NADA DE ENGRAÇADO
Hugo Martins.
A canção ABC do Sertão, composição de Zé Dantas, em parceria
com Luiz Gonzaga, traz a expressão “Lá no meu sertão pros caboclos lê/ Têm que
aprender um outro ABC...” Daí então, o rei do baião repete, de cor e salteado,
o “ABC do sertão”, arrimando-se numa suposta pronúncia matuta, emprestando a
ela um tom de gracejo sadio. Entende-se a intenção dos letristas em salpicar suas
canções com a “nordestinidade”, preocupação sempre presente na obra de um de
outro, mas a letra não espelha a verdade. Vejamos por que.
Em qualquer aula sobre fonologia e fonética, a primeira coisa
que se deve levar a efeito é a diferença entre grafema (letra) e fonema (som).
Ensina-se que temos, em língua portuguesa, cinco vogais. Falso. Na verdade,
temos cinco letras vocálicas para representar, foneticamente, os sons
vocálicos, que, na realidade, são sete (a, é ê, i, ó, ô, u). O mesmo se dá com
os sons consonantais, que podem ser representados por diversos grafemas
(letras), tudo depende do contexto. A letra C, por exemplo, tem duas
realizações fônicas, (ká) em casa, cavalo, mas (cê) em cidade, cessão, cedo. Pensemos
no grafema J, que tem valor de (gê), em jato, jeito, jia, jota, junto... Já o
grafema G tem duas realizações fônicas, (guê) em garrafa, garupa, garoa, praga,
mas pode representar o som (gê) em girafa, página, gelo. O grafema S é (zê) em
mesa, (cê) em sala e sola.
Para entender o mecanismo das realizações fônicas
respeitantes às chamadas consoantes, há de se entender que estas recebem este
nome para o qual não temos olhos nem ouvidos. Consoante é o que “soa com”. Por
isso, a consoante só se realiza quando se apoia no fonema vocálico. Experimente
iniciar a pronúncia da palavra “pé”, “pá”, “pó” sem pronunciar o fonema
vocálico “é”. Antes de fazer o sugerido, tire uma fotografia, que, certamente,
mostrará você apertando o lábio superior ao inferior. Quer dizer, não existe,
foneticamente, o fonema consonantal senão se apoiado em qualquer fonema vocal.
Sem este, só há esgares e caretas.
Como na canção, é claro que o J é (gê) ou (gi) como diz o
compositor. Claro que o L é (lê), bem como o M é (ê) e o N é (nê). Nem sempre,
pois muitas vezes estas duas letras podem servir apenas para assinalar a
nasalidade de uma dada vogal. Em “campo”, “cento”, “cinto”, “sinto”, “sonso”,
assim como em sombra, semblante e simples, o M e o N não são (mê), tampouco
(nê), apenas indicadores de nasalização da vogal com que se relacionam.
Só para lembrar, a letra Y, que voltou , oficialmente, a
fazer parte do abecedário da língua portuguesa, grafema a que João do Vale,
interpretado por Jackson do Pandeiro, na letra Sebastiana, chama de Pissilone,
no lugar de “ípsilon” (proparoxítona) ou ipisílon (paroxítona), conforme
registram os dicionários, na verdade deve ser chamada de “i” grego (como dizem
os franceses), pois os falantes desta língua pronunciam-na como se fosse um
misto de “u” e “”i”, sempre com os lábios arredondados, formando o famoso “bico
francês”. Entre nós, lusófonos, o Y soa I. Nós, brasileiros, também pronunciamos alguns
de nossos sons vocálicos “ó”, “ô” e “u”, fazendo biquinho. Faça-se a
experiência pronunciando as palavras “ovo, “uma”, “vovô, “bora”, “uva”, “burro”,
“porrada”. Legal, né não?
Assim, no sertão, o ABC continua o mesmo sem tirar nem pôr e,
também, sem nenhum toque humorístico. Continua o mesmo, sim, porque pronunciado
pelos falantes de língua portuguesa... Cada letra ou o encontro delas com a
tintura fônica adequada...
Fiquem ressalvadas, porém, as boas intenções dos
compositores.
É isso...
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