sexta-feira, 14 de dezembro de 2018


NUM RELACIONAMENTO SÉRIO
Hugo Martins

Corriam os anos 70. O ar pesado. O direito à livre expressão amordaçado. Era esperável.  Tudo era proibido.  Só não era proibido proibir o amar por amar, na sua gratuidade, livre da tarja de editos proibitórios e outras invencionices legais.
Meu coração estava livre, leve e solto. Exposto, por assim dizer, aos perigos e armadilhas dos acasos. Nesses tempos de nuvens negras, costumava eu ir a cinemas ou apreciar o recheio de biquínis teens nas praias de Fortaleza; às vezes, batia uma bola nas areias; às vezes, pegava o rabo de uma onda e aventurava-me a nadar entre a praia do Náutico e a praia dos Diários. Foi nessa época que a conheci. Nada nela chamou-me mais a atenção que o fulgor de sua inteligência. Conversava com a desenvoltura de um boêmio culto na mesa de um bar. Era pródiga no conhecimento da literatura brasileira, desde os primórdios, quando aqui se deu início a uma História cultural, até os tempos hodiernos. História, para ela, não se reduzia ao puramente episódico ou factual. Pelo contrário, a dinâmica do drama do homem no tempo e no espaço, não só no Brasil, mas também no concerto universal, ela esmiuçava com o mesmo rigor analítico dos historiadores de grande porte de um Capistrano de Abreu ou de um Eric Hobsbawm... Sou interesseiro. Muito me agrada explorar, no bom sentido, quem tem algo a me acrescentar... E ela tinha... Pude isso perceber num único encontro que tivemos numa livraria de Fortaleza. Conversamos longamente, trocamos olhares, sorrisos, mas nada de promessas quiméricas. Infelizmente, havia entre nós uma barreira: a questão financeira, coisa ironicamente decisiva para a continuação de alguns relacionamentos amorosos. Leis da vida. Só cabia a mim a resignação. Lá se foi o tempo; instalou-se o esquecimento. Nem tanto, nem tanto...
Surpresa. Nem tudo está perdido. Reencontrei-a depois de uma quase trintena de anos. No mesmo local, no mesmo horário, num mesmo sábado. Reencontrei-a. Não me pareceu Marcela em segunda edição no romance machadiano. Não. Apesar de algumas marcas indeléveis do tempo, mantinha ainda a juventude que se transfigura, magicamente, no olhar e no ar que Deus lhe deu. Claro que conversamos longamente. Novamente pude perceber quão nos faz bem tudo que emana das almas ricas de e pródigas em cultura humanística. Hoje, viúva, mãe de seis filhos, livre de qualquer entrave sentimental, aceitou minhas investidas de homem interesseiro e cada vez mais carente de estar perto de gente gente. Desde então, entabulamos um trato de nos mantermos juntos e inseparáveis no laço forte e inquebrantável de um RELACIONAMENTO SÉRIO.  E duradouro...
Foi assim que reencontrei a obra HISTÓRIA DA INTELIGÊNCIA BRASILEIRA, do crítico literário Wilson Martins, uma publicação da Editora Cultrix, de1973, em sete garbosos e alentados volumes. Já trocamos algumas carícias e ensaiamos alguns colóquios. Espero, sem desejar ser indiscreto ou leviano, dar publicidade a algumas cenas saídas de nossos constantes encontros. A questão financeira, por óbvio, não mais é...
Nosso amor, plagiando o poeta, será eterno enquanto durar. Assim espero.

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