Em que estou
pensando? No medo de avião. Lá em cima,
de um “prego” ninguém escapa. Sou covarde, sou medroso. Com muito orgulho.
Certamente nunca morrerei em desastre de avião... A não ser que um desses
monstros, por obra do acaso, caia exatamente no lugar em que eu me encontre. Se
assim for, creio que muita gente morrerá comigo. Alguém, por se recusar a
entrar em avião, ouviu esta sábia observação: “Meu amigo, o sujeito só morre
quando for sua vez”. Aquele alguém assim argumentou: “Pois é, companheiro, pode
ser que eu morra, sem ter nada a ver com as obras do destino, por ser a hora do
piloto ou de algum outro companheiro de viagem.” Decididamente, não me venham
também com argumentos dourados de que devo viajar porque as viagens instruem. Apoio-me
na tirada, se não me engano do Marquês de Itararé, de que “se as viagens
instruíssem, os marinheiros seriam as pessoas mais instruídas...”
Outro dia, alguém,
desejando convencer-me da utilidade das viagens, acrescentou: “conhecer as
ruínas da Grécia, deliciar-se com a vetusta arquitetura de Roma, maravilhar-se
com a sobriedade aristocrática dos franceses, afora o sabor literário e
filosófico que parece dimanar da terra de Voltaire, Baudelaire e Victor Hugo, é
algo indescritível... Concordei e aduzi morar na melhor cidade do mundo. Se
turistas acorrem de todo o lugar do mundo para Fortaleza, “a loura desposada do
Sol, que dorme à sombra dos palmares”, por que teria eu que sair desta terra
que tanto amo, apesar dos pesares? Sou um privilegiado, sou cearense, sou fortalezense
de corpo e alma. Nascer em outro local que não Fortaleza não passa de mero
acidente.
Ainda assim, acrescento
nada ter contra o prazer de viajar... Há quem gosta... Sou sedentário. Se tiver
que me ausentar do Brasil por algum motivo, isso farei... de navio ou qualquer
outro meio de transporte que não me tire os pés da Terra...
A única viagem que não
me recuso a fazer é navegar no mundo seguro da leitura... Sou, por vício e
gosto, um LIVRONAUTA. Com ou sem neologismo, esse objeto cultural, que jamais
será vencido por qualquer tremor tecnológico, é indispensável a quem desejar
fazer viagens diferentes. Penso até, sem desejar ser original, ser ainda aquele
“meio de transporte” o melhor remédio para tornar o mundo melhor.
Da minha parte, minha
existência adquire sentido mais profundo assim viajando.
Quando alguém desejar
ser meu companheiro de viagem, presentei-me com um bom livro...
Só não viajaremos, lado
a lado, de avião...
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