NUM RELACIONAMENTO SÉRIO
Hugo Martins
Corriam os anos 70. O ar
pesado. O direito à livre expressão amordaçado. Era esperável. Tudo era proibido. Só não era proibido proibir o amar por amar,
na sua gratuidade, livre da tarja de editos proibitórios e outras invencionices
legais.
Meu coração estava livre,
leve e solto. Exposto, por assim dizer, aos perigos e armadilhas dos acasos.
Nesses tempos de nuvens negras, costumava eu ir a cinemas ou apreciar o recheio
de biquínis teens nas praias de Fortaleza; às vezes, batia uma bola nas areias;
às vezes, pegava o rabo de uma onda e aventurava-me a nadar entre a praia do
Náutico e a praia dos Diários. Foi nessa época que a conheci. Nada nela
chamou-me mais a atenção que o fulgor de sua inteligência. Conversava com a
desenvoltura de um boêmio culto na mesa de um bar. Era pródiga no conhecimento
da literatura brasileira, desde os primórdios, quando aqui se deu início a uma
História cultural, até os tempos hodiernos. História, para ela, não se reduzia
ao puramente episódico ou factual. Pelo contrário, a dinâmica do drama do homem
no tempo e no espaço, não só no Brasil, mas também no concerto universal, ela
esmiuçava com o mesmo rigor analítico dos historiadores de grande porte de um
Capistrano de Abreu ou de um Eric Hobsbawm... Sou interesseiro. Muito me agrada
explorar, no bom sentido, quem tem algo a me acrescentar... E ela tinha... Pude
isso perceber num único encontro que tivemos numa livraria de Fortaleza.
Conversamos longamente, trocamos olhares, sorrisos, mas nada de promessas
quiméricas. Infelizmente, havia entre nós uma barreira: a questão financeira,
coisa ironicamente decisiva para a continuação de alguns relacionamentos
amorosos. Leis da vida. Só cabia a mim a resignação. Lá se foi o tempo;
instalou-se o esquecimento. Nem tanto, nem tanto...
Surpresa. Nem tudo está
perdido. Reencontrei-a depois de uma quase trintena de anos. No mesmo local, no
mesmo horário, num mesmo sábado. Reencontrei-a. Não me pareceu Marcela em segunda
edição no romance machadiano. Não. Apesar de algumas marcas indeléveis do
tempo, mantinha ainda a juventude que se transfigura, magicamente, no olhar e
no ar que Deus lhe deu. Claro que conversamos longamente. Novamente pude
perceber quão nos faz bem tudo que emana das almas ricas de e pródigas em
cultura humanística. Hoje, viúva, mãe de seis filhos, livre de qualquer entrave
sentimental, aceitou minhas investidas de homem interesseiro e cada vez mais
carente de estar perto de gente gente. Desde então, entabulamos um trato de nos
mantermos juntos e inseparáveis no laço forte e inquebrantável de um
RELACIONAMENTO SÉRIO. E duradouro...
Foi assim que reencontrei
a obra HISTÓRIA DA INTELIGÊNCIA BRASILEIRA, do crítico literário Wilson
Martins, uma publicação da Editora Cultrix, de1973, em sete garbosos e
alentados volumes. Já trocamos algumas carícias e ensaiamos alguns colóquios.
Espero, sem desejar ser indiscreto ou leviano, dar publicidade a algumas cenas
saídas de nossos constantes encontros. A questão financeira, por óbvio, não
mais é...
Nosso amor, plagiando o
poeta, será eterno enquanto durar. Assim espero.