SELENE, SEMPRE AMADA.
Hugo Martins
Brisazinha fagueira. Ventinho fresco. Faz duas horas que toca uma musiquinha própria para o relax, muito comum em exercícios de postura na Yoga. Deitado na redinha de corda na varandinha aqui de casa, sinto o espírito aquietado, a alma posta em pleno sossego. Quero crer seja a interferência da melodia, transpirando numa miscelânea de toques quase monocórdios de notas musicais de um piano, como que arrastadas numa sintonia vaga que se encaminha para não sei que infinitude... Em contraponto, espaçados acordes de flauta, somados ao pipilar de pássaros pululantes e inquietos, arrulhando seus cantos díspares. Tudo é harmonia, lembrando a proposta de Baudelaire de gosto simbolista em que tudo é ordem, beleza, luxo, calma e volúpia (là tout n'est qu'ordre ou beauté, luxe, calme, volupté). Nesse transe, estava o poeta tomado pelos fluidos inebriantes de estupefacientes; aqui, estamos mergulhados na magia da música, divina música...
Entregue ao momento, desperto e ouço um chamado interior a me lancinar o espírito: "anda, é preciso escrever o texto sobre o mito de Sísifo conforme ficou afiançado entre ti e tu mesmo". Ergui a cabeça, virei-a de lado e o que vejo? No firmamento claro, vejo-a gorda, imponente, brilhante, como sempre deixando ver no torso redondo machas indecifráveis a olho nu, que o povo deu de comparar com uma cena em que se vê São Jorge, matando um dragão. Fito-a longamente a ver se ela me dá uma piscadela. Selene, porém, mantém-se indiferente. Ainda bem que não só a mim, pois sua preocupação única é receber os raios do Sol e mexer com o humor das marés.
Já inventaram muitas histórias sobre Selene. Quando menino, de espírito aberto aos mistérios do universo, revelados pela boca dos contadores de histórias de Trancoso, acreditava, como os da minha idade, que, em certas noites, os fluidos quase astrais (ou "satelitiais"?) de Selene envolviam com mais vigor os espíritos maus, e os homens destes portadores se transformavam num animal híbrido para quem se criou o substantivo composto "lobisomem". Muito menino sertanejo temia, nas sextas-feiras em que Selene estava grávida, atravessar, sozinho, caminhos desertos, temendo o aparecimento súbito daquele bicho feio e dado a grandes maldades... Uiiiiiii !!
Selene foi eleita o "astro dos namorados". Muita gente duvida de que o homem tenha posto o pé por lá. Lembro que no dia em que correu a notícia da chegada da nave no solo lunar, e este fora pisado por astronautas, um senhor, homem severo, religioso, amante de dadas "verdades", porém crédulo a doer na alma, dizia alto e bom som: "eu não acrefito numa coisa dessas. Estão querendo brincar com as coisas de Deus." Alguém perguntou por que. Aquele senhor, para dar maior certeza ao que dissera, aduziu: " passei o dia todinho olhando o céu, esperando o tal foguete estacionar na lua. Tudo conversa. Amanheceu o dia e não vi nenhum movimento por lá".
Quanto a ser o "astro dos namorados", há alguma dose de verossimilhança na coisa. O cancioneiro popular é pródigo de produções poéticas enaltecendo Selene, seus encantos, sua mística e sua influência no amolecer corações apaixonados.
À época em que, em terras interioranas, as luzes da cidade se apagavam às vinte e duas horas, os casais de namorados não aprovavam nessas horas a presença de Selene. Não se sabe o porquê.
Vivas a Selene, nossa sempre amada...
Nenhum comentário:
Postar um comentário