sexta-feira, 14 de dezembro de 2018


NUM RELACIONAMENTO SÉRIO
Hugo Martins

Corriam os anos 70. O ar pesado. O direito à livre expressão amordaçado. Era esperável.  Tudo era proibido.  Só não era proibido proibir o amar por amar, na sua gratuidade, livre da tarja de editos proibitórios e outras invencionices legais.
Meu coração estava livre, leve e solto. Exposto, por assim dizer, aos perigos e armadilhas dos acasos. Nesses tempos de nuvens negras, costumava eu ir a cinemas ou apreciar o recheio de biquínis teens nas praias de Fortaleza; às vezes, batia uma bola nas areias; às vezes, pegava o rabo de uma onda e aventurava-me a nadar entre a praia do Náutico e a praia dos Diários. Foi nessa época que a conheci. Nada nela chamou-me mais a atenção que o fulgor de sua inteligência. Conversava com a desenvoltura de um boêmio culto na mesa de um bar. Era pródiga no conhecimento da literatura brasileira, desde os primórdios, quando aqui se deu início a uma História cultural, até os tempos hodiernos. História, para ela, não se reduzia ao puramente episódico ou factual. Pelo contrário, a dinâmica do drama do homem no tempo e no espaço, não só no Brasil, mas também no concerto universal, ela esmiuçava com o mesmo rigor analítico dos historiadores de grande porte de um Capistrano de Abreu ou de um Eric Hobsbawm... Sou interesseiro. Muito me agrada explorar, no bom sentido, quem tem algo a me acrescentar... E ela tinha... Pude isso perceber num único encontro que tivemos numa livraria de Fortaleza. Conversamos longamente, trocamos olhares, sorrisos, mas nada de promessas quiméricas. Infelizmente, havia entre nós uma barreira: a questão financeira, coisa ironicamente decisiva para a continuação de alguns relacionamentos amorosos. Leis da vida. Só cabia a mim a resignação. Lá se foi o tempo; instalou-se o esquecimento. Nem tanto, nem tanto...
Surpresa. Nem tudo está perdido. Reencontrei-a depois de uma quase trintena de anos. No mesmo local, no mesmo horário, num mesmo sábado. Reencontrei-a. Não me pareceu Marcela em segunda edição no romance machadiano. Não. Apesar de algumas marcas indeléveis do tempo, mantinha ainda a juventude que se transfigura, magicamente, no olhar e no ar que Deus lhe deu. Claro que conversamos longamente. Novamente pude perceber quão nos faz bem tudo que emana das almas ricas de e pródigas em cultura humanística. Hoje, viúva, mãe de seis filhos, livre de qualquer entrave sentimental, aceitou minhas investidas de homem interesseiro e cada vez mais carente de estar perto de gente gente. Desde então, entabulamos um trato de nos mantermos juntos e inseparáveis no laço forte e inquebrantável de um RELACIONAMENTO SÉRIO.  E duradouro...
Foi assim que reencontrei a obra HISTÓRIA DA INTELIGÊNCIA BRASILEIRA, do crítico literário Wilson Martins, uma publicação da Editora Cultrix, de1973, em sete garbosos e alentados volumes. Já trocamos algumas carícias e ensaiamos alguns colóquios. Espero, sem desejar ser indiscreto ou leviano, dar publicidade a algumas cenas saídas de nossos constantes encontros. A questão financeira, por óbvio, não mais é...
Nosso amor, plagiando o poeta, será eterno enquanto durar. Assim espero.


PERGUNTAS AO PÉ DO OUVIDO 

Hugo Martins

Você já refletiu mais demoradamente acerca do significado mais profundo da locução “escola sem partidos”? Você já discerniu que por trás dela (este eufemismo cínico), esconde-se uma tomada de partido? Você perguntará: qual? A resposta estaria nos objetivos a que visa a tal “escola sem partidos”: anular “a livre manifestação do pensamento”, direito garantido no art. 5º. IV da CF/88. Em outras palavras, fere-se de morte o postulado cartesiano do “cogito, ergo sum” (penso, logo existo).
Como se dá a coisa? Só partindo de uma hipótese. Imaginemos que um professor de literatura brasileira ministra algumas aulas sobre a segunda fase do modernismo brasileiro. Ora, Literatura e História andam de mãos dadas. Assim, para se compreender o porquê de alguns autores daquele período - sobretudo Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Jorge Amado e José Lins do Rego - promoverem em suas obras ampla documentação e consequente denúncia da situação de humilhante sofrimento de grande parcela do povo nordestino, não se pode fugir à evidência de que tudo se deu na Era Vargas (1930/1945). Como fugir a isso? Deixar o alunado a ver estrelas ou criar chaves de leitura para a compreensão da relação causa e efeito decorrente da distribuição perversa da riqueza, que todos produzem?  Não existe homem pobre. Existe homem empobrecido. Nenhum homem nasceu predestinado a ter mesa farta, enquanto outro nasceu destinado a catar as migalhas das sobras daquela mesa, aqui universalmente metaforizada.
A obra literária, a grande, a que tende a se eternizar se constitui pasto para alimentar as grandes reflexões. Nenhum manual de História do Brasil, nenhum tratado de Sociologia sobre o Nordeste supera a reflexão que se encontra na obra daqueles autores aqui referidos. Um Fabiano (em Vidas Secas); um Vicente (em O Quinze); qualquer moleque da bagaceira ou qualquer coronel de engenho (nas obras do ciclo-da-cana-de açúcar de Zé Lins); nenhuma prostituta, nenhum menor abandonado, nenhum personagem pícaro (na obra de Jorge Amado), nenhum deles é paciente de análise mais acurada em tantas obras científicas, quanto o é na obra literária.
O coitado do professor, diante disso tudo, tem alguma alternativa para fugir ao olho do Big Brother? Seguem-se algumas hipóteses. Acovardar-se, promover a leitura de alguns trechos deste ou daquele autor e, para adocicar a aula, voltar-se para o biografismo estéril?  Prosternar-se à ideia de que a sala de aula, em qualquer âmbito e grau, é lugar de pensamento, de criação, de promoção do educando? Desistir do magistério (que não deve ser um bico) e optar por vender bananas nas feiras, lugar onde se pode ganhar bom dinheiro? Também lhe é dado o direito de migrar para outras profissões mais promissoras do ponto de vista econômico.
Fica mais uma pergunta: que rótulo se aplicaria ao professor que elegeu a segunda alternativa das ofertadas? Comunista? Esquerdopata?  Socialista? ... O que encerram essas palavras?
Depois eu conto mais




PERGUNTAS DE HUGUS NEPOS. 16-11-2018
Hugo Martins

A pergunta de hoje diz respeito à linguagem e, portanto, ao mundo e às diversas facetas com que este se nos apresenta. Hugus Nepos me pede que lhe explique a linguagem em sua feição expressiva. Enfim, solicitou-me explicar que vem a ser a chamada linguagem figurada. Procurei ser sucinto e disse-lhe que deixasse de lado a enfieira de terminologias concernentes à matéria e se prendesse apenas e tão só à compreensão do que vem a ser a METAFORIZAÇÃO. É o que basta. Hugus Nepos olhou-me estupefato e colocou um ponto de interrogação entre as sobrancelhas, franzindo-as gravemente. Aliás, é uma marca física na expressão de suas perplexidades...  Para sossegá-lo, dei início à exposição da matéria...
Aí está o mundo. Aí está a linguagem, que o exprime, que o coloca em evidência, que sobre ele diz alguma coisa, predica-o. Muitas vezes, ocorrem situações em que a linguagem parece não ser suficiente, por si mesma, para exprimir o que vai na alma do sujeito comunicante. Instala-se o indizível, o inexprimível, o inefável... Nesses momentos, é que o sujeito pugna por reinventar a linguagem, lutando consigo mesmo, recorrendo aos potenciais expressivos desta... É aqui que se faz necessária a METAFORIZAÇÃO, a “violação” do modo de ser da linguagem no seu grau zero de expressividade. A estrutura mórfica da palavra “METÁFORA” se constitui dos radicais de origem grega “meta” e “fora” que, agregados, resultam na significação “levar além”. Assim, ao recorrer a uma metáfora, está-se a empregar dada palavra ou expressão ungindo-as de sentido que ultrapassa os limites do emprego dicionarizado ou da concepção rasa e primária das coisas do mundo.
A METAFORIZAÇÃO pode estar presente em qualquer linguagem em que se faça necessário o jogo da invenção. Vamos aos exemplos,
Na Pietá (a piedade), de Michelangelo, não se tem apenas um Cristo deitado nos braços da Virgem. Além disso, há um olhar cheio de dor, um abandono eloquente, um amor indizível, uma sensação de impotência. Charlie Chaplin, que recorreu mais à pantomima que à fala articulada, repassa à sua genial (não há outra palavra) gestualidade a metaforização do ceticismo, da descrença, da decepção, do desencanto em relação ao bicho homem. Sua saída, na cena final de suas fitas, hiperbolizam a mais dolorosa solidão, a mais cortante sensação de abandono que um ser humano pode experimentar... Basta um gesto, um silêncio, um esgar, um sorriso amarelo... Dispensa o ator inglês a aspereza das palavras. Para colocar em evidência o caos e o cosmopolitismo da cidade de São Paulo, Caetano Veloso, com uma só frase, diz tudo: ” porque tu és o avesso, do avesso, do avesso, do avesso”. Afora o hipocorístico “Sampa”, título da canção, em que se entrevê uma carrada de afetividade. Quando se refere ao poder expressivo de um mito, o poeta português Fernando Pessoa, numa só tacada diz tudo: “o mito é o nada que é tudo”. Aliás, as histórias (mitos) das culturas e civilizações em geral encerram metaforizações universais, que os psicanalistas deram de chamar arquétipos. Os romances de 30, da literatura brasileira, os voltados para a documentação e denúncia dos descalabros de toda ordem, constituem também metaforizações do abandono e do ilhamento histórico a que foi relegado o povo nordestino. Tem coisa mais dolorosa que o êxodo rural, chorado por Luiz Gonzaga e denunciado por Patativa do Assaré na canção Triste Partida? São oito minutos de lamentação... Só vai ouvindo...
Para nós, metaforizar não se reduz àquela definiçãozinha da comparação implícita como aparece na descrição de Iracema por Alencar. Não é tão simples assim. Vai além disso. Repita-se: toda e qualquer “violentação” imprimida à linguagem a fim de se alcançar maior expressividade, tem-se metaforização. O resto é didatismo. Tudo que Graciliano Ramos diz em Vidas Secas, o pintor cearense Aldemir Martins o faz em breves pinceladas, bem como o pintor Santa Rosa nos romances de Jorge Amado. A figura do Cristo, no Juízo Final, esplende em força e beleza, ao contrário da pintura barroca que fixa a figura de um Cristo a merecer piedade. Bem certo que se trata de estilos de época bafejados por momentos históricos diversos, por isso, merecem representação e leituras diferentes. O dia a dia dança em meio a metaforizações das mais diversas facetas, que o ensino da retórica nomeava. Fugimos a isso, dando preferência à identificação da coisa e seu grau de expressividade, mais ou menos intenso. Vejamos alguns: “tou morrendo de fome, de sono e de sede”; “minha vida era um palco iluminado”; “deixa em paz meu coração, ele é um pote até aqui de mágoa”; “tudo pelo social”; “ouvia-se o matraquear contínuo de máquinas de escrever”; “pastoreávamos a noite com nossos cajados de aguardente”; “este é um País que vai pra frente” (há uma metáfora cênica em que Juca Chaves cantava a musiquinha patrioteira e, ao entoar esta frase, dava alguns passos para trás); “entrou em cana”. Nelson Rodrigues, exalçando as habilidades de Mané Garrincha em aplicar um drible, dizia que “um guardanapo era um latifúndio para aquele infernal ponteiro.” Ruy Guerra escreveu uma espécie de biografia sobre Nelson Rodrigues, que intitulou “O Anjo Pornográfico” devido à dubiedade com que o povo brasileiro enxergava o teatrólogo e cronista esportivo pernambucano.
As metaforizações são sempre possíveis e inevitáveis: inscrevem-se no problema da linguagem, que, por sua vez, indaga, interpreta e problematiza o mundo. Revela-se muito cara na criação artística. Define a mediocridade e a grandeza de um dado artista, a ingenuidade dos tolos e a estreiteza mental de uma infinidade de parvos de ideias curtas e de língua solta.
É isso... “ O mundo é um moinho...”


                


PERGUNTAS DE HUGUS NEPOS – (2-11-2018)
Hugo Martins

Pediu-me Hugus Nepos explicar o sentido da expressão “ninguém pode estar acima da lei”. Depois, emendou outra indagação: “alguém pode estar em cima da lei”? Danou-se, nega do doce...
Esforçando-me por ser didático, propus-lhe acompanhar o raciocínio, procurando tomar pé do que vem ser, em essência, uma lei de cunho jurídico. Comecei por dizer que esse tipo de lei se presta a disciplinar conduta. É objeto de produto da cultura e, portanto, criação humana. Como animal social, muito dela necessita o homem para que as comunidades humanas convivam em harmonia. Pressupõe ela uma forma de contrato a que se dobram as vontades. Por exemplo: imagine-se o grupo social família, constituído por quatro membros. Se se estabelece entre eles qualquer norma, e um deles, por algum motivo, deixa de observá-la, esse alguém está se colocando acima dos comandos da lei posta pelo grupo. Assim é o Direito. Um náufrago que se estabelece numa ilha e por lá permanece por quinze anos não se submete a nenhum comando legal. Suponhamos que, num certo dia, apareça por lá um outro náufrago. Agora se estabelece o Direito. Como assim? O Direito se instala toda vez que possam surgir conflitos de interesse. Aqui, seus atores hão de estabelecer normas, mesmo que implícitas, para que a convivência entre eles seja harmoniosa. As hipóteses ora aventadas valem para todos, das situações mais comezinhas às mais complexas. Observe-se que Aristóteles, na era Clássica da cultura grega, estudou vários documentos com feição de Carta Constitucional. Da cultura romana, a civilização herdou o Direito, traduzido na norma escrita. Algumas civilizações, malgrado adotem o chamado Direito consuetudinário, aquele que se assenta nos costumes, não negligenciam a norma escrita. Em qualquer situação, a transgressão da norma traduz comportamento que coloca seu autor no rol dos que pretendem estar “acima da lei”. É por isso, que a maioria das normas vêm acompanhadas de uma determinada sanção. Ao fim e ao cabo, todos se devem dobrar ao império da lei.  A aplicação da lei deve ser igual para todos.
Quanto a estar em cima da lei, suficiente que o indivíduo lance mão de uma delas, um código penal, por exemplo, e coloque o traseiro sobre ele. Ou traga à baila um episódio em que o criminalista cearense Quintino Cunha, em brilhante atuação numa sessão do Tribunal do Júri, ouviu de um pretensioso promotor de justiça: “doutor Quintino, eu estou montado na Lei”!  Ao que redarguiu o espirituoso advogado: “pois o senhor tome muito cuidado, pois pode estar montando animal que não conhece. ”
Pois é...



PERGUNTAS DE HUGO NEPOS. 18-11-2018
Hugo Martins

Ele lera um texto de minha lavra e perguntou quem viria a ser o Barão de Montesquieu, por mim referido naquele texto. Pois bem...
Não é difícil responder, pois este filósofo francês - filiado ao Iluminismo tal Rousseau, D´Alamber, Diderot, Voltaire e Holbach, para citar os mais conhecido  -  assume relevância sem par, no pensamento jurídico, por haver concebido e criado a teoria da separação dos poderes. Como se dá a coisa conforme o filósofo? Para ele, o Poder é um só, mas, para alcançar seus fins, deve ser tripartite. É de se crer que sua tese levou em conta a natureza humana, sobretudo no que tange à Vaidade e à Cupidez, “virtudes” fundamente encravadas no Ser do Homem, esse “caniço pensante”, no dizer de Pascal, que pensa ser grande coisa.
Eis em que se resume a tese: “le pouvoir arrête le pouvoir” (o poder contém o poder). Desse modo, em todo governo democrático, há um Poder Legiferativo (o que estabelece as leis), O Poder Executivo (o que aplica as leis para atingir os fins que o Estado tem em mira) e o Poder Judiciário (o que aplica e vigia a aplicação das leis). Assim, a cada Poder cabe dada competência específica. Por isso, ocorre usurpação de função quando um dado Poder se imiscui na competência que não lhe diz respeito. Na verdade, numa leitura mais vertical daquela frase-tese do filósofo, é legítimo que enxerguemos algo mais grave, mais contundente e, sem arranhar o pensamento do Barão, acrescentemos à sentença um substantivo definitivo. Assim, com essa busca nas estruturas profundas da frase, esta ficaria: a sede pelo poder espicaça mais e mais e mais a volúpia pelo poder. A tripartição deste é a medida certa para certas medidas. Coisa muito parecida com “a luta de todos contra todos”, de Thomas Hobbes, quando disse que a presença do Estado é de extrema necessidade para a manutenção da paz social, pois “homo homini lúpus” – o homem é o lobo do homem. Estendendo a significação da frase, quebrando a dubiedade presente da primeira tradução: todo homem é um lobo para outro homem
Hugus Nepos aplaudiu Montesquieu e refletiu: “assim sendo a coisa, é bom lembrar aos desavisados que não deve existir absolutismo no governar. ” Montei no argumento de Hugus Nepos e raciocinei na clareza e na simplicidade da Lógica: quer dizer, todos devem baixar o cachaço ao império da Lei. Sim. Todos sem exceção. Não tem esse negócio de governantes e magistrados heroificados, que dizem casar e batizar, que farão isso e aquilo... Pode ser. Desde que suas ações e escolhas se submetam ao que está na legislação em vigor. Ou, por outra feita, seus complexos de mandarim e mandachuva podem conduzi-los a pensar, como os insanos e insensatos, em instalar, (para nós, mera hipótese), governo de áspero e antipático sabor ditatorial...
Ao fim e ao cabo, interessa mesmo é o pensamento do filósofo. Os Poderes passam, o pensamento fica, é eterno, é ciência. Lembrar, porém, que “cumprir a Constituição” não tem nada de heroico. É obrigação...




HISTÓRIA e histórias
Hugo Martins

Por dois caminhos se pode narrar a História, não importa se a local se a universal: ou da perspectiva do historiador oficial ou a partir da ótica do historiador revisionista. Se este cuida de expor os fatos perscrutando fontes que lhe oportunizem levar ao texto maior veracidade, sem se render aos arroubos patrioteiros, preso que fica à documentação comprobatória de todo jaez; aquele não passa de subserviente, um lambe-botas do poder, um desonesto, que busca pintar os fatos com as tintas do falso otimismo, colocando em evidência apenas o que exalta homens “importantes” ou põe em evidência fatos que interessem à classe que detém nas mãos o poder. Quem se der ao trabalho de ler a história do Brasil, que vai de 1º de abril de 1964 à eleição indireta de Tancredo Neves em 1986, período durante o qual o povo foi torturado, amordaçado por senhores de baraço e cutelo e engabelado pelo engodo da propaganda governista; ou, por outro lado, tiver a pachorra de ler os episódios da Guerra do Paraguai, em que Brasil, Argentina e Uruguai, entrelaçados numa ridícula e desigual tríplice aliança, cometeram contra o povo guarani toda sorte de atrocidades, que o historiador oficial finge não ver, certamente, este leitor poderá bem distinguir por que caminho optar.
A História oficial tem por vezo sapecar no período medieval (séc. V – XV) a tarja de “idade das trevas”. Tirante a igreja católica e as práticas nada delicadas da Santa Inquisição, não se há de malbaratar a filosofia daqueles tempos, a posta em evidência por Santo Agostinho, Abelardo, Santo Anselmo, e Santo Agostinho, a título de exemplo. Não vamos falar da Teoria Heliocêntrica do polonês Nicolau Copérnico... Quer dizer, o pensamento preconceituoso sobre os tempos medievais foi obra do homem renascentista, que nega o caráter de continuidade da História. Nenhuma ruptura existiu. A não ser a opção do pensador renascentista em guindar-se por eleger o modelo clássico de pensar o mundo.
Os sofistas, classe de filósofos na Grécia antiga, que costumavam ensinar mediante pagamento, também foram vítimas do preconceito. Na verdade, eram professores, cujas lições se traduziam em porfiar por desenvolver no e com o discípulo a habilidade da leitura e da escritura, bem como a  de construir discursos bem estruturados, sobretudo os voltados para a arte de convencer alguém. Se nos acostumamos a ver os sofistas como aqueles que ensinam a arte de enganar, pregando “verdades” por meio de construções lógicas que apenas aparentam veicular a verdade, devemos isso a Platão, que, no livro O Sofista, tratou de caricaturá-los. Ora, embair alguém por meio de engodos verbais não é apanágio dos sofistas, mas de qualquer homem que desenvolveu a habilidade lógico-linguística de levar ao interlocutor a miragem da verdade. Veja-se, por exemplo, Ciro Gomes, um tal de pastor Malafaia ou a farândola de políticos profissionais versada na arte de enganar o povo ingênuo. Não pretendo aqui ofender os sofistas Górgias e Protágoras, tampouco seus seguidores.
O sentido pejorativo do termo assumiu tal extensão, que o adjetivo “sofisticado” deriva diretamente da palavra sofista, como a designar aquilo que vem arreado, enfeitado, ajaezado de penduricalhos de variadas naturezas a desvirtuar o real sentido da palavra: professor itinerante que ensina, repetimos, a arte de argumentar e convencer.
 Digamos, plagiando Vandré: vamos com “a certeza na frente, a história na mão. ”  
Só isso.



ECCE HOMO (Eis o Homem)
Hugo Martins

Em momento de conversa informal, alguém pede que eu decline o nome do candidato à Presidência da República do Brasil (de minha preferência), que deverá surdir do pleito de 7 de outubro próximo. Respondi dizendo que estava proibido de fazê-lo, em atendimento ao que dispõe o art. 14 da já maltratada Constituição em vigor, que dispõe: “ A soberania popular será exercida pelo sufrágio e pelo VOTO DIRETO E SECRETO, com valor igual para todos...”. Nada mais cristalino, nada mais consentâneo com o espírito democrático...
De todo modo, confesso existir um político a quem eu não sonegaria meu voto por alimentar reverencial respeito ao discurso que empunha, como também pelos atos políticos por ele praticados, voltados, francamente, para o espírito do atingimento do SER da política: o alcance de um fim, que é o BEM-ESTAR de todos na mais ampla extensão semântica que exprime esse substantivo.
Um político que sempre me despertou simpatia e desperta, pois as atitudes dele, quando prefeito de uma cidade do interior de Alagoa, deixam embasbacado qualquer administrador da coisa pública, sinceramente cioso do seu mister, o de conduzir os negócios da polis com honestidade. Daí decorrem todas as demais virtudes, inscritas na ciência dos valores, a Axiologia.
Trata-se do senhor Graciliano Ramos, escritor alagoano, que foi bom em duas coisas: escrever e administrar. Abstenho-me de disserta sobre sua “arte de escrever”, pois o povo brasileiro deve ter lido toda sua obra romanesca; quanto à segunda coisa, lembro que no livro VIVENTES DAS ALAGOAS (coletânea de crônicas), acham-se encartados, no final do volume, DOIS RELATÓRIOS: um de 1928 e outro de 1930, em que o criador de Vidas Secas e São Bernardo, clássicos da literatura brasileira, enviou ao governador do Estado a título de prestação de contas.
Os Relatórios, pela redação, constituem uma aula de como redigir, tecnicamente, não importa que relatórios, bem como outra aula de como administrar a coisa pública. Minucioso, o prefeito não deixa passar nada, anota tudo o que foi feito, o que foi comprado, o que foi providenciado, ajuntando, ao fim, todos os recibos, incluindo até mesmo os centavos, além de apresentar justificativas relativas às ações levadas a efeito...
No último parágrafo do primeiro relatório, diz em tom de ironia: “Se minha estada por esses dois anos dependesse de mim um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos.”  Também, no último parágrafo, agora do segundo relatório, arremata: “O Município, que esperou dois anos, espera mais um. Mete na `Prefeitura um sujeito hábil e vinga-se dizendo de mim cobras e lagartos.”
Graciliano, como se vê, só suportou dois anos.
Eis aí um exemplo de candidato em quem eu votaria. O diabo é que ele não suportaria exercer o cargo, sobretudo nos sombrios dias de hoje.
Aliás, foi preso pelo Ditador Vargas. Razões: escrevia livros e era honesto, em todos os sentidos. Quando soube do anúncio de que  sua prisão seria efetuada, no mesmo dia,  foi para casa, pediu sua mulher, Heloísa, que lhe arrumasse as malas, pois ia “gozar férias” no Presídio da Ilha Grande. Episódio constante da obra Memórias do Cárcere (dois volumes), repositório de fatos históricos, incluindo a prisão de Olga Benário, mulher de Prestes, a qual morreria nos campos de concentração na Alemanha...
Pois é... Taí... Dia 7 colocarei meu voto na urna.


O POMO DA DISCÓRDIA
Hugo Martins

Para as bodas de Tétis e Peleu (futuros pais de Aquiles), não foi convidada Éris, a Deusa da Discórdia. À solenidade, estavam presentes Zeus, o rei dos deuses e dos homens; sua mulher Hera; Palas Atenas, a deusa da sabedoria e de olhos glaucos, bem como Afrodite, deusa da beleza e do amor.
Melindrada por tal desfeita, Éris pegou de uma maçã, nela escreveu o adjetivo PULCHÉRRIMA, que se traduz por “para a mais bela”, e jogou-a em direção a Zeus. Este, para não se envolver em questão tão delicada, resolveu enviar as três deusas ao príncipe troiano, Páris, para desenrolar o imbróglio. Aqui começa, um dos primeiros cenários explícitos de rasa corrupção. Iniciado o jogo, Hera ofereceu a Páris riqueza e poder; Palas Atena, sapiência, prudência e sensatez; a proposta de Afrodite pareceu a mais convincente. A deusa disse a Páris que, se ele a escolhesse, daria a ele o suprassumo da beleza, daria a ele Helena, considerada a mulher mais bela de todas. Páris escolheu Afrodite. Dessa sentença, teremos, como consequência o início do conflito bélico envolvendo gregos e troianos. Sem contar outras lições.
Aqui cabe uma reflexão. Primeiro, dizer que pomo é palavra derivada diretamente do latim, POMO, POMI, que significa fruto; segundo, que DISCÓRDIA também é palavra originária do latim e tem tudo a ver com coração: COR, CORDIS, a que se acrescenta o prefixo negativo DIS, antônimo de CON. Daí discórdia e concórdia. Por ordem, coração conturbado e coração aquietado. Os antigos colocavam toda sorte de emoções no coração.
´É de se crer, que Éris sempre está fazendo suas estripulias. Nos últimos tempos, na terra brasilis, deu de jogar o pomo da discórdia no meio da massa de gente , que  escolherá candidatos a ocupar cargos políticos para o exercício do Poder. A zoada já começou. Éris bem sabe que os homens são os mesmos em qualquer diapasão geográfico e histórico. Discursos de todas as facetas ideológicas vêm à tona; a sabedoria sensaborona e desmilinguida põe às claras suas múltiplas facetas, e os nossos páris” tupiniquins se engalfinham numa contenda sem fim, procurando convencer uns aos outros a colocar seus votos nas urnas, não para escolher o mais belo, mas o menos CORRUPTO para ocupar cargos eletivos nesse momento periclitante da democracia tupiniquim.
Que seja o eleitor orientado por Palas Atena... Contra Éris nada se pode fazer.








GRANDE SUSPIRO.
Hugo Martins

Virei a última página. Um tormento. Se a comédia pune pelo riso (Ridendo castigat mores. Rindo-se castigam-se os costumes), a tragédia, pelo espanto, o medo e o terror. Quando os deuses gregos querem afligir o homem, escolhem uma “vítima”, e o leitor que se aguente e suporte o suplício. Não é preciso passar por provas semelhantes às de Prometeu ou Sísifo. Necessário tão só ser animal pensante e convencer-se de que a dor doída faz parte da natureza do Ser. Só ter consciência da essência do Não-SER já se constitui doloroso sofrimento
Pois bem. Não li a obra de uma só cacetada. Não. Por tratar-se de releitura, sabia a que fui. Reli-a em pequenos sorvos. Não por masoquismo intelectual, mas para antegozar os acontecimentos, como sói acontecer (mutatis mutandis, mudando o que deve ser mudado) com noveleiros televisivos. Comparação meio infeliz, mas é a que me veio...
A peça se abre com o Rei Édipo pedindo paciência aos habitantes de Tebas, pois ele não regatearia esforços para encontrar o assassino de Laios, marido de Jocasta. O primeiro era seu pai, e Jocasta sua mãe e, depois, esposa com quem teve quatro filhos.
O deus Apolo jogara no destino de Édipo tal infortúnio. Bem que Laios tentou afastar-se, mandando dar sumiço no filho. O que não ocorreu. Terminou o bebê sendo criado pelo rei da cidade de Corinto. Já adulto, e dirigindo-se a Tebas, encontrou a cidade ameaçada pela Esfinge, que dizia só se afastar dali quando alguém decifrasse seus enigmas. Num deles, perguntava a quem se atrevesse a responder, sob pena de por ela ser devorado, “que animal, pela manhã, anda sobre quatro pés; à tarde, sobre dois; e, à noite, sobre três. O homem, disse Édipo. Casou-se com a rainha.  O pai ele já matara num conflito de meio de estrada. O livro não fornece uma só pista do porquê Édipo teria que enfrentar tanto sofrimento. Cremos que pelo fato de ser homem. O personagem poderia ser qualquer outro. Há o suplício de Prometeu, acorrentado ao Monte Cáucaso, aonde vinha, diariamente, uma grande águia devorar-lhe o fígado, que renascia todo santo dia; há o sofrimento de Sísifo, condenado rolar uma grande pedra da base ao pico de uma montanha. Só que a coisa se deu durante toda a eternidade, ele nunca chegava ao pináculo, pois a pedra voltava ao lugar de onde ele partira. O problema é que Édipo nada devia aos deuses. Era simplesmente um homem. Aos deuses gregos isso era suficiente. E os oráculos, muitas vezes, não se enganam. Ai do desgraçado sobre cujos ombros pesarem as predições de um deus. Vôte, canhoto. Ufa!!!!
Vale a pena ler a peça de Sófocles.



A MITOLOGIA COMO METALINGUAGEM
Hugo Martins
Deixo de lado os vários verbetes alinhados em dicionário, os quais fornecem o conceito de Mitologia. Em resumo: todos convergem para a ideia de que a Mitologia se ocupa da “contação” de histórias (mitos), em cuja estrutura figuram personagens extraordinários, nascidos da rica imaginação de aedos, rapsodos e poetas. Talvez o conceito mais preciso e não encontradiço em dicionários seja o fornecido por Fernando Pessoa que, no poema, Ulisses, da obra Mensagem, diz: “O MITO É O NADA QUE É TUDO”. Em outras palavras, o que se revela nas narrativas (mitos) mitológicas claramente inverídico e irreal torna-se, paradoxalmente, real e verídico. É algo semelhante ao que se diz da Literatura: uma grande mentira que revela uma grande verdade.
 Sem que percebamos de logo, a mitologia, sobretudo a greco-latina, está, invisivelmente, presente no cotidiano de cada um de nós. Citemos algumas frases e ditos usados no dia a dia para, numa outra ocasião, fornecermos seu significado originário. Para início de conversa, a Psicanálise, faceta da Psicologia, surgida da genialidade do médico austríaco Sigmund Freud, a muito recorre aos mitos, sobretudo no tocante à interpretação dos sonhos (existe obra homônima do autor), bem como ao comportamento humano, traduzido na história de Édipo, rei de Tebas, figurando como exemplo do homem vítima do destino... Corriqueira a expressão “complexo de Édipo”... Voltaremos ao tema...
Por agora, vamos transcrever algumas locuções presentes nos diversos mitos greco-latinos e bastante utilizados no cotidiano quando que se pretende exprimir um dado da realidade por meio de metáforas mitológicas...
Aí vão aspeadas. Em outro momento traremos o mito (história) em que elas aparecem...
“Labirinto de Dédalo”, projetos “quiméricos”, fio de “Ariadne”, “beleza de “Apolo”, “pomo da discórdia”, “sonho de Ícaro”... Lista meramente referencial, pois outras locuções serão aqui trazidas à medida que formos desenvolvendo o sentido das retro mencionadas e outros “causos como, por exemplo, a origem de Afrodite (Vênus entre os romanos), episódio traduzido artisticamente na tela do pintor italiano renascentista Sandro Botticelli, com o título O Nascimento de Vênus...
Tem mais, internautas, navegadores não tão heroicos quanto Jasão e os argonautas, mas, também, em busca de algum velocino de ouro no mar revolto de várias e multifacetadas realidades...`
Nauta provém do latim (nauta, nautae – marinheiro, navegador), e Argos é o nome do sujeito que construiu a nau de Jasão e seus companheiros. A partir daí é fácil deduzir o sentido do termo internauta por meio do prefixo INTER (preposição latina – entre) e NET (termo inglês que significa, aqui, rede, não a de dormir, mas a entretecida por uma porrada de informação, que, por vezes, ataranta, bestifica, bestializa, burrifica, estupidifica e idiotiza. E não se trata, no caso, de MITOLOGIA, mas de uma realidade nua e crua, possível de ser interpretada pela MITOLOGIA...
Legal, né não?





DEFINIÇÕES
Hugo Martins

A rigor, não é apropriado apodar-se quem quer que seja de mito. Na verdade, o mito é um relato, cujos personagens, deuses (imortais) e heróis (mortais) tomam parte de uma história, que quer ser, tal como a literatura, uma interpretação de um dado da realidade ou da condição humana. Assim, Zeus é um deus e não um mito. As histórias de que ele participa são mitos. Tântalo, Sísifo, Prometeu, Héracles, Palas Atenas, Teseu, Dioniso, Ariadne, Dédalo, Jasão, Sileno e tantos outros personagens da mitologia grega não são mitos. Participam do mito.
Fernando Pessoa diz, no poema Ulisses, da obra A Mensagem, que o “mito é o nada que é tudo.” Com esse conceito, o poeta português quis dizer que o mito, tal a obra literária, encerra “mentiras”, que encerram grandes verdades. Tudo depende do intérprete, que, ungido do espírito daquela frase aspeada, poderá desencavar, da leitura de um mito, inúmeras interpretações...  Não é à toa que os mitos experimentam o mesmo gosto de eternidade próprio das obras literárias.
Por outro lado, personagens da vida real podem mentir deslavadamente na literatura, por exemplo. Lembro, nesse sentido, um apanhado de narrativas colhidas da sabedoria popular, que mestre Graciliano Ramos, de modo honesto, compilou no volume Alexandre e Outros Heróis, que inspirou Chico Anísio a criar o personagem Pantaleão que contava histórias de que o próprio capeta podia duvidar. A esse tipo personagem, também encontradiço entre os homens, na vida real, os psicólogos costumam chamar de mitômanos. Quer dizer: mitômano é o mentiroso costumeiro e contumaz. Alguns o são por doença; outros por desejarem tirar algum proveito para si mesmos, embaindo os tolos, os pacóvios, os otários, os parvos, os ingênuos e os idiotas susceptíveis. Deles há que utilizam o artifício para ganhar eleições. Além disso, dão crédito absoluto na frase de Goebbels, ideólogo nazista que orientou o satânico Adolfo, dizendo que “uma mentira repetida mil vezes acaba por se tornar verdade.” Assim age o mitômano que deseja levar vantagens nos seus projetos sórdidos apregoando a mentira com aparência de verdade. Não confundir com o mito, que guarda identidade com a literatura. O mitômano, na perspectiva desse texto, é inescrupuloso, salafrário e desavergonhado, que bem sabe da existência de um exército de crédulos mentecaptos...
É isso...



NADA DE ENGRAÇADO
Hugo Martins.

A canção ABC do Sertão, composição de Zé Dantas, em parceria com Luiz Gonzaga, traz a expressão “Lá no meu sertão pros caboclos lê/ Têm que aprender um outro ABC...” Daí então, o rei do baião repete, de cor e salteado, o “ABC do sertão”, arrimando-se numa suposta pronúncia matuta, emprestando a ela um tom de gracejo sadio. Entende-se a intenção dos letristas em salpicar suas canções com a “nordestinidade”, preocupação sempre presente na obra de um de outro, mas a letra não espelha a verdade. Vejamos por que.
Em qualquer aula sobre fonologia e fonética, a primeira coisa que se deve levar a efeito é a diferença entre grafema (letra) e fonema (som). Ensina-se que temos, em língua portuguesa, cinco vogais. Falso. Na verdade, temos cinco letras vocálicas para representar, foneticamente, os sons vocálicos, que, na realidade, são sete (a, é ê, i, ó, ô, u). O mesmo se dá com os sons consonantais, que podem ser representados por diversos grafemas (letras), tudo depende do contexto. A letra C, por exemplo, tem duas realizações fônicas, (ká) em casa, cavalo, mas (cê) em cidade, cessão, cedo. Pensemos no grafema J, que tem valor de (gê), em jato, jeito, jia, jota, junto... Já o grafema G tem duas realizações fônicas, (guê) em garrafa, garupa, garoa, praga, mas pode representar o som (gê) em girafa, página, gelo. O grafema S é (zê) em mesa, (cê) em sala e sola.
Para entender o mecanismo das realizações fônicas respeitantes às chamadas consoantes, há de se entender que estas recebem este nome para o qual não temos olhos nem ouvidos. Consoante é o que “soa com”. Por isso, a consoante só se realiza quando se apoia no fonema vocálico. Experimente iniciar a pronúncia da palavra “pé”, “pá”, “pó” sem pronunciar o fonema vocálico “é”. Antes de fazer o sugerido, tire uma fotografia, que, certamente, mostrará você apertando o lábio superior ao inferior. Quer dizer, não existe, foneticamente, o fonema consonantal senão se apoiado em qualquer fonema vocal. Sem este, só há esgares e caretas.
Como na canção, é claro que o J é (gê) ou (gi) como diz o compositor. Claro que o L é (lê), bem como o M é (ê) e o N é (nê). Nem sempre, pois muitas vezes estas duas letras podem servir apenas para assinalar a nasalidade de uma dada vogal. Em “campo”, “cento”, “cinto”, “sinto”, “sonso”, assim como em sombra, semblante e simples, o M e o N não são (mê), tampouco (nê), apenas indicadores de nasalização da vogal com que se relacionam.
Só para lembrar, a letra Y, que voltou , oficialmente, a fazer parte do abecedário da língua portuguesa, grafema a que João do Vale, interpretado por Jackson do Pandeiro, na letra Sebastiana, chama de Pissilone, no lugar de “ípsilon” (proparoxítona) ou ipisílon (paroxítona), conforme registram os dicionários, na verdade deve ser chamada de “i” grego (como dizem os franceses), pois os falantes desta língua pronunciam-na como se fosse um misto de “u” e “”i”, sempre com os lábios arredondados, formando o famoso “bico francês”. Entre nós, lusófonos, o Y soa I.  Nós, brasileiros, também pronunciamos alguns de nossos sons vocálicos “ó”, “ô” e “u”, fazendo biquinho. Faça-se a experiência pronunciando as palavras “ovo, “uma”, “vovô, “bora”, “uva”, “burro”, “porrada”.  Legal, né não?
Assim, no sertão, o ABC continua o mesmo sem tirar nem pôr e, também, sem nenhum toque humorístico. Continua o mesmo, sim, porque pronunciado pelos falantes de língua portuguesa... Cada letra ou o encontro delas com a tintura fônica adequada...
Fiquem ressalvadas, porém, as boas intenções dos compositores.
É isso...








SINAL FECHADO
Hugo Martins

Com esta canção, Paulino da Viola foi o vencedor do Festival da Canção em 1969, época em que a Ditadura alçou voos mais altos, pois, no dia 13 de dezembro do ano anterior, foi baixado o AI5, expressão mais perversa dos efeitos da Redentora. Era “Presidente”, o general Costa e Silva, que morreu em agosto de 1969 em consequência de um derrame. Deveria ter sido substituído, legalmente, por seu vice, o civil Pedro Aleixo. Assumiu, porém, uma junta militar constituída de três ministros militares, a quem o
deputado federal Ulisses Guimarães chamava de “os três patetas”, que, no mesmo ano, “emendam” a Constituição de 1967, de onde surdiu a Constituição nada democrática de 1969.
Lembrar que a Ditadura, até então, bateu, humilhou, censurou, castrou a livre expressão, fechou o Congresso Nacional, cassou todos os direitos e liberdades públicas dos cidadãos, trucidou a criação artística torturou, matou, deu sumiço a muita gente, mentiu, enganou, engazopou, embaiu... Está na História. Leia-se Bóris Fausto, Elio Gaspari (5 volumes), afora testemunhos documentados nas obra Tortura, de Antonio Carlos Fon , ou Brasil Nunca Mais (obra organizada pelo então cardeal Dom Paulo Evaristo Arns (macho que só preá), que se inspirou na obra Nunca Más do escritor argentino Ernesto Sábato, afora jornais da época como Opinião, o Pasquim, Movimento, que eram apodados no título “imprensa nanica”. A nosso ver, era uma imprensa gigante. Nela escreviam ou diziam alguma coisa Ênio da Silveira. Millôr Fernandes, Ziraldo, Jaguar, Ivan Lessa. Paulo Francis, Ruy Castro, Tasso de Castro, Henfil... Todos eles tiveram problema com a censura
Hoje, alguns caras de pau que se fazem de besta, ou são ignorantes mesmo, negam ter havido ditadura aqui no Brasil,  como assevera um sábio cronista social cearense, que não enxerga um palmo adiante do nariz, pois está voltado para o doce mister das futilidades cotidianas de dondocas e que tais.
Voltemos a Sinal Fechado. Em 1974, Chico Buarque de Holanda, que, em palpos de aranha com a porra da censura, gravou-a e ainda tirou sarro com censores e outros animais da mesma fauna. Que fez o compositor para isso? É sabido que Chico sofria perseguição incontida da censura. Metaforizador de primeira grandeza, lançou um disco com o título CHICO: SINAL FECHADO. Onde está a jogada chute nos ovos dos censores? Das doze músicas nenhuma era da lavra de Chico. Foda, não bicho?
Perdi-me em comentários. Aí vai a música. Interprete-a como achar melhor.





NORDESTINADA
Hugo Martins
O art. 60, no parágrafo 4º, da Constituição Federal, promulgada em 5 de outubro de 1988, diz, claramente, na alínea I, que “ não pode ser objeto de deliberação a proposta de emenda TENDENTE a abolir, por exemplo, “a forma federativa de Estado”. Em seguida, enfileira mais três que, somadas à aspeada, constituem, no jargão jurídico, as chamadas “cláusulas pétreas.”  Por isso, não passa de ingenuidade das mais francas o discurso de analfabetos funcionais que se esgoelam sugerindo, em sua santa burrice, separar o Nordeste dos Estados que formam a Federação brasileira. Aqui não se trata de xenofobia. Esta diz respeito à ojeriza, a ódio ou coisa que o valha, a ESTRANGEIROS. Nos limites jurídico-geográficos de um país, aquela acepção soa a analfabetismo dos mais “brabos”.
Outro ponto a ponderar, que, vez e outra, aparece por essas plagas, é a grita de grupelhos embrutecidos pela mais sã ignorância, a lançar toda sorte de insultos aos NORDESTINOS. Abstenho-me de alinhá-los, já são sobejamente conhecidos pela carga de preconceitos odiosos que carreiam
Uma farândola de idiotas deu agora de descompor a valorosa gente do Nordeste porque essa gente, intelectualmente bem-dotada, exerceu o direito de votar e escolher um candidato que não é do agrado de alguns habitantes do Sudeste, que se julgam superiores a nós. Trata-se de postura pretensiosa, ingênua e burra (o quadrúpede vai nos desculpar a comparação), que dá bem a medida da estatura do “fela da gaita” desconhecedor da História, do Direito e da Ciência Política.. Um deles nos chamou de bípedes... Ora, ora, ora ora... Ele deve ser um quadrúpede escoiceador dos mais ensandecidos...
Já em outra oportunidade, fiz ver que o povo nordestino, “os paraíbas”, é gente de valor, que se sobressai em toda área do conhecimento humano. Vamos enfileirar algumas cabeças nordestinas que, de algum modo, pensaram e pensam o Brasil e o constroem. Vão anotando aí essa lista de nomes: José de Alencar, Castro Alves, Sílvio Romero, Tobias Barreto, Capistrano de Abreu, Antonio Sales, Clóvis Beviláqua, José Américo de Almeida, Augusto dos Anjos, Alberto Nepomuceno Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, Aurélio Buarque de Holanda, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Austregésilo de Athayde, Aluisio Azevedo, Josué Montelo, Ferreira Goulart, Paulo Bonavides, Raimundo Farias Brito, Celso Furtado, Luiz Gonzaga, Sivuca, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro, Humberto Teixeira, Luiz Assunção, Belchior, Caetano Veloso, Gilberto Gil... Tem mais... A memória está me falhando. Olhem que é gente da melhor qualidade. É jurista, é filósofo, é poeta, é romancista, é músico erudito, é menestrel, é compositor popular, é cantor do cancioneiro popular, é antropólogo, é historiador. É gente “comustodo”.
 E mais. O pior é quando a moçada estudiosa sai daqui para disputar “olimpíadas” estudantis nessa ou naquela matéria em qualquer parte do país e abocanha, como regra, mais de setenta por cento das medalhas. Quando se trata de certames no estrangeiro, a negada não foge à regra, sempre trata de trazer medalhas... Ô povo bom...
Por isso, senhores bobalhões e toleirões, quando se referirem ao Nordeste, lavem bem a bocarra e, em seguida, fechem-na para não dizer asneiras. Ainda assim, a nossa grandeza perdoa a ignorância de vocês e lhes oferece um brinde: CHUPA QUE É DE UVA. Depois vão se ocupar em pentear macacos ou enfiar peido em cordão.
Votamos em quem queremos e grávidos de convicção em nossas escolhas. Doa a quem doer.





EQUÍVOCOS

HugoMartins

A canção Balada número 7, composta por Alberto Luís em 1971 e interpretada por Moacir Franco, homenageia o maior ponteiro direito do futebol mundial, Mané Garrincha, jogador do Botafogo do Rio de Janeiro, ao lado de Nílton Santos, Didi, Amarildo e Zagalo, todos titulares absolutos da Seleção brasileira de futebol, que, em 1962, conquistou o bicampeonato na Copa do Mundo, disputada no Chile. Pois bem... Na verdade, de início, pretendia o compositor homenagear Ypojucan, jogador do Vasco da Gama, que estava internado, muito doente, já às porta da morte. Quando mostrou a letra a Moacir Franco, este, de um estalo de Vieira, propôs decantar Mané Garrincha, coisa que depois fez em pleno Maracanã, diante de cento e cinquenta mil pessoas, que foram prestigiar Mané Grarricha num embate envolvendo Seleção do mundo e a Seleção brasileira, numa espécie de preito de gratidão ao infernal ponteiro. Garrincha estava, então, com quarenta anos de idade. A canção foi entoada antes do jogo e provocou forte emoção e muito choro nos que lá estavam...
A reflexão surgiu devido à leitura que acabo de fazer da biografia de outro jogador do Botafogo, muito, mas muito mais excêntrico que Mané. Morreu aos 39 anos, num hospital psiquiátrico, totalmente abatido e destroçado pela loucura. Trata-se de Heleno de Freitas, que também é homenageado por Benito di Paula, na canção Tributo a um Rei Esquecido... Quem posta na Internet o video em que aparecem cenas para ilustrar a canção quem lá aparece é Mané Garrincha e não Heleno de Freitas. Eis o equívoco. Para constatar, é necessário ler a biografia de Garrincha, escrita pelo jornalista carioca Ruy Castro. Título da obra: A Estrela Solitária, metáfora extensiva tanto ao time do Botafogo quanto ao craque Mané Garrincha...
Se Mané parecia ser simplório; Heleno ostentava ares de aristocrata falastrão e narcisista. Garrincha tinha como maior diversão refugiar-se na sua cidade natal, Pau Grande, no estado do Rio de Janeiro, e lá participar de "peladas" com os amigo, caçar passarinhos e beber cachaça. Heleno era frequentador de altas rodas sociais, onde desfilava com ternos e sapatos da última moda, era formado em Direito e só bebia uísque ou vinho. Garrincha não ostentava nenhuma beleza física, sua alma parecia irmanar-se com o  modo de ser de Carlitos, personagem de Chaplin: desajeitado, vocabulário limitado, sorriso franco e sincero, pouco dado à frequência a rodas sociais. Trazia no rosto uma aura de simplicidade e bondade. Heleno era um tipo bonito. Alto, esguio, cabelos repartidos para o lado e fixados com brilhantina. Formava o tipo cinematográfico a la Marlon Brando. Era perseguido e adorado pelas beldades e dondocas frequentadoras do Copacabana Palace...
Trocando em miúdos, Heleno era um rei, na mania monarquista do povo brasileiro, e Mané Garrincha, um plebeu desgracioso e sem vaidade. É diante de tais retratos que vejo na canção de Benito referência clara a Heleno Freitas e não a Mané Garrincha.
Garrincha permanece na lembrança de quem o viu no Maracanã, encantando a todos com jogadas, a um tempo, mirabolantes e engraçadas. Era conhecido como Alegria do Povo. O pouco que conheço de Heleno de Freitas devo ao testemunho e à fala da crônica esportiva. Dizem que jogava bonita e elegantemente. Dizem que se tivesse participado da Seleção que perdeu a Copa em 1950 para o Uruguai, o resultado teria sido favorável aos brasileiros, e Obdulo Varela teria baixado o cachaço à valentia, ousadia e o destempero verbal, marcas vivas da personalidade de Heleno de Freitas...
Duas vidas interessantes tanto pela comicidade quanto pela tragicidade da existência...

Eis aí...



EQUÍVOCOS

HugoMartins

A canção Balada número 7, composta por Alberto Luís em 1971 e interpretada por Moacir Franco, homenageia o maior ponteiro direito do futebol mundial, Mané Garrincha, jogador do Botafogo do Rio de Janeiro, ao lado de Nílton Santos, Didi, Amarildo e Zagalo, todos titulares absolutos da Seleção brasileira de futebol, que, em 1962, conquistou o bicampeonato na Copa do Mundo, disputada no Chile. Pois bem... Na verdade, de início, pretendia o compositor homenagear Ypojucan, jogador do Vasco da Gama, que estava internado, muito doente, já às porta da morte. Quando mostrou a letra a Moacir Franco, este, de um estalo de Vieira, propôs decantar Mané Garrincha, coisa que depois fez em pleno Maracanã, diante de cento e cinquenta mil pessoas, que foram prestigiar Mané Grarricha num embate envolvendo Seleção do mundo e a Seleção brasileira, numa espécie de preito de gratidão ao infernal ponteiro. Garrincha estava, então, com quarenta anos de idade. A canção foi entoada antes do jogo e provocou forte emoção e muito choro nos que lá estavam...
A reflexão surgiu devido à leitura que acabo de fazer da biografia de outro jogador do Botafogo, muito, mas muito mais excêntrico que Mané. Morreu aos 39 anos, num hospital psiquiátrico, totalmente abatido e destroçado pela loucura. Trata-se de Heleno de Freitas, que também é homenageado por Benito di Paula, na canção Tributo a um Rei Esquecido... Quem posta na Internet o video em que aparecem cenas para ilustrar a canção quem lá aparece é Mané Garrincha e não Heleno de Freitas. Eis o equívoco. Para constatar, é necessário ler a biografia de Garrincha, escrita pelo jornalista carioca Ruy Castro. Título da obra: A Estrela Solitária, metáfora extensiva tanto ao time do Botafogo quanto ao craque Mané Garrincha...
Se Mané parecia ser simplório; Heleno ostentava ares de aristocrata falastrão e narcisista. Garrincha tinha como maior diversão refugiar-se na sua cidade natal, Pau Grande, no estado do Rio de Janeiro, e lá participar de "peladas" com os amigo, caçar passarinhos e beber cachaça. Heleno era frequentador de altas rodas sociais, onde desfilava com ternos e sapatos da última moda, era formado em Direito e só bebia uísque ou vinho. Garrincha não ostentava nenhuma beleza física, sua alma parecia irmanar-se com o  modo de ser de Carlitos, personagem de Chaplin: desajeitado, vocabulário limitado, sorriso franco e sincero, pouco dado à frequência a rodas sociais. Trazia no rosto uma aura de simplicidade e bondade. Heleno era um tipo bonito. Alto, esguio, cabelos repartidos para o lado e fixados com brilhantina. Formava o tipo cinematográfico a la Marlon Brando. Era perseguido e adorado pelas beldades e dondocas frequentadoras do Copacabana Palace...
Trocando em miúdos, Heleno era um rei, na mania monarquista do povo brasileiro, e Mané Garrincha, um plebeu desgracioso e sem vaidade. É diante de tais retratos que vejo na canção de Benito referência clara a Heleno Freitas e não a Mané Garrincha.
Garrincha permanece na lembrança de quem o viu no Maracanã, encantando a todos com jogadas, a um tempo, mirabolantes e engraçadas. Era conhecido como Alegria do Povo. O pouco que conheço de Heleno de Freitas devo ao testemunho e à fala da crônica esportiva. Dizem que jogava bonita e elegantemente. Dizem que se tivesse participado da Seleção que perdeu a Copa em 1950 para o Uruguai, o resultado teria sido favorável aos brasileiros, e Obdulo Varela teria baixado o cachaço à valentia, ousadia e o destempero verbal, marcas vivas da personalidade de Heleno de Freitas...
Duas vidas interessantes tanto pela comicidade quanto pela tragicidade da existência...

Eis aí...



EQUÍVOCOS

HugoMartins

A canção Balada número 7, composta por Alberto Luís em 1971 e interpretada por Moacir Franco, homenageia o maior ponteiro direito do futebol mundial, Mané Garrincha, jogador do Botafogo do Rio de Janeiro, ao lado de Nílton Santos, Didi, Amarildo e Zagalo, todos titulares absolutos da Seleção brasileira de futebol, que, em 1962, conquistou o bicampeonato na Copa do Mundo, disputada no Chile. Pois bem... Na verdade, de início, pretendia o compositor homenagear Ypojucan, jogador do Vasco da Gama, que estava internado, muito doente, já às porta da morte. Quando mostrou a letra a Moacir Franco, este, de um estalo de Vieira, propôs decantar Mané Garrincha, coisa que depois fez em pleno Maracanã, diante de cento e cinquenta mil pessoas, que foram prestigiar Mané Grarricha num embate envolvendo Seleção do mundo e a Seleção brasileira, numa espécie de preito de gratidão ao infernal ponteiro. Garrincha estava, então, com quarenta anos de idade. A canção foi entoada antes do jogo e provocou forte emoção e muito choro nos que lá estavam...
A reflexão surgiu devido à leitura que acabo de fazer da biografia de outro jogador do Botafogo, muito, mas muito mais excêntrico que Mané. Morreu aos 39 anos, num hospital psiquiátrico, totalmente abatido e destroçado pela loucura. Trata-se de Heleno de Freitas, que também é homenageado por Benito di Paula, na canção Tributo a um Rei Esquecido... Quem posta na Internet o video em que aparecem cenas para ilustrar a canção quem lá aparece é Mané Garrincha e não Heleno de Freitas. Eis o equívoco. Para constatar, é necessário ler a biografia de Garrincha, escrita pelo jornalista carioca Ruy Castro. Título da obra: A Estrela Solitária, metáfora extensiva tanto ao time do Botafogo quanto ao craque Mané Garrincha...
Se Mané parecia ser simplório; Heleno ostentava ares de aristocrata falastrão e narcisista. Garrincha tinha como maior diversão refugiar-se na sua cidade natal, Pau Grande, no estado do Rio de Janeiro, e lá participar de "peladas" com os amigo, caçar passarinhos e beber cachaça. Heleno era frequentador de altas rodas sociais, onde desfilava com ternos e sapatos da última moda, era formado em Direito e só bebia uísque ou vinho. Garrincha não ostentava nenhuma beleza física, sua alma parecia irmanar-se com o  modo de ser de Carlitos, personagem de Chaplin: desajeitado, vocabulário limitado, sorriso franco e sincero, pouco dado à frequência a rodas sociais. Trazia no rosto uma aura de simplicidade e bondade. Heleno era um tipo bonito. Alto, esguio, cabelos repartidos para o lado e fixados com brilhantina. Formava o tipo cinematográfico a la Marlon Brando. Era perseguido e adorado pelas beldades e dondocas frequentadoras do Copacabana Palace...
Trocando em miúdos, Heleno era um rei, na mania monarquista do povo brasileiro, e Mané Garrincha, um plebeu desgracioso e sem vaidade. É diante de tais retratos que vejo na canção de Benito referência clara a Heleno Freitas e não a Mané Garrincha.
Garrincha permanece na lembrança de quem o viu no Maracanã, encantando a todos com jogadas, a um tempo, mirabolantes e engraçadas. Era conhecido como Alegria do Povo. O pouco que conheço de Heleno de Freitas devo ao testemunho e à fala da crônica esportiva. Dizem que jogava bonita e elegantemente. Dizem que se tivesse participado da Seleção que perdeu a Copa em 1950 para o Uruguai, o resultado teria sido favorável aos brasileiros, e Obdulo Varela teria baixado o cachaço à valentia, ousadia e o destempero verbal, marcas vivas da personalidade de Heleno de Freitas...
Duas vidas interessantes tanto pela comicidade quanto pela tragicidade da existência...

Eis aí...