EM QUE ESTOU PENSANDO?
Houve um tempo em Fortaleza que
os exames vestibulares muito privilegiavam o autor de obra literária na prova
de língua portuguesa. Embora o aluno não se obrigasse a ler este ou aquele
livro, era ponto de honra saber quem era o autor do texto, onde nascera, que
outras obras escrevera e que manias cultivava. Isso sem contar com perguntas
absurdas como: qual o olho cego de Camões? O esquerdo ou o direito? Que doença
mais assaltava os poetas românticos? Se o aluno demonstrasse ter conhecimento
“profundo” como, por exemplo, saber de que doença padecia Machado de Assis, de
que este sofria de gagueira ou era mulato, que, por vezes, cobria a tez com
talco para esconder sua negritude, demonstrava ser versado em literatura.
Viva-se o mal do biografismo ingênuo. Que fazer? Os cursinhos, na sua eterna
faina de amestrar alunos, não deixavam passar nada. Fernando Pessoa gostava de
tomar uns vinhos além da conta, coisa que chocava o burguês, lá se levava a
informação para a sala de aula. A obra do autor não interessava. Monteiro
Lobato foi preso por afrontar o governo Vargas. Lá chegava a informação nas
cabeçorras do alunado. A obra era apenas um detalhe. Para que ler Graciliano
Ramos? Bastava saber que fora preso também pelo governo Vargas e que em um de
seus livros havia uma cachorra famosa... Ler a obra nem pensar. Havia, à época,
professores cuja fama se espalhava graças à sua especialidade em, no dia que
antecedia a prova de língua portuguesa, “acertar” o nome do autor do texto que
cairia na prova. Eram os tais “bizus”, pedagogia cretina e bancária que
considerava os alunos seres passivos e idiotizados. Tais professores eram de
tal modo festejados, que os jornais o colocavam na galeria dos “melhores
professores da cidade”.
Lembra-me o dia em que um aluno,
chegado da prova, corria rumo à casa, um largo sorriso estampado no rosto,
gritando: “acertei o autor, coisa muito fácil. Caiu a Eça de Queiroz, irmã da
Rachel de Queiroz...” Dá pra agüentar?
Em que eu estava pensando?
Exatamente nisso, nessa coisa de se “aprender” literatura pelo biografismo
inútil. Literatura não se aprende. Come-se. Bebe-se numa orgia perpétua, longe
dos modismos estéreis, dos didatismos cretinóides e da “cultura de sovaco”, tão
falsa quão enganosa.
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