PERGUNTAS DE HUGUS NEPOS – (2-11-2018)
Hugo Martins
Pediu-me Hugus Nepos
explicar o sentido da expressão “ninguém pode estar acima da lei”. Depois,
emendou outra indagação: “alguém pode estar em cima da lei”? Danou-se, nega do
doce...
Esforçando-me por ser
didático, propus-lhe acompanhar o raciocínio, procurando tomar pé do que vem
ser, em essência, uma lei de cunho jurídico. Comecei por dizer que esse tipo de
lei se presta a disciplinar conduta. É objeto de produto da cultura e,
portanto, criação humana. Como animal social, muito dela necessita o homem para
que as comunidades humanas convivam em harmonia. Pressupõe ela uma forma de
contrato a que se dobram as vontades. Por exemplo: imagine-se o grupo social
família, constituído por quatro membros. Se se estabelece entre eles qualquer
norma, e um deles, por algum motivo, deixa de observá-la, esse alguém está se
colocando acima dos comandos da lei posta pelo grupo. Assim é o Direito. Um
náufrago que se estabelece numa ilha e por lá permanece por quinze anos não se
submete a nenhum comando legal. Suponhamos que, num certo dia, apareça por lá
um outro náufrago. Agora se estabelece o Direito. Como assim? O Direito se
instala toda vez que possam surgir conflitos de interesse. Aqui, seus atores
hão de estabelecer normas, mesmo que implícitas, para que a convivência entre
eles seja harmoniosa. As hipóteses ora aventadas valem para todos, das
situações mais comezinhas às mais complexas. Observe-se que Aristóteles, na era
Clássica da cultura grega, estudou vários documentos com feição de Carta
Constitucional. Da cultura romana, a civilização herdou o Direito, traduzido na
norma escrita. Algumas civilizações, malgrado adotem o chamado Direito
consuetudinário, aquele que se assenta nos costumes, não negligenciam a norma
escrita. Em qualquer situação, a transgressão da norma traduz comportamento que
coloca seu autor no rol dos que pretendem estar “acima da lei”. É por isso, que
a maioria das normas vêm acompanhadas de uma determinada sanção. Ao fim e ao
cabo, todos se devem dobrar ao império da lei. A aplicação da lei deve ser igual para todos.
Quanto a estar em cima da
lei, suficiente que o indivíduo lance mão de uma delas, um código penal, por
exemplo, e coloque o traseiro sobre ele. Ou traga à baila um episódio em que o
criminalista cearense Quintino Cunha, em brilhante atuação numa sessão do
Tribunal do Júri, ouviu de um pretensioso promotor de justiça: “doutor
Quintino, eu estou montado na Lei”! Ao
que redarguiu o espirituoso advogado: “pois o senhor tome muito cuidado, pois
pode estar montando animal que não conhece. ”
Pois é...
Nenhum comentário:
Postar um comentário