa acontece no meu coração", presta sibilina homenagem ao compositor da música Ronda, que conta a história de uma mulher que, sentindo-se rejeitada pelo amante, projeta o cometimento de um homicídio, "numa cena de sangue num bar da Avenida São João". Na mesma canção, o compositor baiano cria uma graciosa metáfora para traduzir o ar cosmopolita da cidade, que congrega etnias e transpira o caos das grandes metrópoles. Faz isso num mero jogo de repetição do mesmo termo sintático: "Porque tu és o avesso do avesso do avesso do avesso." Grande achado.
Aquele "meu guri", do Chico, cuja mãe o enxerga deitado na grama a contemplar o céu, não olha o céu. Na verdade, está morto, lembrando o extermínio, real ou desejado, de nossas crianças, cometido por uma sociedade hipócrita, insensível e perversa.
A Pata da Gazela, de Alencar, nada mais é que a releitura do conto A Gata Borralheira, aquela do sapatinho de cristal que, metaforizado, pode ser uma alusão à genitália feminina. São tantas as emoções... Os romances Esaú e Jacó, de Machado de Assis, e A Leste do Éden, de Stainbeck, colocam, no plano familiar, conflitos entre irmãos, motivados pelo mais detestável sentimento humano, o ciúme. A história dos filhos de Isaac e Rebeca, e os de Adão e Eva está implícita no enredo das duas obras referidas. O próprio título já sugere a temática...
Quando Murilo Mendes escreve o verso:"As horas passam, os homens caem, a poesia fica" (coisa linda), diz, de maneira originalíssima, da passagem do tempo, que tudo destrói e joga o homem no esquecimento, mas não impede que a arte seja eterna e eterna e eterna...
São tantas as emoções...
Quando os militares da ditadura de 1964 criaram o slogan "O Brasil é um país feito por nós", o humorista Millôr Fernandes não leu a última palavra como um pronome, mas como um substantivo, no que resultou na lancinante metáfora, inserta na frase "Resta saber quem vai desatá-los". Ui!
A leitura da obra literária é tanto mais encantadora quanto mais estiver polvilhada a obra de tiradas metafóricas. Brás Cubas só escreveu o romance Memórias Póstuma de Brás Cubas por causa da metáfora. Afinal, diz ele:"Leitor, eu não sou um autor defunto, mas um defunto autor para quem a campa foi o último berço."
São muitas as emoções. Não aspeio, muito pobre
Aspearia se "Assum preto o meu cantar é tão triste quanto o teu, também roubaram o meu amor que era a luz dos olhos meus". Sobretudo se se souber que se furam os olhos do pássaro para "ele assim cantá mió", na letra de Humberto Teixeira.
E aquele cangaceiro de Lampião que disse:"Se eu soubesse que chorando, empato a tua viagem, meus olhos eram dois rios que não te davam passagem." Aí é Freud.
Que diria a genialidade dum tal ximbinha, referida por um jornalista? Que o diga Suassuna na sua bela metáfora, lembrando Beethoven. E os safadões e outros idiotas da mesma fauna, que diriam dessas metáforas? Umas porcarias, certamente.
Compreensível. São muitas as emoções.
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