segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

INDICAÇÃO
                                              Hugo Martins

            Durante os meses em que a UECE se manteve em greve, procedi à leitura de algumas obras de cunho literário e outras concernentes à História do Brasil. No momento, encontro-me lendo a parte, cujo título é A Redentora, da obra 1889, de Laurentino Gomes, tão interessante quanto as obras anteriores 1808 e 1922. Pelo título, vê-se que o historiador pretende analisar períodos de nossa História, tomando por base datas elucidativas e de fácil entendimento para o leitor, do mais ao menos exigente. Assim, tem-se, por ordem: a transmigração da família real para o Brasil, momento em que D. João VI empreendeu a maior carreira da História, fugindo à figura ameaçadora de Napoleão Bonaparte; a Independência do Brasil, época de muita balela em torno da figura do príncipe D. Pedro, que a História oficial tenta heroificar, embora tenha ele defendido mais os interesses da coroa portuguesa, sem contar suas peraltices com a Marquesa de Santos e outros exercícios de inquieto femeeiro; por fim, o último se volta para os acontecimentos e vultos que se insurgiram contra o poder monárquico e implantaram a república nos moldes como hoje conhecemos...
            Por esse tempo também mergulhei com grande afinco nos acontecimentos de Juazeiro do Norte à época em que por lá viveu Cícero Romão Batista, o “padim Ciço” dos romeiros. Embora já tenha lido outras obras em que se põe em foco o banditismo e o fanatismo, em Djacir de Menezes, Abelardo Montenegro e Ruy Facó, por ordem: o Outro Nordeste, Cangaceiros e Fanáticos, Fanáticos e Cangaceiros, as notícias relativas àquele controvertido sacerdote são minguadas, pois os autores referidos não se voltaram especificamente para aquele enigmático padre como fez o jornalista Lira Neto.
            A obra -  PADRE CÍCERO, PODER, FÉ E GUERRA NO SERTÃO – editada pela editora Companhia das Letras, está enfeixada em 532 páginas, a que se ajunta uma bibliografia consistente em Documentos e Arquivos, Publicações (livros) além de Jornais e Revistas dos estados do Ceará, Pernambuco e Rio de Janeiro.
            O historiador não se perde em fazer apologias ou a denegrir a imagem de quem quer que seja. Não. Tal qual Euclides da Cunha em Os Sertões, distancia-se dos fatos para melhor observá-los e analisá-los e brinda o leitor com uma narrativa, a um tempo, literariamente enxuta e sociologicamente mágica. À medida que se viram as páginas, paulatinamente se desnudam os fatos e destes emerge uma verdade inquestionável, pois tudo que na obra é colocado como fato histórico ou fato do cotidiano vem acompanhado de provas irrefutáveis, pois apoiadas em depoimentos e documentos...
            Não espere o leitor, na pré-leitura, alimentar ilusões acerca dos fatos envolvendo o padre Cícero e seu séquito de beatas, seja Maria de Araújo, seja a beata Mocinha; tampouco alvoroçar-se com a Sedição do Juazeiro, o conflito armado contra a cidade do Crato, ou impressionar-se com o médico baiano Floro Bartolomeu, que, com o apoio de Cícero e outros figurões, partiu de Juazeiro rumo à Fortaleza para depor o governador Franco Rabelo, deixando na esteira de sua marcha destruição, violência e morte.
            Não espere o leitor durante a leitura da obra perguntar-se por que o Vaticano afastou definitivamente Cícero Romão de suas ordens sacerdotais, nem se admire com o patrimônio que o padre conseguiu amealhar durante seu sacerdócio e sua atuação política. Foi ele prefeito de Juazeiro por vários anos, deputado federal sem nunca ter isso à capital da república para praticar algum ato alusivo à função, além de ter sido eleito vice-presidente da província, uma espécie de vice-governador do Estado.
            A narrativa focaliza outros fatos, que podem provocar o riso ou a indignação. Fica a escolha com o leitor. Vamos, mãos à obra. Abramos o livro. Comecemos sua leitura e façamos uma viagem em torno de um fato histórico não tão bem contado por outras penas... Em Lira Neto, a viagem se faz pelo terreno limpo e chão da fidelidade intelectual ao tema tratado; pelo mar de almirante, sereno e tranqüilo dos bons timoneiros fiéis à beleza e elegância no trato da língua portuguesa; ou, para os mais corajosos, pelos céus de brigadeiro, de onde se podem desvendar os fatos na sua mais nítida crueza.
            De minha parte, tornei-me fá do autor/historiador. Já se encontram em minha estante os dois primeiros volumes dos três em que o autor biografa Getúlio Dorneles Vargas, obra que até o ex-presidente Lula diz haver lido... Estou à cata das obras O Inimigo do rei: uma biografia de José de Alencar; Maysa: só numa multidão de amores; e Castello: a marcha para a ditadura...
            Não se pode sofrear o entusiasmo e repassá-lo a leitores sequiosos pela leitura de obras informativas e edificantes, que tocam a alma e o intelecto
Voilà.


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Em que estou pensando?  No medo de avião. Lá em cima, de um “prego” ninguém escapa. Sou covarde, sou medroso. Com muito orgulho. Certamente nunca morrerei em desastre de avião... A não ser que um desses monstros, por obra do acaso, caia exatamente no lugar em que eu me encontre. Se assim for, creio que muita gente morrerá comigo. Alguém, por se recusar a entrar em avião, ouviu esta sábia observação: “Meu amigo, o sujeito só morre quando for sua vez”. Aquele alguém assim argumentou: “Pois é, companheiro, pode ser que eu morra, sem ter nada a ver com as obras do destino, por ser a hora do piloto ou de algum outro companheiro de viagem.” Decididamente, não me venham também com argumentos dourados de que devo viajar porque as viagens instruem. Apoio-me na tirada, se não me engano do Marquês de Itararé, de que “se as viagens instruíssem, os marinheiros seriam as pessoas mais instruídas...”
Outro dia, alguém, desejando convencer-me da utilidade das viagens, acrescentou: “conhecer as ruínas da Grécia, deliciar-se com a vetusta arquitetura de Roma, maravilhar-se com a sobriedade aristocrática dos franceses, afora o sabor literário e filosófico que parece dimanar da terra de Voltaire, Baudelaire e Victor Hugo, é algo indescritível... Concordei e aduzi morar na melhor cidade do mundo. Se turistas acorrem de todo o lugar do mundo para Fortaleza, “a loura desposada do Sol, que dorme à sombra dos palmares”, por que teria eu que sair desta terra que tanto amo, apesar dos pesares? Sou um privilegiado, sou cearense, sou fortalezense de corpo e alma. Nascer em outro local que não Fortaleza não passa de mero acidente.
Ainda assim, acrescento nada ter contra o prazer de viajar... Há quem gosta... Sou sedentário. Se tiver que me ausentar do Brasil por algum motivo, isso farei... de navio ou qualquer outro meio de transporte que não me tire os pés da Terra...
A única viagem que não me recuso a fazer é navegar no mundo seguro da leitura... Sou, por vício e gosto, um LIVRONAUTA. Com ou sem neologismo, esse objeto cultural, que jamais será vencido por qualquer tremor tecnológico, é indispensável a quem desejar fazer viagens diferentes. Penso até, sem desejar ser original, ser ainda aquele “meio de transporte” o melhor remédio para tornar o mundo melhor.
Da minha parte, minha existência adquire sentido mais profundo assim viajando.
Quando alguém desejar ser meu companheiro de viagem, presentei-me com um bom livro...
Só não viajaremos, lado a lado, de avião...


EM QUE ESTOU PENSANDO?

Houve um tempo em Fortaleza que os exames vestibulares muito privilegiavam o autor de obra literária na prova de língua portuguesa. Embora o aluno não se obrigasse a ler este ou aquele livro, era ponto de honra saber quem era o autor do texto, onde nascera, que outras obras escrevera e que manias cultivava. Isso sem contar com perguntas absurdas como: qual o olho cego de Camões? O esquerdo ou o direito? Que doença mais assaltava os poetas românticos? Se o aluno demonstrasse ter conhecimento “profundo” como, por exemplo, saber de que doença padecia Machado de Assis, de que este sofria de gagueira ou era mulato, que, por vezes, cobria a tez com talco para esconder sua negritude, demonstrava ser versado em literatura. Viva-se o mal do biografismo ingênuo. Que fazer? Os cursinhos, na sua eterna faina de amestrar alunos, não deixavam passar nada. Fernando Pessoa gostava de tomar uns vinhos além da conta, coisa que chocava o burguês, lá se levava a informação para a sala de aula. A obra do autor não interessava. Monteiro Lobato foi preso por afrontar o governo Vargas. Lá chegava a informação nas cabeçorras do alunado. A obra era apenas um detalhe. Para que ler Graciliano Ramos? Bastava saber que fora preso também pelo governo Vargas e que em um de seus livros havia uma cachorra famosa... Ler a obra nem pensar. Havia, à época, professores cuja fama se espalhava graças à sua especialidade em, no dia que antecedia a prova de língua portuguesa, “acertar” o nome do autor do texto que cairia na prova. Eram os tais “bizus”, pedagogia cretina e bancária que considerava os alunos seres passivos e idiotizados. Tais professores eram de tal modo festejados, que os jornais o colocavam na galeria dos “melhores professores da cidade”.
Lembra-me o dia em que um aluno, chegado da prova, corria rumo à casa, um largo sorriso estampado no rosto, gritando: “acertei o autor, coisa muito fácil. Caiu a Eça de Queiroz, irmã da Rachel de Queiroz...”  Dá pra agüentar?

Em que eu estava pensando? Exatamente nisso, nessa coisa de se “aprender” literatura pelo biografismo inútil. Literatura não se aprende. Come-se. Bebe-se numa orgia perpétua, longe dos modismos estéreis, dos didatismos cretinóides e da “cultura de sovaco”, tão falsa quão enganosa.