terça-feira, 7 de janeiro de 2014

EM QUE ESTOU PENSANDO?

Houve um tempo em Fortaleza que os exames vestibulares muito privilegiavam o autor de obra literária na prova de língua portuguesa. Embora o aluno não se obrigasse a ler este ou aquele livro, era ponto de honra saber quem era o autor do texto, onde nascera, que outras obras escrevera e que manias cultivava. Isso sem contar com perguntas absurdas como: qual o olho cego de Camões? O esquerdo ou o direito? Que doença mais assaltava os poetas românticos? Se o aluno demonstrasse ter conhecimento “profundo” como, por exemplo, saber de que doença padecia Machado de Assis, de que este sofria de gagueira ou era mulato, que, por vezes, cobria a tez com talco para esconder sua negritude, demonstrava ser versado em literatura. Viva-se o mal do biografismo ingênuo. Que fazer? Os cursinhos, na sua eterna faina de amestrar alunos, não deixavam passar nada. Fernando Pessoa gostava de tomar uns vinhos além da conta, coisa que chocava o burguês, lá se levava a informação para a sala de aula. A obra do autor não interessava. Monteiro Lobato foi preso por afrontar o governo Vargas. Lá chegava a informação nas cabeçorras do alunado. A obra era apenas um detalhe. Para que ler Graciliano Ramos? Bastava saber que fora preso também pelo governo Vargas e que em um de seus livros havia uma cachorra famosa... Ler a obra nem pensar. Havia, à época, professores cuja fama se espalhava graças à sua especialidade em, no dia que antecedia a prova de língua portuguesa, “acertar” o nome do autor do texto que cairia na prova. Eram os tais “bizus”, pedagogia cretina e bancária que considerava os alunos seres passivos e idiotizados. Tais professores eram de tal modo festejados, que os jornais o colocavam na galeria dos “melhores professores da cidade”.
Lembra-me o dia em que um aluno, chegado da prova, corria rumo à casa, um largo sorriso estampado no rosto, gritando: “acertei o autor, coisa muito fácil. Caiu a Eça de Queiroz, irmã da Rachel de Queiroz...”  Dá pra agüentar?

Em que eu estava pensando? Exatamente nisso, nessa coisa de se “aprender” literatura pelo biografismo inútil. Literatura não se aprende. Come-se. Bebe-se numa orgia perpétua, longe dos modismos estéreis, dos didatismos cretinóides e da “cultura de sovaco”, tão falsa quão enganosa.

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