HISTÓRIA e histórias
Hugo Martins
Por dois caminhos se pode narrar a História, não importa se a
local se a universal: ou da perspectiva do historiador oficial ou a partir da
ótica do historiador revisionista. Se este cuida de expor os fatos perscrutando
fontes que lhe oportunizem levar ao texto maior veracidade, sem se render aos
arroubos patrioteiros, preso que fica à documentação comprobatória de todo jaez;
aquele não passa de subserviente, um lambe-botas do poder, um desonesto, que
busca pintar os fatos com as tintas do falso otimismo, colocando em evidência
apenas o que exalta homens “importantes” ou põe em evidência fatos que
interessem à classe que detém nas mãos o poder. Quem se der ao trabalho de ler
a história do Brasil, que vai de 1º de abril de 1964 à eleição indireta de
Tancredo Neves em 1986, período durante o qual o povo foi torturado, amordaçado
por senhores de baraço e cutelo e engabelado pelo engodo da propaganda
governista; ou, por outro lado, tiver a pachorra de ler os episódios da Guerra
do Paraguai, em que Brasil, Argentina e Uruguai, entrelaçados numa ridícula e
desigual tríplice aliança, cometeram contra o povo guarani toda sorte de
atrocidades, que o historiador oficial finge não ver, certamente, este leitor
poderá bem distinguir por que caminho optar.
A História oficial tem por vezo sapecar no período medieval
(séc. V – XV) a tarja de “idade das trevas”. Tirante a igreja católica e as
práticas nada delicadas da Santa Inquisição, não se há de malbaratar a
filosofia daqueles tempos, a posta em evidência por Santo Agostinho, Abelardo,
Santo Anselmo, e Santo Agostinho, a título de exemplo. Não vamos falar da
Teoria Heliocêntrica do polonês Nicolau Copérnico... Quer dizer, o pensamento
preconceituoso sobre os tempos medievais foi obra do homem renascentista, que
nega o caráter de continuidade da História. Nenhuma ruptura existiu. A não ser
a opção do pensador renascentista em guindar-se por eleger o modelo clássico de
pensar o mundo.
Os sofistas, classe de filósofos na Grécia antiga, que
costumavam ensinar mediante pagamento, também foram vítimas do preconceito. Na
verdade, eram professores, cujas lições se traduziam em porfiar por desenvolver
no e com o discípulo a habilidade da leitura e da escritura, bem como a de construir discursos bem estruturados,
sobretudo os voltados para a arte de convencer alguém. Se nos acostumamos a ver
os sofistas como aqueles que ensinam a arte de enganar, pregando “verdades” por
meio de construções lógicas que apenas aparentam veicular a verdade, devemos
isso a Platão, que, no livro O Sofista, tratou de caricaturá-los. Ora, embair
alguém por meio de engodos verbais não é apanágio dos sofistas, mas de qualquer
homem que desenvolveu a habilidade lógico-linguística de levar ao interlocutor
a miragem da verdade. Veja-se, por exemplo, Ciro Gomes, um tal de pastor
Malafaia ou a farândola de políticos profissionais versada na arte de enganar o
povo ingênuo. Não pretendo aqui ofender os sofistas Górgias e Protágoras,
tampouco seus seguidores.
O sentido pejorativo do termo assumiu tal extensão, que o
adjetivo “sofisticado” deriva diretamente da palavra sofista, como a designar
aquilo que vem arreado, enfeitado, ajaezado de penduricalhos de variadas
naturezas a desvirtuar o real sentido da palavra: professor itinerante que
ensina, repetimos, a arte de argumentar e convencer.
Digamos, plagiando
Vandré: vamos com “a certeza na frente, a história na mão. ”
Só isso.
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