quarta-feira, 28 de novembro de 2012


DATAS

                                   Hugo Martins

 

            Dediquei o dia a ouvir música lírica. Visitei Albinoni, ouvindo seu Adágio; mergulhei fundo na Serenata ao Luar, viajando no tom plangente nos acordes do piano de Rubinstein. Depois, mudei de rota e procurei Franz Schubert e curti-lhe a Serenata. Por fim, fui ao Largo de Xerxes e ouvi as Lamentações de Thaís.

            Nessas horas, a alma parece subir às alturas, procurando se desvencilhar da dureza do cotidiano, aceita o Convite à Viagem, de Charles Baudelaire, e se deixa levar ao etéreo, ao intangível, ao metafísico. Nessa ânsia louca, rende-se o espírito à reflexão enquanto a tarde “cai silente e fria.”

            Houve um momento, em que a emoção era tamanha, que tive que me conter para impedir um dilúvio de lágrimas, que teimavam em escorrer, tépidas, nos sulcos de meu rosto já marcado pela ação deletéria e silenciosa do tempo.

            Súbito, me vem à mente a figura grave de minha mãe. Olho seu rosto, em que repousa um par de óculos de grossas lentes e leio nos seus lábios finos um ar de desencanto com a vida, embora suportando-a asceticamente como um estóico empedernido. Trajava um vestido simples de cor azul e achava-se sentada numa espreguiçadeira, com o braço direito levemente apoiado no espaldar. Sempre trago gravada na lembrança a maneira como minha mãe se movia dentro de casa. Às vezes, surpreendia-a com as mãos entrelaçadas, girando os polegares e absorta em pensamentos que, talvez, avaliassem se valeu a pena do viver. Da minha parte, penso que, apesar dos contratempos e sofrimentos, enfrentou os dissabores da vida com altivez e coragem. No dia 9 de setembro de 1990, deixou-nos, nós, os dez órfãos adultos...

            Nunca visito seu túmulo. Ela não está ali. Está nas lembranças dos filhos. Por onde anda não sei embora me visite quase diariamente. Sua imagem nunca me chega falseada. É a mesma mulher de têmpera de aço, que repassou para os filhos a virtude de não tropeçar nos jogos sujos da vida, bem como a voracidade pela leitura. É outra imagem que dela tenho: deitada numa rede, os óculos na ponta do nariz e absorvida na leitura de algum livro...

            Não tenho saudades dela. Não há razão para isso, pois ela está sempre comigo. É minha heroína, ninguém com ela concorre. É meu modelo, minha inspiração, meu maior arquétipo. Minha mãe não me espera a visita em dias preestabelecidos. Vive sua condição, vivo eu a minha.

            A música de Bach me tira das reflexões. Por um instante, numa espécie de transe, senti minha mãe por trás de meus ombros a espreitar o que dedilho na superfície branca da tela do computador. Digo, de mim para mim: será que está a me corrigir os tropeços na língua como costumava fazer quando me ensinava as primeiras letras? Ou estaria a antegozar a homenagem que ora lhe faço, em cujas entrelinhas se lê a advertência de que não existe um dia específico para se homenagear as mães que habitam o sobrenatural? Afinal o amor filial na tem hora marcada, manifesta-se sempre que a luz do amor e da gratidão sopra no coração de cada um... E isso faço agora...

sábado, 3 de novembro de 2012


PERSONA

                                                 Hugo Martins

 

            Acabou. Sexta-feira, sábado e domingo passaram com o mesma marcha e ritmo de outros dias vãos. Os que visitaram seus mortos voltam às suas casas com a dor universal da inescapável certeza da finitude da existência. Mergulharam dentro de si mesmos e constataram que pouco adianta alimentar vaidades de que somos grandes coisas. Não passamos de cadáveres ambulantes à espera do lauto banquete promovido sempiternamente pelo exército de inumeráveis vermes que nos espreitam os olhos para “roê-los e deixar apenas os cabelos na frialdade inorgânica da terra”.

            No sábado, os bares se encheram “de homens vazios”, na feliz expressão do poetinha. Aqui e ali, conversas prenhes da filosofice cotidiana. Tangem-se as cordas de um violão seresteiro ou se maltratam as letras de nosso cancioneiro. O tempo passa, a cerveja gelada cai na mesa, vira-se um copo de cachaça, espocam risadas. “Cai a tarde tristonha e serena.” E “sobre a triste Fortaleza, o ouro dos astros chove.” Isso aí vale no poema Vila Rica, de Bilac. Não mais é possível enxergar o céu recamado de estrelas. Os homens têm coisas mais importantes a fazer. Por que olhar o céu se há tanta cerveja a beber, e o tempo é escasso? Importa viver a vida, nos seus mistérios, fugindo à sombra tétrica da solidão interior. Inútil buscar uma saída para quem está preso nas armadilhas que criou para si mesmo. Abrir a porta, olhar o tempo, fazer um esgar, tentando mostrar mentirosa satisfação? Inútil. Estamos presos no “cárcere das almas”, tendo que enfrentar a nós mesmos. Que trágico?  “E agora, José? Ou, pior, ainda, trancados a sete chaves sem poder fugir à presença do outro. Isso é coisa de Sartre. Parece plágio, mas não é. Lembro que Villa Lobos, quando lhe indagaram de seu processo criativo, respondeu afirmando que todos os sons e acordes do mundo Deus colocou nas mãos de Bach. Por isso - dizia - sempre que compunha, ia ao último. Era mais perto. Para chegar ao primeiro, as dificuldades eram maiores. Aliás, a música do maestro brasileiro traduz-se numa boa estirada para limpar as sujeiras que vão na alma. Ela e as demais artes, refúgio dos que evitam as mesmices dos homens vazios.

            Chega o domingo. Todos acordam e constatam que a volta para si mesmos e o encontro com o vazio é inevitável... Vamos para casa. Ainda há um pedaço de tarde e a noite já se aproxima. A idiotia dos programas televisivos está à espera. Estamos cansados... Baboseiras do Faustão, alegria postiça e comercial de Sílvio Santos ou as partidas futebolísticas, toda uma programação, bem programada, para doutorar idiotas... Afinal, todo o show da vida é fantástico...

            Amanhã só será outro dia em época de revolução, “num tempo, página infeliz de nossa história, passagem desbotada na nossa memória das nossas novas gerações.” A rigor, todo amanhã é sempre igual, quando os sonhos revoluteiam em nossas almas pequenas à procura de uma saída... Não há saída... Há o real concreto, despido de máscaras e maquiagens, impotentes e insuficientes para esconder a dor que se tenta esconder nas pequenas fugas que empreendemos na busca de não se sabe do quê... Baixado o pano, a encenação continua...

            Segunda-feira. Que pena! Que dor!

VALORES

                                            Hugo Martins

            Passei boa parte do sábado lendo uma espécie de biografia sobre o cronista cearense Airton Monte. Espécie de retrato falado, pintado por simpática pena realista, o livrinho nos toca a alma. Vida profissional e familiar do escritor/psiquiatra posta a nu, não com a grosseria de publicações que se banqueteiam com fofocas e outras asnices do mesmo naipe. Não, a autora, elaborando trabalho de cunho universitário, demonstra maturidade intelectual e honesta preocupação de bem informar, como sói acontecer com jornalistas que teimam em não desvirtuar os fatos. De parabéns ela...

            As folhas são viradas. Nelas não me interessa o estilo de vida boêmia por que optou o cronista, tampouco o rol de amigos que conquistou ao longo de sua existência. Chama-me a atenção sua preocupação com duas namoradas de quem jamais se separa: a literatura e a medicina. Com elas mantém relação amorosa de que se extrai a preocupação com o ser humano e o desejo de criar. Nessa última, vislumbram-se o ato quase confessional de quem se psicanaliza e o intimismo lírico, que fuça a alma, num misto de revelação lírica e desencanto filosófico. É o que interessa.

            Embora não seja leitor de jornais, toda vez que me caía nas mãos um exemplar do jornal O Povo, não passava os olhos sobre manchetes e notícias. Ia direto para a crônica diária de Airton. Ali, pelo olhar daquele homem triste, embora se diga de seu espírito galhofeiro, viajava eu pelos becos, ruas e bares de Fortaleza. Encontrava-me com boêmios bons de conversa e de copo. Solidarizava-me com a melancolia do “cronista de Fortaleza” e desvirginava as madrugadas sanguíneas, habitada por rebanhos  de incorrigíveis noctívagos.

            O coloquialismo era sua marca, lembrando, pelo tratamento do tema e pela recorrência à línguagem despretensiosa, sem resvalar o vulgarismo, a prosa moleca do baiano Jorge Amado. Se este cantou os “pastores da noite” de Salvador, Airton Monte decantou e exaltou Fortaleza, levando o leitor a lugares desaconselháveis a moços-família, dando àquele conhecer a beleza trágico-humana do “bas-fond”. Tudo respingado de ternura e emoção das boas. Daquelas que fazem o leitor meditar e enxergar que, por trás da vã aparência das coisas, escondem-se realidades mágicas, que só o cronista, fugindo à frieza do essencial, desvenda o acidental, o episódico. Enfim, o material indispensável para fazer a crônica.

            Se, lembrando Noel, “São Paulo dá café, Minas dá Leite”, aqui no Ceará, lugar que, “em se plantando, tudo dá”, nasceram e viveram cronistas tão bons e admiráveis quanto Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e os nossos cearenses Rachel de Queiroz e Milton Dias. Todos já falecidos...

            Há pouco também faleceu Airton. Deve ter levado no alforje miríades de idéias para compor, com os primeiros, crônicas celestiais, desvendando o se esconde no cotidiano da região etérea, que só filósofos e homens de letras ousam desvendar. Seu riso zombeteiro e sua gargalhada desabrida e traquinas devem também estar fazendo coro com algum anjo dissimulado e maroto, dado a peraltices boêmias...

            Viva aos céus...