GRANDE SUSPIRO.
Hugo Martins
Virei a última página. Um tormento. Se a comédia pune pelo
riso (Ridendo castigat mores. Rindo-se castigam-se os costumes), a tragédia,
pelo espanto, o medo e o terror. Quando os deuses gregos querem afligir o
homem, escolhem uma “vítima”, e o leitor que se aguente e suporte o suplício.
Não é preciso passar por provas semelhantes às de Prometeu ou Sísifo.
Necessário tão só ser animal pensante e convencer-se de que a dor doída faz
parte da natureza do Ser. Só ter consciência da essência do Não-SER já se
constitui doloroso sofrimento
Pois bem. Não li a obra de uma só cacetada. Não. Por
tratar-se de releitura, sabia a que fui. Reli-a em pequenos sorvos. Não por masoquismo
intelectual, mas para antegozar os acontecimentos, como sói acontecer (mutatis
mutandis, mudando o que deve ser mudado) com noveleiros televisivos. Comparação
meio infeliz, mas é a que me veio...
A peça se abre com o Rei Édipo pedindo paciência aos
habitantes de Tebas, pois ele não regatearia esforços para encontrar o
assassino de Laios, marido de Jocasta. O primeiro era seu pai, e Jocasta sua
mãe e, depois, esposa com quem teve quatro filhos.
O deus Apolo jogara no destino de Édipo tal infortúnio. Bem
que Laios tentou afastar-se, mandando dar sumiço no filho. O que não ocorreu.
Terminou o bebê sendo criado pelo rei da cidade de Corinto. Já adulto, e
dirigindo-se a Tebas, encontrou a cidade ameaçada pela Esfinge, que dizia só se
afastar dali quando alguém decifrasse seus enigmas. Num deles, perguntava a
quem se atrevesse a responder, sob pena de por ela ser devorado, “que animal,
pela manhã, anda sobre quatro pés; à tarde, sobre dois; e, à noite, sobre três.
O homem, disse Édipo. Casou-se com a rainha.
O pai ele já matara num conflito de meio de estrada. O livro não fornece
uma só pista do porquê Édipo teria que enfrentar tanto sofrimento. Cremos que
pelo fato de ser homem. O personagem poderia ser qualquer outro. Há o suplício
de Prometeu, acorrentado ao Monte Cáucaso, aonde vinha, diariamente, uma grande
águia devorar-lhe o fígado, que renascia todo santo dia; há o sofrimento de
Sísifo, condenado rolar uma grande pedra da base ao pico de uma montanha. Só
que a coisa se deu durante toda a eternidade, ele nunca chegava ao pináculo,
pois a pedra voltava ao lugar de onde ele partira. O problema é que Édipo nada
devia aos deuses. Era simplesmente um homem. Aos deuses gregos isso era
suficiente. E os oráculos, muitas vezes, não se enganam. Ai do desgraçado sobre
cujos ombros pesarem as predições de um deus. Vôte, canhoto. Ufa!!!!
Vale a pena ler a peça de Sófocles.
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