INDICAÇÃO
Hugo
Martins
Durante os meses em que a UECE se manteve em greve,
procedi à leitura de algumas obras de cunho literário e outras concernentes à
História do Brasil. No momento, encontro-me lendo a parte, cujo título é A
Redentora, da obra 1889, de Laurentino Gomes, tão interessante quanto as obras
anteriores 1808 e 1922. Pelo título, vê-se que o historiador pretende analisar
períodos de nossa História, tomando por base datas elucidativas e de fácil entendimento
para o leitor, do mais ao menos exigente. Assim, tem-se, por ordem: a
transmigração da família real para o Brasil, momento em que D. João VI
empreendeu a maior carreira da História, fugindo à figura ameaçadora de
Napoleão Bonaparte; a Independência do Brasil, época de muita balela em torno
da figura do príncipe D. Pedro, que a História oficial tenta heroificar, embora
tenha ele defendido mais os interesses da coroa portuguesa, sem contar suas
peraltices com a Marquesa de Santos e outros exercícios de inquieto femeeiro;
por fim, o último se volta para os acontecimentos e vultos que se insurgiram
contra o poder monárquico e implantaram a república nos moldes como hoje
conhecemos...
Por esse tempo também mergulhei com grande afinco nos
acontecimentos de Juazeiro do Norte à época em que por lá viveu Cícero Romão
Batista, o “padim Ciço” dos romeiros. Embora já tenha lido outras obras em que
se põe em foco o banditismo e o fanatismo, em Djacir de Menezes, Abelardo
Montenegro e Ruy Facó, por ordem: o Outro Nordeste, Cangaceiros e Fanáticos,
Fanáticos e Cangaceiros, as notícias relativas àquele controvertido sacerdote
são minguadas, pois os autores referidos não se voltaram especificamente para
aquele enigmático padre como fez o jornalista Lira Neto.
A obra - PADRE
CÍCERO, PODER, FÉ E GUERRA NO SERTÃO – editada pela editora Companhia das
Letras, está enfeixada em 532 páginas, a que se ajunta uma bibliografia
consistente em Documentos e Arquivos, Publicações (livros) além de Jornais e
Revistas dos estados do Ceará, Pernambuco e Rio de Janeiro.
O historiador não se perde em fazer apologias ou a
denegrir a imagem de quem quer que seja. Não. Tal qual Euclides da Cunha em Os
Sertões, distancia-se dos fatos para melhor observá-los e analisá-los e brinda
o leitor com uma narrativa, a um tempo, literariamente enxuta e
sociologicamente mágica. À medida que se viram as páginas, paulatinamente se
desnudam os fatos e destes emerge uma verdade inquestionável, pois tudo que na
obra é colocado como fato histórico ou fato do cotidiano vem acompanhado de
provas irrefutáveis, pois apoiadas em depoimentos e documentos...
Não espere o leitor, na pré-leitura, alimentar ilusões
acerca dos fatos envolvendo o padre Cícero e seu séquito de beatas, seja Maria
de Araújo, seja a beata Mocinha; tampouco alvoroçar-se com a Sedição do
Juazeiro, o conflito armado contra a cidade do Crato, ou impressionar-se com o
médico baiano Floro Bartolomeu, que, com o apoio de Cícero e outros figurões,
partiu de Juazeiro rumo à Fortaleza para depor o governador Franco Rabelo,
deixando na esteira de sua marcha destruição, violência e morte.
Não espere o leitor durante a leitura da obra
perguntar-se por que o Vaticano afastou definitivamente Cícero Romão de suas
ordens sacerdotais, nem se admire com o patrimônio que o padre conseguiu
amealhar durante seu sacerdócio e sua atuação política. Foi ele prefeito de
Juazeiro por vários anos, deputado federal sem nunca ter isso à capital da
república para praticar algum ato alusivo à função, além de ter sido eleito
vice-presidente da província, uma espécie de vice-governador do Estado.
A narrativa focaliza outros fatos, que podem provocar o
riso ou a indignação. Fica a escolha com o leitor. Vamos, mãos à obra. Abramos
o livro. Comecemos sua leitura e façamos uma viagem em torno de um fato
histórico não tão bem contado por outras penas... Em Lira Neto, a viagem se faz
pelo terreno limpo e chão da fidelidade intelectual ao tema tratado; pelo mar
de almirante, sereno e tranqüilo dos bons timoneiros fiéis à beleza e elegância
no trato da língua portuguesa; ou, para os mais corajosos, pelos céus de
brigadeiro, de onde se podem desvendar os fatos na sua mais nítida crueza.
De minha parte, tornei-me fá do autor/historiador. Já se
encontram em minha estante os dois primeiros volumes dos três em que o autor
biografa Getúlio Dorneles Vargas, obra que até o ex-presidente Lula diz haver
lido... Estou à cata das obras O Inimigo do rei: uma biografia de José de
Alencar; Maysa: só numa multidão de amores; e Castello: a marcha para a
ditadura...
Não se pode sofrear o entusiasmo e repassá-lo a leitores
sequiosos pela leitura de obras informativas e edificantes, que tocam a alma e
o intelecto
Voilà.
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