segunda-feira, 28 de agosto de 2017

ETIMOLOGIA E REFLEXÃO
Hugo Martins
Na Grécia antiga, o escravo que conduzia o filho do aristocrata à escola era chamado de pedagogo. Esta palavra é formada por dois radicais: παις, παιδός (menino, menina, criança) e Αγωγεύς (o que conduz). Este último radical é encontrável em palavras como, por exemplo, demagogo e pedagogia... Assim, quando os gregos se referem à educação ou instrução, usam a palavra Παιδεία, em português Paideia, título de uma obra de autoria de Werner Jaeger, cujo subtítulo sugestivo é A Formação do Povo Grego.
Na língua latina, a palavra que sugere a ideia de conduzir é o verbo DUCO, DUCIS, DUCERE, DUXI, DUCTUM (em português, conduzo, conduzes, conduzir, conduzi, para conduzir). Este verbo latino, serve de base para inumeráveis palavras do léxico português: produzir, reduzir, deduzir, induzir, produtor, condutor redutor, indutor, conduto. Veja-se, por exemplo, que se aplicava ao ditador Benito Mussolini o epíteto de DUCE, o que conduz, o comandante. Se se antepuser o prefixo E (variação de EX) àquelas formas verbais primitivas, chegar-se-á facilmente à conclusão de que EDUCAR é, literalmente, conduzir para fora.
Assim, tanto para helenos quanto para latinos, guardadas as especificidades de cada uma daquelas línguas clássicas, a ideia de educação remete à acepção geral de conduzir. Legal, né mermo? Pois bem.
Desse modo, a educação tem por escopo formar o homem, plasmar-lhe a personalidade, criar-lhe condições concretas para que se ajuste às excelências de condutas que o grupo social almeja. Não é à toa que a formação do homem ocidental, em toda sua trajetória histórica, toma por modelo basal o que se herdou da cultura greco-latina. Não se deve desprezar, porém, as diferenças comportamentais e posturas no mundo dos diversos povos do Ocidente, afinal, cada um se foi formando ao sabor dos mais diversos fatores como deixa entrever Viana Moog na obra Bandeirantes e Pioneiros, em que o escritor gaúcho estabelece paralelo entre a formação histórica de dois povos, o brasileiro e o norte-americano. Todo povo é detentor de uma identidade histórica, que se manifesta nos mais comezinhos comportamentos do cotidiano. Depende do banho civilizatório... Se furtar muito ou pouco do erário pode significar, para alguns povos, um atentado, uma mácula indelével na alma, aqui, no Brasil, tornou-se banalizado lugar-comum; se os tribunais em alguns outros lugares, excetuando-se a nação tupiniquim, procuram aplicar o Direito, visando ao bem comum, fim maior dessa bela ciência, aqui, no Brasil, juristas, juízes e demais operadores do Direito, movidos pelo autoritarismo grosseiro e a vaidade babosa, sapateiam no lombo das leis e promovem uma festa parafernálica em que enodoam os mais sãos princípios da ética e da seriedade. Tudo é desvirtuado ou, como dizem os doutos, ocorre a inversão dos valores. Tudo se entorta: só se prendem os bandidos pequenos, e os grandes, quando recebem ordem de prisão, não se sabe que mágica se faz com a aplicação das leis, pois estes senhores permanecem livres, leves e soltos ou cumprem a pena numa “cela” especial, no reduto de suas casas, cercados de todas as mordomias. Se as leis, em alguns lugares que não os da nação tupiniquim, são observadas pela maioria dos cidadãos, aqui, no Brasil, são moldadas para atender o interesse de poucos. Emendam-se leis, eliminam-se leis, não se cumprem as leis, revogam-se leis, atropelam-se as leis. Comete-se o assassínio doloso até mesmo da Lei Maior, documento que serve de base à confecção de todo e qualquer ato normativo em qualquer esfera da vida social. Chamam-na de Constituição... Alguém pergunta de quê? Constituição de quê? Diz alguém que um filósofo da antiga escola Cínica diria: da impunidade, do arbítrio, da falta de vergonha, dos piores exemplos para a formação do cidadão.
Sem mais delongas, o assunto EDUCAÇÃO, por sua etimologia, pode muito bem ser compreendido sem a necessidade desse texto que se nos antolha. Suficiente olhar a História do povo brasileiro, sobremaneira a que transcorre, hoje, a céu aberto, diante de nosso olhar atônito e de nossa dignidade malferida, para perceber que a FORMAÇÃO DO POVO BRASILEIRO, assenta-se no pódio triste em que o vencedor ostenta, descaradamente, o troféu que espelha a nossa triste condição de povo fadado e vocacionado à CORRUPÇÃO. Bons e preparados professores não faltam. Tampouco alunos cuja relapsia não permite, até mesmo, o exercício da maior das lições democráticas: votar...
Nada de legal, né mermo?

sábado, 26 de agosto de 2017


O POMO DA DISCÓRDIA
Hugo Martins

Para as bodas de Tétis e Peleu (futuros pais de Aquiles), não foi convidada Éris, a Deusa da Discórdia. À solenidade, estavam presentes Zeus, o rei dos deuses e dos homens; sua mulher Hera; Palas Atenas, a deusa da sabedoria e de olhos glaucos, bem como Afrodite, deusa da beleza e do amor.
Melindrada por tal desfeita, Éris pegou de uma maçã, nela escreveu o adjetivo PULCHÉRRIMA, que se traduz por “para a mais bela”, e jogou-a em direção a Zeus. Este, para não se envolver em questão tão delicada, resolveu enviar as três deusas ao príncipe troiano, Páris, para desenrolar o imbróglio. Aqui começa, um dos primeiros cenários explícitos de rasa corrupção. Iniciado o jogo, Hera ofereceu a Páris riqueza e poder; Palas Atena, sapiência, prudência e sensatez; a proposta de Afrodite pareceu a mais convincente. A deusa disse a Páris que, se ele a escolhesse, daria a ele o suprassumo da beleza, daria a ele Helena, considerada a mulher mais bela de todas. Páris escolheu Afrodite. Dessa sentença, teremos, como consequência o início do conflito bélico envolvendo gregos e troianos. Sem contar outras lições.
Aqui cabe uma reflexão. Primeiro, dizer que pomo é palavra derivada diretamente do latim, POMO, POMI, que significa fruto; segundo, que DISCÓRDIA também é palavra originária do latim e tem tudo a ver com coração: COR, CORDIS, a que se acrescenta o prefixo negativo DIS, antônimo de CON. Daí discórdia e concórdia. Por ordem, coração conturbado e coração aquietado. Os antigos colocavam toda sorte de emoções no coração.
´É de se crer, que Éris sempre está fazendo suas estripulias. Nos últimos tempos, na terra brasilis, deu de jogar o pomo da discórdia no meio da massa de gente , que  escolherá candidatos a ocupar cargos políticos para o exercício do Poder. A zoada já começou. Éris bem sabe que os homens são os mesmos em qualquer diapasão geográfico e histórico. Discursos de todas as facetas ideológicas vêm à tona; a sabedoria sensaborona e desmilinguida põe às claras suas múltiplas facetas, e os nossos páris” tupiniquins se engalfinham numa contenda sem fim, procurando convencer uns aos outros a colocar seus votos nas urnas, não para escolher o mais belo, mas o menos CORRUPTO para ocupar cargos eletivos nesse momento periclitante da democracia tupiniquim.
Que seja o eleitor orientado por Palas Atena... Contra Éris nada se pode fazer.







terça-feira, 15 de agosto de 2017

IMPROVISOS
Hugo Martins
Hoje nada tenho a dizer. Esterilidade quase absoluta. Dedos rijos. Pensamento indisciplinado, teimando em não se fixar num assunto. Lembrei Drummond exprimindo a luta que, às vezes, o redator empreende com as palavras para fazer parir o texto, mas a mão teima em não escrever. É a luta vã a que o poeta itabirano se refere ao dizer que vivemos sempre esse conflito diário com as palavras mal raia a manhã. Vem a vontade de desistir. Mas os dedos, apesar de tudo, cooperativos, teimam em zabumbar o teclado à espera de que o parto se dê. Há quem diga que texto algum deixa de nascer com vida, não há texto natimorto. O mundo aí está, e este vive um romance diuturno com cheiro de eternidade com as palavras. Desse elo necessário, o texto há de surdir. Paciência e deixar que o pensamento acompanhe o galope dos dedos. É a saída. Parece que deveria ser o contrário, mas as ideias caminham trôpegas, montadas numa preguiça de bicho preguiça, ensaiando passadas que mais parecem aquele movimento em câmara lenta das cenas de determinados filmes ou em transmissão de jogadas futebolísticas. Daqui a pouco, o leitor vai dizer que tudo isso não passa de “enchimento de linguiça”, de conversa fiada de quem não tem o que dizer. Claro que ele se engana. Como não ter o que dizer se algo está sendo dito ainda que a duras penas? Mas havemos de dizer algo palpável, sem tergiversações ou fugas, pois este texto que assim se espraia na página, parece não ter pé nem cabeça. No início, sentei-me à mesa pensando em fazer um paralelo entre o texto O Samba do Crioulo Doido, de Stanislaw Ponte Preta, o Lalau, e a poesia absurda do poeta paraibano Zé Limeira. A coisa daria panos para o texto, pois os textos de ambos em muito se assemelham pela absurdidade da linguagem. Stanislaw, naquele samba, satiriza o desconhecimento da História do Brasil, a seu aviso, por parte dos compositores de samba-enredo, à época os crioulos habitantes dos morros no Rio de Janeiro. Já o poeta paraibano era conhecido pela alcunha Poeta do Absurdo, não que ele misturasse assuntos díspares da História ou de histórias sem pé nem cabeça, mas porque, recorrendo a uma linguagem, ás vezes, sem nenhum sentido, fugia à censura de quem quer que seja pela maestria com que tirava proveito da musicalidade das palavras de nossa língua portuguesa. Se eu tentasse fazer o paralelo, teria que copiar algumas passagens dos textos de cada um dos autores citados, do que resultaria um texto longo não cabível aqui neste espaço. Além do mais, a transcrição exigiria análise acurada dos textos com o fito de clarear pontos obscuros e de difícil exegese de cada um deles. Afora o tédio que provocaria certamente no espírito do leitor preguiçoso.
Só sei que, nessa lengalenga, nesse não diz mas diz, acabamos por escrever o texto que não queria sair, mas não suportou a teimosia deste escriba.
A falta de assunto pode ser assunto rico e pródigo para a produção de um texto.
Aí está o texto... Da próxima, sairá um mais espontâneo. Um breve toque de silêncio...
Namastê.
ΠΑΡΘΕΝΟΣ ou παρτένος - VIRGEM
Hugo Martins
A palavra grega, acima transcrita, à guisa de título, em caracteres maiúsculos e minúsculos, seguida da tradução em português, corresponde, em latim, a VIRGO-VIRGINIS, e se aplica à deusa grega Atena (Minerva dos romanos), que era casta, pura e inocente tal como a virgem Maria, que concebeu sem haver mantido relação sexual com quem quer que seja, pois seu filho unigênito foi concebido “por obra e graça do Espírito Santo. ” Assim, a virgindade é signo que designa toda mulher que “nunca conheceu homem”, conforme diz o eufemismo aspeado. O emprego corriqueiro desta palavra em tal acepção surge, de tempos em tempos, acobertada por toda sorte de preconceitos ao longo da História, de tal forma que algumas mulheres já casadas ou experimentadas, muitas vezes brincam, colocando em si mesmas o rótulo de virgens, como se a condição de permanecer virgem fosse uma virtude. Outro sentido que a palavrinha assume na cultura brasileira é “nunca fui propriedade de ninguém”. Para muitas, o casamento se dava porque mantinham “a virtude” de ser virgem, isto é, não “deitaram, antes, em outro leito, com algum homem. ” A coisa era levada tão a sério, que o Código Civil Brasileiro de 1916, revogado ou modificado em 2002, trazia um artigo, dando a prerrogativa ao homem de pedir a anulação do casamento se alegasse, no prazo de dez dias, contados do enlace, não ser mais virgem a mulher... Era o que chamavam “erro essencial de pessoa.” É mole? O macaco Simão diria que sim, mas sobe.
E quem não lembra os “casamentos na polícia? ” O sujeito cometia o crime de sedução, previsto no art. 217 do Código Penal, dispositivo já revogado, que também recebia a designação popular de defloramento. Era esta a redação: “seduzir mulher virgem, menor de dezoito anos e maior de catorze e ter com ela conjunção carnal, aproveitando-se de sua inexperiência ou justificável confiança. ” Nesse contexto, dizia-se que o praticante de tal delito “fizera mal” a uma moça. O sujeito era coagido a casar com a “vítima. Vi um caso, na cidade de Itapipoca, em que o cabra foi castrado pelo pai, pois não quis assumir, e nem podia, pois deflorou duas jovens irmãs. Quando a moça engravidava e o casamento não se concretizava, fazia uma longa viagem, ou o pai da jovem se tornava pai do neto ou da neta. É mole? Sei não.
Algumas palavras existem, em português que assentam na forma e no conteúdo do radical que veicula a ideia da palavra virgem. Por exemplo: partenofilia aponta para o sujeito que demonstra inclinação exagerada por mulher virgem. Do mesmo modo, a palavra partenófobo designa o sujeito que tem medo de virgens... É o homem, é a cultura, é a linguagem.
Χαιρετε, ω φιλόι. (alegrai-vos, amigos).
QUE BRUXO QUE NADA, MEU.
Hugo Martins
Prefiro alquimista a bruxo. Machado fazia misturas sintático-semânticas com as palavras e não bruxaria. Além do mais, é duro colocá-lo na mesma patota dum tal Paulo Coelho, que julgamos nada entender de química literária, a não ser na opinião de toleirões que confundem fusa com semifusa. Verdadeiro desacerto.
Machado compôs com vários diapasões. Romancista, contista, crítico literário, cronista, dramaturgo, epistológrafo e poeta. Escreveu quatro volumes de poesia: Crisálidas, Falenas, Americanas, Ocidentais. O poema que, dentro em pouco, transcrevo e analiso pertence ao último.
Por haver em algum momento se filiado à escola romântica, fez a chamada poesia tradicional de feitio parnasiano tanto na forma, daí a preferência pelo soneto, quanto no conteúdo. Seus poemas, mesmo os tingidos de alguns traços do Romantismo, são contidos, pensados, pesados e sopesados na balança da reflexão sempre e sempre refinada. Gosto de Machado, não importa em que gênero. Disponho de sua obra completa e, vez ou outra, refrequento-a. Hoje retirei da estante suas poesias e escolhi esta para fazer breve análise de cunho sintático e algumas pinceladas no aspecto histórico em que está encravado o texto. Literatura não se lê sem a História. É o “eu sou eu e minhas circunstâncias” de Ortega Y Gasset.
Spinoza, pensador holandês do século XVII, sobre ser dono de intelecto privilegiado, filósofo não fácil de ler, trabalhava como operário, polidor de lentes, e identifica Deus com a Natureza. Isso foi motivo para sofrer perseguições dos homens da Igreja e experimentar sérias e graves desavenças com aqueles que não entendiam sua filosofia. Nos dias atuais, é estudado com afinco em todos os cursos de Filosofia por aí existentes, em que sua Ética aparece como objeto de largos e aprofundados estudos. Sua obra foi escrita em latim. Não o conheço ainda, a não ser uma breve biografia SPINOZA EM NOVENTA MINUTOS, que está a me servir de aperitivo e nos dá, superficialmente, uma ideia do que é seu pensamento. Machado de Assis assim pintou seu retrato de filósofo e operário.
SPINOZA
Machado de Assis
Gosto de ver-te, grave e solitário,
Sob o fumo de esquálida candeia,
Nas mãos a ferramenta de operário,
E na cabeça a coruscante ideia
E enquanto o pensamento delineia
Uma filosofia, o pão diário
A tua mão a labutar granjeia
E achas na independência o teu salário.
Soem cá fora agitações e lutas,
Sibile o bafo aspérrimo do inverno,
Tu trabalhas, tu pensas e executas
Sóbrio, tranquilo, desvelado e terno,
A lei comum, e morres e transmutas
O suado labor do prêmio eterno.
Sem comentários. Não há necessidade. Que o leitor disso se ocupe e reflita sobre a importância de um homem livre como sói acontecer com alguns filósofos. E Machado? É Machado. Ainda assim, vou transpor as frases para a ordem direta para tornar o soneto mais legível do ponto de vista sintático. Ei-lo, aspeado.
“Gosto de ver-te, grave e solitário, sob o fumo de candeia esquálida, (trazendo) nas mãos a ferramenta de operário e (trazendo) na cabeça a ideia coruscante. A tua mão, a labutar, granjeia o pão diário; (paralela e simultaneamente) teu pensamento delineia uma filosofia e ( com isso) achas o teu salário na independência; agitações e lutas soem cá fora, o bafo aspérrimo do inverno sibile; tu trabalhas, tu pensas a lei comum, sóbrio, tranquilo, desvelado e terno; e morres e transmutas o labor suado do prêmio eterno.”
Duas cabeças estonteantes...
Lindo.
CONVERSA DE SARAU
Hugo Martins
O sarau era uma reunião lítero-musical que se fazia na casa de alguém e reunia, geralmente, pessoas amantes da música e da literatura. Entre drinques, fumaça de charutos e cachimbos, ouvia-se, aqui e ali, o som de doces acordes de piano, alguém executando algum Noturno de Chopin, ou, algum mancebo, de basta cabeleira, olhos tristes e ar de desamparo, erguia-se de seu abandono e punha-se a declamar versos chorosos, de regra, produção do ultrarromantismo, texto salpicado de tom desesperado e choramingas.
A um canto da sala, uma senhora de ar matronal conversava com o escritor Machado de Assis. Parecia tratar-se de um diálogo agradável, pois o romancista, embora discretamente, deixava escapar alguns tímidos sorrisos que traduziam satisfação e prazer de ali estar trocando ideias com pessoas vivamente agradáveis.
Era lugar-comum, em salas de aula, professores sem preparo pôr em relevo notícias biográficas do criador de Dom Casmurro, ressaltando três coisas sem nenhuma importância da vida do escritor. A alguns "mestres" parecia que tais coisas teriam larga influência no tom literário de Machado, sobretudo seus niilismo e ceticismo em relação ao bicho homem. Esqueciam de pôr em relevo o psicologismo do grande Machado e sua maestria em desencavar o que vai no mais profundo dos escaninhos da alma do homem para dizer aos ingênuos alunos: " o pessimismo de Machado de Assis se deve ao fato de ser ele mulato, gago e padecer de epilepsia". Coisa de leitor que não leu o autor, desconhecendo totalmente seu fazer literário e, por isso mesmo, arvorando-se no direito de dizer tolices e asneiras dignas de ignorantões de meia tigela. Coitados dos alunos... Ter um desses como professor, logo de literatura, é ter sido fadado a pensar que a disciplina não guarda importância alguma na formação intelectual do alunado. Digo com a juventude: "tipo assim, ninguém merece, brother..."
Voltando àquele sarau. Em meio à conversa, a senhora com fumos de matrona olha para Machado de Assis e, delicadamente, diz: "interessante, sr. Machado, todos desta cidade do Rio de Janeiro dizem que o senhor é gago, e eu não notei no senhor nada do que dizem." O escritor carioca olhou-a e rebateu: " minha cara senhora, engraçada é a vida: ouvi de alguns habitantes do Rio de Janeiro dizerem que a senhora é extremamente indelicada, usa brilhantes ferraduras e é burra como uma porta. E acabo de confirmar tão dura verdade." E se retirou como um cavalheiro...
É isso.
Hugo Martins
A palavra flor e a própria flor sempre se revelam ao observador grávidas de uma força semântica, que mistura brandura, ternura, singeleza e pureza. Não é à toa que o próprio Cristo, como noticia São Mateus, no seu Evangelho, escolheu os lírios do campo para tecer a bela alegoria da força da simplicidade, que se agiganta e se coloca acima de qualquer glória, mesmo a do sábio filho do rei Davi.
O principezinho de Antoine Saint-Exupéry cuidava de uma delas num dos planetas a que chegou. Enquanto o piloto do avião, que sofrera uma pane, tentava consertar o motor do pássaro de aço, o príncipe de cabelos amarelos esvoaçantes filosofava sobre a única flor que possuía. Dizia temer que algum carneiro a devorasse, apesar dos quatro espinhos que ela mantinha no fino caule e lhe podiam servir de defesa. Aliás, sua teoria sobre espinhos é que estes são a única maldade de uma flor.
Furtei do pequeno príncipe e perfilhei a mais bela lição sobre o amor que se pode ter por alguém. Não vou traduzir temeroso de tropeçar em algum esquecimento. Por isso, transcrevo as palavras dele, aspeando-as: “Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões e milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla. ” Assim também penso de minha única flor, minha flor.
Carlos Drummond de Andrade, no poema A Flor e a Náusea, tece um discurso deplorando a violência, o desamor, o desencanto e a frieza d´alma nos dias que correm. Ante a dureza dos tempos modernos, marcados pela crueza dessa realidade, o poeta itabirano conseguiu um flagrante: viu, de súbito, surdir, do áspero negrume do asfalto, uma flor e registrou nesses versos; “Uma flor nasceu na rua. Uma flor ainda desbotada. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”
Assim é minha flor. Única. Com espinhos, bem certo. Ante ela, dobro-me numa espécie de reverência. E ela é para mim “aquela flor”, plagiando o principezinho, para quem, em meio a milhares de outras, meus olhos se voltam e sempre se enchem de encantamento e êxtase e, tal como a flor de Drummond, rompe a carapaça do meu ser, aparentemente duro e áspero, e hiberna nos refolhos do meu coração.
Toda flor é mágica. Não a defino. Vinicius de Moraes já fez isso, referindo-se à rosa, dizendo que: “uma rosa é uma rosa, simplesmente, e nada mais". Assim são as flores que amamos: indefiníveis em sua singeleza.
QUESTÃO ORTOGRÁFICA COM FIAPOS ETIMOLÓGICOS.
Hugo Martins
O problema ortográfico, em sede de língua portuguesa, foi parcialmente resolvido a partir de 1911 quando aqui se adotou a tal ortografia simplificada, calcada no pensamento do filólogo português Gonçalves Viana, dissertado em obra homônima. Passou a viger no Brasil, entretanto, a partir do ano de 1943. Conquanto não se afaste dos moldes etimológicos, a obra A Ortografia Simplificada bane os helenismos (do grego) e latinismos (do latim) complicados e procura como que “adaptar” a grafia de algumas palavras sem se dobrar ao cientificismo sem peias... Por exemplo, se alguém quiser se manter fiel à etimologia pela etimologia, deveria escrever “mixtura” ou “mixto” e não mistura ou misto. Razão? As duas primeiras palavras pertencem ao léxico latino e escrevem-se: a primeira, do gênero dos nomes substantivos MIXTURA, AE; e a segunda, do adjetivo triforme MIXTUS, MIXTA, MIXTUM. Quando a palavra CONSCIÊNCIA mantém aquele S depois do prefixo CON (M), segue-se a via etimológica, pois o verbo CONHECER, no infinitivo impessoal em latim, assim se grafa SCIRE. Aquela letra também se mantém no substantivo latino CONSCIENTIA, CONSCIENTIAE. Ainda assim, o filólogo português poderia ter optado por grafá-la sem o S. Lembrar que ortografia é convenção...
A reflexão foi motivada por uma pequena discussão que mantivemos com alguém quando utilizou a forma verbal SOE, do verbo SOER, em português, e eu lhe disso que a forma deveria ser SÓI, como MÓI do verbo MOER. Não lhe tirei a razão quando arrancou da algibeira a questão etimológica para justificar sua opção por SOE. O verbo SOER, português, que significa costumar, ser comum, ser habitual e assume tal acepção em latim, português e italiano, deriva do verbo latino SOLERE. Como toda palavra, também sofreu transformações em seu corpo ao longo do tempo. Desse modo, sofre a queda do E final (apócope) e fica SOLER; em seguida, ocorre a queda do L (síncope), resultando o SOER tal como se encontra na língua portuguesa. Deveria ser SOE, mas não é, por razões de simplificação. Como sói acontecer, as questões de linguagem sempre suscitam bons debates em que se cotizam experiências e se lucra aprendizagem.
A palavra insólita (atentar para o prefixo IN) é corriqueira em português, significando aquilo que não é habitual. É muito comum, na língua italiana, o uso da locução DI SOLITO, significando o que é costumeiro e habitual.
Para fechar o blá-blpa-blá: quem consultar os bons dicionários de língua portuguesa, verá que a palavra SÓLITO lá estará registrada ainda que seu uso seja quase nenhum.
Isto posto, fica firmado que a grafia do verbo SOER, em português, na terceira pessoa do singular do presente do indicativo, é SÓI e não SOE, como grafa meu amigo, estando assentado em argumentos etimológicos.
Como SÓI acontecer, fujo aos debates insossos acerca de corrupção e outros assuntos INSÓLITOS para me entregar a reflexões, a meu ver, menos nocivas...
Voilà.
"TROLANDO" COM COISA SÉRIA.
Hugo Martins
Não posso deixar de aplaudir iniciativas que visam a trazer para este espaço a coisa pedagógica, a cotização de informações e até mesmo a conversa sobre "miolo de pote".
Da mesma forma, não dispenso tecer críticas (essa palavra de origem grega significa sopesar e avaliar) a deslizes, a cometimentos de erros crassos, cujos efeitos levam os desavisados a propalar os pecadilhos. Sobre a palavra TRIPLEX, que não é oxítona, mas paroxítona, devendo receber acento gráfico na primeira sílaba, já dissertamos, fundamentando nosso parecer na língua latina e aconselhando às pessoas consultar o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, publicação da Academia Brasileira de Letras. É nele que se encontra a grafia oficial do idioma. Não mais vou me perder em especulações sobre a palavra TRÍPLEX.
Outro dia, vi, aqui por estas bandas, alguém propondo uma questãozinha acerca de concordância. Após a proposição, vinham as opções. Que dizia a questão? Vou aspear. "Marcar a alternativa correta". Entre as quatro listadas, o sujeito proponente considerou correta a seguinte, também aspeada: "São meio dia e meio." Aí, meu amigo, é de lascar os camburões. Quer dizer, na questão "correta" encontram-se três erros imoralmente crassos. Vamos desentortar a coisa em caixa alta. É MEIO-DIA E MEIA. Tudo bem que se trata de gramatiquice, mas as duas questões aqui trazidas podem induzir alguém, que se submete a concurso público ou que escreve textos, a cair na esparrela... Dá um tempo, porra! "Meio-dia" leva o verbo para a terceira pessoa do singular. "Meia" concorda com a palavra hora, subjacente na frase Além disso, esta palavrinha composta deve ser grafada com seus elementos separados por hífen. E vamos nós. Agora por outros rumos, já que são milhares de falas, deblaterando contra toda corrupção nossa de cada dia. As que ocorrem, a céu aberto, no Congresso Nacional, nas Assembleias estaduais, em Câmaras de vereadores, nos grandes e pequenos negócios, nas pequenas tentativas de subornos ocorrentes no cotidiano... É coisa que dói lá no fundo da alma. Penso que só gritar não leva a nada. As grandes reformas, (pronto, descobri a pólvora), começam em nossas almas. Tudo muito simples, como dizia o pensador francês Voltaire, "Chacun doit cultiver son jardin" (Cada um deve cultivar seu jardim), basta não se deixar levar pelo canto mavioso de alguma sereia, canto do lucro fácil, das pequenas corrupções perfeitamente visíveis em países que fundaram sua moral nos alicerces de corrupções trazidas à baila pela História revisionista.
O preâmbulo aqui saltou porque, em algum dia, li uma frase não sei em que texto de Machado de Assis, que me deixou ressabiado. Vinha travestida da roupagem cínica e ceticista do romancista carioca. A fala era de um personagem. Transcrevo-a como forma de colaborar com os "conselheiros" , "moralistas" e com aqueles que aplaudem tão dignas pessoas. Quando leio Machado, saio da página com o espírito conturbado pelo mar de reflexões que o escritor alquimista das palavras nos impõe sem saciar. O que vou transcrever pesquei da memória da leitura de um de seus enfeitiçantes e atuais textos, cheios de contemporaneidade no que diz respeito ao que vai na alma do homem. É uma cacetada. Lá vai, e já vou. "SE ENCONTRARES PERDIDOS CINCO TOSTÕES, DEVOLVE-OS AO LEGÍTIMO DONO; SE ENCONTRARES CINCO MILHÕES, DEPOSITA-OS NA TUA CONTA".
PÁ !
"LIVRE PENSAR É SÓ PENSAR" (Millôr Fernandes)
Hugo Martins
Por puro acaso, vi-me diante de uma propaganda oficial, precisamente do Ministério da Educação, cujo teor otimista diz que, de agora em diante, os jovens estudantes, frequentadores do chamado Curso Médio, terão o direito de escolher a profissão que bem melhor lhes apetecer. Há na proposta o reconhecimento de que, antes, esse direito era malbaratado. Não era. Na verdade, a juventude brasileira sempre se ressentiu de uma orientação segura para escolher que profissão seguir. Por isso, sempre se orientou pelo critério errôneo de escolher a carreira que "desse dinheiro". Muitas vezes, daí restam arrependimentos, perda de tempo, vaivém, dores, e insatisfação, mesmo quando o critério do "dar dinheiro" pareceu uma escolha acertada.
Trago à baila a escolha pelo curso de Direito. A Constituição anterior à ora em vigência estava presa à atmosfera de perversa ditadura. Daí é fácil concluir que escolher aquele curso pelo critério do "dar dinheiro" não chegava a bom êxito. As ditaduras sufocam o direito, não o que elas impõem, mas o direito de "dar a cada um o que é seu" na mais funda acepção da palavra. De primeiro de abril de 1964 a cinco de outubro de 1988, a opção por cursar direito, no Brasil, era quase nenhuma. Sobravam vagas... Se os cursos de Ciências Jurídicas no Brasil apontam, hoje, para o "dar dinheiro", é porque as circunstâncias históricas mudaram.
Não existe curso superior mais difícil que o outro ou que demande mais tempo de estudo para o sujeito dele fazer uso como ofício. O curso superior "mais difícil" é aquele para o qual o indivíduo não demonstra nenhum pendor, nenhum chamamento interior, nenhuma vocação. Quando o sujeito escolhe o que seguir por tal orientação, é como aquele que encontrou "seu grande amor" para toda a vida... Tudo corre na placidez dos "céus de brigadeiro" e na quietude das águas dos "mares de almirante." Nesse contexto, exercer a profissão, cuja escolha foi acertada, é passar o dia brincando, namorando e dando "gracias a la vida".
O curso "difícil" também é aquele que dá a certeza ao profissional que o bom desempenho da profissão, aquele que se volta para levar serviço ao outro, ao semelhante, depende do empenho nos estudos, que não se deve reduzir ao mero "colar" grau" ou ir além com pós-graduações e quejandos. Não. Impõe-se o alargamento de mais horizontes, os quais se espraiam para áreas afins ou não à matéria por que o indivíduo demonstra inclinação. Quem se ocupa das Belas-Letras, por exemplo, além dos assuntos referentes aos problemas da linguagem em si (linguística, literatura, filologia), não pode negligenciar a frequência a assuntos tais como Filosofia, Sociologia, Psicologia, Ciência Política, mais outras "logias" e o "diabo a quatro". Quem demonstra pendor para exercer esta ou aquela carreira deve, antes de tudo, ler tudo que lhe caia nas mãos, do rótulo de pasta dental às boas revistas em quadrinho; da literatura policialesca de interesse passageiro àquela chamada "grande", cujas feitura e temática a eternizam; dos livrecos, que vendem otimismo à conta-gotas, ao alentado tratado da mais sublime filosofia. Enfim, o profissional de viseiras só enxerga o que se lhe antolha. Por isso, é necessário retirar as viseira e ensaiar olhares mais amplos e rasgados para todos os lados possíveis. Como isso se dá? Pelo uso diário, quer onde se encontre, de uma arma poderosa: A LEITURA. De tudo. Amor aos livros é fundamental.
O resto é propaganda bonitinha, é conversa de "oltoridadis", é discurso vão. É oba-oba. É falta de sinceridade de programas políticos.
Para o bom desempenho de não importa que profissão, o amor aos livros e, por extensão, aos estudos é algo essencial...
Encontrar o "caminho das pedras" . "Voilà la question".
PITADINHA REFLEXIVA.
Hugo Martin
Inicei a escritura do presente texto à uma e meia da manhã. Dando tratos à bola, à busca de assunto, veio-me à cachola a formação escolar, que recebia a juventude brasileira antes da Redentora de 1964.
Em primeiro lugar, finda a alfabetização, o estudante enfrentava cinco anos no Curso Primário. Concluído este, ocorria a batalha dos Exames de Admissão ao Ginásio. Naquele tempo, a escola pública era de tal qualidade, que o Liceu do Ceará ombreava com a excelência do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Ser professor de um desses estabelecimentos não era para o bico de "dadores de aula". Além do Liceu, havia o Colégio Municipal, ali na Barão do Rio Branco, ao lado da igreja do Carmo (hoje é um museu), e a Escola Normal, estabelecimento que formava normalistas, professoras preparadas para dar aulas até o quinto ano primário. O mais eram as escolas particulares, algumas chamadas de escolas "pagou passou".
No ginásio, o estudante enfrentava da primeira à quarta série. Ao fim destes nove anos, o aluno poderia optar por fazer o Curso Científico ou o Curso Clássico. Ao escolher o primeiro, o sujeito podia tomar o rumo das chamadas ciências físico-matemáticas ou o das ciências biológicas. Quem desse preferência ao Curso Clássico estava de olho nas chamadas ciências humanas. Se, no Curso Científico, eram disciplinas obrigatórias, além do núcleo comum, a Física, a Química e a Biologia, no Clássico, eram matérias obrigatórias a Filosofia, a Sociologia e a História. A aplicação das provas aos exames vestibulares observava essa peculiaridade. Para que estudar Física quem ia cursar Direito, Letras, Economia, por exemplo? Para que estudar Sociologia quem pretendia cursar, por exemplo, Medicina, Odontologia ou Farmácia?
A coisa era tão lógica, que os pensadores da educação oficial do país já apontam para direcionamento mais ou menos semelhante ao aqui descrito. Nihil novi sub sole (Nada de novo sob o sol). Se hoje existe uma tal nona série é como que uma devolução de um ano surripiado quando o aluno, saído da quarta série, já ingressava no chamado primeiro grau maior, pois a coisa só ia até a oitava série.
Não se trata do "naquele tempo era melhor". O pior é que era. Se hoje, o indivíduo dispõe de universidades públicas em maior número, além das faculdades "caça-níqueis" e bodegas pedagógicas em toda esquina, nos anos setenta, no Ceará, só havia a Universidade Federal do Ceará e alguns cursos isolados da hoje Fundação Universidade Estadual do Ceará (FUNECE). Ingressar na Universidade era uma batalha que só, como dizia o personagem Pedro Pedreira, da Escolinha do Professor Raimundo: "só enfrentava quem aguentava". Tal como as leis da Economia, demanda excessiva, oferta minguada.
Hoje, não se trata de "democratização do saber", no jargão de pedagogos, mas de democratização do ingresso, e histórico complexo bacharelesco e "doutorização" que o povo brasileiro alimenta em sua cultura histórica. Determinados cursos deveriam receber a denominação de institutos, formadores de estudiosos, dali saídos com a chancela de profissionais de apreciável e excelente formação técnica.
É o chamado "lé com lé; cré com cré" (leigo com leigo; clérigo com clérigo).
Alguns, voltados para o fazer; outros, para o pensar. Desse modo, o "bachareguismo" seria, aos poucos, eliminados da tola mentalidade de alguns brasileiros, e se instalariam áreas ocupadas pelos "alguns" ou pelos "outros".
Longe de nós o preconceito gratuito de quem pensa pequeno. Só uma maneira particular de contemplar a questão.
Quem quiser diga mais..., gastando, pelo menos, sessenta minutos como eu fiz.
HISTÓRIA
Hugo Martins
Ontem, sábado, dia cinco de julho, trafegava eu, a bordo de um táxi, pela Avenida Treze de Maio, nas proximidades do 23 BC. Na pracinha em frente ao quartel, estava postado um sujeito de longas barbaças, bermuda jeans, blusa estampada, óculos escuros, que segurava, com ambas as mãos, um grande cartaz, alçado acima da cabeça, em cuja superfície lia-se: SE VOCÊ CONCORDA COM INTERVENÇÃO MILITAR, BUZINE. Parado, o motorista aguardava o comando do semáforo. Até a hora em que o táxi partiu, não ouvi o toque de nenhuma buzina, apesar da gestualidade agressiva do tal sujeito de longas barbas.
A nosso ver, intervenção militar lembra os horrores e desmandos das ditaduras, que nunca são moles: caçam-se direitos, eliminam-se os remédios constitucionais, que garantem as liberdades públicas, batem, prendem, arrebentam, amordaçam e desrespeitam, em todos os quadrantes, todo aquele que demonstrar discordar do regime.
Nosso país já experimentou, em sua História, três ditaduras: a de Floriano, a Getulista e a Redentora. Todas elas foram lesivas ao povo brasileiro e serviram de lição. Se hoje respiramos a democracia dos estados democráticos de direito, devemos às destinações históricas, fruto do natural pendor do homem para cortar amarras e respirar a liberdade. Pensa torto quem põe fé nas ditaduras onde quer que ela se manifeste. Sempre restarão dores, que permanecem por muito tempo na historicidade dos povos que tiveram a infelicidade de vivenciar os tempos negros das ditaduras.
Educação política é a solução. Nada a ver com política partidária, mas a provinda dos atos mais comezinhos do dia a dia, sobretudo daquelas ações em que se respeita o direito do outro seja o do professor que ministra sua aula, seja nas relações de consumo, seja no repasse de atitudes positivas aos filhos, seja não intentar passar a perna no outro, seja desempenhando com a máxima responsabilidade os diversos papeis sociais que executamos.
Entre uma ditadura linha dura e uma democracia neófita e, às vezes, desajeitada, esta ainda constitui melhor escolha. "Natura non facit saltus" (A natureza não dá saltos), segue sua destinação, observando ritos e ritmos.
Quem sabe, diante do que vem experimentando, não venha o povo brasileiro a votar melhor. A vida política, isto é, viver em sociedade, é semelhante ao organismo físico. Os quistos e tumores nada mais são que manifestações do organismo (físico ou social) ensaiando expulsar aquilo que não se coaduna com seu equilíbrio... Aguardemos, pois, o andar da História. Um dia, as coisas mudarão para melhor, sobretudo, quando cada um de nós fizer o que lhe cabe.
Namastê.
“PENSAR, PROFESSOR, PENSAR.” (“Ninguém merece”)
Hugo Martins
Em que estou pensando? Nas eleições de 2018. No sorriso ensaiado, nos ademanes e salamaleques ensaiados da súcia de políticos sequiosos por alcançar o poder, não para trabalhar em prol da melhoria da vida de todos, mas para, cada vez mais, por manobras insidiosas, encher as próprias burras e arrumar a parentalha. Na máxima importância do voto quando todos se dirigem às urnas. Na ignorância reinante acerca do voto, arma do cidadão, para mudar, escolhendo outros e não permitindo a volta dos sicários e ladrões que saquearam, durante o exercício do mandato, o erário e descumpriram as mínimas promessas feitas em palanques. No que diz a Constituição Federal no parágrafo único do art. 1º, quando reza que “todo o poder emana do povo...”. Com efeito, os eleitos recebem delegação do povo com o fim de representá-lo nas Câmaras Municipais, Assembleias Legislativas, Congresso e Poder Executivo. Se o eleito se revela salafrário, mentiroso, corrupto, cínico e desavergonhado, não se podem suscitar dúvidas: o povo está muito bem representado. É o lógico. Penso no lugar comum batido e rebatido de que a educação é a grande arma para promover mudanças. Na preocupação da classe política quando se anuncia alguma melhoria salarial para a abnegada e teimosa classe dos professores. Nesses momentos, aqueles senhores logo sacam o argumento de que o Município ou o Estado podem quebrar... Nas facilidades com que a classe política entretece projetos de lei para aumentar seus próprios subsídios. Nesse exato momento, penso no livro A Arte de Furtar, atribuído ao jesuíta/orador Padre Antônio Vieira, espécie de manual infalível nessa arte em que a classe política é tão bem versada. Em convidar as pessoas a proceder à leitura desta obra satírica, sobretudo se alimentam alguma pretensão em candidatar-se a algum cargo político... Em como é inútil qualquer discurso, deblaterando contra o teimoso vírus da corrupção, historicamente entranhado na alma do povo brasileiro... Estou pensando, ainda, em que não se deve descrer da educação como medida profilática na redenção dos povos. Em que ela pode prevenir desgraças, afugentar os maus, instaurar a paz e carrear mais bem-estar para a humanidade. Estou pensando, por fim, que, hoje, sinto-me menos cético em relação aos homens bons, ao mesmo tempo em que alimento um niilismo imorredouro em relação à classe política brasileira... A História está aí, à vista de todos...
A reflexão brotou porque hoje, à noite, um bando de políticos, em cujo rosto se estampava um semblante de descaramento, tecia comentários evidentes à onda de corrupção que assola o país, acrescentando aos discursos aquela nota batida de que eles ali se apresentavam com uma proposta inédita de mudar os rumos do país e coisa e tal e coisa e loisa. A mesma cantilena monocórdia. Nome do partido: PODEMOS. Por uma questão de coerência, deveria se chamar FODEMOS, verbo que pode pedir o objeto direto “o povo brasileiro”, que não se manca, é mal-educado, desmemoriado e não saca a importância do voto de qualidade, aquele desvinculado de qualquer objetivo pragmático, a não ser a escolha sincera e livre no momento de depositar o voto na urna.
O diabo é a porra da educação... Aí são outros quinhentos. “Tipo assim”. “Ninguém merece”.
OUTRA HISTÓRIA
Hugo Martins
Vez por outra, assisto a vídeos, postados na internet, em que o escritor e homem de letras, o paraibano Ariano Suassuna, proferindo conferência, faz algumas investidas contra a língua inglesa, ressaltando as limitações e "pobrezas" do idioma anglo-saxão. Todas as vezes, tenho notado que o público presente adora tudo isso, aprovando, com ruidosas gargalhadas, o que diz o autor d'O Auto da Compadecida.
Do pouco que conheço da língua inglesa, tirei algumas conclusões, e uma delas, irrefutável, aponta para a beleza singela desse idioma falado em todos os quadrantes do mundo. O vocabulário parece ser pobre. Mera ilusão. O que, na realidade, ocorre é que uma só palavra da língua de Shakespeare, tal um diamante, irradia incontáveis nuanças semânticas, o que não significa um óbice à apreensão acertada do sentido da palavra. Ao contrário, constitui-se em fator simplificador da ideia que àquela subjaz.
Embora amante empedernido e apaixonado pelas línguas neolatinas e o próprio latim, seria eu injusto se rotulasse a língua inglesa de idioma pobre. Em primeiro lugar, porque tem ela longa tradição, urdida por sua paulatina evolução histórica, sedimentada em rica literatura em não importa o lugar em que esta se manifeste; em segunda lugar, o inglês parece ter sido eleita a língua universal para servir de elo entre os povos e a disseminação do conhecimento e da cultura; e, por fim, ressalto a simplicidade que lhe é inerente seja na sintaxe ou na morfologia. Para quem a utiliza como ferramenta para leituras, apenas, como é o caso deste escriba, a fonética, sobretudo no que diz respeito às variações de pronúncia, não me causa mossa. A pronúncia é, sem dúvidas, o que há de mais tormentoso no estudo do inglês, sobretudo quando se trata das nuanças inerentes às pronúncias inglesa e norte-americana. O resto, dentro das minhas limitações, é tudo muito simples. A conjugação de verbos é puro pão e mel, não há nada igual em nenhuma das língua novilatinas. Com uma base gramatical simples, um bom dicionário na mão e disposição intelectual para o enfrentamento de textos, nenhum leitor vai encontrar, senão, indescritível prazer.
Não se há de crer que um intelectual do porte de Ariano Suassuna, o escritor, o professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, o leitor voraz e membro da Academia Brasileira de Letras, esteja sendo sincero quando ensaia críticas aparentemente ferinas contra um idioma que ele, certamente conhecia, e bem. A coisa parecia mais uma rodada de anedotas, pois o próprio Suassuna tomava parte da sinfonia de risadas vindas do público, que tanto o amava, no momento em que fechava um comentário sobre algum aspecto do inglês. Tudo não passava de delicada brincadeira de bom gosto.
Talvez alimentasse ele algum ranço à natural subserviência do povo brasileiro à cultura norte-americana. Sem contar o acendrado e ciumento amor, que não escondia, pela bela língua portuguesa quando lhe tecia loas e a ela fazia derramadas declarações.
Aí é outra história...
INTERCÂMBIOS CULTURAIS E OUTROS CÂMBIOS.
Hugo Martins
As culturas poderosas impõem às mais frágeis "empréstimos" linguísticos que incomodam os estudiosos bairristas e caturras, que teimam em, sozinhos, repelir o ingresso de vocábulos estrangeiros no léxico da língua portuguesa. A História aí está. Dizem que, se os romanos venceram, pela espada, ao povo grego; em contrapartida, os habitantes da Hélade venceram aos romanos a eles impondo sua (deles, gregos) cultura. Ruy Barbosa dizia, acertadamente, que, por esse meio, também ocorre a imposição de palavras que, aos poucos, vão se instalando no vocabulário da cultura dominada. A nós brasileiros é fácil constatar o fenômeno do estrangeirismo. Futebol, palavra de origem inglesa, é melhor que ludopédio; show (origem inglesa) é melhor que espetáculo; abajur (origem francesa) é melhor que quebra-luz... Leiam-se obras do Romantismo no Brasil e logo se contatará a presença constante da língua francesa na cultura brasileira. Abra-se um cardápio num restaurante ou lanchonete. Abra-se um computador. Nada a declarar. O léxico da língua portuguesa é constituído, em sua origem, por setenta por cento de palavras de origem latina, e o restante por palavras de origem tupi-guarani e de origem africana, bem como por galicismos (palavras de origem francesa), anglicismos (palavras de origem inglesa) e por um menor número de palavras de origem italiana e espanhola. Quando a palavra estrangeira "pega", de nada adiantam as manifestações puristas. Os empréstimos linguistas sempre constituem fator de enriquecimento das línguas por força, também, dos intercâmbios da cultura.
A reflexão veio devido a um episódio a que assisti num shopping center (e agora?) envolvendo um senhor e uma vendedora. Aquele se dirigiu a esta, perguntando se existia na loja um DC com músicas de Franz Schubert. A mocinha disse que tinha um CD e não um DC. Ambas as siglas estão corretas. A coisa se explica pelo emprego do adjetivo. Em inglês, o adjetivo em função de adjunto adominal é sempre empregado antes do substantivo; em português, o adjetivo, naquela função, pode ser empregado antes ou depois do substantivo, ressalvadas as intencões denotativas e conotativas (homem velho, velho homem; mulher grande, grande mulher). Desse modo, cabe razão ao senhor ao usar DC no lugar de CD. Desejava ele comprar um Disco Compacto, na sua acertada escolha, melhor que Compacto Disco. Da mesma forma, não falece razão à jovem vendedora, pois afeiçoou-se ao uso corrente da sigla CD (compact disc) mesmo que desconhecesse a peculiaridade sintática da língua inglesa em relação ao casamento do adjetivo com o substantivo.
Em toda relação, cultural ou não, há sempre um ganho. Nesse tipo de empréstimo, não há juros, mas, tão só, correção cultural
Voilà.

domingo, 30 de julho de 2017

POLÍTICA? QUE “DIABÉISSO”? MORDE?
Hugo Martins
O maior conhecimento que pode qualquer ente humano alcançar é aquele definido pelo Oráculo de Delfos ao responder a uma indagação que alguém fizera sobre Sócrates. A pessoa perguntara quem seria o homem mais sábio do mundo. Resposta: Sócrates. Por que? Resposta: porque, disse a Sibila, apoiando-se no próprio mestre de Platão, a maior virtude humana é o conhecimento, o qual, paradoxalmente, homem algum ousa alcançar. A coisa parece confusa. Pois bem. Não é não. Na resposta, encontra-se a própria essência do que vem a ser um filósofo. Quando indagado se era um Σοφός (sábio, douto), o pensador respondeu: “não, considero-me um φιλό-σοφος” (aquele que ama a sabedoria), isto é, aquele que está convencido de que conhecer é uma questão de amor, de busca da sabedoria. Não a busca da cultura pela cultura ou da erudição pela erudição, mas o encontro diário com o estudar, o desvendar, o encantar-se, o surpreender-se, enfim, tomar o estudo como uma espécie de lupa para emprestar maior dimensão às coisas do mundo. 
A pior doença de que pode padecer o bicho homem é a ignorância (΄αγνοια), situação em que o sujeito pensa de tudo saber e não despende esforço nenhum para buscar respostas às indagações, pois se julga senhor de resposta para tudo ou, por vezes, fornece respostas resultantes de um pensar torto, por isso ingênuo, sobre o mundo e as coisas que se lhe apresentam. Vamos a um exemplo ilustrativo.
O sujeito destila indignação sobre a política e diz dela cobras e lagartos. Detesta política e defende a tese de que ela não deveria existir. Volta-se para o interlocutor, que estava só a ouvir o despautério, e indaga: “que pensa você sobre a questão? ” Resposta: “penso que a política é própria ao homem e sempre será desde o dia em que resolveu cumprir seu ser: viver em estado gregário. ” Lembrou a máxima de Aristóteles que dizia ser o homem um animal político, isto é, não se realizar senão em sociedade. E continuou: “quando os homens se ajuntam, necessitam criar regras de convivência para que o grupo atinja os fins que tem em mira. Em todo o decorrer da História, sempre foi assim e será. Dessa maneira, a Política, a qual Aristóteles via como a arte de gerir a πόλις (cidade, cidade-estado, estado) é meramente isso: criação de leis por entes competentes, a aplicação das leis para o atingimento de finalidades e, por fim, existência de órgão que aplicará e vigiará a aplicação das leis. Nas mais comezinhas organizações sociais, a coisa assim funciona: na família, no bairro, na cidade, no Estado, no País... Não se faz necessário o conhecimento científico da ciência política. É tudo intuitivo...”
“Nas democracias modernas, a partir do pensamento do Barão de Montesquieu, na obra O Espírito das Leis, ficou firmada a existência de um só Poder, porém, tripartite, com atribuições definidas: quem cria as leis; quem aplica e vigia sua aplicação; quem as aplica tendo em vista a busca de fins por elas definidos... Ao fim e ao cabo, porém, nos estados democráticos de direito (está nas Constituição Federal em vigência), o Poder emana do povo. Este, pois, utilizando um mecanismo salvador ou remediador, o voto, delega poderes para que os entes referidos ponham em prática o exercício do tal Poder.”
Sabe como o interlocutor fechou sua fala? Disse: “meu nobre companheiro, o problema não é a política, a questão mesmo é A EDUCAÇÃO (palavrinha pouco ou pobremente compreendida por muitos)ou A VERGONHA NA CARA, aquela a que se referiu o historiador maranguapense Capistrano de Abreu. ” 
“O resto é muita conversa fiada, muita ignorância”. “O resto é silêncio. 
MAIS UM NOVO AMOR
Hugo Martins
Aqui venho cantar as alegrias do que é encontrar um novo amor. Aos que se foram, nada a dizer ou a declarar. Apenas se foram, seguiram sua estrada e deixaram aberta uma vaga no meu coração, que, exultante, deu vivas, saltando de alegria, ao novo amor, ao que revivifica, energiza, acalma e faz pensar, parafraseando Roberto Benigni, que a vida é bela, a que acrescento o chavão “o amor é lindo. ” Veio para ficar e se instalou em meu coração não como o “posseiro” de Chico Buarque, mas como alguém que, gratuitamente, encontrou quem tinha de encontrar. Simples. Só isso. Pois bem.
Estava eu posto em sossego tal Inês de Castro, não de coração e alma mortos, mas, sentado à mesa de trabalho a dialogar, diariamente, com meus mais fiéis amigos, meus caros livros, que, também, proporcionam-me, em larga profusão, alento, alegria, paz, harmonia e sossego. Só vim a perceber que faltava algo quando dei de cara com esse meu novo amor, esse doce amor. A coisa se deu num átimo, como num passe de mágica só semelhante às películas adocicadas das comédias de Hollywood. Só uma troca de olhar. E pronto. Depois, a aproximação sincera e desarmada. De repente, vi-me totalmente envolvido pelos tentáculos apertados de fragorosa paixão. Pior. Maior ainda minha felicidade, que, com rima e tudo, deu em reciprocidade. Hoje andamos de mãos dadas, numa troca de ternura que inebria e põe em nossos olhos uma luz mais que brilhante e faz vibrar em nossos corações sentimentos que só se explicam quando se dão os reencontros.
Dia desses, convenceu-me de que deveríamos viajar. Tentei mostrar-lhe que sou, de natural, sedentário e amante empedernido da cidade de Fortaleza, por isso nunca “curti adoidado” o viajar, a não ser nas asas da imaginação, no refulgir gratuito da poesia, no encantamento imanente à e emanante da obra literária. Não cedeu aos meus argumentos e conseguiu levar-me a outras plagas. São os sortilégios do amor. Embarcamos juntinhos, ali pertinho um do outro, sempre de mãos dadas e nos cotizando no jogo lírico da cumplicidade de olhares. Já fizemos duas belas viagens e já programamos mais quatro. Estamos em curso. A segunda viagem deve terminar agora, no próximo dia 13 deste mês de julho. Depois, faremos breve pausa para, no dia 2 de agosto, retomarmos essa espécie de périplo salpicado do mais puro amor, da mais envolvente ternura. A coisa só me tem feito um grande bem. Por isso, dou vivas aos deuses do Olimpo, sobretudo a Eros, que atirou certeiramente uma de suas setas, fazendo meu coração regurgitar, transbordante de um amor dos melhores. Eita... Ô curdiacho! Para onde, afinal, ela me levou? Vamos lá.
Meu grande e novíssimo amor me fez ver que viajar não se deve reduzir a simplesmente deslocar-se, mas, antes de tudo, decididamente aprender alguma coisa de proveito para a vida. E assim fizemos nas duas primeiras viagens e faremos nas quatro próximas. Se não houver alguma ruptura em nossa relação...
Na primeira estação, estivemos nos Pranayamas, paraíso que proporciona lição inesquecível: a arte de respirar para alcançar a energização do corpo, da alma e do espírito, ao tempo em que também se leva a efeito, no mesmo jogo, a fruição da calma, da quietude, da serenidade, da beatitude, do experimentar o aqui e o agora. Quando desperto, julgo haver valido a pena. Reflito que meu grande amor me ama de verdade sem esperar troca senão o amor pelo amor. Não precisa dizer que estou colado nele...
Na segunda estação, quedamo-nos na Yogaterapia. Aqui, também tiramos grande proveito turístico e pedagógico. Aprendemos, por exemplo, que as posturas (ásanas), associadas à respiração, à mentalização e à meditação, promovem curas realmente, não tem enganação, tampouco a recorrência à medicina alopática ou aos comprimidos para dormir, para livrar-se de depressões cotidianas, dores da alma ou do coração. Não. Suficientes os seis mil anos da coisa vinda lá da Índia, que não é mágica, tampouco irreal. Tão real, que muitos não dão crédito à eficácia advinda dos efeitos da Yogaterapia. Da minha parte, terminada uma sessão, saio de lá levitando e passo toda a semana assim, tranquilo e calmo. Pior ainda: meu grande amor obriga-me (ela é exigente) a praticar em casa também. Vôte, canhoto. Ainda assim, I love her forever...
Vem por aí uma terceira estação. Na programação, consta que visitaremos, por três sessões, apenas alguns rudimentos do sânscrito (língua das ciências hindus) a fim de que estabeleçamos familiaridade com a terminologia do Yoga (nos dicionários de língua portuguesa, a palavra pertence ao gênero feminino, daí o uso, por nós, do pronome her e não him). Depois, manteremos contato mais efetivo com os mantras e a meditação num plano mais teórico. Depois? Depois é relaxar e dizer, depois “eu vou pra galera.”
I will always love her. (Dizer isso em latim ou em português é mais fácil e me soa mais sincero). Retirei a frase de uma canção. Eis por que a transcrevo no original). Uauuauauauauauauauauaua!!!
E então? Um amor desses vale a pena? Of course! (até meu inglês melhorou).
FOI ASSIM.
Hugo Martins
Era o ano de 1985. Tarde de domingo. Cansado, liguei o televisor. Escolhi o canal cinco, a TV Cultura. Ia começar um filme qualquer. Em preto e branco. Sempre cultivei a mania de julgar bons os filmes em preto e branco, tal a vida como ela é. Nelson Rodrigues manteve, por alguns anos, página numa revista, não sei se Manchete ou Fatos e Fotos, em que mostrava a vida em preto e branco, sem maquiagem, sem retoques, sem plástica. Mostrava-a tal como ela é, com seus altos e baixos, em sua sordidez e solércia, com suas doces amarguras e seus engodos. Rio de Heráclito, tempo que escorre, imagens que se esboroam, sabor de não eternidade. Nada. Nihil. Gosto amargo na boca. As mentiras convencionais. O jogo do faz de conta. E o tempo passando e, na alma, a sensação de todas as nulidades. Era assim nas minhas reflexões.
Na tela, inicia-se a película. Era Chaplin, nosso valoroso e universal palhaço. Sempre admirei e continuo admirando a figura do palhaço. Em minha infância, quando ia assistir a peças circenses, sempre ficava na expectativa de ver os palhaços. Lembro, aqui no Ceará, o palhaço Trepinha. Só faltava me lascar de achar graça... Havia outros que eu conhecia por meio da leitura de histórias em quadrinhos. Fuzarca e Torresmo (isso é nome de gente?), também tinha um tal de Arrelia, não lembro o nome do que fazia par com ele. Carequinha, mais astro de rádio e de TV que de circo, era o palhaço que contava histórias engraçadas e exercia no espírito da criançada papel pedagógico, lembrando, em suas músicas que “o bom menino não faz xixi na cama”, “o bom menino respeita os seus pais” e que “Papai do céu protege o bom menino...” Nos últimos tempos, o Grande Chico Anísio chamou Carequinha para participar das aulas do professor Raimundo. E ele se saía mais do que bem. Quando chamado, levantava-se, levava à proximidade dos lábios as duas mãos em forma de concha e gritava: “chama minha mãe aí.” Em seguida contava uma história qualquer, relacionada às traquinagens e patifarias dos homens públicos e perguntava ao professor: “por acaso serei eu um palhaço? ” O professor Raimundo, com um nariz de palhaço, respondia com ar de troça, concordando e se irmanando com Carequinha e a população brasileira. Pois bem.
Os comediantes, humoristas e palhaços, poetas e romancistas, toda a casta de animais ridentes, risonhos e engraçados, nas suas pantomimas, nas histórias que contam, nos versos que fazem, por suas geniais gestualidades e produção literária, costumam dar tapas, com luvas de pelica na cara cínica de presunçosos, de falsos moralistas, de poderosos e outros animais da mesma fauna, que, em seu doentio narcisismo, julgam-se acima dos demais mortais... Charles Chaplin é um dos tais, talvez um dos melhores que, malgrado seus momentos de ternura comoventes e seu confessado amor pela humanidade, às vezes, bate forte, açoita a ignomínia, castiga a presunção e a vaidade de tutti quanti...
Ora, mergulhei em reflexões e me esqueci de comentar o filme a que acabara de assistir. Maravilhoso, trágico, surpreendente. Na última cena, arrancou-me muitas lágrimas. Aliás, quase todos os filmes dele provocam no espectador uma mistura mágica de risos e lágrimas como a salientar a dubiedade existente nas acontecências da vida.
Farei esforço para, no próximo texto, não fugir ao tema, perdendo-me em outras reflexões. Juro que me manterei preso aos propósitos temáticos que planejei. Certamente farei um comentário, que deveria ter feito acerca do filme de Chaplin a que me referi... Vamos nós.
Namastê.
E LA NAVE VA, MIO BAMBINO!
Hugo Martins
O Direito acompanha o homem desde quando este ainda se encontra na vida uterina até o momento em que deixa esta vida. O nascituro é senhor de direitos como, por exemplo, os inerentes à sucessão; assim como o que morreu, embora não os possa exercer, deixa problemas na terra caso tenha sido senhor de bens materiais, que serão pasto de largas discussões e a consequente intervenção do direito. Robinson Crusoé, personagem de Daniel Defoe, no romance homônimo, enquanto viveu aparentemente sozinho na ilha em companhia das cabrinhas, não podia, ali, exercer direitos, pois, para a existência deste, fazem-se necessários conflitos de interesse. A partir do momento em que apareceu o índio Sexta-Feira, o direito se instalou... Quer dizer, não passa de crassa ingenuidade a afirmação de que não existe direito aqui ou acolá, seja ele direito ou torto. Questão de educação e grau de civilidade. O resto são palavras ao vento.
Muitas vezes me indagaram se eu defenderia em juízo um estuprador ou um homicida, ambos mergulhados no mais vil dos dolos. Sempre disse eu que sim. Então o perguntador tirava da cartola o argumento dos mais ingênuos: “mesmo sabendo que fora o indiciado que cometera o delito? ” Respondia eu que sim. Aí o sujeitinho vinha com outro argumento mais chinfrim ainda: “e a questão ética? ” Eis aí questões e argumentos acríticos, portanto, destituídos de mais franca cientificidade. É o senso comum de que nada se extrai... Vamos às ponderações necessárias.
Em primeiro lugar, todo homem tem direito à defesa em toda a sua plenitude. Os membros do Congresso Nacional, serpentário de criminosos engravatados e bem-falantes, o batedor de carteiras, o Presidente da República ou o descuidista, todos, sem exceção, gozam dessa prerrogativa, posta na Constituição e, por via de consequência, nas leis nela fundamentadas, próprias dos chamados estados democráticos de direito.
A narração bíblica diz que o Deus dos hebreus, mesmo sabedor do delito de Caim, concede a este o direito de se explicar em “juízo”, ao dele indagar: “Caim, que fizeste a teu irmão? ” Mesmo que todos os advogados do mundo, “por questão de foro íntimo”, se negassem a proceder à defesa de um réu, o Estado, pelos primados da lei, obriga-se a nomear defensor ad hoc (para isso) ...
Em segundo lugar, a tarefa de julgar, por determinação legal, cabe ao Estado-Juiz. Como se explicar “o mesmo sabendo que seu fulano cometera o delito. ” Cabe ao defensor ouvir a versão do acusado a fim de verificar a que estratégia recorrer para entretecer a defesa mais adequada ao caso relatado, bem como verificar o que consta dos autos do processo. Não cabe ao advogado emitir prejulgamentos, mas levar a efeito a melhor das defesas que pode fazer. Vem-me à lembrança o caso antológico dos irmãos Naves, exemplo vivo de como ocorrem os erros judiciários. Se o advogado deles, João Alamy Filho não tivesse dado ouvidos à versão dos dois irmãos, como fizera toda a população brasileira, teriam ambos sido condenados por um crime que não cometeram. Emociona ler as palavras de um dos redatores do Código Penal em vigor, o senhor Roberto Lyra, que, antes defendia a condenação dos réus e, ao saber da verdade, dissera: “nada mais dói na alma que a inocência ultrajada; é preferível absolver mil culpados a condenar um inocente."Como fecho do parágrafo, aquela perguntinha cretina supra-aspeada caberia ao médico que, ante a evidência da morte próxima de um paciente, dissesse à família: “já que sabemos que ele vai morrer dentro de poucos minutos, vamos logo matá-lo.” Nesse passo, o direito à vida assemelha-se ao direito à liberdade, colocados no art.5º, da Carta de 5 de outubro de 1985.
Em terceiro lugar, não vai de encontro aos princípios éticos aquele que patrocina a defesa de alguém. Se a ética é a ciência que aprecia o comportamento humano tendo por critério os limites e conceitos do bem e do mal, que mal estaria fazendo um defensor, que cumpre seu dever de acordo com a Deontologia (tratado de deveres) que orienta a prática de sua profissão? Silêncio, então, senhores! FIAT LUX! FIAT LUX!
Mais estudo e mais reflexão é o remédio mais adequado para afastar o perigo da mera opinião (doxa, em Platão) e para trazer à tona a epistéme (ciência, em Platão).
Voilà.
IMPROVISOS
Hugo Martins
Hoje nada tenho a dizer. Esterilidade quase absoluta. Dedos rijos. Pensamento indisciplinado, teimando em não se fixar num assunto. Lembrei Drummond exprimindo a luta que, às vezes, o redator empreende com as palavras para fazer parir o texto, mas a mão teima em não escrever. É a luta vã a que o poeta itabirano se refere ao dizer que vivemos sempre esse conflito diário com as palavras mal raia a manhã. Vem a vontade de desistir. Mas os dedos, apesar de tudo, cooperativos, teimam em zabumbar o teclado à espera de que o parto se dê. Há quem diga que texto algum deixa de nascer com vida, não há texto natimorto. O mundo aí está, e este vive um romance diuturno com cheiro de eternidade com as palavras. Desse elo necessário, o texto há de surdir. Paciência e deixar que o pensamento acompanhe o galope dos dedos. É a saída. Parece que deveria ser o contrário, mas as ideias caminham trôpegas, montadas numa preguiça de bicho preguiça, ensaiando passadas que mais parecem aquele movimento em câmara lenta das cenas de determinados filmes ou em transmissão de jogadas futebolísticas. Daqui a pouco, o leitor vai dizer que tudo isso não passa de “enchimento de linguiça”, de conversa fiada de quem não tem o que dizer. Claro que ele se engana. Como não ter o que dizer se algo está sendo dito ainda que a duras penas? Mas havemos de dizer algo palpável, sem tergiversações ou fugas, pois este texto que assim se espraia na página, parece não ter pé nem cabeça. No início, sentei-me à mesa pensando em fazer um paralelo entre o texto O Samba do Crioulo Doido, de Stanislaw Ponte Preta, o Lalau, e a poesia absurda do poeta paraibano Zé Limeira. A coisa daria panos para o texto, pois os textos de ambos em muito se assemelham pela absurdidade da linguagem. Stanislaw, naquele samba, satiriza o desconhecimento da História do Brasil, a seu aviso, por parte dos compositores de samba-enredo, à época os crioulos habitantes dos morros no Rio de Janeiro. Já o poeta paraibano era conhecido pela alcunha Poeta do Absurdo, não que ele misturasse assuntos díspares da História ou de histórias sem pé nem cabeça, mas porque, recorrendo a uma linguagem, ás vezes, sem nenhum sentido, fugia à censura de quem quer que seja pela maestria com que tirava proveito da musicalidade das palavras de nossa língua portuguesa. Se eu tentasse fazer o paralelo, teria que copiar algumas passagens dos textos de cada um dos autores citados, do que resultaria um texto longo não cabível aqui neste espaço. Além do mais, a transcrição exigiria análise acurada dos textos com o fito de clarear pontos obscuros e de difícil exegese de cada um deles. Afora o tédio que provocaria certamente no espírito do leitor preguiçoso.
Só sei que, nessa lengalenga, nesse não diz mas diz, acabamos por escrever o texto que não queria sair, mas não suportou a teimosia deste escriba.
A falta de assunto pode ser assunto rico e pródigo para a produção de um texto.
Aí está o texto... Da próxima, sairá um mais espontâneo. Um breve toque de silêncio...
Namastê.
ΠΑΡΘΕΝΟΣ ou παρτένος - VIRGEM
Hugo Martins
A palavra grega, acima transcrita, à guisa de título, em caracteres maiúsculos e minúsculos, seguida da tradução em português, corresponde, em latim, a VIRGO-VIRGINIS, e se aplica à deusa grega Atena (Minerva dos romanos), que era casta, pura e inocente tal como a virgem Maria, que concebeu sem haver mantido relação sexual com quem quer que seja, pois seu filho unigênito foi concebido “por obra e graça do Espírito Santo. ” Assim, a virgindade é signo que designa toda mulher que “nunca conheceu homem”, conforme diz o eufemismo aspeado. O emprego corriqueiro desta palavra em tal acepção surge, de tempos em tempos, acobertada por toda sorte de preconceitos ao longo da História, de tal forma que algumas mulheres já casadas ou experimentadas, muitas vezes brincam, colocando em si mesmas o rótulo de virgens, como se a condição de permanecer virgem fosse uma virtude. Outro sentido que a palavrinha assume na cultura brasileira é “nunca fui propriedade de ninguém”. Para muitas, o casamento se dava porque mantinham “a virtude” de ser virgem, isto é, não “deitaram, antes, em outro leito, com algum homem. ” A coisa era levada tão a sério, que o Código Civil Brasileiro de 1916, revogado ou modificado em 2002, trazia um artigo, dando a prerrogativa ao homem de pedir a anulação do casamento se alegasse, no prazo de dez dias, contados do enlace, não ser mais virgem a mulher... Era o que chamavam “erro essencial de pessoa.” É mole? O macaco Simão diria que sim, mas sobe.
E quem não lembra os “casamentos na polícia? ” O sujeito cometia o crime de sedução, previsto no art. 217 do Código Penal, dispositivo já revogado, que também recebia a designação popular de defloramento. Era esta a redação: “seduzir mulher virgem, menor de dezoito anos e maior de catorze e ter com ela conjunção carnal, aproveitando-se de sua inexperiência ou justificável confiança. ” Nesse contexto, dizia-se que o praticante de tal delito “fizera mal” a uma moça. O sujeito era coagido a casar com a “vítima. Vi um caso, na cidade de Itapipoca, em que o cabra foi castrado pelo pai, pois não quis assumir, e nem podia, pois deflorou duas jovens irmãs. Quando a moça engravidava e o casamento não se concretizava, fazia uma longa viagem, ou o pai da jovem se tornava pai do neto ou da neta. É mole? Sei não.
Algumas palavras existem, em português que assentam na forma e no conteúdo do radical que veicula a ideia da palavra virgem. Por exemplo: partenofilia aponta para o sujeito que demonstra inclinação exagerada por mulher virgem. Do mesmo modo, a palavra partenófobo designa o sujeito que tem medo de virgens... É o homem, é a cultura, é a linguagem.
Χαιρετε, ω φιλόι. (alegrai-vos, amigos).
HOMENS E RATOS
Hugo Martins
Estou pensando no fato inusitado de que resolveram também dedicar ao homem um dia, com data fixada, comemoração e outras tolices semelhantes. Muito bem. Ficou-me, porém, uma dúvida: trata-se do homem, tomada esta palavra em sua acepção genérica, ou a data diz respeito ao ente pensante do sexo masculino? A reflexão assaltou-me, mas, logo, aquietei-me. Se existe um dia da mulher, um dia das crianças, um dia das mães e um dia dos pais, aquela data deve dizer respeito mesmo ao homem na sua acepção “strictu sensu”, isto é, em seu sentido particular.
A mania reflexiva continuou a me espicaçar o espírito com outras pertinentes indagações: e o veste-calça? E o canalha? E o cafajeste? E o inescrupuloso? E o que vende a alma? E o que não mede esforços para passar a perna no outro? E o mentiroso? O salafrário? O calhorda? E o adulador? E o lambe-botas? Toda essa casta está inclusa naquela data? Se assim for, parabéns a quem teve essa brilhante ideia...
E os senhores do Congresso Nacional? E os demais ladrões de gravata? Enfim, e todos os que pertencem à casta de predadores da riqueza nacional, que engabelam o povo ingênuo durante o processo eleitoral e continuam a enganar esse mesmo poviléu ignóbil? Deveriam estes últimos ( os que fazem parte do Poder) serem lançados num dos nove círculos do inferno de Dante ou deveriam ser homenageados também nessa data? Embora em muito se assemelhem a ratos ladravazes pelo talento que demonstram em bater carteiras e furtar, devem, também, ser agraciados. Afinal, "todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza..." Por esse prisma, pilhar o Tesouro Nacional, parece ser um direito que se estende a todos. Só alguns, porém, leem com propriedade tão sombria isonomia.
E vivas aos dias do Homem...
HISTÓRIA e histórias
Hugo Martins
Por dois caminhos se pode narrar a História, não importa se a local se a universal: ou da perspectiva do historiador oficial ou a partir da ótica do historiador revisionista. Se este cuida de expor os fatos perscrutando fontes que lhe oportunizem levar ao texto maior veracidade, sem se render aos arroubos patrioteiros, preso que fica à documentação comprobatória de todo jaez; aquele não passa de subserviente, um lambe-botas do poder, um desonesto, que busca pintar os fatos com as tintas do falso otimismo, colocando em evidência apenas o que exalta homens “importantes” ou põe em evidência fatos que interessem à classe que detém nas mãos o poder. Quem se der ao trabalho de ler a história do Brasil, que vai de 1º de abril de 1964 à eleição indireta de Tancredo Neves em 1986, período durante o qual o povo foi torturado, amordaçado por senhores de baraço e cutelo e engabelado pelo engodo da propaganda governista; ou, por outro lado, tiver a pachorra de ler os episódios da Guerra do Paraguai, em que Brasil, Argentina e Uruguai, entrelaçados numa ridícula e desigual tríplice aliança, cometeram contra o povo guarani toda sorte de atrocidades, que o historiador oficial finge não ver, certamente, este leitor poderá bem distinguir por que caminho optar.
A História oficial tem por vezo sapecar no período medieval (séc. V – XV) a tarja de “idade das trevas”. Tirante a igreja católica e as práticas nada delicadas da Santa Inquisição, não se há de malbaratar a filosofia daqueles tempos, a posta em evidência por Santo Agostinho, Abelardo, Santo Anselmo, e Santo Tomás de Aquino, a título de exemplo. Não vamos falar da Teoria Heliocêntrica do polonês Nicolau Copérnico... Quer dizer, o pensamento preconceituoso sobre os tempos medievais foi obra do homem renascentista, que nega o caráter de continuidade da História. Nenhuma ruptura existiu. A não ser a opção do pensador renascentista em guindar-se por eleger o modelo clássico de pensar o mundo.
Os sofistas, classe de filósofos na Grécia antiga, que costumavam ensinar mediante pagamento, também foram vítimas do preconceito. Na verdade, eram professores, cujas lições se traduziam em porfiar por desenvolver no e com o discípulo a habilidade da leitura e da escritura, bem como a de construir discursos bem estruturados, sobretudo os voltados para a arte de convencer alguém. Se nos acostumamos a ver os sofistas como aqueles que ensinam a arte de enganar, pregando “verdades” por meio de construções lógicas que apenas aparentam veicular a verdade, devemos isso a Platão, que, no livro O Sofista, tratou de caricaturá-los. Ora, embair alguém por meio de engodos verbais não é apanágio dos sofistas, mas de qualquer homem que desenvolveu a habilidade lógico-linguística de levar ao interlocutor a miragem da verdade. Veja-se, por exemplo, Ciro Gomes, um tal de pastor Malafaia ou a farândola de políticos profissionais versada na arte de enganar o povo ingênuo. Não pretendo aqui ofender os sofistas Górgias e Protágoras, tampouco seus seguidores.
O sentido pejorativo do termo assumiu tal extensão, que o adjetivo “sofisticado” deriva diretamente da palavra sofista, como a designar aquilo que vem arreado, enfeitado, ajaezado de penduricalhos de variadas naturezas a desvirtuar o real sentido da palavra: professor itinerante que ensina, repetimos, a arte de argumentar e convencer.
Digamos, plagiando Vandré: vamos com “a certeza na frente, a história na mão. ”
Só isso.
PARA MINHA FLOR.
Hugo Martins
A palavra flor e a própria flor sempre se revelam ao observador grávidas de uma força semântica, que mistura brandura, ternura, singeleza e pureza. Não é à toa que o próprio Cristo, como noticia São Mateus, no seu Evangelho, escolheu os lírios do campo para tecer a bela alegoria da força da simplicidade, que se agiganta e se coloca acima de qualquer glória, mesmo a do sábio filho do rei Davi.
O principezinho de Antoine Saint-Exupéry cuidava de uma delas num dos planetas a que chegou. Enquanto o piloto do avião, que sofrera uma pane, tentava consertar o motor do pássaro de aço, o príncipe de cabelos amarelos esvoaçantes filosofava sobre a única flor que possuía. Dizia temer que algum carneiro a devorasse, apesar dos quatro espinhos que ela mantinha no fino caule e lhe podiam servir de defesa. Aliás, sua teoria sobre espinhos é que estes são a única maldade de uma flor.
Furtei do pequeno príncipe e perfilhei a mais bela lição sobre o amor que se pode ter por alguém. Não vou traduzir temeroso de tropeçar em algum esquecimento. Por isso, transcrevo as palavras dele, aspeando-as: “Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões e milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla. ” Assim também penso de minha única flor, minha flor.
Carlos Drummond de Andrade, no poema A Flor e a Náusea, tece um discurso deplorando a violência, o desamor, o desencanto e a frieza d´alma nos dias que correm. Ante a dureza dos tempos modernos, marcados pela crueza dessa realidade, o poeta itabirano conseguiu um flagrante: viu, de súbito, surdir, do áspero negrume do asfalto, uma flor e registrou nesses versos; “Uma flor nasceu na rua. Uma flor ainda desbotada. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”
Assim é minha flor. Única. Com espinhos, bem certo. Ante ela, dobro-me numa espécie de reverência. E ela é para mim “aquela flor”, plagiando o principezinho, para quem, em meio a milhares de outras, meus olhos se voltam e sempre se enchem de encantamento e êxtase e, tal como a flor de Drummond, rompe a carapaça do meu ser, aparentemente duro e áspero, e hiberna nos refolhos do meu coração.
Toda flor é mágica. Não a defino. Vinicius de Moraes já fez isso, referindo-se à rosa, dizendo que: “uma rosa é uma rosa, simplesmente, e nada mais". Assim são as flores que amamos: indefiníveis em sua singeleza.
GRANDE SUSPIRO.
Hugo Martins
Virei a última página. Um tormento. Se a comédia pune pelo riso (Ridendo castigat mores. Rindo-se castigam-se os costumes), a tragédia, pelo espanto, o medo e o terror. Quando os deuses gregos querem afligir o homem, escolhem uma “vítima”, e o leitor que se aguente e suporte o suplício. Não é preciso passar por provas semelhantes às de Prometeu ou Sísifo. Necessário tão só ser animal pensante e convencer-se de que a dor doída faz parte da natureza do Ser. Só ter consciência da essência do Não-SER já constitui doloroso sofrimento
Pois bem. Não li a obra de uma só cacetada. Não. Por tratar-se de releitura, sabia a que fui. Reli-a em pequenos sorvos. Não por masoquismo intelectual, mas para antegozar os acontecimentos, como sói acontecer (mutatis mutandis, mudando o que deve ser mudado) com noveleiros televisivos. Comparação meio infeliz, mas é a que me veio...
A peça se abre com o Rei Édipo pedindo paciência aos habitantes de Tebas, pois ele não regatearia esforços para encontrar o assassino de Laios, marido de Jocasta. O primeiro era seu pai, e Jocasta sua mãe e, depois, esposa com quem teve quatro filhos.
O deus Apolo jogara no destino de Édipo tal infortúnio. Bem que Laios tentou afastar-se, mandando dar sumiço no filho. O que não ocorreu. Terminou o bebê sendo criado pelo rei da cidade de Corinto. Já adulto, e dirigindo-se a Tebas, encontrou a cidade ameaçada pela Esfinge, que dizia só se afastar dali quando alguém decifrasse seus enigmas. Num deles, perguntava a quem se atrevesse a responder, sob pena de por ela ser devorado, “que animal, pela manhã, anda sobre quatro pés; à tarde, sobre dois; e, à noite, sobre três". O homem, disse Édipo. Casou-se com a rainha. O pai ele já matara num conflito de meio de estrada. O livro não fornece uma só pista do porquê Édipo teria que enfrentar tanto sofrimento. Cremos que pelo fato de ser homem. O personagem poderia ser qualquer outro. Há o suplício de Prometeu, acorrentado ao Monte Cáucaso, aonde vinha, diariamente, uma grande águia devorar-lhe o fígado, que renascia todo santo dia; há o sofrimento de Sísifo, condenado rolar uma grande pedra da base ao pico de uma montanha. Só que a coisa se deu durante toda a eternidade, ele nunca chegava ao pináculo, pois a pedra voltava ao lugar de onde ele partira. O problema é que Édipo nada devia aos deuses. Era simplesmente um homem. Aos deuses gregos isso era suficiente. E os oráculos, muitas vezes, não se enganam. Ai do desgraçado sobre cujos ombros pesarem as predições de um deus. Vôte, canhoto. Ufa!!!!
Vale a pena ler a peça de Sófocles.
PERGUNTA SINGULAR
Hugo Martins
Que diabos vem a ser a tal felicidade? Faço a indagação porque acabo de ler duas frases: a primeira, do filósofo e economista inglês John Stuar Mill; e a segunda, do poeta português Fernando Antonio Nogueira Pessoa.
Não vou aqui repetir a questão, coisa em frequentes pautas na reflexão de filósofos, poetas, bêbados; bem como na fala melíflua de padres modernosos, pastores e psicólogos, gente de escol, conhecedora do que vai na alma dos outros com uma facilidade que assusta...
Não trago também à colação o que pensam sobre o assunto Sócrates e os pensadores cínicos Diógenes e Antístenes. Tampouco trago do texto de Vinícius a comparação em que felicidade é algo semelhante a uma gota de orvalho pousada numa pétala de flor, gota que, "brilha tranquila, depois, de leve, oscila e cai como uma lágrima de amor." Ou ainda, no poema de Vicente de Carvalho, em que homem algum alcança a felicidade, pois ela "está sempre onde nós a pomos e nunca a pomos onde nós estamos". Aí é freud. Seria inútil perguntar-se como alcançá-la... Não queríamos trazer à baila aquela "verdade" sábia que alguns apregoam e, por isso, se afogam num mar de tautologia ou obviedade tão gritante, que nos deu vontade de não transcrevê-la. Olha que pérola: "Não existe felicidade, o que existem são momentos felizes". Dá um time, meu. Gritemos: onde está a liberdade de expressão? Não é esse o problema. É outro. Vamos parar a discussão e transcrevamos as frases referidas na abertura do texto. Deixemos de lado o que aí está e pensemos nisso: Stuart Mill: "Pergunte-se a si próprio se você é feliz, e você deixa de sê-lo". Fernando Pessoa: "Por que é que, para ser feliz, é preciso não sabê-lo?"
Sei não. Voilà la question.
NADA DE ENGRAÇADO
Hugo Martins.
A canção ABC do Sertão, composição de Zé Dantas, em parceria com Luiz Gonzaga, traz a expressão “Lá no meu sertão pros caboclos lê/ Têm que aprender um outro ABC...” Daí então, o rei do baião repete, de cor e salteado, o “ABC do sertão”, arrimando-se numa suposta pronúncia matuta, emprestando a ela um tom de gracejo sadio. Entende-se a intenção dos letristas em salpicar suas canções com a “nordestinidade”, preocupação sempre presente na obra de um de outro, mas a letra não espelha a verdade. Vejamos por que.
Em qualquer aula sobre fonologia e fonética, a primeira coisa que se deve levar a efeito é a diferença entre grafema (letra) e fonema (som). Ensina-se que temos, em língua portuguesa, cinco vogais. Falso. Na verdade, temos cinco letras vocálicas para representar, foneticamente, os sons vocálicos, que, na realidade, são sete (a, é ê, i, ó, ô, u). O mesmo se dá com os sons consonantais, que podem ser representados por diversos grafemas (letras), tudo depende do contexto. A letra C, por exemplo, tem duas realizações fônicas, (ká) em casa, cavalo, mas (cê) em cidade, cessão, cedo. Pensemos no grafema J, que tem valor de (gê), em jato, jeito, jia, jota, junto... Já o grafema G tem duas realizações fônicas, (guê) em garrafa, garupa, garoa, praga, mas pode representar o som (gê) em girafa, página, gelo. O grafema S é (zê) em mesa, (cê) em sala e sola.
Para entender o mecanismo das realizações fônicas respeitantes às chamadas consoantes, há de se entender que estas recebem este nome para o qual não temos olhos nem ouvidos. Consoante é o que “soa com”. Por isso, a consoante só se realiza quando se apoia no fonema vocálico. Experimente iniciar a pronúncia da palavra “pé”, “pá”, “pó” sem pronunciar o fonema vocálico “. Antes de fazer o sugerido, tire uma fotografia, que, certamente, mostrará você apertando o lábio superior ao inferior. Quer dizer, não existe, foneticamente, o fonema consonantal senão se apoiado em qualquer fonema vocálico. Sem este, só há esgares e caretas.
Como na canção, é claro que o J é (gê) ou (gi) como diz o compositor. Claro que o L é (lê), bem como o M é (ê) e o N é (nê). Nem sempre, pois muitas vezes estas duas letras podem servir apenas para assinalar a nasalidade de uma dada vogal. Em “campo”, “cento”, “cinto”, “sinto”, “sonso”, assim como em sombra, semblante e simples, o M e o N não são (mê), tampouco (nê), apenas indicadores de nasalização da vogal com que se relacionam.
Só para lembrar, a letra Y, que voltou , oficialmente, a fazer parte do abecedário da língua portuguesa, grafema a que João do Vale, interpretado por Jackson do Pandeiro, na letra Sebastiana, chama de Pissilone, no lugar de “ípsilon” (proparoxítona) ou ipisílon (paroxítona), conforme registram os dicionários, na verdade deve ser chamada de “i” grego (como dizem os franceses), pois os falantes desta língua pronunciam-na como se fosse um misto de “u” e “”i”, sempre com os lábios arredondados, formando o famoso “bico francês”. Entre nós, lusófonos, o Y soa I. Nós, brasileiros, também pronunciamos alguns de nossos sons vocálicos “ó”, “ô” e “u”, fazendo biquinho. Faça-se a experiência pronunciando as palavras “ovo, “uma”, “vovô, “bora”, “uva”, “burro”, “porrada”. Legal, né não?
Assim, no sertão, o ABC continua o mesmo sem tirar nem pôr e, também, sem nenhum toque humorístico. Continua o mesmo, sim, porque pronunciado pelos falantes de língua portuguesa... Cada letra ou o encontro delas com a tintura fônica adequada...
Fiquem ressalvadas, porém, as boas intenções dos compositores.
É isso...


QUESTÃO ORTOGRÁFICA COM FIAPOS ETIMOLÓGICOS.
Hugo Martins
O problema ortográfico, em sede de língua portuguesa, foi parcialmente resolvido a partir de 1911 quando aqui se adotou a tal ortografia simplificada, calcada no pensamento do filólogo português Gonçalves Viana, dissertado em obra homônima. Passou a viger no Brasil, entretanto, a partir do ano de 1943. Conquanto não se afaste dos moldes etimológicos, a obra A Ortografia Simplificada bane os helenismos (do grego) e latinismos (do latim) complicados e procura como que “adaptar” a grafia de algumas palavras sem se dobrar ao cientificismo sem peias... Por exemplo, se alguém quiser se manter fiel à etimologia pela etimologia, deveria escrever “mixtura” ou “mixto” e não mistura ou misto. Razão? As duas primeiras palavras pertencem ao léxico latino e escrevem-se: a primeira, do gênero dos nomes substantivos MIXTURA, AE; e a segunda, do adjetivo triforme MIXTUS, MIXTA, MIXTUM. Quando a palavra CONSCIÊNCIA mantém aquele S depois do prefixo CON (M), segue-se a via etimológica, pois o verbo CONHECER, no infinitivo impessoal em latim, assim se grafa SCIRE. Aquela letra também se mantém no substantivo latino CONSCIENTIA, CONSCIENTIAE. Ainda assim, o filólogo português poderia ter optado por grafá-la sem o S. Lembrar que ortografia é convenção...
A reflexão foi motivada por uma pequena discussão que mantivemos com alguém quando utilizou a forma verbal SOE, do verbo SOER, em português, e eu lhe disso que a forma deveria ser SÓI, como MÓI do verbo MOER. Não lhe tirei a razão quando arrancou da algibeira a questão etimológica para justificar sua opção por SOE. O verbo SOER, português, que significa costumar, ser comum, ser habitual e assume tal acepção em latim, português e italiano, deriva do verbo latino SOLERE. Como toda palavra, também sofreu transformações em seu corpo ao longo do tempo. Desse modo, sofre a queda do E final (apócope) e fica SOLER; em seguida, ocorre a queda do L (síncope), resultando o SOER tal como se encontra na língua portuguesa. Deveria ser SOE, mas não é, por razões de simplificação. Como sói acontecer, as questões de linguagem sempre suscitam bons debates em que se cotizam experiências e se lucra aprendizagem.
A palavra insólita (atentar para o prefixo IN) é corriqueira em português, significando aquilo que não é habitual. É muito comum, na língua italiana, o uso da locução DI SOLITO, significando o que é costumeiro e habitual.
Para fechar o blá-blpa-blá: quem consultar os bons dicionários de língua portuguesa, verá que a palavra SÓLITO lá estará registrada ainda que seu uso seja quase nenhum.
Isto posto, fica firmado que a grafia do verbo SOER, em português, na terceira pessoa do singular do presente do indicativo, é SÓI e não SOE, como grafa meu amigo, estando assentado em argumentos etimológicos.
Como SÓI acontecer, fujo aos debates insossos acerca de corrupção e outros assuntos INSÓLITOS para me entregar a reflexões, a meu ver, menos nocivas...
Voilà.