sexta-feira, 30 de setembro de 2016

PALHAÇOS
                                               Hugo Martins

                No decorrer de aula expositiva, dois alunos discutem e um chama o outro de palhaço. O professor para de escrever no quadro, volta-se para a turma, depõe o giz sobre o birô, e diz: “meu amigo, mais respeito, por favor”. O aluno, apontando para o colega a quem chamara palhaço, aduz: “professor, foi ele que começou.” O mestre, então, desfaz o equívoco, dizendo: “não me refiro a nenhum dos senhores. O respeito que exijo é com relação ao palhaço. Esse é um epíteto que não deve ser aplicado a qualquer pessoa. Esta tem que ser grande, sobretudo, quando diante dos problemas da vida, lança mão de todos os meios para tornar o mundo lugar mais interessante de se viver. E isso ele faz provocando o riso desabrido, que denota alegria interior gratuita ou provoca reflexões de toda ordem, quando coloca o homem em situações de ridicularia e de abandono à sua própria insignificância”. Essa explanação só muito mais tarde, já homem feito e viajado na vida, ecoou na minha alma, hoje calejada, mas, na época, ainda presa às reflexões fúteis e paciente de estreita e rasa visão de mundo...
            Lembra-me que, na minha mais tenra infância, quando se falava de ir ao circo, a primeira coisa que vinha à mente era a figura do palhaço. Quando entrava no picadeiro, já despertava risos. Cabeçorra ladeada por raros cabelos, de regra, encoberta por um chapéu, que parecia ali estar para emprestar ao semblante do artista maior dose de comicidade grotesca. Camiseta trespassada por dois largos suspensórios, os quais sustentavam largas calças de fundo frouxo, trazendo, à moda cós, em torno da cintura, uma espécie de argola, que deixava a impressão de que seu portador estava solto dentro de indumentária tão insólita. Nos pés, sapatos que em muito lembravam duas miniaturas de avião com a frente apontada para cima como se fosse decolar. Às vezes entravam dois ou três. No meio do picadeiro, encenavam situações em que se exaltava a astúcia, a capacidade de tirar proveito da ingenuidade do outro. Isso levava o público a grandes gargalhadas. Quer dizer, o sofrimento, o não se enquadrar às regras das matreirices da vida eram situações ali postas com a intenção de colocar o ser humano face a face consigo mesmo. Havia também as piadas. Dependendo do status do circo, poderiam enveredar pelo estilo “inteligente” ou derivar rumo à “imoralidade”. Como espectador, sempre os vi ser aplaudidos pela dosagem de “putaria” com que maquiavam as anedotas...
            Muitos atores cinematográficos, antes de alcançar alguma fama na arte da comicidade e do burlesco, passaram pelo circo. No Brasil, Carequinha é bom exemplo. Sua influência era tamanha, que era aproveitado, no rádio e na televisão, como agente da pedagogia da época. Antes, servira de personagem de revista em quadrinhos, coadjuvado por outro de nome Arrelia. Hoje, os palhaços tornaram-se como que obsoletos. A indústria cultural os engoliu e eles migraram para telas de cinema e televisão.
            A chamada genialidade do ator inglês Charles Chaplin toda se traduz na indumentária, na gestualidade, no caminhar, no esboçar um sorriso que não exprime alegria interior, mas mistura desencanto e decepção com o gênero humano. Afora as situações insólitas em que Carlitos se envolve, nas quais se sobressaem episódios insólitos e tragicômicos, em que se pode vislumbrar uma miscelânea de paixões humanas que se constituem num grande espelho em que o espectador se vê refletido, impotente para esboçar qualquer reação para desfazer aquela trágica miragem real. O ato de rir não está no espectador, mas no palhaço Charles Chaplin, que, conhecedor intuitivo da psicologia social, faz do homem um fantoche, uma marionete, facilmente manobrável pelas paixões grandes e mesquinhas. Desfilam na tela os poderosos, seja o policial, seja o ditador; perpassam por nossos olhos, o riso universal, que não perdoa o modo político do organizar a sociedade sob os auspícios de teorias em que os grandes exploram os pequenos; assiste-se à ingratidão personificada; vê-se a funda tristeza do artista talentoso, obrigado a renunciar à sua vocação por haver chegado à velhice. E outros temas em que a pequenez humana sempre toma vulto. O maior deles: a solidão, metaforizada no sorriso amarelo sem graça, inutilmente encoberto, a medo, pela mão em forma de pinha. Além disso, no final da película, o personagem está sozinho, de costas para o espectador e se dirigindo para destino incerto na infinitude da paisagem.
            Só agora se pode refletir na gravidade das palavras daquele professor, admoestando a impropriedade de se empregar pejorativamente a palavra palhaço para designar comportamento presumivelmente moleque. O palhaço vai além disso tudo. Ele é, sobretudo, um animal que ri e faz rir. É o bastante.
              
           

            

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

ILUSTRÍSSIMO SENHOR DIRETOR DE ENSINO DO CENTRO FEDERAL DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA DO CEARÁ – CEFETCE


PARECER




         Chegaram às mãos do subscritor três simpáticos requerimentos da lavra de três alunos do Curso Médio. Dois deles perseguem o direito a fazer recuperação, calcando a pretensão na PORTARIA nº 178/GDC, de 18 de março de 2005. O outro não vem esteado em dispositivo legal nenhum. Os três soaram a este parecerista como o ato único de uma ópera-bufa mal ensaiada, em face da desfaçatez de que estão imbuídos. O autor deste parecer não é crítico teatral, mas, por força das circunstâncias, vai aqui ensaiar sê-lo, pelas razões a seguir escandidas.

         Senhor Diretor de Ensino, entendemos que o ensino-aprendizagem “da última flor do Lácio” não se deve reduzir ao repasse de áridos preceitos gramatiqueiros, coadjuvados pelas indefectíveis exceções, apanágio de quem não intui honestamente a importância de que se deve revestir o ensino da língua e, por isso, recorre àqueles expedientes para escamotear sua incompetência ou exercer sobre o espírito flébil do alunado uma espécie  de terror, incutindo naquelas pobres almas a idéia bastarda de que o idioma português é muito difícil e outras idéias mentirosas afins. Ora, é sabido que, sobretudo em bodegas pedagógicas particulares, esta visão do ensino do idioma português já se tornou lugar comum, repetido em ceca e meca. Aliás, parafraseando Lauro de Oliveira Lima, o professor de língua portuguesa, no Brasil, é como o cão de Pavlov, mal ouve a sineta, começa a salivar gramática. Enquanto isso, o essencial no ensino desse belo idioma não freqüenta a sala de aula. O aluno lê mal, escreve sofrivelmente, fala tropeçando em balbucios, apóia-se em muletas verbais e chavões batidos e rebatidos, sem falar na antológica incapacidade de interpretar o que lê, escuta ou vê. Em outras palavras, o ensino centrado na gramática pela gramática é inócuo, mentiroso, desonesto e fere os brios intelectuais de quem ousa pensar neste País de descerebrados.

         Senhor Diretor, o pensador José Ortega y Gasset dizia, numa espécie de lapidar parêmia: “eu sou eu e as minhas circunstâncias”. Em outras palavras, o espanhol cuidava em dizer que homem se define no tempo histórico que vivencia. Paciente desse eterno devir, vítima do tempo e das vicissitudes que deste advêm, há de compreender o habitat em que passeia sua alma na busca incessante de um sentido para a sua existência. Nesse momento, é que se torna mais verdadeiro e legítimo o “Cogito, ergo sum” cartesiano. Nesse diapasão, a existência do homem não pode ser apenas um passivo estar no mundo, pois, assim, não passaria ele de um títere desajeitado, agente e paciente de todas as circunstâncias, mas desorientado, sem norte, vazio e sem vida...

         A familiaridade com o modo de ser da língua, suas riqueza e variedade lexicais, seus multifacetados torneios sintáticos, suas possibilidades semântico-expressivas formam um rico arsenal para que o homem cada vez mais se revele ao mundo e revele a si mesmo este mesmo mundo. A linguagem, com especialidade a que se manifesta pela palavra, é a grande razão do binômio homem e mundo. Os gregos chamavam a Deus de LOGOS; os latinos chamavam-NO o VERBO. Basta ler o primeiro parágrafo do Evangelho segundo São João. O próprio livro que enfeixa e revela os ensinamentos divinos é chamado metaforicamente A PALAVRA. Nessa linha de raciocínio, o pensador francês Pierre Teillard Chardin escreveu uma obra magistral a que intitulou O HOMEM, O MUNDO E DEUS. Quer dizer, a compreensão do transcendente, do metafísico, do divino sempre se dará pela palavra, a “palavramundo” drummondiana, neologismo criado pelo poeta de Itabira para dizer, como ele dizia, que toda palavra está grávida de mundo.

         É por essa senda que o professor intenta ciceronear seus alunos. Ensaia conduzi-los, sem que eles se dêem conta das urzes e pedras do caminho. Aos poucos, vão abrindo suas próprias veredas, lendo, escrevendo, falando, interpretando e internalizando comportamentos lingüísticos, distantes da ortodoxia bem-comportada e da gravidade cretina dos gramatiqueiros de linguagem e pedagogia insípidas. Aos educandos basta o praticar o ato comunicativo em suas quatro possibilidades, assim como os pássaros, que voam, e os peixes, que nadam, sem necessitar aprender aquilo para que se revelam, de berço, vocacionados. Sim, Senhor Diretor, nossos jovens estão necessitando estudar língua portuguesa não memorizando regras absurdas e as exceções das exceções das exceções. Basta colocar nas mãos deles o essencial para a aprendizagem desse belo, rico e saboroso idioma, assunto de que nos ocuparemos a seguir.

         Prezado Diretor, iniciadas as atividades letivas, já na primeira aula, este parecerista elabora, com a turma, uma espécie de código silencioso, de cujos dispositivos faz-se uma espécie de contrato, de modo que direitos e deveres ficam explicitados. Trata-se de uma espécie de roteiro deontológico.
         Em primeiro lugar, apresentado o programa, fica acertado que não haverá aulas de gramática traduzidas em cantilenas monocórdias das regrinhas e exceções. Não. A gramática da língua será vista naturalmente por meio das atividades em que se prioriza o fundamental: falar, ler, escrever e ouvir. Tendo sempre em mente a competência lingüística do falante, aquela a que se refere Noam Chomsky, busca-se simplesmente e tão-só exercitar o desempenho lingüístico do aluno. Deixa-se de lado todo e qualquer preconceito em relação à idéia maniqueísta erro e acerto. Interessa-nos que o falante vivencie as diversas normas e registros de uma mesma língua. Para isso, muito se encarece a convivência com o texto literário, pois este é, sem dúvida, uma espécie de supranorma, que enfeixa todos os falares possíveis e prováveis de um idioma. A propósito, conforme Chomsky, todos nós conhecemos a língua portuguesa, isto é, usamo-la como instrumento de comunicação no dia-a-dia. Tanto é que letrados e iletrados se comunicam sem problema alguma. Isto é competência. Claro que se deve relevar os acidentes grau de cultura e quejandos. Agora, não há negar que cada falante utiliza a língua portuguesa, imprimindo a ela um desempenho determinado por fatores extralingüísticos. Isto é desempenho ou performance.

         Em segundo lugar, certo de que o professor nada ensina, pois o cérebro do educando não é uma tabula rasa, oca e sem vida, procura-se desenvolver atividades por meio das quais o aluno exercite aqueles potenciais retro-referidos: o falar, o ler, o escrever e o ouvir. De que modo?

         Partimos da premissa de que todo professor “ensina” língua portuguesa. Com efeito, quando ministra suas aulas, certamente fá-lo recorrendo à norma padrão-culta, aquela que se encontra em toda situação comunicativa em que há um mínimo de solenidade e maior nível de abstração. Inclusive o professor de língua portuguesa também “ensina” português.

         Se alguma diferença existe entre uns e outros, é que os últimos apenas devem dispor de aparato pedagógico mais rico para explicar, com técnica mais apurada, este ou aquele fato lingüístico.

         Por essa razão, o professor de língua portuguesa, no seu mister, perseguindo o objetivo de tornar o aluno mais proficiente na utilização de seu idioma, há de criar condições para que o atingimento desse escopo seja uma realidade sem que o aluno seja coagido a memorizar regrinhas sensaboronas e sem nenhuma utilidade.

         O modo mais eficiente tem em mira aquelas potencialidades. Assim, desenvolve-se em sala de aula e em casa atividades em que aquelas potencialidades já referidas estejam sempre em jogo.

         Colocado o texto à apreciação da turma, lido, relido, feito o levantamento do vocabulário, comentadas as idéias nele presentes e aquelas por ele suscitadas, propõe-se a tarefa doméstica que, à luz do programa, leva o aluno a reescrever o texto, escrevendo frases, parágrafos e outros textos, utilizando o vocabulário do texto lido em sala de aula.

Paralelamente, o aluno procede à leitura de uma obra literária, prévia e amplamente motivada. Afasta-se a ficha de leitura convencional proposta pela editora. A nosso ver, tal fichinha sufoca o gosto pela leitura da obra. Feito isso, propomos três ou quatro questões básicas: levantamento do vocabulário, pelo menos quarenta palavras; redação de frases ou parágrafos com as palavras retro-referidas; resumo da obra; e, por fim, redação de um texto em que se enfoca o problema humano entrevisto na obra.

Por outro lado, a historiografia da literatura brasileira é trazida à baila por imposição do cumprimento do programa. Durante as exposições, o professor sempre demonstra preocupação com mostrar aos alunos que aquilo não é, na exata acepção da palavra, ensino de literatura. Não se ensina nem se aprende literatura, vivencia-se. Isso se dá com a leitura da obra...

Ao fim e ao cabo, a nosso aviso, o professor de língua portuguesa cumpre satisfatoriamente seu papel quando forma um leitor. Explicando: formar o leitor é despertar no alunado o gosto da leitura, fazendo ver a ele o prazer que nela se encontra, o entusiasmo pelo aprender gratuitamente, o desvendar de novos mundos, o que vai na alma humana... Enfim, a convivência com o texto, sobretudo o literário, é uma forma de pensar o mundo, de filosofar, de buscar respostas, de empreender a catarse aristotélica, a depuração do espírito e sintonizar este com as harmonias e desarmonias do universo. Cremos mesmo na idéia de que o formar o leitor é despertar o homem bom, ético e virtuoso e, por conseqüência, é empreender a eliminação do cafajeste, do cretino e do inescrupuloso...

Senhor Diretor, no ano letivo que se foi, perseguimos a mesma prática pedagógica de outros anos. Nessa empreitada, levamos a efeito não avaliações ortodoxas e comportadas de provinhas e examezinhos burocráticas... Não. Preferimos cobrar cumprimento de dever, pois estamos convencidos de que não se avalia, ao pé da letra, o nível de aprendizado da língua materna pelo aluno. À medida que evoluímos intelectualmente, vamos progredindo também no desempenho lingüístico, sobretudo na recorrência à norma-padrão culta. Assim é que, passada a tarefa, de regra de caráter doméstico, concede-se ao aluno tempo considerável para que ele desenvolva aquele trabalho. No momento da entrega do trabalho, o professor verifica quem fez ou quem não fez a tarefa. Ao primeiro, concede-se uma cruz, sinal positivo de cumprimento de dever; ao segundo, coloca-se no diário um traço horizontal, que denuncia não-cumprimento de dever. Ao final da etapa ou do semestre, a nota do aluno é concedida de conformidade com a feitura ou não da tarefa. Sintomático: somam-se cruzes e traços horizontais. Daí surge a média da etapa. Elementar, meu caro Diretor, como diria Sherlock Holmes, personagem do romancista inglês Conan Doyle...

Magnânimo Diretor, o durante o ano letivo que findou, levamos a efeito 21 (vinte e uma) avaliações: na primeira etapa, 4 (quatro) ; na segunda, 5 (cinco) ; na terceira, 6 ( seis ) e, na última, 6 (seis).

A PORTARIA nº 176/GDG, de 18 de março de 2005 diz, in verbis: “No Ensino Médio, independentemente do número de aulas, deverá haver, no mínimo, duas avaliações por etapa”. Ora, o professor que se apegar ferrrenhamente ao dispositivo transcrito fará, por ano, apenas OITO AVALIAÇÕES. Em nossa disciplina, durante o ano letivo de 2005, fizemos VINTE E UMA AVALIAÇÕES. Não se exige do bom intérprete, ante o exposto nenhum mergulho hermenêutico mais profundo para chegar à conclusão de que os alunos tiveram, durante toda a jornada pedagógica, amplas chances de proceder à sua recuperação. Basta uma continha simples de subtração. Simples: SUBTRAINDO-SE OITO DE VINTE E UM, CHEGA-SE A TREZE. Dividindo este resultando por quatro, tiveram os alunos três oportunidades para recuperar o que desejavam recuperar... Com um Bônus de mais uma oportunidade...

Perseguem direito a recuperação os seguintes cidadãos, todos alunos do Curso Médio, turma C, turno manhã: Laios José de Atenas, Édipo Tirésias de Sófocles, e Jocasta Diana Creonte. Vejamos caso a caso.
O aluno Laios José, na primeira etapa letiva, não fez nenhuma das tarefas letivas; na segunda etapa, fez três das cinco tarefas levadas a efeito; na terceira, das seis, fez quatro e na última etapa, das seis fez duas. Quer dizer, das VINTE E UMA OPORTUNIDADES, o senhor Édipo optou por fazer apenas nove. A ausência do senhor Laios é cristalinamente notável. Em nossas aulas, faltou apenas SETENTA E UMA VEZES. Sem contar as furtivas escapadelas que, pensava ele, o professor não percebia.

O aluno, na primeira etapa, fez três das quatro tarefas: na segunda, de cinco, fez três: na terceira, de seis, fez duas; e, na última, de seis fez duas. Em outras palavras, DAS VINTE E UMA, o senhor Édipo fez menos da metade do que dele se exigiu. Em nossas aulas, este senhor faltou apenas SESSENTA E QUATRO VEZES. Era o que se costuma chamar um eterno ausente. Não me lembra nem mesmo sua fisionomia.

A aluna Jocasta Diana, na primeira etapa letiva, fez três das quatro tarefas: na segunda etapa, das cinco, não fez uma tarefa sequer; na terceira, de seis, também não fez nenhuma; e, na quarta etapa, de seis, fez quatro. A senhorita Jocasta ostenta apenas SESSENTA E SETE faltas nas nossas aulas de língua portuguesa.

Senhor Diretor, este parecerista não entende educação com ausência de responsabilidade, tampouco com a visão ética macunaímica, em que o indivíduo pensa em passar a perna no outro ou confia num secular apadrinhamento próprio da cultura brasileira ou, mesmo, num entibiamento desavergonhado das forças morais. Havemos de, como professores, afastar-nos da concepção bastarda de que a educação deva render-se à mera repetição de conceitos batidos ou à mentira convencional do “formar bons cidadão”... Palavrório inútil que cheira a preguiça mental e servilismo barato a pedagogias importadas e repetidas numa cantilena monocórdia de fazer inveja a qualquer papagaio bem adestrado. Nossos alunos devem ser chamados à ordem. Cumprir o dever não é nenhum favor que se faça a ninguém. É, antes, contribuir para que o mundo se torne um lugar melhor. Não existe nada mais irrespirável que os ares da corrupção, da mentira, da falta de vergonha...

A pedagogia brasileira vê a recuperação como uma espécie de UTI em que o indivíduo recobra suas forças vitais por intermédio de dosagens homeopáticas de remedinhos, ministrados por examezinhos de que resulta a satisfação cretina do aluno por haver ludibriado alguém e a si mesmo, coadjuvada pelo adjetivozinho pespegado ao professor amedrontado e subserviente: “aquele professor é legal, é gente boa, é gente fina” e outras que tais...

É talvez por força dessa pedagogia irresponsável, em que falta mais austeridade, mais severidade e mais seriedade, que nosso País, este paraíso de corruptos, figura como aquele que pior prepara seus cidadãos. Em todo e qualquer levantamento que se faça para auscultar o desempenho de nossos alunos, em termos mundiais, estes sempre ocupam as últimas posições.

Por fim, Senhor Diretor de Ensino, a atividade intelectual não é apanágio de todos. É, com certeza, algo não democrático. Fica para poucos, os que buscam sondar com mais profundidade o que vai pelo mundo. Ela é enfadonha para quem não vê nela nenhum atrativo; ela é desaconselhável para quem nela enxerga uma forma de encher as burras. Ela é, talvez, o único caminho para que evitemos que os maus, os negligentes, os corruptos e os detentores de mau caráter se assenhoreem do mundo, e sejamos obrigados a nos render àquilo que parece ser a ordem natural das coisas.

Pelo exposto, é que este parecerista é contrário a conceder direito a quem não cumpre deveres agregados àquele direito. Aliás, compactuar com patifaria pedagógica é insurgir-se contra os princípios maiores da pedagogia. Seria, como arrotam os pedagogos, pelo óbvio, UMA PRÁTICA ANTIPEDAGÓGICA.

Eis o parecer. A instituição faça o que melhor lhe parecer.


Fortaleza, 11 de... de ...


        Francisco Hugo Barroso Martins Júnior
                                      Professor





        

        

        

        

        
        

         

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

CARTA à AMIGA – XIV
                                                  Hugo Martins
Mui prezada

Não se trata de uma despedida, mas de um intervalo. Vou passar um tempo sem me corresponder com você. Espero que compreenda. Como é do seu conhecimento, tenho um projeto de escrever textos memorialísticos, cujos primeiros vinte você já leu, aqueles que intitulei de Fiapos da Memória. Durante o tempo em que mantivemos correspondência epistolar, estava eu maturando as ideias e arrumando os tempos que remontam aos meus dez anos de idade, época em que nossa família deixou a cidade de Itapipoca e veio morar em Fortaleza.
Quero parabenizá-la por ter suportado manter nossa comunicação por esse meio de cartas para lá cartas para cá. Bom exercício de estilo, além da vantagem de evitar entregar-se à pressa que caracteriza os tempos de hoje, que polvilham os acontecimentos do efêmero e da sensação de que o presente deve ter sempre o imediato gosto de passado. Não mais se escrevem cartas. Para quê, se a ligeireza do e-mail, do telefone celular e outros artefatos modernos nos colocam vis-à-vis, tirando de nós o gosto de curtir saudades? Hoje tudo é o aqui e o agora. Onde estão os álbuns de retrato, em que o tempo deixa suas marcas e pegadas? Onde o prazer de folheá-los e mergulhar naquilo que se foi, mas continua suspenso nos cabides da memória? Todo velho álbum de retratos, todo pacote de cartas, de regra, amarradas com uma fita, são jogados no fundo de uma gaveta e dormitam esquecidos, só sendo visitados por quem as recebeu e os guardou quando o sopro do tempo carregou os acontecimentos, e a morte emprestou a tudo uma não razão de ser. Cartas escritas à mão, empacotadas ou esparsas no fundo de uma gaveta, bem como álbuns de retrato têm gosto de vida e lembram os “mortos de sobrecasaca” de Drummond, com seus rostos em preto e branco, carcomidos pelas tatuagens do tempo. Eita, estou mais uma vez me tornando nostálgico e curtindo, sem ser o meu desejo, uma pontinha de tristeza por causa das “coisas que o tempo levou”.  Voltemos, pois, à vaca fria...
Voltando eu aos textos de cunho memorialístico, deixarei de lado os fiapos da memória e colocarei em cada um deles o título REMINISCÊNCIAS, conforme já tinha deixado patenteado em outra carta. Pretendo, num primeiro momento, partir daquela idade já aqui assinalada e fechar com meu ingresso na Marinha de Guerra; em seguida, abarcarei o tempo compreendido entre minha saída das forças armadas até meu ingresso na universidade. Depois, as narrativas deverão fluir naturalmente, obedecendo aos fluxos de lembranças que estiverem mais à superfície pelo fato de abarcarem um tempo mais recente.
Nenhum objetivo procuro atingir com a escritura de textos de qualquer natureza. O único fim em vista é o escrever por escrever. Não tenho veleidades de publicar nada tampouco emprestar a mim mesmo a aura de escritor. Sei que não passo de um escrevinhador que reconhece sua falta de talento, por isso não me exporei ao risco, como ocorre com alguns pretensiosos, de publicar o que quer que seja para alimentar vaidades, com noites de autógrafos e discursos louvaminheiros. Tudo isso são veleidades próprias de filisteus. Desejo apenas escrever e escrever como saída catártica e forma de interpretar o mundo e, até mesmo, exercitar o intelecto como não canso de fazer com a leitura de textos de todo jaez.
Assim, amiga, a presente missiva não será a última, mas um marco do momento em que decidi retomar o ato de escrever usando como que um critério, um referencial, que, para mim, são os fatos da vida que vivi e vivenciei numa dada marcha temporal. Só isso.
Quero compartilhar as alegrias que venho experimentando ultimamente. Penso que retomar o estudo da língua grega, fazendo isso em paralelo com os estudos da língua latina, foi uma jogada legal, “massa”. Não posso definir isso. Se definir perde a graça e as espontaneidade e gratuidade de tudo isso poder perder sua própria razão de ser, que é não ter nenhuma razão de ser especial, regida por critérios utilitaristas. Faço isso por aquilo que chamam amor, dos mais puros, que dá sentido à existência, que faz com que percamos alguma cegueira e passemos a enxergar com mais intensa clarividência o que a vida tem de essencialidade. Só isso.
Não só quero, mas compartilho, de coração com você, esses arroubos de alegria e gratuidade sinceras.
Breve estarei por aqui já dando luz ao primeiro texto da nova caminhada. Só não sei quando. Vou dar tempo ao tempo e esperar os primeiros impulsos.
Grande abraço do seu sempre amigo,
Francisco Hugo

  

            

sábado, 17 de setembro de 2016

CARTA à AMIGA – XIII
                                             Hugo Martins
Prezadíssima

Espero que tudo esteja bem com você. Hoje, sábado à tarde, depois de uma maratona estudando a língua grega, cheguei a casa intelectualmente cansado e sentei-me ao computador para escrever estas “mal traçadas linhas”. Cavouquei o quengo à procura de uma ideia, pensei em fazer análises literárias de um texto, que fosse doídamente belo, mas os pensamentos revoluteiam, e eu aqui, diante da frieza da tela, tangendo o teclado, e nenhuma ideia me salta à cachola. É aquela velha e batida estratégia de a palavra puxa palavra. Conforme Drummond, de palavra em palavram faz-se a crônica. E, por esse caminho, é que saio à cata do texto. Ele há de surgir: o mundo está à nossa frente, grávido de significações, e as palavras fulguram quentes como a lava vulcânica à espera de serem expelidas pelo sopro da imaginação. Criadora ou não, basta que seja ousada e aceite o desafio. Pois vamos lá.
Dando tratos à bola, cá pensei: vou alegrar o espírito de minha amiga, contando-lhes “causos” em que se sobressaiam tiradas espirituais da sagacidade de alguns homens em episódios do dia a  dia, ou pescadas, aqui e ali, de esparsas leituras não devidamente anotadas, mas que se fixaram no bestunto como indeléveis tatuagens.
O escritor irlandês Bernard Shaw era um gozador de mão cheia. Sua refinada ironia levou-o a escrever um livro que intitulou Socialismo para Milionários. Não é de rir? Pois bem. Viveu noventa e quatro anos. Era fumante inveterado. Um dia alguém lhe perguntou se ele achava difícil parar de fumar. Ele respondeu: “não, pelo contrário. Acho facílimo. Já deixei de fumar trinta e seis vezes”. É mole?
O barão de Itararé, jornalista e humorista de fino trato, fazia piada até com os próprios dissabores. Certa feita, a polícia do governo Vargas, "visitou" o jornalista e nele aplicou antológica surra. No outro dia, lia-se na porta de entrada da sala onde o barão trabalhava: “ENTRE SEM BATER”.
Sobre a amizade? Veja esta de Machado de Assis. “Não tenho amigos recentes, e os mais antigos foram estudar a geologia do campo santo”. E essa outra sobre a felicidade: “Ninguém se fie na felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim”. Cortantes!
As mulheres, nas ocasiões em que se encontram, costumam trocar beijinhos nas faces. Monteiro Lobato, observador refinado do comportamento humano, fez uma leitura dessa prática, assim lendo o signo cultural: “As mulheres se entrebeijam para não se entremorderem”. Uau!
Contam que Dostoiévski, no leito de morte, foi indagado por um jovem: que matéria mais motiva o sujeito a escrever? O romancista russo olhou-o e, fleumaticamente, disse; “sofrer, sofrer e sofrer”. Não qualquer sofrimento... Qual, pois? Talvez os que lancinem o Ser do homem, que é o não-ser
Já Drummond diz que escrever não deve resultar “da falta de dinheiro, dor de cotovelo ou momentâneas tomadas com as forças líricas do mundo”. Quer dizer: o poeta deve andar armado, e a arma do poeta é a palavra, esta entidade misteriosa com que travamos batalhas vãs mal raia a manhã. É a marca e sinete da palavra. É o indizível, o inexprimível, o inefável. Situações de perplexidades há na vida que só é dado ao homem interpretá-las recorrendo à dureza do silêncio, do riso ou do choro... Ou, o que é doloroso, a mistura dos dois últimos, cujo significado, sendo o mesmo, só se diferenciam nas nuanças.
Gustave Flaubert, escritor realista francês, autor da obra Madame Bovary, dizia da vida; “O único meio para suportar a existência é afogar-se na literatura como numa orgia perpétua. O vinho da Arte causa uma profunda embriaguez e é inesgotável...” Hum rum!!
Para Machado de Assis, alcança-se a imortalidade, coisa obsessiva no espírito humano, por um só caminho certo: o cultivo da Arte. Vejamos, nesse sentido, a frase do criador de Capitu, que se encontra gravada na base de sua estátua na Academia Brasileira de Letras: “Esta é a glória que fica, eleva, honra e consola”. Sei não...
Fechando esta, transcrevo, uma frase latina, plena de força pedagógica, que persuade os céticos, preguiçosos e medrosos diante do ato de escrever. Vale mais seguir a lição da parêmia que as lições recebidas em aulas insossas, salpicadas de conselhos e fórmulas, por si mesmos tão vazios quão inúteis. Aí vai em caixa alta, aspeada e acompanhada da tradução:
“SCRIBENDO SCRIBERE DISCO”. Aprendo a escrever escrevendo.
Que você tenha bons sonhos. Como você tem pretensões de escrever, o ler e o escrever são o melhor remédio, como diria a Revista Seleções quando se referia à gratuidade do rir. Hoje gastei boa parte da tarde fazendo cópia de texto em grego. Técnica primária de se começar a ler. Fazia muito isso quando garoto. Copiava textos e mais textos em língua portuguesa. Já copiei muito texto latino a mão. O ato de copiar é ler duas vezes. Depois desse lugar-comum, só me resta mesmo fechar mesmo estas “mal traçadas linhas” e desejar a você muitas felicidades.
O parto foi difícil, mas o texto saiu.
Do seu sempre amigo.
Francisco Hugo.





           

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CARTA à AMIGA - XII
Hugo Martins
Minha prezada amiga
Respondendo à sua indagação acerca de meu interesse pelo estudo da língua latina, envio o textículo a seguir. Poderá ele servir de reflexão acerca das muitas bobagens que se diz sobre estudar línguas clássicas. Leia o texto e tire as conclusões mais plausíveis que possam exsurgir de suas próprias reflexões. As minhas aí estão. Bom proveito...
Dizer que o latim é língua morta enseja discussão de que devem surgir como bem-vindas multifárias reflexões. Seria mais sensato dizer que a língua do Lácio adquiriu outras facetas, hoje pespegadas às chamadas línguas neolatinas como, por exemplo, o italiano, o francês, o português e o espanhol.... Outro ponto sobre que refletir é relevar o fato histórico de que o latim pode ser chamado de língua morta em relação à cultura clássica da Roma antiga. Outro ponto a ponderar é que o latim, como qualquer idioma, possui sua modalidade culta (sermo urbanus) e a modalidade coloquial ou familiar ( sermo vulgaris, plebeius ou rusticus). Em outras palavras, de um lado, a língua cultivada pelas classes ditas letradas; de outro, a língua falada pelas classes populares, sem acesso aos bens culturais... A primeira modalidade, é ensinada nos seminários da igreja católica, nas faculdades de letras ou pode servir de deleite intelectual aos curiosos de toda sorte. O outro registro, interessa mais de perto a filólogos, etimologistas e pesquisadores da evolução daquele idioma em seus aspectos diacrônicos, isto é, na evolução e transformação por que passam as palavras/vocábulos no decorrer da História.... Desse modo, é honesto afirmar-se que o latim continua vivo nas línguas novilatinas, sendo cultivado, na sua faceta original, enquanto norma culta, no Estado do Vaticano onde é língua oficial nos registros protocolares...
Há um excerto de um livro de Schopenhauer, a que alguém colou o título A Arte de Escrever. Já no primeiro capítulo, o filósofo alemão deplora o fato de que, na Europa de seu tempo, algum iluminado aventou a hipótese de retirar o latim do currículo escolar. Dizia o pensador que, caso ocorresse aquela iniciativa infeliz, adviria, ao longo da História, prejuízo incalculável para as futuras gerações, pois estariam privadas, de algum modo, de pensar com mais clarividência. Veja-se que aqui pela terra tupiniquim conseguiram o intento. Depois, alcançaram também o privar a estudantada do antigo Curso Clássico de estudar filosofia e sociologia. Assim, no Brasil pós-64, as sucessivas gerações foram jogadas no fosso comum dos descerebrados, dos que pensam sob a batuta dos meios de comunicação de massa, os quais determinam as verdades eternas e as verdades efêmeras, desvirtuando a natureza do real e injetando nas mentalidades forte dosagem de preguiça, indiferença mental e alienação.
O sujeito que pretende eliminar gorduras ou emprestar ao corpo linhas apolíneas costuma buscar as legendárias academias de ginástica e se entregar àquelas ingentes tarefas. Há deles que tomam medicamentos ou tisanas químicas para alcançar resultados mais eficazes. Alguns chegam ao cúmulo de injetar nas veias suplementos alimentares desnecessários, e deles há que no organismo injetam até mesmo vitaminas para cavalos. Até aí tudo bem. Argumento pelas doses cavalares: sou dono do meu corpo e faço parte do rebanho dos que que se deixam enfeitiçar pelas ideias dos narcisismos desses tempos de tanto vazio interior. É a tal malhação...
Por que não malhar a mente também? A malhação mental elimina adiposidades e outras matérias... Mutatis mutandis (mudando o que deve ser mudado), estudar a língua latina, mesmo que superficialmente, em muito ajuda não só no aquecimento intelectual para outras empreitadas, bem como também no mero exercício intelectual para recrear o espírito. Nenhuma vantagem se vislumbra nos donos de corpo malhado, se seu cérebro é inerte, sua visão de mundo é ingênua e passa ele pela vida como um cadáver ambulante... Para evitar isso, não se deve titubear. É bom estudar latim. É remédio que traz grandes benefícios.... Inclusive incentiva a leituras outras, bem distantes do lixo cultural, da narcotização das massas.
Desejando que você associe a malhação física à malhação intelectual, envio-lhe todos os votos possíveis de que seja feliz a seu modo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

CARTA à AMIGA – XI
                                           Hugo Martins
Minha nobre amiga, interroga-me sobre o que penso acerca dos homens públicos e a preocupação deles em melhorar a vida do povo brasileiro. Sempre os considerei, com raras exceções, patifes bem postos. Assim, para não perder tempo, transcrevo e te envio o texto a seguir, por mim redigido nos idos de 2012. A alegoria é a mesma. Renovaram-se as putas, mas o cabaré continua o mesmo, diz a sabedoria popular. Eis aí... Cuido em dizer, porém, que, na verdade na verdade, aproveitei o ensejo para curtir uma preguicinha de escrever que me bateu inesperadamente. De todo modo, aí está o que você pediu. Escrevi a página, fazendo alguma literatice, coisa perdoável àquele que ama as palavras e os engodos que com elas podemos fazer. Na próxima, retomaremos o bonde da literatura.


EM QUE ESTOU PENSANDO? Em manter minha reputação infensa a qualquer mancha, proveniente de atos de improbidade no exercício de meu ofício. Continuar, firme e forte, o propósito de seguir os conselhos e exemplos de minha mãe e de meu avô materno e não ceder um só milímetro ao canto de sereia, que leva o homem, por algum motivo, a vender sua alma nos mais comezinhos episódios do cotidiano.
Deitado numa rede de corda, ao sabor de uma brisa fagueira que corre na minha varanda, vou virando as páginas dos Diários do escritor maranhense Josué Montelo, e com ele viajo não só na história política do Brasil com suas tricas e futricas mas também no desenrolar da história de nossa literatura. Vou, pelas mãos de Josué Montelo, ao palácio do Catete, assisto ao drama de Getúlio. Conheço o Brasil dos anos dourados de Juscelino e me atemorizo com a cacetada de Brucutu com que a última ditadura atordoou o povo brasileiro, caçando mandatos, prendendo, arrebentando pessoas e instituições, amordaçando a arte, proibindo o direito ao livre pensar e levando à morte todo aquele que ousasse levantar sua voz contra os desmandos... Também vou à Academia Brasileira de Letras tomar o chá das cinco com os imortais e reencontro alguns velhos escritores que povoaram de sonhos minha longínqua infância. Converso com Viriato Correia e lembro a obra Cazuza, com que o escritor maranhense alimentava a formação dos jovens, por meio de textos grávidos de sadio civismo; cumprimento também Olegário Mariano, o lírico poeta das cigarras. Entrevejo, sentado ao sofá, de pernas cruzadas, Manuel Bandeira, conversando longamente com o crítico literário Álvaro Lins... De repente, entra de supetão, com sua gravata borboleta, João Guimarães Rosa, rindo e conversando com Cassiano Ricardo acerca da força da linguagem, sobretudo a de cunho poético, aquela capaz de instaurar o feérico, o maravilhoso da vida, com suas facetas também sórdidas. Tudo ali transpirava vetustez: os escritores já carregando nos ombros o peso do mundo, a gravidade do mobiliário, os bustos de algum imortal, bem como a galeria de quadros de autores diversos. Participo do colóquio, sempre amparado pela bondade delicada de Josué Montelo. Ao sair, tomo a Avenida Rio Branco, chego à Cinelândia e sento-me a uma das mesas do Bar Amarelinho, reduto de toda espécie de gente ligada às artes e à boêmia, e tomo uma cerveja bem geladinha, com o fito de lavar o fígado e olhar as pessoas que passam apressadas em busca de não sei o quê...
Mas que ando eu a fazer em tais devaneios?  Creio que nada demais em tudo isso. Talvez à procura de assunto, fuçando as prateleiras da imaginação à cata de algo que valha a pena colocar no papel de forma gratuita e desinteressada. Exercício de estilo numa época em que se costuma falar das acontecências do mundo, recorrendo a lugares comuns e a balbucios monossilábicos, que mais parecem deslustradas, repetidas e enfadonhas onomatopeias... Sim, o escrever é como o coçar. Basta começar, diz a sabedoria popular. E aqui me acho nesse exercício, dedilhando o teclado, deixando correr a imaginação num minguado exercício de impressões de leitura. Aliás, exercício desnecessário, pois não se encontra interlocutor, alguém que, amante de arte literária, sirva de apoio numa cotização, numa troca graciosa de opinião sobre o que vai pelo mundo, sobre o que é a arte e seu papel humanizante.
Há pouco me levantei a fim de atender ao telefone. Alguém, do outro lado da linha, pergunta-me se não folheei os jornais durante a semana. Respondo que não. A propósito não sou leitor de revistas semanais, tampouco de jornais e, raras vezes, ligo “a máquina de fazer doido”.
Sinto-me bem, permanecendo desinformado. Ainda assim, por força da aldeia global, à que se refere Marshall McLuhan, os meios de comunicação de massa, na sua infatigável labuta por distorcer o real ou imbecilizar os “televidiotas”, estão espalhados em qualquer lugar a que você chegue. Eles instauram a solidão coletivizada. Só a febre do uso do celular com eles compete...
Feito esse reparo, a pessoa com quem converso pergunta se não estou acompanhando o “mar de lama” que vem emporcalhando a moral e o moral do brasileiro. Digo-lhe que ouço aqui e ali fiapos de conversas e notícias televisivas, cujo conteúdo me dá a impressão de que somos, historicamente, um povo que padece do complexo de Ali Babá. Este reunia um bando formado de apenas quarenta gatunos; atualmente, neste país de contrastes, não se sabe quem é ou quem não é quadrilheiro ou escolado na arte de risonhas corrupções cotidianas.
Com efeito, de oitiva, toma-se ciência, numa espécie de consenso, do que vêm os homens públicos levando a efeito para pilhar os cofres públicos. Para evitar que a farândola de ladrões mais e mais se agigante, inventou-se um processo de barrar-lhes a marcha, o qual recebeu o sugestivo rótulo de “ficha limpa”. Vergonhoso, decepcionante, imoral e decadente um país, cujos gestores, legisladores ou pretendentes tenham sua vida pública monitorada pelo Poder Judiciário como forma de banir das assembleias, câmaras e colegiados afins as maçãs podres, os quistos, os cânceres e a pestilência de almas fadadas ao furto, à embromação e à mentira que insulta.
No próximo mês, o povo irá às urnas. Enquanto isso, as hienas, à cata de votos, mostram as garras e mandíbulas, na desesperada ânsia de conquistar o eleitor, que, embora bem armado com o voto, deixa-se seduzir por discursos vazios, promessas vãs e mentiras deslavadas...
Ora, consultando a lista de políticos “ficha-suja”, vejo naquele sórdido plantel os nomes de hienas que também eram e continuam sendo portadores da mesma lenga-lenga, da mesma sordidez, da mesma mendacidade, da mesma falta de vergonha, sem tirar nem pôr. Deles há que, ainda exercendo a função, quando surpreendidos pela ação do Ministério Público, pegam suas trouxas e se botam para outros países. Outros, quando surpreendidos pelo poder policial, são algemados à frente de câmaras, baixam a cabeça ou escondem-na sob a blusa ou casaco para não se deixar filmar pela câmara indiscreta de repórteres... Pergunta-se: por que não erguem a cabeça como antes faziam e tecem considerações sobre sua inocência? Não, isso não fazem, preferem dizer que só falam “na presença de meu advogado”. Enquanto o povo se volta para o processo do mensalão, não se dá conta de que mensalões e mensalinhos são urdidos a todo momento pela capacidade de ave de rapina da grande parte de outros politiqueiros, bem versados, também, na arte de se apoderar da riqueza que o povo produz. Ora, seria o caso de dizer que a arte de furtar o povo é lugar comum entre os sicários e bandidos, que se dizem preocupados em cuidar do povo. Coloquemos as barbas de molho, essa coisa de cuidar do povo esconde o eufemismo “narcotizar o povo” para que se torne mais fácil furtar sem grandes cuidados.
Num sermão do Padre Antônio Vieira, lê-se que o filósofo grego Diógenes, o cínico, vendo uma vara de ministros levando a enforcar um homem que havia furtado um carneiro, começou a bradar: “Lá vão os ladrões grandes enforcar os pequenos”. Trocando em miúdos, essa gentalha maltratada e moída, a que chamamos de marginais ou bandidos, bem como aqueles que não fruem uma só migalha do direito comum a todos, nada mais representam que as consequências advindas das ações dos ladrões grandes a que se refere Vieira...
É grande a patifaria. É vergonhoso tudo isso.
Fecho o texto. Há muita coisa a dizer. Deixo a outros a incumbência.  Volto à minha velha rede de corda, abro o volume dos Diários de Montelo e mergulho na leitura. Nesse momento, teço uma breve reflexão: há mais filosofia no ato de ler e afastar-se do ramerrão cotidiano que perder tempo em refletir e garatujar o papel, tendo como referencial o emporcalhamento de que vem, há mais de quinhentos anos, padecendo o maltratado povo brasileiro...
Pois é... Bom mesmo é sair à caça de Pokémons.

Abraços e desejos de felicidades mil.
Do seu, sempre admirador,
Francisco Hugo




quarta-feira, 14 de setembro de 2016

CARTA à AMIGA – X
                                               Hugo Martins
Caríssima

            Você me pergunta: o que é literatura mesmo? A resposta é relativa. A que literatura você se refere? Toda ciência possui uma literatura específica. Nesse sentido, há uma literatura médica, há uma literatura jurídica. Por isso, quero crer que sua pergunta remete à compreensão de literatura enquanto o cultivo das belas-letras, o fazer literário.  Por essa ótica, literatura é uma forma de conhecimento tão válido quanto o conhecimento científico e o conhecimento filosófico. Em que se diferenciam? Os dois primeiros estão inscritos na rubrica conhecimento conceptual, isto é, aquele que se alcança por meio do esforço e da diligência intelectual; o conhecimento artístico, entre eles, a literatura se inscreve no capitulo do conhecimento intuitivo, aquele que é inato, o indivíduo o carrega como uma dádiva. Daí a certeza da parêmia de que o artista já nasce feito.
            Os cientistas e filósofos, por mais geniais, desenvolvem pendores, dão asas à vocação, ao chamamento interior; o artista é senhor de um terceiro olho, sempre atento ao mundo, que ele, tal um demiurgo, recria, emprestando-lhe novas tinturas, outras nuanças, sempre montado na imaginação, na ficção, no faz de conta. A ciência busca a verdade; a arte, entre elas a literatura, visa a alcançar a verossimilhança; as realizações científicas podem ser comprovadas; as criações artísticas são degustáveis. A ciência tem sabor pragmático ou utilitário; a arte congrega em si todos os gostos para a contemplação, tendo em vista o prazer estético.
            Essa intuição, muita intensa em alguns mortais, explica o porquê de um Mozart, de um Arthur Rimbaud, de um Jorge Amado, que revelaram seu talento antes mesmo de atingirem a maioridade. Mozart, com cinco anos de idade já executava, no piano, com grande desenvoltura, músicas de gente grande. Rimbaud, poeta simbolista francês, com apenas dezenove anos, já mestre de sua geração, abandonou a literatura, dizendo não ter mais o que dizer. O romancista baiano, com dezessete anos escreveu, a quatro mãos, seu primeiro romance, Brandão e os Caminhos do Mar, mas sua carreira se inicia, mesmo, quando com dezenove anos, publicou a obra O País do Carnaval. Exemplos meramente ilustrativos, pois há carradas e mais carradas de artistas, figurando como enfant terrible em todas as áreas da criação artística.
             Material para a criação artística? Pintura: as cores. Música: os sons da natureza, reduzidos a sete notas. Arquitetura e Escultura: argamassa. Dança e Coreografia: o movimento. Literatura: as letras do alfabeto. O mais é misturar, combinar, inventar e encantar...
            Horácio, poeta romano da antiguidade clássica dizia que a literatura tem uma só função: divertir, ensinando; ensinar, divertindo. É o que se diz: unir o útil ao agradável. Com efeito, isso não deixa de encerrar uma boa dose de verdade. Caminhando pari passu com a História, a literatura fixa um momento na vida do homem de um determinado tempo, o que levou o pensador espanhol José Ortega y Gasset a forjar a frase: “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Além de congregar todas as normas linguísticas, a norma-padrão culta, a norma familiar tensa, a norma familiar distensa, os jargões e gírias, a literatura é rico manancial de conhecimentos de toda ordem, que só o leitor experimentado pode descobrir quando nela se enfronha com gosto, vício e constância.
            Quer Sociologia? Honoré de Balzac, José de Alencar, Euclides da Cunha, Jorge Amado, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz. Quer Psicologia? Dostoiévski, Eça de Queirós, Gustave Flaubert, Eça de Queirós, Machado de Assis, Graciliano Ramos... Quer História? Vítor Hugo, Leo Tolstói, José de Alencar, Visconde de Taunay...
            Aquele alguém que disse ser “a literatura a maior mentira que é verdade” em nada se enganou. Aquiles, Ulisses, Enéas, Dom Quixote, Hamlet, Raskolnikov, Cosete e Fantine, Alice, Peri e Ceci, Brás Cubas, Quincas Borba, Vadinho, Riobaldo. Quem são? Onde moram? Por que não saem de nossas lembranças? Por que são analisados em aulas dos cursos de letras. Seus criadores já morreram. Por que os personagens não morrem? Eis algumas “questões prenhes de questões”. São eternos, imorredouros, são arquétipos das aventuras e dos dramas do homem nesse “mundo velho sem porteiras”, à busca de algum sentido para a vida, sempre acolitado pelo riso e pelas lágrimas... Tão só.
            A literatura provoca uma “lombra eterna” e leva o leitor a empreender viagens e mais viagens por todo o orbis terrestre, gastando pouco e sem necessidade de guias ou companheiros de viagem.
            Aí está, amiga. Queira-me bem. Abraços fraternos do seu amigo e criado,
            Francisco Hugo



           
           
           
           


terça-feira, 13 de setembro de 2016

CARTA à AMIGA - IX
                                         Hugo Martins
            Minha cara

 “Olhai os Lírios do Campo”, frase na segunda pessoa do plural, portanto de sabor solene, proferida por Jesus Cristo no momento em que este desenvolve o que se convencionou chamar Sermão da Montanha ou Sermão das Bem-Aventuranças no Evangelho segundo Mateus. Com essa frase, Érico Veríssimo intitula seu romance mais popular.
Enredo simples sem grandes mergulhos metafísicos dos grandes romances da humanidade. O autor dizia-se um mero contador de histórias, portanto não levava muito em conta senão o contar pelo contar. “Menas” a verdade, diz um amigo meu, amigo das concordâncias esdrúxulas. Na vã aparência da narrativa linear, escondem-se mistérios que muito revelam da alma humana, além da recorrência à metáfora universal da mensagem evangélica e dos propósitos da doutrina cristã.
Dois seres humanos. Um homem e uma mulher. Dois mundos. Entrechoque de individualidade doentia com espiritualidade sã e límpida. Ele, dono de profundo egoísmo, alimentado por lamentável complexo de inferioridade, enxerga o mundo pelas lentes do pragmatismo; ela, livre, de coração aberto, amorosa, não teme colocar às claras seu natural pendor para enxergar, em primeiro lugar, o outro, a quem dedica extremado interesse e acendrado amor. Ele não tem vida. Ela é a própria ressurreição.
Namoraram. Ela engravida. Ele parece dedicar a ela algum amor. Ele conhece outra, Isabel, que lhe proporciona dinheiro, prestígio e as futilidades da vida social. Ela, Olívia, desaparece e vai morar noutra cidade. Torna-se mãe. Ele, em pouco tempo de casamento com a outra, começa a experimentar o tédio provindo de relação conjugal movida pelo interesse de encontrar no outro alguma vantagem a auferir. O tempo continua sua marcha...
Um telefonema. Um deslocamento. Olívia está morrendo. Eugênio, rumo ao hospital, enquanto o automóvel desliza, mergulha num retrocesso de lembranças em que traz à tona a vida que levou e a vida que poderia ter sido, coisa que ele só vai descobrir na segunda parte da narrativa.
Com a morte de Olívia, Eugênio se reencontra com a filha que ainda não conhecia. No quarto da pensão em que Olívia morava, Eugênio encontra um maço de cartas, que ela escrevera para ele, mas nunca enviara. Leu-as. Todas terrivelmente amorosas e assentadas na mensagem evangélica. Aliás, o título do romance sai de uma delas: “Eugênio, estive pensando muito na fúria cega com que os homens se atiram à caça do dinheiro. É essa causa dos dramas e das injustiças de nossa época. ”  Mais à frente, assim diz a carta: “Quero que abras os olhos e acordes enquanto é tempo. Quero que pegues a Bíblia, que está perto da estante do rádio e leias o Sermão da Montanha, principalmente na parte em que Jesus fala dos lírios do campo e das aves do céu. Eles não trabalham nem fiam, no entanto nem Salomão, em toda sua glória jamais se vestiu como um deles”. A partir de então, processa-se brusca mudança na alma de Eugênio. Ocorre a ressurreição de um homem, morto no e para o mundo, e ressuscitado pela morte/amor de uma mulher.
O grande tema da mensagem do Novo Testamento é a ressureição, seja a de Lázaro, seja a da filha de Jairo, seja a ocorrida pela fé inabalável do centurião, seja a do próprio Cristo. Todas elas promovidas pelo amor...
Amiga, Érico Veríssimo confessa-se agnóstico, isto é, por não ser dono de nenhuma certeza acerca das questões em torno do fenômeno religioso, não assume qualquer doutrina com este cunho. Faz isso no seu livro de memórias Solo de Clarineta no capítulo O Escritor e o Espelho, momento monodialógico de rara beleza. Nem por isso, está impedido de inspirar-se no texto bíblico para externar visões do mundo e do homem.
Veja, pois amiga, que o “olhar os lírios do campo” se constitui num convite a que o homem se desvencilhe dos interesses mesquinhos e perca algum tempo na contemplação gratuita do mundo, o que, de certo modo, inclui o interesse pelo outro, postura encarecida, também, pelo escritor austríaco, naturalizado israelita Martin Buber.
Veremos, em outra ocasião, alguma outra obra cuja tema esteja calcado em alguma mensagem abeberada no texto bíblico.
Lembro que as citações aspeadas foram feitas de memória, por isso é possível haver nela algum senão.
Espero que sua leitura tenha encontrado significações outras que venham se somar àquelas aqui dissertadas.
Felicidades mil, desejo-lhe de coração.
Seu sempre admirador,
Hugo Martins.

           


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

CARTA à AMIGA – VIII
                                            Hugo Martins

            Prezada

            Já iniciou a leitura do livro de Érico Veríssimo aludido na nossa última conversação? Fez a leitura prévia do texto bíblico? Espero que já estejam bem adiantadas. A indicação saiu por conta, você lembra, de havermos tocado num ponto nevrálgico da relação dialógica leitor/texto. Também os textos dialogam. Daí a hipótese de que toda interpretação, mais ou menos profunda, mais ou menos ingênua, resulte da carga de leitura que o leitor traz nos ombros ou como conhecimento prévio de mundo.  Quando sugerimos a leitura conjunta daqueles dois textos, pode ter a certeza de que a relação entre eles é umbilical e, por isso, o leitor disporá de maiores chances de alumiar muitas passagens que, sem a leitura do primeiro, permaneceriam envoltas em sombras. O fato de a leitura de um texto abrir clareiras na leitura de outro é o que se deu de chamar intertextualidade. Pois bem, a Bíblia Sagrada, em toda sua extensão, do Gênesis ao Apocalipse, tem servido de fonte e de apoio para o surgimento de várias obras literárias. Para você ter uma ideia, há algum tempo, li uma reportagem a respeito de livros de cabeceiras (aquele que o sujeito sempre frequenta com mais assiduidade) de escritores de nomeada. Imagine que, entre dez daqueles senhores, oito elegeram a Bíblia Sagrada como livro de visita frequente. Esse exercício era comum entre os chamados grandes romancistas de todos os tempos. Suficiente citar Fiódor Dostoiévski, Liev Tolstói, Victor Hugo, Machado de Assis e Eça de Queirós e tantos outros.
            Um famoso soneto de Camões, em que o vate português decanta a fidelidade do amor de um homem por uma mulher, é totalmente calcado na história de Esaú e Jacó, filhos de Isaac, filho de Abrahão, sogro de Rebeca, irmã de Labão, pai de Rachel e Lia. “Sete anos de pastor, Jacó servia Labão...” Continue a leitura desse belo poema, minha amiga. Você verá que apenas Esaú e Abrahão não estão explicitamente citados no texto. Mas indiretamente, sim. Para compreender como Jacó foi encontrar Rachel, Lia e Labão, o leitor certamente trará na bagagem a informação da existência de um conflito existente entre os dois irmãos, que resultou na fuga de Jacó para as terras de Labão por conselho de Rebeca.
            Esse embate entre irmãos, tema muito presente na Bíblia Sagrada, pode ser visto no romance homônimo de Machado de Assis, bem como no romance A Leste do Éden, do escritor norte-americano John Steinbeck, autor de dois romances conhecidos do público brasileiro, As Vinhas da Ira e A Pérola. O leste do Éden é a região, dizem as Escrituras, para onde Caim foi exilado por Deus.
            Embora anticlerical, o que nada tem a ver com a história sagrada, José Maria Eça de Queirós portava, altaneiro, essa virtude por ser leitor empedernido da Bíblia e de assuntos afins ( escreveu biografia de santos). Suas chicotadas nas ancas da burguesia farisaica resultaram dessa compreensão profunda do fenômeno religioso, longe do carolismo das baratas de igreja e de rapazolas presos à sotaina, sem nenhum pendor sincero para a vida religiosa. Veja-se o Crime do Padre Amaro e A Relíquia (uma delícia).    
            Dois escritores modernos também se aferraram à história sagrada, não com o fito de em suas páginas mergulhar para delas retirar pasto para narrativas alegóricas, mas para imprimir a ela ampla releitura, o que causou certo frisson naqueles que não distinguem a obra literária da ciência histórica ou da biografia, na linha analítica, do escritor francês Ernest Renan. Trata-se do grego Nikos Kazantzákis e do português José Saramago. O primeiro ocupa-se do Cristo; o segundo, além do Cristo, de episódios do primeiro e segundo Testamentos. Lembrar que Saramago se voltou, na última obra que publicou, para a figura de Caim. Por ordem, temos: A Última Tentação (o cineasta Martin Scosese acrescentou, por sua conta, o complemento “de Cristo"); O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Caim. Não há proselitismos, tampouco manifestações narcisísticas de contestar por contestar o que quer que seja como fazem os tolos. Não. Mera interpretação, ou visões de mundo, sem a instrumentação técnica da ciência hermenêutica. Despindo-se de preconceitos e pré-conceitos, hauridos no discurso teológico do catecismo cristão, afeiçoado à  estereotipia de “autoridades” e da fala melíflua e edulcorada de padres e pastores dândis e midiáticos, o leitor verá que a leitura daquelas obras, no mínimo, vai lhe dar o que pensar... É escusado falar do enredo e da emoção das obras... Não se deve tirar o prazer do leitor, minha amiga.
            Não vou continuar. Vou deixar Érico Veríssimo para outra oportunidade. Continue a leitura dos textos indicados no início desta missiva. Aguarde novas análises, que visam, apenas, orientá-la na leitura e fruição estética da obra literária.
            Quanto a você, continue olhando os lírios do campo. Dizem que nem Salomão, em toda sua glória, jamais se vestiu como  um deles.

            Espero que você esteja se sentindo muito feliz.

            Deo gratias ago.
            Seu criado.
            Hugo Martins.
           
           


                   

domingo, 11 de setembro de 2016

CARTA à AMIGA – VII
                                                         Hugo Martins
Minha cara

            Quando fechei a última carta, em que procurei homenagear minha mui querida mãe, firmei o compromisso de voltar a conversar consigo sobre literatura e temas afins. O gancho se revelou hoje, pela manhã, durante a aula de grego, em que se conversava sobre etimologia e a presença de elementos mórficos da língua grega na língua portuguesa. Vieram à baila alguns termos corriqueiros e conhecidos de todos nós, como, por exemplo, filosofia, microbiologia, macrocéfalo, economia, biologia, telescópio. gastrite... De repente, alguém faz uma pergunta bastante pertinente. O aluno diz que, em português, a palavra HERMÉTICO significa inteiramente fechado ou algo de compreensão difícil, obscuro; por outro lado, a palavra HERMENÊUTICA tem a acepção de “interpretação do sentido das palavras”. Ora, dizia o aluno, ambas as palavras advêm do nome próprio Hermes, um dos dozes do Olimpo, que era mensageiro dos deuses. Numa compreensão alegórica, a Hermenêutica é ciência da interpretação muito utilizada na “abertura” interpretativa do texto de cunho jurídico, histórico ou teológico, em todos os seus aspectos. Por que, então, hermético vem a significar fechado, impenetrável, obscuro? Não vou gastar tinta analisando a questão, pois o “entrar” no emaranhado do texto de qualquer natureza depende mais do leitor que do texto. Este está aí a desafiar a argúcia do leitor. Todas as significações possíveis ali estão no enigma “decifra-me ou te devoro”, proposto pela Esfinge ao rei Édipo às portas de Tebas. Veja que o filho de Laios decifrou aquele enigma, mas não foi capaz de decifrar as pegadas do destino em seu encalço, foi devorado pelas misteriosas forças da fatalidade conforme mostra a peça teatral de Sófocles. Veja como foi possível fazer outra leitura do mesmo episódio. Por esse prisma, os termos em pauta não são contraditórios. A não ser, no aspecto concreto, pois uma lata, uma garrafa ou uma janela em estado de hermetismo não dependem de uma interpretação, mas da impressão de alguma força exterior para ocorrer a abertura. Deixando de lado o tom piadístico, vamos aos textos a ver como nele podemos entrar sem fazer uso de uma só porta, mas de muitas outras, que, escancaradas, podem lançar novas luzes na aparente obscuridade do texto. É bom lembrar que a palavra texto provém do latim e significa tecido, tecido composto de sons, formas e combinações. Daí vêm todos os sentidos possíveis. Reitere-se: depende do leitor e das muitas páginas que já leu, cujos conteúdos são transportados ao texto que está lendo. Simples e fácil, pois, quanto mais leituras, maiores as possibilidades de se desencavarem significações encobertas pela aparente carapaça do tecido... Melhor que caçar Pokémon...
            Fernando Sabino assim intitulou um dos seus romances: O Grande Mentecapto. O substantivo é formado a partir de dois radicais latinos, o primeiro provém de MENS, MENTIS, mente: e o segundo, do verbo CARPO, colher, privar, arrancar, separar. Literalmente, mentecapto é o sujeito privado da mente, que perdeu o uso da razão ou, ainda, néscio, tolo, parvo. Com efeito, o personagem que dá nome ao livro age, na narrativa, como uma espécie de doidivanas irresponsável, beirando o comportamento do pícaro, ou do a quem que se costuma aplicar o adjetivo DOIDIM. A literatura está cheia desses tipos estabanados e simpáticos. Leonardo, protagonista do romance Memórias de um Sargento de Milícias; Vadinho, de Dona Flor e seus Dois Maridos; todos os malandros que figuram nos Pastores da Noite, de Jorge Amado; o nosso Pedro Malasarte das histórias populares; Lazarillo de Tormes, personagem de obra anônima da literatura espanhola; e tantos outros mentecaptos ou pícaros.
            Ora, o velho Machado de Assis, quando nomeia a personagem Capitu, recorreu, conscientemente, à raiz do verbo latino Capere e ao radical da palavra cabeça, que, em latim, grafa-se CAPUT, CAPUTIS, conforme são apresentados nos dicionários. Ora, não se pode negar que a personagem dos “olhos de ressaca”, capturou o pobre Bentinho, impondo-se a ele com o autoritarismo que lhe era peculiar e sobre ele exercendo um domínio pela dissimulação sufocante, como a querer colocar às claras a fragilidade espiritual de Bentinho. Esse diminutivo não teria algum peso? Essa captura, se dá pelo bom uso da bestunto. Capitu tinha uma cabeça privilegiada. Tecia artimanhas de toda sorte, persuadindo o leitor ingênuo a crer, ainda, que ela não tenha “passado a perna” no marido em conluio com Escobar. Claro como a cristalinidade das águas puras. Aqueles “olhos de ressaca” tragaram Escobar, que morreu, forte dose simbólica, afogado na praia de Botafogo. Esse verbo afogar, não sei não... Claro que não interessa ao escritor carioca, por esses caminhos, deixar no leitor a dúvida hamletiana, mas proceder à análise profunda daquilo que vai na alma dos homens, marca maior de sua obra realista. O romance é narrado em primeira pessoa por Bentinho. Se por Capitu, nada mudava. A grande literatura não perde tempo com assuntos a que se afeiçoam as comadres desocupadas assim como “aquila muscas non capit” (a águia não se ocupa em capturar moscas).
            Lembro aqui mais uma vez o grande Manuel Bandeira, talento poético a toda prova (sou um grande fã), que, ao ler a letra da música Chão de Estrelas, esbarrou com uns versos, que lhe provocaram tanta comoção, que confessou “esses versos deveriam ser meus”. Referia-se ele a “tu pisavas nos astros distraída...”, verso inserto na seguinte passagem, por si mesma soberba: “A porta do barraco era sem trinco/E a lua, furando nosso zinco,/ salpicava de estrelas nosso chão/ Tu pisavas nos astros distraída/ sem saber que a ventura desta vida/ É a cabrocha, o luar e o violão. ” Composição de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas...
            Dolores Duran, mulher de lirismo estuante e sensibilidade epidérmica, homenageando alguém que amava, exprime, em frases curtas e simples, toda a ternura de que tinha a alma carregada. Assim diz ela na canção A Noite do meu bem: deseja enfeitar a noite do amante com “a rosa mais linda que houver”, “com a primeira estrela que vier”, “com a alegria de um barco voltando”, “com a ternura de mãos se encontrando”. Não há arrebatamentos hiperbólicos. Tudo simples, doce, sutil e delicado como sói acontecer com os corações apaixonados.
            Qualquer texto, não importam os signos de que se compõe, é passível de penetração interpretativa... Não há hermetismo, mas disposição e gosto para retirar do tecido algo que faça sentido. E tudo no mundo faz sentido, depende do olhar - fosco, diáfano ou transparente -, e mais a aventura das descobertas.
            Às vezes, o só título já abre possibilidades de pré-leituras. No LP Chico Sinal Fechado, o compositor aproveita o título de uma música de Paulinho da Viola, alusão clara à mensagem de um semáforo. Até aí nada de mais ou de menos. Quando se considera, porém, que Chico Buarque tinha quase todas suas letras censuradas pela tesoura burra do regime militar, instaura-se a metáfora, pois o compositor lançou, no LP referido, doze músicas de autoria de outros autores e nenhuma da própria lavra. Ora, todos sabemos da prodigalidade de Chico. De regra, os discos por ele lançados todas as letras eram de sua autoria. Significativo, não?
            Lucíola é título de um romance alencarino. Trata da história de uma prostituta. Se era usada de todos, um dia lhe surge um tal Paulo que a ama de verdade e, por esse amor, redime a jovem que, tal a Madalena bíblica, experimenta momentos de santificação. A significação da palavra Lucíola já é, na primeira página que antecede a narrativa, explicada pelo romancista cearense: lampiro ou vagalume, nome de inseto que sugere noite. Pelo aspecto mórfico, Lucíola advém do radical latino LUX, LUCIS, de onde se formam Lúcifer, luz, lucilar, alucinar... Bem sugestivo. Por sua vez, o nome Paulo provém do nome latino PAULUS, A, UM, que sugere pequenez, humildade, por onde se pode ver nítida grandeza. Lembremos que Saulo de Tarso, ao cair na estrada de Damasco, resolveu mudar o prenome Saulo para Paulo. O episódio bíblico deixa mais clara ainda a acepção do nome... Eis aí elementos que já abrem ao leitor caminhos menos ínvios para chegar à compreensão e interpretação da obra. Por fim, lembrar o elemento mórfico OLA, agregado ao radical Luci, a sugerir pequenez, pequena luz, necessitando de novos sopros para poder crescer.
            Agora, amiga, vou fechar esta, deixando a você uma sugestão. Leia o livro Olhai os Lírios do Campo, do romancista gaúcho Érico Veríssimo. Antes disso, passe uma vista d´olhos no Sermão da Montanha, em São Mateus. Isso feito, você verá que a recepção da mensagem da obra se tornará mais clara ao seu espírito perspicaz. Embora não seja a grande obra de Érico - na opinião da crítica e do próprio autor - faz pensar, faz meditar sobre a grandeza e pequenez de algumas almas; faz refletir sobre espiritualidade e cupidez pelo poder e pela glória, apanágio dos homens.
            Quando você ultimar essas providências, voltaremos ao assunto na próxima carta que chegar às suas mãos.
            Confesso que estou adorando trocar correspondência com você. À arte de escrever cartas dá-se o nome de Epistolografia. Qualquer um pode se aventurar e lapidar o estilo, conforme diz Balzac, que respondia, de mão própria, a toda missiva que lhe chegava às mãos... E eram centenas e centenas delas.
            Aqui estou, tamborilando o teclado. Uma vontade quase irrefreável me lancina, a empurrar-me à caça do Pokémon. Resisto e vou dar continuidade à leitura de Verdade Tropical, livro de Caetano Veloso, em que o compositor baiano procede a sutis análises do movimento tropicalista, misturando-o á história e à cultura brasileira desde quando o bispo Sardinha fora devorado por índios tupinambás, canibais a toda prova. Tudo a ver com a Antropofagia de Oswald de Andrade...
            Faço isso com gosto e sempre me divertindo, mas também por me ver premido pelo temor obsessivo à rendição da imbecilidade reinante.
Abraços forte para você. Vou parar porque escrever para mim está se tornando uma neurose. Os dedos coçam e alma fica ansiosa.
            Ciao, arrivederci.
            Do seu, sempre amigo,
            Francisco Hugo