sexta-feira, 27 de setembro de 2013


Eu gosto desses “em que você está pensando” ou “diga alguma coisa”, que encabeçam a página do facebook. São expressões que estimulam o visitante a escrever alguma coisa. Agora, por exemplo, vou deslizando os dedos sobre o teclado sem saber exatamente o que vou dizer. Pouco me importa, pois sei que palavra puxa palavra e, nesses momentos, o redator deve livrar-se de qualquer censura e deixar que a coisa flua e ir registrando o que lhe vem à cachola até que, de repente, o pensamento começa a se organizar. É algo parecido com você olhar para o firmamento e começar a enxergar figuras e imagens que se revelam diversas no olhar de cada apreciador de “retratos” que se desenham no céu azul e nublado.

Assim fazendo, vamos nos livrando da inverdade traduzida na expressão “escrever é muito difícil.”  Não é não. O problema é quebrar as amarras da timidez, desprezar a possível crítica de terceiros e dar tratos à bola. Olhar para uma criança, estando esta com um pincel na mão e diante de uma superfície riscável é constatar que, a todo momento, ela cria na imaginação e passa para a superfície tudo que lhe vai na imaginação. O importante é riscar, é encontrar o “faz-de-conta” da Emília de Monteiro Lobato. Súbito, você que se aventurar a escrever ao correr da pena, ou ao dedilhar contínuo das teclas, verá que escrever é como o falar. Flui naturalmente, é só relaxar e soltar a imaginação.

Se o texto exigir, a seu ver, uma determinada organização, aí vem a fase do burilamento. Depende da natureza e dos objetivos do texto. Há quem escreva sem corrigir, fazendo isso apenas quando pinga o ponto final. Outros há que vão organizando as ideias e já procedendo a correções da organização do pensamento, bem como dos possíveis deslizes de ordem gráfica e sintática.

Estava pensando em tal coisa quando refletia sobre as dificuldades que as pessoas dizem encontrar no momento em que são chamadas a colocar suas ideias na frieza da brancura do papel. A cor não importa, interessa enfrentar os medos e tremores quando se dá importância à opinião de terceiros.

Agora uma observação: é claro que só escreve com clareza, precisão e propriedade quem tem por hábito ler como um vício. Afinal, temos que buscar notícias de mundo e palavras novas a fim de que expressemos o que vai em nossa alma. Quem tem medo de leitura tem medo da escritura. Mal sabe que o exercício intelectual é o melhor divertimento para alma, que também envelhece... Nem por isso as pessoas intelectualmente preguiçosas devem deixar de lado o ato de escrever. Se aliarem, porém, as duas práticas, encontrarão maior prazer em procurar desvendar o que vai pelo mundo por intermédio da leitura, bem como em exprimir seus anseios, sonhos e expectativas em relação ao mundo por meio do escrever. Boa viagem...

segunda-feira, 26 de agosto de 2013


CRIANÇA ESPERANÇA.

                                               Hugo Martins

 

Em todas as películas fílmicas com que brindou a humanidade, Charles Chaplin sempre esboça um sorriso sensaborido, mais um ricto que um sorriso, como que exprimindo sua decepção e sua rascante ironia com a “bondade” humana. De regra, ao fim do filme, Carlitos, incompreendido feito o Albatroz de Baudelaire, vê-se entregue a uma lancinante solidão e a irremediável abandono.

Os que tentaram imitá-lo não conseguiram repassar ao espectador aquele misto de ironia e velada melancolia que só o criador de Luzes da Cidade e Luzes da Ribalta conseguia imprimir no gesto tímido de levar as mãos à boca, soerguer e retorcer os ombros e rasgar, a medo, os lábios. Numa interpretação, em que se pode ler toda a dor, todo o desencanto, toda a tristeza vã, que só pintores com suas telas, que só poetas e romancistas com sua pena, que só filósofos com suas fundas reflexões ousam exprimir.

Aqui no Brasil, o teleator Renato Aragão faz muito esforço para repetir o que Charles Chaplin fazia. Só que em vão. Quando tenta mexer na sensibilidade do público com aquele risinho mentiroso, sempre abre espaço a um ranço interpretativo em que se desencava falsidade e reles sinceridade no que tenta repassar. Nada de persuasivo chega ao telespectador quando ele abre a bocarra, com o risinho pseudochapliniano, tentando convencer o populacho a aderir ao tal “criança esperança”, forma cretina de embair os tolos.

 Dizem que os grandes atores, quando dão luz a seus personagens, estes só convencerão os apreciadores de cinema se estiverem imbuídos de aura interpretativa de que sobressai a convicção de que estão encarnados vivamente neste ou naquele personagem. Ora, Renato Aragão não se inscreve no rol dos grandes intérpretes, seja no cinema, seja na televisão. Está mais próximo do palhaço de circo que do grande ator (com todo o respeito aos palhaços de circo). Os tropeções, esgares e indumentária destes sempre foram motivo do riso das crianças e nunca serviram a manobras malandras para ir ao bolso da população com propostas pilantroides.

Por trás do riso desengraçado de Renato Aragão, esconde-se um sofisma, um raciocínio enganoso global: o de que somos otários desinformados. A esperança a que ele se refere não alcança grande parte de nossas crianças, jogadas ao deus-dará, abandonadas à própria sorte, vítimas do egoísmo reinante de uma sociedade doente, perversa e mal-educada.

A esperança em foco, em outras palavras, o direito a ser gente, o direito a ter direitos encontra-se nos cofres públicos, onde dormitam os tributos que todos pagamos e são desviados por invisíveis mãos despudoradas. Nada mais evidente.

Por trás dessa história de que devemos retirar um naco cristão de nossa bolsa para alimentar programas cretinos e melosos, encondem-se intenções malignas e mentirosas. Nossa sensibilidade não pode ser enganada pelo espetáculo engalanado de uma tropa televisiva bem domesticada sob a batuta de um trágicômico maestro de ópera-bufa.

Se, no riso melancólico de Chaplin, há forte esperança de um mundo em que a sinceridade deva ser o grande sinete; no de Renato Aragão sobressaem a desfaçatez, a ignomínia e a insinceridade das sociedades em que a preocupação com o outro não passa de um grande teatro.

Não, pois, ao criança esperança global. Não sejamos mais um fantoche teleguiado pelo cordel perverso de grandes vivaldinos.

sábado, 24 de agosto de 2013


                                       Impressões de leitura

                                                               Hugo Martins

 

Findei a leitura de uma obra deliciosa: A Cura de Schopenhauer. Embora o entrecho do livro cheire a burguesismo filisteu, flagram-se, aqui e ali, alusões ao filósofo alemão, incompreendido no seu tempo, mas eterno para as gerações que se sucederam.

Com efeito, Arthur Schopenhauer, influenciou diversas categorias de pensadores e literatos. Entre os primeiros, o austríaco Sigmund Freud, o dinamarquês Soren Kierkegard e o alemão Nietzsche; entre os últimos, aqui no Brasil, Machado de Assis “Memórias Póstuma de Brás Cubas) e Augusto dos Anjos ( Eu e outras poesias).

Além do pensamento navalhante do filósofo, lemos, na obra aludida, historietas que bem demonstram a irritação do pensador com a estupidez humana.

Certa feita, uma senhora dirigiu-se a Schopenhauer, vomitando toda sorte de impropérios contra a instituição do casamento. Depois de “soltar os cachorros”, acrescentou: “entendeu?” Ao que o pensador acrescentou; “não, mas entendo muito bem seu marido”. Outra vez, um sujeitinho fez uma pergunta ao filósofo. Como este dissesse que não conhecia o assunto, o néscio ficou indignado, dizendo: “não aceito um filósofo do seu porte não desconhecer tal assunto?” Schopenhauer olhou-o e disse: “Meu caro, a sabedoria tem limites. O que não tem nenhum limite é a ignorância”. Conta-se também que toda vez que ia fazer refeições numa casa de pasto, antes de sentar-se, retirava uma moeda de ouro do bolso, punha-a sobre a mesa. Ao fim da refeição, levantava-se, repunha a moeda na algibeira e se ia. Um dia, um curioso abordou o filósofo e perguntou-lhe por que sempre fazia aquilo. Schopenhauer respondeu: “No dia em que eu aqui entrar, e alguns homens não estiverem conversando sobre mulheres e cavalos (futebol, hoje), ganharão essa moeda.”

Sua decepção com o gênero humano se traduzia pelo afeto que ele dedicava a seu cachorro Atma. A este dava o título de Sir. No entanto se o animal demonstrasse algum comportamento que o irritasse, dizia: “Fica quieto, Humano”.

Embora a obra referida no primeiro parágrafo não aprofunde o pensamento do filósofo(é esperável num best seller), o leitor deve  procurar se inteirar de obras famosas daquele pensador,  que dão bem a medida da visão trágica da existência. Dentre elas, O Mundo como Vontade e como Representação e Parerga e Paralipomena. Se, porém, não desejar encarar o pensamento do filósofo por tais obras, afunde-se num sofá e assista às novelas globais. Ou, se preferir, sente-se numa cadeira à frente do computador, ligue-se ao Facebook e pesque dos sites de terceiros as frases carameladas e ocas dos paulo coelho, augusto curi à frente, e outros idiotas da mesma cepa.

Nestas, temos a venda do otimismo barato que encanta as almas ingênuas. Na filosofia, o realismo contundente das coisas da vida, da tragicidade da existência e “outras questões prenhes de outras questões”... Amor, morte, o tempo que passa, os engodos de determinados discursos certinhos e direcionados pela influência maligna das ideologias, e tudo o mais que o tempo destrói: a fama, a beleza, a vaidade, a ânsia pelo poder e pela riqueza, a juventude e outra questões aterradoras... O menu é suficiente para despertar reflexões e banir o indiferentismo intelectual acerca dos variegados sentidos da vida.

terça-feira, 5 de março de 2013


LEITURA DE MUNDO

                                                                             Hugo Martins

 

            Até a década de oitenta, não se permitia à juventude ler determinadas obras literárias porque, na opinião dos educadores e censores, poderiam elas exercer efeito deletério de grandes proporções no espírito da moçada. Seriam criações das forças do mal. Às meninas, futuras jovens casadoiras, oferecia-se um cardápio de livros, em cujo conteúdo e direcionamento ideológico, pescavam-se idéias subliminares de que toda moça deveria ter como objetivo maior de vida a preparação para o casamento. Com efeito, havia mesmo escolas em que, no turno da manhã, a jovem estudava as matérias propedêuticas comuns ao currículo escolar da época, e, no turno da tarde, assistia a aulas de etiqueta, de como preparar um bom petisco ou lauto almoço e, sobretudo, como administrar a casa e agradar o marido. Essa ideologia se encontrava bem às claras na famigerada Biblioteca das Moças...

Virtuosa era a jovem que guardava as primícias da virgindade para um determinado homem, muitas vezes escolhido pelos pais da donzela. Bom partido era aquele que detinha bens patrimoniais que, caso a casa caísse, na hora da partilha, a jovem poderia abiscoitar um bom naco do patrimônio, de regra, construído pelo marido. Não é à toa que o regime conjugal obrigatório na época era o da comunhão universal de bens, isto é, aquilo que pertencesse aos nubentes, mesmo antes do casamento, deveria ser partilhado na base de cinqüenta por cento para cada um...

Determinados obras, consideradas clássicas, quando não eram trancadas a sete chaves, eram jogadas à fogueira ou colocadas num tal Index Librorum Prohibitorum (Índice dos livros proibidos).  Coisa da igreja Católica, tão preocupada com a salvação das almas... Comovente...  Madame Bovary, na França, levou seu autor às barras dos tribunais por ser considerado imoral. Ler O Primo Basílio ou o Crime do Padre Amaro era um sacrilégio. Na opinião dos filisteus, o primeiro era também imoral e o último, atentatório aos homens virtuosos da Igreja. Graciliano Ramos teve alguns de seus livros levados literalmente à fogueira numa praça pública em Alagoas. Difícil mesmo é saber o que é moral ou imoral quando se trata da criação artística. Qual seria o grau de moralidade ou imoralidade que o burguês ignorante daria ao quadro O Juízo Final, em que Michelângelo Buonarroti coloca em evidência a nudez lírica de seus personagens?  O artista não acrescenta à sua criação senão o que é humano. A questão do feio ou do bonito, do moral ou do imoral parece situar-se, pelo menos em termos de criação artística, no que cada um tem de censor ou de apreciador estético.

Lembra-nos um episódio em que um professor foi demitido de um colégio em Fortaleza porque indicou a obra A Estrela Sobe de Marques Rebelo. Um pedagogo dos mais néscios julgou ser a obra imprópria para alunos que já cursavam o último ano do Curso Médio. Argumento daquele bravo educador: estava passando um filme baseado na obra. Estarrecido, o educador viu uma cena em que uma jovem, desejando subir na vida artística, tinha que deitar-se na cama do diretor do filme e com ele fazer concessões se quisesse ser uma “estrela”. Quer dizer, sexualidade, mesmo mercadejada,  para nosso educador é coisa feia sobre a qual não se deve falar e, portanto, a demissão do professor fundou-se numa justa causa. A História continua. Hoje, toda moçoila que alimente o sonho de ser “modelo”, também há de fazer concessões por faltar-lhe talento... Os pedagogos e censores de agora não mais se preocupam, os tempos são outros.  

Um escritor brasileiro, dos mais profícuos, contador de histórias, intérprete do Brasil, de linguagem, a um tempo, desabrida e rica, também tem recebido tarjas de escritor imoral e, portanto desaconselhável ao filisteu. Trata-se de Jorge Amado. Não conheço leitor sério que rejeite Jorge Amado por descrever cenas escabrosas ou utilizar, em seus livros, palavrões cabeludos de largo uso pelo povo. Aliás, trata-se de uma marca estilística do escritor baiano, que leva o leitor às gargalhadas. Jorge Amado sem palavrão é o mesmo que o Brasil sem carnaval e futebol. O leitor ingênuo, arraigado a preconceitos avoengos não enxerga o outro lado da prosa amadiana, não lhe descobre a poesia e o humanismo, aspectos tão polvilhados em sua obra. Esse tipo de leitor age como o cãozito de Pavlov, mal vê um palavrão, joga de lado a obra, perdendo a oportunidade de recrear o espírito com o texto saboroso do criador de Capitães da Areia.

A obra de Jorge Amado é pródiga de brasilidade. A linguagem é brasileira. A temática é brasileira. O coronelismo cacaueiro, os menores abandonados, os malandros, os capoeiras, o grevista, o retirante, as putas, e toda a casta de personagens que, pelo menos ficcionalmente, nos convidam para o seu lado. Com Jorge Amado, o leitor fica sempre ao lado do mais fraco ou daquele que não se afeiçoa aos padrões da sociedade capitalista. Não, os personagens de Jorge Amado, quase todos, sobretudo os marginalizados e explorados, respiram liberdade e desvinculação dos modelos bem comportados.

Ora, o escritor baiano é, no Brasil, um dos mais lidos. Muitas de suas obras foram traduzidas para mais de cinquenta idiomas. Vários de seus livros foram adaptados para o cinema e para a televisão.

Mesmo assim, o leitor-burguês-filisteu, sempre preso a livros que estão na moda, figuram na lista dos mais vendidos ou se encontram na linha de frente dos balcões de entrada de livrarias, tem pavor ao palavrão. Míope, só enxerga o palavrão... Não há palavras para definir o leitor-filisteu que abomina o palavrão e outras coisas afins...

Por evidente, também se vende muito lixo cultural, muita coisa travestida de bom-gosto graças a uma insondável química que consegue transformar cocô em arte porque, como já dizia um compositor, “camelô na conversa ele vende algodão por veludo. Está provado porque neste mundo tem bobo pra tudo.”

Eis um bom argumento para o leitor inimigo de palavrões e de cenas escabrosas na obra literária ou qualquer outra manifestação de cunho artístico.

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 3 de fevereiro de 2013


19ª

CARTAS À MINHA FILHA

Maria Helena,                                                    

 

teu pai tornou-se traficante de uma droga inebriante. Há muito tempo vem ele ensaiando incutir na cabeça do alunado a bizarra idéia de que a recorrência a tal droga dá “um barato” inimaginável por transportar o usuário para um paraíso onírico não alcançável por nenhuma outra droga que se mercadeja por todos os rincões do país. Além do mais, pode ser ela adquirida sem muito esforço, e sua ingestão não constitui ação criminosa embora a “lombra” de que é possuído o “viciado” seja contínua e inesgotável. O sujeito fica como que ausente do mundo, de sua violência, de suas asperezas e mesmices. Os efeitos são semelhantes àqueles referidos pelo poeta simbolista francês Charles Baudelaire no poema “Invitation au voyage” (Convite à viagem). Na jornada, quem não suporta a existência como se nos revela encontrará sonhos dourados, luxúrias de pensamento; fugirá do que cheira à mediocridade; e se afastará da nota monocórdia da subserviência intelectual, manifestada no balançar da cabeça à ilusão do conhecimento que falseia o real.

            Minha filha, teu pai já percebeu que tu já começaste a sentir os efeitos dessa “coisa”, pois teu comportamento denuncia a preocupação em “curtir” egoisticamente os prazeres provindos das doses diárias que ingeres da tal “coisa”. Aliás, ele se vangloria de ter te colocado “no mau caminho”. E disso não se arrepende, pois, para teu velho pai, esse modo de levar a vida como que distanciado das pessoas normais é a maneira mais legítima de usufruir a existência rindo da estultícia reinante. É por isso, minha filha, que teu pai, este inescrupuloso viciado, sempre insta contigo a que não te afastes do hábito de te drogares sempiternamente com a substância divina a que já te acostumastes.

            Não satisfeito em te viciar, teu pai agora deu de influenciar seus alunos. Começou sua ação, ministrando àqueles dosagem reduzida do alucinógeno. Depois, à medida que o tempo heraclitiano fluía, ia aumentando a dosagem até que conseguiu arrebanhar um acentuado número de usuários. A moçada, desde então, começou a, espontaneamente, adquirir o produto sem nenhum pejo, E o que é pior: o comportamento de cada um começou a se revelar diferentemente daqueles que insistem em não se deixar levar pelo “papo” baboso deste escriba.

            Infelizmente é reduzidíssimo o número de traficantes conhecedores da droga, especialmente os que preferem torrar a paciência da meninada ministrando outra droga chata por si mesma, que é empurrar de garganta abaixo uma coisa que a garotada já conhece. A “lombra” dessa outra “coisa” não provoca senão o “antibarato”, pois é o suprassumo da reprovável limitação de quem não tem nenhuma imaginação ou mesmo preparo suficiente para ministrar a droga de que teu pai faz a apologia.

            Os desencantos da primeira são visíveis: a moçada usa uma linguagem arrevesada, efeito da inexperiência ou miopia intelectual dos traficantes desconhecedores do produto que mercanciam, e ainda espalha a segura idéia de que tudo isso é a “mó paia”. E isso parece ser verdade, pois o alunado engole a coisa a muque. Os encantos da segunda logo se fazem perceber: os usuários se tornam mais vivazes, pois, pelo fato de o produto ser “massa”, logo, logo desenvolvem a convicção de que o mundo é mais encantador quando visto pela ótica dessa adorável droga.

            É tudo muito simples, minha jovem filha: troquemos o ensino da gramática pela gramática, essa “droga”, que é uma droga, pelo incentivo ao cultivo da literatura, sempre acompanhada pela motivação a que se referem psicólogos e educadores.

            Professores há que contam a lenda de que os alunos não gostam de ler. Isso não parece ser verdade. O que falta a eles, Maria Helena, e a experiência não desmente, é não ter o que dizer a seus alunos, tampouco envolver estes nos encantos e “baratos” de que é tão pródiga a literatura. Em outras palavras: nunca sentiram, quem sabe, o sabor melífluo e encantatório dessa coisa tão sobeja e tão perto de todos nós.

                        Teu pai.

 

                       

             

terça-feira, 8 de janeiro de 2013


DO JEITO QUE A VIDA QUER

                                          Hugo Martins

            A locução “big brother” foi usada literariamente, pela primeira vez, pelo escritor George Orwell no romance 1984, obra escrita em 1948, que denunciava a ingerência do Estado na sua sempiterna tarefa de monitorar a vida do cidadão, sobretudo após o pós-guerra, com o vertiginoso desenvolvimento dos aparatos tecnológicos. Por certo, o romance é marcado por um tom político, denunciando a vigilância sob a qual submerge o homem - quer queira, quer não - nas teias trágicas de manobras, engendradas pelo “grande irmão”.

            Não é à toa que todos, indistintamente, têm seus dados de identificação retidos em arquivos e em outras misteriosas instâncias que nem o diabo desconfia... E o pior: muitos nem mesmo têm consciência desse drama.  Quando o cidadão esposa uma opinião, assume um gosto, elege comportamento, aplaude atitudes e mitifica pessoas, não desconfia de que foi, silenciosamente, influenciado pelas tramas diabólicas das teias engendradas pelo “big brother.” Até aí nada demais. Alguém diria tratar-se de ciência política adotada pelo Estado em benefício (?) de todos. Por que não aventar a hipótese de que a coisa possa significar lucro para poucos, advindo da indiferença de muitos?

            Hoje, por exemplo, edita-se um novo “Big Brother”. De pouco adianta protesto, abaixo-assinados e outros protestinhos, pois o programa alcança audiências inimagináveis. Quer dizer: a onda de protesto, entretecida por alguma mente superior, conhecedora da ingenuidade das massas, nada mais é que uma forma de induzir os ingênuos, que, por terem os olhos fechados, não enxergam a trapaça e se colocam, pontualmente, à frente da “máquina de fazer” a fim de acompanhar tudo que se passa num ambiente previamente preparado como uma espécie de teatro de tablado.

            Em que consiste a pantomima? Amontoa-se, nesse teatro um grupo de cretinóides, todos exercendo um papel mal interpretado e previamente definido num “script”, acompanhados por um mentor global, que entremeia comportamentos e atitudes a fim de mais e mais espicaçar a curiosidade doentia do “televidiota”. Passadas algumas semanas, sairá um “vencedor”, que abocanha um prêmio retirado dos milhares de telefonemas, que fazem as vezes de zona eleitoral. O maior ganhador, porém, é a emissora televisiva e patrocinadores, bem ciente de que nesta vida tem bobo pra tudo.

            Os episódios ali encenados, de regra, retratam conversas e sussurros, em que se apregoam, subliminarmente, a tramóia, a deslealdade, a falta de decoro e o desrespeito à pessoa humana. Para apimentar as relações entre os “artistas”, põem-se às claras cenas de nudez, sensualismo barato e jogos amorosos em que predomina a mais vã patifaria, concorrente dos episódios de Sodoma e Gomorra e das  cenas picantes de filmes pornográficos.

            Não resta dúvida: o programa é pedagógico, informa, forma e serve de lazer a todos que demonstram algum pendor para o desenvolvimento moral, político e intelectual.

            Da minha parte, deixarei ao léu os textos latinos em que venho ultimamente mergulhando. Não me esquecerei, também, de deixar de lado a grande literatura e, até mesmo, o hábito de escrevinhar textos. Para quê? A que leva essa bobagem? Só traz alienação. Ninguém me impedirá da doce apreciação estética que me proporcionará o “big brother”. Hoje mesmo estou a postos. Você, que finge indiferença ao programa, está convidado a engrossar o cordão daqueles que, com ar de idiota, não desgrudarão o olho da tela... Vale a pena.

               

           

           

DIREITOS HUMANOS

                                       Hugo Martins

 

            É comum, não só nas redes sociais, falar-se que “os direitos humanos” devem ser banidos de nossa vida jurídico-social. A nosso ver, o equívoco se prende ao fato singular de algumas pessoas sapecarem na locução uma espécie de personificação. E, assim, advogam a tese de que “os direitos humanos” devem ser agentes consoladores de quem sofreu alguma consequência da sociedade violenta de que participam. Parece-nos a nós que os Direitos Humanos constituem uma carapaça jurídica, no corpo das Constituições dos estados democráticos de direito, que rechaça toda e qualquer violência aos direitos de todos. Desse modo, eles se inserem no corpo da Carta Política, quando os povos experimentaram, no devir histórico, a violência, os absurdos e a tirania das ditaduras. Estas, a primeira coisa que fazem, depois de instaladas, é suprimir ou anular os direitos e garantias individuais. Desse modo, suprimem o direito de pensar; amordaçam a arte; espalham o medo; quebram e arrebentam quem ousar ir de encontro à nova ideologia. O exemplo mais recente, no Brasil, foi a “revolução” que aqui se instaurou durante vinte e um anos. Durante esse período negro e de maus ventos, o povo brasileiro sofreu toda espécie de enxovalhos e humilhações, sofrimento que se procurava amenizar com os aparelhos ideológicos do Estado a que se refere pensandor francês Louis Althusser. O “o milagre brasileiro”, ideia propalada, à época, pelos meios de comunicação de massas, a mágica do futebol, o feitiço do carnaval, os filmes mitificadores de figuras históricas, as novelas burrificantes e “os grandes feitos” dos ditadores, tudo isso, em colaboração com a alienação reinante, é prato feito para que o povão sofra os enxovalhos e permaneça narcotizado por essas drogas, ministradas em doses homeopáticas... O ditador detesta os Direitos Humanos... É proibido pensar... Eis a tragédia, eis as opiniões costuradas e ingênuas e, de regra, absorvidas pelo emocionalismo barato e chocante.

            O axioma cartesiano do “Cogito ergo sum” (Penso, logo existo) convida a que as pessoas sobre ele reflitam e descubram nas suas entranhas que a primeira coisa que o ditador providencia é castrar aquilo que no homem é essencial: a razão. Aniquilar esta é retirar do homem sua própria razão de ser. Daí, a necessidade de uma boa digestão mental daquilo que absorvemos no que estudamos e no que lemos. Só assim, o pensamento lógico se instaura, e o real se nos revela com mais luz, conforme sugere Platão no conhecido texto sobre a caverna. Aliás, o pensador grego faz a diferença essencial entra dogma e epistéme. O primeiro não passa de mera opinião sem fundamento; a segunda aponta para o pensamento científico. Entre uma e outra há um abismo monstruoso, que provoca, na primeira margem, mortes na alma ou silêncios inexplicáveis. Os chamados Direitos Humanos não podem se render aos argumentos da violência pela violência. Quem deve promover a segurança do cidadão é a maltratada polícia; quem deve levar consolo aos que sofrem pela perda de um ente querido é a própria família, padres, pastores e carpideiras. Os direitos humanos vão além disso, sua missão tem caráter global, pois devem estar voltados para a humanização, a pacificação, a educação (ou palavrinha tão evocada e tão esquecida).

            Embora seja o Brasil um país leigo, em outras palavras, não adota religião alguma, mas inscreve, na Constituição, a liberdade de culto, as pessoas se mostram muito religiosas e pias. Isso é bonito, isso é louvável. Contraditoriamente, desconhecem a essência cristã dos direitos humanos. As duas Declarações de Direitos mais conhecidas, a surgida após a Revolução Francesa, bem como a de 1948, estão recheadas do pensamento do Cristo. Os setenta e oito incisos e os quatro parágrafos do art. 5º da Constituição de 1988 não fogem à regra, pois estão inspirados nas lições do Nazareno. A supressão dos direitos humanos constituir-se-ia na recrucificação do Homem, daquele sujeito manso, tão propalado, tão invocado nas assembleias cristãs, e tão incompreendido e tão maltratado pela incoerência nossa de cada dia.

            Il faut que chacun cultive son jardin” (É necessário que cada um cultive seu jardim). Voltaire assim fecha o romance Cândido ou do Otimismo... Quem quiser que interprete a frase. Ou leia o romance... Que os deuses do Olimpo evitem que alguém sofra dor de cabeça na empreitada...